10 Discos de 1979

10 Discos de 1979

Passada a onda de artistas que redefiniram o rock inglês em 1977 e a nova safra de bandas que ocupavam a cena nova-iorquina, às vésperas do fim a década de 1970 ainda tinha mais um pequeno catálogo de obras a serem apresentadas. Com a New Wave em pleno crescimento, veteranos do rock progressivo como Pink Floyd pareciam buscar por um espaço próprio, ao passo que bandas como The Clash e Talking Heads aprimoravam o que haviam iniciado anos antes. No Brasil, com o Regime Militar se encaminhando para o fim, o cenário era novamente de descoberta, uma ruptura entre o rock e uma aproximação lenta com a música pop e suas nuances contemporâneas. Dentro desse universo de descobertas e transformações, selecionamos 10 Discos de 1979, trabalhos expressivos e que ainda hoje mantém a influência ativa. Menções honrosas para Drums and Wires do XTC, 154 da banda Wire e Armed Forces de Elvis Costello. Os leitores do Miojo Indie tem até a próxima sexta-feira (21) para indicar qual o próximo ano a ser listado em nossa seção.

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Buzzcocks

Buzzcocks
Singles Going Steady (EMI)

O fim das atividades do Sex Pistols, as transformações em torno da obra do The Clash, o surgimento de toda uma leva de novas bandas davam a entender que o Punk inglês beirava o fim. Espécie de resumo de tudo o que ocupou a cena musical entre 1977 e 1979, Singles Going Steady, coletânea de B-Sides, singles e faixas avulsas do Buzzcocks surgia como um último respiro do que havia sido orquestrado pela banda e outros grupos britânicos naquele período. Lançado em paralelo ao terceiro álbum do grupo, A Different Kind of Tension, o catálogo de quase 50 minutos foi pensado exclusivamente para o mercado norte-americano, como uma tentativa de aproximar a banda inglesa de toda uma nova frente de ouvintes. Passados trinta anos desde o lançamento, a coletânea que reapresentou o Buzzcocks permanece até mais atrativa do que qualquer outro registro em estúdio da banda, sendo parte fundamental no que identifica a construção de diversos grupos surgidos nos anos 2000, como The Libertines e Arctic Monkeys. Com 16 clássicos do Punk inglês, o trabalho traz desde as melodias de Ever Fallen In Love até a crueza irônica de Orgasm Addict.

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Caetano Veloso

Caetano Veloso
Cinema Transcedental (Verve)

Caetano Veloso havia atravessado a década de 1970 em meio a um dos catálogos mais inventivos da cena nacional. Entre obras calcadas no peso do rock (Transa, 1972) e trabalho dissolvidos entre os ritmos nacionais (Qualquer Coisa, 1975), o músico baiano alcançava em Cinema Transcedental um ponto de maturidade e comunhão em relação a tudo o que havia conquistado previamente, indo até mais além. Transbordando suingue e uma instrumentação que mesmo simples se adorna de efeitos delicados, o álbum cresce em meio a canções pontuadas pela essência nacional (Lua de São Jorge e Cajuína), versos marcados pelo existencialismo (Oração ao Tempo) e composições de forte apelo comercial (Beleza Pura e Menino do Rio). Um arsenal de faixas memoráveis dentro do cardápio assinado pelo artista. De lírica inventiva, o trabalho encontra na parceria com A Outra Banda Da Terra um apoio instrumental necessário, proposta que seria expandida até o lançamento de Uns, em 1983.

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Gang Of Four

Gang Of Four
Entertainment! (EMI)

A crescente presença do Rock Progressivo e seus arranjos suntuosos, a resposta crua da cena Punk, o desmerecimento em relação à música Disco e todo um jogo de fatores contribuíam para o fim da aproximação entre o rock e as pistas dança. Tudo havia se transformado em algo muito frio, como se guitarras não pudessem incorporar sons de esforço cativante, e a dança fosse obrigada a se aproximar de um cenário essencialmente pop. Com o lançamento de Entertainment!, registro de estreia do Gang Of Four esse resultado viria a mudar. Aproximando o pós-punk de referências próximas do Funk, Reggae e até da Disco Music, o guitarrista Andy Gill e os parceiros de banda haviam encontrado um caminho criativo, mesclando a sobriedade que ocupava a música inglesa naquele instante com um propósito de descompromisso. São rajadas de guitarras que fogem o óbvio durante os quase 40 minutos da obra, efeito perceptível na presença de Natural’s Not in It e At Home He’s a Tourist. Bases para o que viria alimentar a New Wave na década de 1980 e um caminho para aquilo que The Rapture e Franz Ferdinand sustentariam duas décadas depois.

