10 Discos Essenciais: Balaclava Records

 

Formado em março de 2012 por Fernando Dotta e Rafael Farah na cidade de São Paulo, a Balaclava Records é um selo musical e produtora cultural responsável por apresentar o trabalho de dezenas de artistas nacionais e estrangeiras. Em um intervalo de poucos anos, o projeto que se divide entre a realização de festivais e eventos espalhados pela capital paulista acabou servindo de base para a distribuição de artistas como Quarto Negro, Holger, Terno Rei, Mild High Club, Minks e Yuck, acumulando uma verdadeira seleção de clássicos modernos. Em mais uma edição da nossa lista que busca apontar obras essenciais de diferentes selos, listamos dez álbuns que resumem parte do som produzido pela Balaclava Records.

 

Single Parents
Unrest (2012, Balaclava Records / Popfuzz Records)

Passado e presente se confundem a todo instante dentro do primeiro álbum de estúdio da banda paulistana Single Parents. Claramente influenciado pelo som produzido entre o final dos anos 1980 e início da década seguinte, Unrest carrega nas guitarras a herança criativa de diferentes veteranos da cena norte-americana e britânica. Difícil não lembrar de Thurston Moore (Sonic Youth), Kevin Shields (My Bloody Valentine), J Mascis (Dinosaur Jr.) e outros tantos representantes da cena alternativa que transformaram camadas de distorção em um importante componente para contar histórias. Um som ruidoso, torto, tão invasivo quanto melódico, postura reforçada de forma explícita na poesia descomplicada de Stop Waiting (For Me Now) e, principalmente, na semi-psicodélica Escape, uma das principais canções do disco. Composições que parecem resgatadas de alguma gravação caseira, talvez esquecida em uma pilha de antigas fitas cassete. Camadas de distorção e efeitos que se moldam de acordo com as exigências da banda — hoje formada por Fernando Dotta (voz, guitarra), Zeek Underwood (guitarra), Martim Batista (baixo) e Rafael Farah (bateria).

 

Medialunas
Intropologia (2012, Balaclava Records)

De um lado, as guitarras sujas e avalanches de ruídos orquestrados pelo músico Andrio Maquenzi, um dos nomes aos comandos do grupo gaúcho Superguidis. No outro oposto, a interferência enérgica da baterista e cantora Liege Milk, uma das integrantes do coletivo de shoegaze/noise pop Loomer. Parceiros na vida e em estúdio, a dupla decidiu ampliar o próprio repertório criativo, fazendo do som ruidoso de Intropologia o primeiro trabalho do casal sob o título de Medialunas. Concebido de forma caseira, o álbum de 11 faixas faz de cada fragmento a passagem para um campo específico da cena alternativa dos anos 1990. São maquinações sujas que transportam o ouvinte para o mesmo universo de artistas como Nirvana, Foo Fighters, Mudhoney e Alice Chains, postura reforçada na construção de músicas como Rotten PeachesNo Te Va Gustar, síntese do som versátil que acompanha o ouvinte durante toda a execução da obra. Um rico cardápio de ideias que passa pela poesia trilíngue do disco e cresce no labirinto sonoro que convida o ouvinte a se perder entre as experiências e possibilidades lançadas pela dupla.

 

Terno Rei
Vigília (2014, Balaclava Records)

Sem pressa, em uma medida própria de tempo, cada fragmento do primeiro álbum de estúdio da banda paulistana Terno Rei se revela ao público em pequenas doses. São arranjos deliciosamente espaçados, versos submersos e elementos percussivos que dialogam diretamente com a fina tapeçaria instrumental do disco. Da letargia hipnótica que abre o trabalho em Manga Rosa, passando pelos versos angustiados de O Fogo Queimaria, até alcançar a derradeira Saudade, um ato instrumental que revela o esmero de seus integrantes, cada fragmento do disco parece pensado para mergulhar o ouvinte em um território de pequenas incertezas, como uma obra viva, em constante processo de maturação e crescimento artístico. Alucinações e medos transformados em música, como um convite a provar das mesmas experiências vivenciadas por cada integrantes da banda – na época formada por Ale Sater (Voz e Baixo), Bruno Rodrigues (Guitarra), Greg Vinha (Guitarra), Luis Cardoso (Bateria) e Victor Souza (Percussão).

