Cozinhando Discografias: Hurtmold

A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em analisar todos os trabalhos de estúdio de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores envolvidos, que vão da recepção crítica do disco, além, claro, da própria trajetória do artista e seus projetos anteriores. Além dos integrantes do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado “democrático”.

No cardápio de hoje: Hurtmold. Formado no final da década de 1990, o grupo paulistano – comandado por Maurício Takara, Guilherme Granado, Marcos Gerez, Mário Cappi, Fernando Cappi e Rogério Martins – é um dos principais e mais influentes projetos da cena independente nacional. Com quase duas décadas de atuação, a banda que acaba de relançar em vinil o clássico Mestro, trabalho originalmente apresentado em 2004, é uma das principais atrações do festival Fora da Casinha II, evento que conta com nomes como Cidadão Instigado, Jaloo, Ventre e Maglore. Continue reading

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Saba: “Symmetry”

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Nos últimos meses, Saba acabou se transformando em um personagem recorrente dentro do Hip-Hop norte-americano. Nome forte da cidade de Chicago, o artista que já conta com três mixtapes – GETCOMFORTable (2012),  ComfortZone (2014) e SpareChange! (2015) – também assumiu uma posição de destaque dentro do último álbum de Chance The Rapper, Coloring Book (2016), além do recém-lançado HEAVN (2016), da cantora Jamila Woods.

Em Symmetry, mais recente criação do rapper, uma perfeita síntese de todo esse amadurecimento acumulado nos últimos meses. Com produção assinada por Ken Ros, a composição de batidas lentas parece crescer sem pressa, detalhando vozes e rimas que tanto se relacionam com o R&B inglês quanto com o trabalho de Frank Ocean e outros nomes fortes da cena estadunidense. A canção é parte do aguardado BucketList, novo trabalho de Saba e obra ainda sem previsão de lançamento.

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Saba – Symmetry

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Filipe Alvim: “Vida Sem Sentido” (VÍDEO)

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Você pensa que está bom / Mas podia estar melhor / Não queria estar ali / Mas podia ser pior“, canta Filipe Alvim em Vida Sem Sentido. Mais recente composição do cantor e compositor original de Juiz de Fora, a faixa de temática “existencialista” se divide entre o brega dos cantores brasileiros que apareceram na década 1970 e o mesmo universo de artistas canadenses como TOPS, Sean Nicholas Savage e, principalmente, Mac DeMarco.

Com distribuição pelo selo mineiro Pug Records – casa de bandas como duplodeck e Top Surpise –, a nova criação de Alvim também contou com lançamento em formato físico, sendo vendido como compacto sete polegadas com cópias limitadíssimas. No registro, duas versões para a mesma composição. De um lado, uma interpretação lenta e melancólica do som produzido pelo músico, no outro, um toque leve, descompromissado, como se Alvim brincasse com as próprias dúvidas e sofrimento.

Parte do próximo álbum do cantor, Beijos, a canção acaba de se transformar em clipe. A direção do vídeo é de Francisco Franco, diretor que já trabalhou com outros nomes da cena nacional, como Lê Almeida. No Bandcamp de Felipe Alvim você pode baixar o single gratuitamente.

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Filipe Alvim – Vida Sem Sentido

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Teenage Fanclub: “I’m in Love” (VÍDEO)

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Já imaginou como seriam as canções de Brian Wilson em Pet Sounds (1967) com uma dose extra de guitarras? A resposta talvez esteja na delicada I’m In Love. Mais recente single do grupo escocês Teenage Fanclub, a composição que conta com pouco mais de dois minutos mostra a capacidade do time de veteranos em produzir boas melodias, arrastando o ouvinte para dentro de um cenário marcado pelo romantismo e arranjos sempre precisos.

Longo de parecer um ato isolado do grupo, a canção foi a escolhida para anunciar o novo registro de inéditas da banda: Here (2016). Gravado em parceria com o engenheiro de som David Henderson, o trabalho conta com 12 faixas inéditas, sendo o primeiro álbum de estúdio da banda desde o ótimo Shadows, registro entregue ao público em maio de 2010. Livre de excessos, o clipe da canção se concentra em mostrar belas paisagens da Escócia enquanto a banda se apresenta.

Here (2016) será lançado no dia 09/09 pelo selo Merge Records.