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Joy Division
Unknown Pleasures (Factory)

Contraponto sombrio ao propósito caótico instaurado com a cena punk em 1977, Unknown Pleasures, trabalho de estreia do Joy Division vinha como uma avalanche de depressão em relação a tudo o que ocupava a música naquele instante. Aos comandos vocais de Ian Curtis, o disco se arrasta em uma medida essencialmente amargurada, perfumando canções melancólicas com bases capazes de resgatar a obra de David Bowie, The Velvet Underground e Kraftwerk. São composições que crescem em uma atmosfera climática para depois explodir em guitarras ruidosas (Insight), faixas que arriscam passos tortos de dança em meio a versos dolorosos (She’s Lost Control) ou mesmo canções que pareciam perverter a essência do punk dentro de um composto ainda mais raivoso (Interzone). Amargura e um reflexo natural do espirito de Curtis. Uma das obras mais influentes e copiadas dos últimos 30 anos, quando lançado em 1979, Unknown Pleasures veio indisposto de lados, entregando ao ouvinte a decisão de por onde começar a audição do trabalho. Icônica, a capa assinada por Peter Saville e Chris Mathan traz a morte de uma estrela com base em um medidor de pulsos.

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Off The Wall

Michael Jackson
Off The Wall (Epic)

Quem olha para a discografia de Michael Jackson em busca dos grandes clássicos do cantor, talvez encontre em Thriller (1982) uma resposta segura e imediata. Entretanto, três anos antes de alcançar aquela que seria entendida como a obra-prima do músico, Off The Wall já havia se revelado como um claro ponto de transformação na carreira de Jackson. Quarto registro em carreira solo do cantor, o álbum se sustenta como um verdadeiro catálogo de hits, rompendo com a morosidade prévia do R&B, para se entregar ao ritmo e a dança. Resgatando de forma criativa elementos da Disco Music – naquele momento em pleno desuso – com toques de rock, o músico passeia pelo álbum em meio a faixas como Don’t Stop ‘Til You Get Enough, Rock With You e She’s Out of My Life. Movido por instantes cativantes e de plena dança, Off The Wall conta com a presença de músicas assinadas por Paul McCartney (Girlfriend) e Stevie Wonder (I Can’t Help It), sendo o primeiro grande sucesso comercial e de crítica do músico em carreira solo. A coroa de Rei do Pop ainda não era dele, mas estava em vésperas de ser entregue.

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The Wall

Pink Floyd
The Wall (Harvest/EMI)

Desde a estreia de The Dark Side of the Moon (1973), a sonoridade do Pink Floyd parecia alcançar um domínio grandioso e cênico em alguns momentos. Assim, ao apresentar The Wall em 1979, a banda comandada por Roger Waters expandia com detalhe tudo aquilo que vinha cultivando previamente, transformando o álbum na última grande obra da banda e um fechamento natural para aquilo que decidia os rumos do Rock Progressivo. Desenvolvido ao longo de duas horas, a Ópera Rock explora a vida de Pink, representação metafórica do próprio Waters, que ao lidar com a perda do pai, os problemas na escola e a dificuldade de adaptação dentro da própria sociedade se vê barrado por um imenso muro social, o mesmo que metaforicamente intitula a obra. Feito para ser apreciado em totalidade, do princípio ao fim, e dividido em pequenos atos dramáticos, o álbum foi um sucesso comercial, alcançando vendas altíssimas, mesmo na década seguinte. Espécie de complemento ao álbum, em 1982 foi lançado The Wall, o filme, trabalho que conta com direção de Alan Parker e roteiro de Roger Waters.