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Teenage Fanclub – I’m in Love

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Beach House: “The Traveller” (VÍDEO)

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Com o lançamento de Sparks, em junho deste ano, foi difícil manter a expectativa baixa para o quinto álbum de estúdio do Beach House, Depression Cherry (2015). Guitarras sujas, arranjos crescentes e todo um (novo) jogo de referências que pareciam distanciar a dupla Victoria Legrand e Alex Scally do som testado até o último álbum de inéditas da banda, Bloom (2012). O resultado não poderia ser outro. Com o lançamento do trabalho, a dupla, unanimidade desde a obra-prima Team Dream (2010), viu público e crítica se dividir, confusos pelo material ora enérgico, ora contido que sustenta a obra.

Lançado de surpresa, sem grandes preparativos, Thank Your Lucky Stars (2015, Sub Pop), sexto trabalho de estúdio da dupla, chega até o ouvinte como uma fuga desse universo tumultuado. Recheado com nove canções – mesmo número de faixas de Depression Cherry -, o álbum de apenas 40 minutos estabelece uma espécie de regresso instrumental, transportando banda e público para o mesmo ambiente melancólico detalhado nos inaugurais Beach House (2006) e Devotion (2008).

Mais recente clipe do Beach House – que no último ano lançou os ótimos Depression CherryThank Your Lucky Stars –, The Traveller é uma verdadeira viagem aos anos 1980. Pouco mais de quatro minutos em que a câmera acompanha uma mulher de vermelho em meio a efeitos visuais típicos da época.

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Beach House – The Traveller

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Casa Tpm 2016: “Fafá de Belém e Liniker”

Liniker004

No próximo final de semana, dias 30 e 31 de julho acontece a quinta edição da Casa Tpm, projeto multidisciplinar da revista Tpm, publicação feminina da Trip Editora, que através de encontros descontraídos e repletos de atrações busca romper estereótipos femininos e discutir tabus e temas relacionados ao universo da mulher com leveza, profundidade e, claro, com criatividade e humor elevados.

O evento, sujeito à lotação, acontece sempre a partir das 14h30 no Nacional Club, um tradicional casarão do bairro do Pacaembu. As inscrições são gratuitas e podem ser garantidas para cada dia de programação, a partir de 8 de julho, por meio de inscrição no site da revista.

A programação de discussões, mesas de debates, palestras e demais atividades tem início no sábado com a conversa “Ser mulher em 2016, mudou alguma coisa? Está mais fácil ou mais difícil?”, com a pesquisadora de filosofia política Djamila Ribeiro e a atriz Taís Araújo. Em seguida, um time composto pela deputada Mara Gabrilli e a cientista política Ilona Szabo debatem sobre “A mulher na política”. Os estereótipos de beleza entram em cheque na conversa sobre “Sentir-se confortável com o próprio corpo” que acontece com Jéssica Ipolito, escritora e militante feminista, e as cantoras Tiê e Xênia de França.

O público também pode assistir e interagir no tête-à-tête com o tema “Mulher adora sexo”, que terá a participação da escritora Tati Bernardi e da atriz Nicole Puzzi. Em um mural sobre “A beleza construída”, a maquiadora Vanessa Rozan, a dermatologista Cristina Abdalla e a modelo Michele Provensi falam sobre a relação entre os conceitos de beleza e as diferentes ferramentas empregadas na construção da imagem. A filósofa Márcia Tiburi e a escritora Antonia Pellegrino se encontram para discutir a cultura da “Violência contra a mulher”.

Encerrando o primeiro dia da Casa Tpm 2016, um show inédito vai reunir duas lendas da música brasileira pela primeira vez: Fafá de Belém e Maria Alcina. Esses dois ícones encantarão o público com interpretações que vão de Iron Maiden a Cássia Eller. No domingo, o dia começa em grande estilo com ninguém menos que a atriz e escritora Fernanda Torres encenando especialmente para a Casa Tpm a premiada peça A casa dos budas ditosos, de João Ubaldo Ribeiro. No palco a atriz vive uma mulher baiana de 68 anos e narra as inúmeras experiências sexuais da personagem ao longo da vida. E fechando o fim de semana, um músico de 20 anos que estourou na internet com talento e posturas notáveis. Liniker, a nova voz da música brasileira e a nova cara da liberdade de gênero, encerra a quinta edição da Casa Tpm com um show que promete ser inesquecível.

 

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Resenha: “Blank Face LP”, ScHoolboy Q

Artista: ScHoolboy Q
Gênero: Hip-Hop, Rap, Gangsta Rap
Acesse: http://www.schoolboyq.com/

 

Vozes e batidas flutuam em uma nuvem de sons psicodélicos. Fragmentos e samples esquecidos da música negra na década de 1970 servem de base para um conjunto de versos marcados por excessos, drogas, racismo e criminalidade. Em Blank Face LP (2016, Top Dawg / Interscope), quarto álbum de estúdio de ScHoolboy Q e segundo trabalho dentro de uma grande gravadora, todos os elementos explorados há cinco anos no inaugural Setbacks (2011) são mais uma vez apresentados ao público, porém, de forma remodelada, como uma reinterpretação da própria essência.

Trabalho em que o time de parceiros do rapper é ampliado consideravelmente, o registro de 17 faixas e mais de 70 minutos de duração se abre para a interferência de artistas como Kanye West (THat Part), Vince Staples (Ride Out), Anderson .Paak (Blank Face), Tyler, The Creator (Big Body) e The Alchemist (Kno Ya Wrong). São produtores, músicos e conterrâneos da cena californiana que tanto assumem uma posição de destaque na construção dos temas instrumentais, quanto na formação das rimas que se espalham pelo interior do álbum.

Tamanha interferência faz de Blank Face LP o trabalho mais versátil de toda a discografia de ScHoolboy Q. Samples nostálgicos encontram o mesmo clima do Hip-Hop na década de 1990, arranjos instrumentais esbarram em bases eletrônicas marcadas pela frieza. A julgar pelo imenso mosaico de ideias, temas e conceitos musicais que sustentam o trabalho, Q faz do presente álbum uma perfeita desconstrução do som homogêneo que marca o antecessor Oxymoron (2014), resgatando a mesma carga de referências incorporadas em Habits & Contradictions, de 2012.

Ao mesmo tempo em que brinca com as possibilidades, o rapper sustenta na poesia urbana do trabalho o elemento de conexão entre grande parte das composições. Como indicado durante o lançamento de Groovy Tony / Eddie Kane, primeiro single do disco, Q utiliza de personagens fictícios e diferentes acontecimentos que marcaram a comunidade negra dos Estados Unidos para desenvolver pequenos paralelos com a própria carreira. Canções sufocadas pelo uso excessivo de drogas, sexo, assassinatos e até o exorcismo de pequenos demônios interiores. Continue reading

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Carne Doce: “Artemísia” (VÍDEO)

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Não vai nascer / Porque eu não quero / Porque eu não quero e basta eu não querer“. A essência feminina do Carne Doce parece ter aflorado em Artemísia. Primeiro fragmento do novo registro de estúdio da banda, previsto para agosto, a canção centrada na temática do aborto parece indicar a mudança de direção assumida pelo quinteto goiano em relação ao trabalho apresentado em 2014. Versos que ultrapassam o ambiente intimista e essencialmente delicado de faixas como Benzin e Amigo dos Bichos de forma a dialogar com a realidade.

Junto da canção, gravada no Red Bull Studios de São Paulo, a banda apresenta um claustrofóbico clipe produzido e dirigido por Muto. No vídeo, Salma Jô dança no interior de um túnel construído em 1918, no centro da cidade de Campinas. Para o clipe, a cantora contou com o apoio da coreógrafa Gabriela Branco que usou um “método de improviso baseado em estados corporais”. Abaixo, além do clipe de Artemísia, você encontra uma breve entrevista com Jô em que ela discute a temática da nova faixa, além, claro, do processo de gravação do clipe.

 

Em um cenário político marcado pelo retrocesso e forte controle da bancada evangélica, Artemísia nasce como uma espécie de hino feminista que se estende para além do polêmico debate sobre o aborto. Gostaria que você comentasse o processo de construção da letra da canção. Esse conceito “feminino” é a base para o novo álbum da Carne Doce? Que outros temas serão explorados no trabalho?