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Fear Of Music

Talking Heads
Fear Of Music (Sire)

O lançamento de More Songs About Buildings and Food em Julho de 1978 teve um papel transformador na atuação do Talking Heads. Ponto de divisão na carreira da banda – ou mesmo dentro da cena nova-iorquina -, o segundo registro em estúdio do grupo comandado por David Byrne permitiu que o quarteto pudesse se aventurar de forma melhor resolvida entre experimentos eletrônicos, Funk, Art Rock, passeios pela World Music e toda uma base para o que Fear Of Music trouxe de forma muito mais resolvida no ano seguinte. Terceiro registro em estúdio da banda, o álbum lançado em Agosto de 1979 é praticamente um rascunho do que seria compreendido em totalidade em Remain in Light (1980), entretanto, está longe de se manifestar como um simples caminho de passagem. Entre guitarras funkeadas, sintetizadores frenéticos e os vocais anárquicos de Byrne, o disco cresce de forma excêntrica e comercial, esbanjando músicas como Life During Wartime e Memories Can’t Wait. Era apenas o começo de uma das discografias mais ricas da New Wave norte-americana.

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The Clash

The Clash
London Calling (CBS)

Até o lançamento de Give ‘Em Enough Rope, em 1978, o The Clash era apenas mais uma banda no conjunto cada vez maior de representantes do Punk britânico. Ainda que os versos politizados de Joe Strummer representassem um afastamento em torno do niilismo predominante no mesmo cenário, foi só com a chegada da obra-prima London Calling que o grupo londrino realmente assumiu uma identidade. Além dos versos firmes de Strummer, que discutia de forma autêntica política, racismo, preconceito, desemprego e drogas, a instrumentação incorporada pela banda ia de encontro a um novo resultado, muito mais amplo e curiosamente comercial. São composições que flertam durante todo o tempo com o Ska, o Reggae, Pop e Funk, tudo isso sem fugir do delineamento agressivo e das guitarras velozes que o grupo vinha seguindo desde o primeiro disco. O resultado são 19 composições, quase 70 minutos de duração e, possivelmente, o disco mais importante da década de 1970. Morada para músicas como The Guns of Brixton, Hateful, Train in Vain ou mesmo a própria faixa título, London Calling é o reflexo de um cenário decadente firmado há mais de três décadas, mas que estranhamente soa atual.

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The Pop Group

The Pop Group
Y (Radar)

Enquanto London Calling se manifesta como uma evolução natural de tudo o que fora iniciado em 1977, na primeira leva de bandas do punk inglês, Y, registro de estreia do The Pop Group parecia ser a perversão involuntária do mesmo gênero. Antecipando em meses o que viria a abastecer o trabalho de grupos como The Clash, Gang Of Four e todos os artistas que lentamente ocupavam a música britânica, o primeiro álbum da banda de Britstol passeia pelos experimentos de forma criativa. Provando de elementos excêntricos da psicodelia, Funk e diversos outros ritmos espalhados ao redor do globo, o álbum cresce em meio a nove faixas de pura perversão instrumental. Paisagens jazzísticas em Thief of Fire, percussão inexata em The Boys from Brazil e uma interpretação particular do Pós-Punk em We Are Time, cada etapa do álbum parece abastecida pela incerteza, como se cada música abordada pela obra fosse um princípio para um novo disco, que jamais se concretiza em totalidade.

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The Specials

The Specials
The Specials (2-Tone)

A década de 1970 teve um importante papel na proliferação da música Jamaicana pelo mundo. Da manifestação ativa do Reggae aos passeios pelo Ska e Dub, a sonoridade original da ilha caribenha era a base para uma centena de bandas que nasciam naquele momento, entre eles o coletivo britânico The Specials. Formado na cidade de Coventry, em 1977, o grupo trouxe na mistura entre a sonoridade firmada no fim da década de 1960 e as rajadas de guitarras calorosas o mecanismo de alimento para tudo o que representa o registro de estreia do grupo. Lançado em Novembro de 1979 e contando com a produção de Elvis Costello, o disco brinca com os sons em uma medida que não se afasta do contexto maduro dos versos, trechos melódicos que vão do racismo ao aborto em uma propriedade essencialmente comercial. Lançado pelo selo 2-Tone, do próprio grupo, The Specials (o disco) seria a base criativa para toda uma sequência de artistas que ocupariam a década de 1980 com os mesmos sons.


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