Eu tenho um pouco de receio dessa ideia de hino. Eu não tenho segurança para criar um estatuto, uma oração, para dizer tudo o que precisa ser dito sobre o assunto, não estou militando. Eu sou pelo feminismo, quem não é geralmente não nos interessa muito, mas eu não pretendo falar pelas feministas. Sei que eu acabo por assumir uma responsabilidade política, mas a minha perspectiva ao fazer as letras é no geral pegar um fato autobiográfico e universal e me divertir com o que há de poder nele.

O feminismo está aí, é pauta do dia, eu falo das coisas do dia, eu acabei falando muito disso no novo disco, mas tentando ser sincera sobre as minhas contradições, personagens, mentiras. E são muitas as questões: lugar de fala, o feminino, gênero, o depoimento como denúncia, o feminismo branco. Eu não sei respondê-las, mas eu gosto de me encucar com elas. Artemísia é a ideia de “meu corpo minhas regras” levada ao máximo, ao ponto de ser assumidamente fantasioso como se a dona do corpo fosse Deus. Quando nesta situação de decidir por um aborto, mesmo mulheres de muita fé escolhem romper com Deus por um momento, escolhem ser elas as maiores autoridades sobre as próprias vidas. É uma experiência muito íntima e ao mesmo tempo de compromisso com a vida, de poder sobre a descendência, de uma responsabilidade divina.

O clipe de Artemísia parece fortemente influenciado pela clássica cena do metrô no filme Possessão (1981), de Andrzej Zulawski. Existe esse diálogo com o trabalho do diretor polonês? Como foi o processo de preparação corporal e o trabalho com a coreógrafa Gabriela Branco?

A cena foi certamente uma inspiração, e eu até preferia não lidar com referência de tanto peso, mas todas as circunstâncias casavam demais com o sentido da letra: o túnel, a passagem, a espontaneidade da dança. O filme mesmo, no entanto, não é uma inspiração. A Gabriela me ensinou a dançar no sentido de explorar meus movimentos e impulsos e lapidá-los mais ou menos numa obra improvisada, mas com uma base emocional.

Não havia música, não havia coreografia e nem espelho durante a preparação, apenas a voz dela me guiando. Para mim foi como me atirar no abismo, confiar meu corpo a ela, baixar a vaidade, tentar não pensar de modo coreografado, um exercício de entrega que ainda me deixa ansiosa de pensar a respeito, mas gostei muito de fazer.

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Carne Doce – Artemísia

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Aíla: “Rápido” (VÍDEO)

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A mudança de direção é clara dentro do novo álbum de Aíla. Um dos principais nomes da nova cena paraense, a cantora que em 2012 presenteou o público com o ótimo Trelelê parece em busca de novas possibilidades e ritmos. Um bom exemplo disso está na enérgica Rápido. Primeiro single do novo registro de inéditas da cantora, previsto para o começo de agosto, a nova faixa pesa nas guitarras ao mesmo tempo em que mantém firme a relação com a música nortista do primeiro disco.

Com produção de Lucas Santtana, a faixa anuncia a transformação da cantora, completamente intensa e teatral dentro do clipe que acompanha a canção. Com direção de Roberta Carvalho, também parceira de Aíla na composição da música, o vídeo mostra a cantora em diferentes pontos da cidade de São Paulo, como um personagem isolado, brincando com a aceleração das imagens de forma a dialogar com os versos da canção.

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Aíla – Rápido

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How To Dress Well: “Lost Youth / Lost You” (VÍDEO)

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Em 2014, com o lançamento de “What Is This Heart?”, Tom Krell decidiu ampliar o campo de atuação do How To Dress Well. Um dos 50 Melhores Discos Internacionais daquele ano, o registro não apenas distanciou o músico norte-americano do ambiente claustrofóbico apresentado nos dois primeiros registros de inéditas, Love Remains (2010) e Total Loss (2012), como parece indicar o caminho que será explorado no novo trabalho do cantor: Care (2016).

Quarto registro de estúdio de Krell, o novo álbum entrega na recém-lançada Lost Youth / Lost You uma série de pistas sobre o material que será apresentado ao público nas próximas semanas. Versos essencialmente românticos, base de toda a discografia do músico, cada vez mais íntimo do R&B produzido entre o final dos anos 1980 e o começo da década de 1990. Junto da canção, o clipe intimista dirigido por Ben Tricklebank.

Care (2016) será lançado no dia 23/09 pelo selo Domino.

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How To Dress Well – Lost Youth / Lost You

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