 

Câmera
Mountain Tops (2014, Balaclava Records)

Em 2011, quando os integrantes do Câmera apresentaram ao público os dois primeiros EPs da carreira, Invisible Houses e Not Tourist, havia na execução de cada faixa um explícito senso de descoberta, como se os membros da banda, bem como o próprio ouvinte, desvendassem um segredo ou fórmula criativa. Interessante perceber nas composições de Mountain Tops, estreia definitiva do quinteto formado por André Travassos, Bruno Faleiro, Diogo Gazzinelli, Matheus Fleming e Henrique Cunha, um claro amadurecimento poético/instrumental. Com um pé na cena alternativa dos anos 1990 e outro no presente, o grupo fez de cada canção um curioso experimento montado a partir da lenta sobreposição de ideias e conceitos nostálgicos. São melodias delicadas que se perdem em uma nuvem de sons tão íntimos do shoegaze/dream pop, quanto das ambientações intimistas de Elliott Smith e Built to Spill. Nos versos, um olhar melancólico sobre a vida adulta, relações pessoais e pequenos desajustes de qualquer indivíduo, estímulo para a formação de músicas como Till Life Do Us Apart, Whatever Works, Lost Cause, I Surrender!, e todo o repertório cuidadosamente montado pela banda.

 

Séculos Apaixonados
Roupa Linda, Figura Fantasmagórica (2014, Balaclava Records)

Ouvidos apontados para a música romântica dos anos 1970/1980, pés bem firmes no presente. Nascido da colisão de ideias e referências pregressas de cada colaborador, Roupa Linda, Figura Fantasmagórica, álbum de estreia da banda Séculos Apaixonados, faz do passado um componente precioso para a solução de versos e arranjos empoeirados que acompanham o ouvinte durante toda a execução da obra. Produto das experiências de Gabriel Guerra, Lucas Paiva, Felipe Vellozo, Arthur Braganti e João Pessanha, o álbum de oito faixas segue dentro de uma estrutura própria, torta, porém, inevitavelmente atrativa. São vozes submersas, guitarras sempre minuciosas, sintetizadores e toda uma rica base instrumental que se espalha ao fundo da obra com inteligência. Dentro desse ambiente dominado por solos de saxofone e variações soturnas, versos marcados pelo romantismo exagerado do eu lírico, delírios poéticos e temas existencialistas flutuam em meio a pequenos desajustes sentimentais. Instantes capazes de transportar o ouvinte para diferentes cenários e épocas, vide a nostalgia impregnada em Só No Masoquismo e, principalmente, no tom brega de Um Totem do Amor Impossível, perfeita síntese do disco.

 

Mahmed
Sobre a Vida em Comunidade (2015, Balaclava Records / Mahmed)

Surrealista, por vezes onírica e mágica, a imagem produzida por Flávio Grão para ilustrar a capa de Sobre a Vida em Comunidade indica o caminho torto percorrido pelos integrantes da potiguar Mahmed durante toda a execução da obra. Do canto etéreo da convidada JJ Nunes em AaaaAAAaAaAaA — “Chega perto pra escutar / Dias tão só, sem ter / Quanta água vai rolar até a gente se ver?” —, até o último acorde da versátil Medo e Delírio, faixa de encerramento do disco, cada fragmento do primeiro álbum de estúdio do grupo original de Natal, Rio Grande do Norte, encontra na incerteza dos elementos e fórmulas instrumentais o principal componente criativo. São verdadeiras paisagens instrumentais e experimentos que detalham o esforço de Walter Nazário (Guitarra, Samples, Sintetizadores), Dimetrius Ferreira (Guitarra), Leandro Menezes (Baixo) e Ian Medeiros (Bateria) em ampliar parte do território desbravado durante a produção do EP Domínio das Águas e dos Céus, de 2013. Um universo de pequenas rupturas conceituais, como se a banda fosse da psicodelia jazzística dos anos 1970 ao pós-rock de veteranos como Slint sem necessariamente perder a própria identidade.

 

Supercordas
Terceira Terra (2015, Balaclava Records)

Do cenário bucólico sutilmente desbravado em Seres Verdes Ao Redor (2016) para o ambiente pós-apocalíptico de Terceira Terra. Pontudo pelo forte discurso político, o terceiro álbum de estúdio do Supercordas parece transportar o ouvinte para um território de incertezas, como se cada composição fosse tingida pela sobriedade angustiada dos versos. Exemplo disso está na inaugural, Fundação Roberto Marinho Blues & Co., uma análise crítica sobre as últimas cinco décadas da Rede Globo, manipulação de conteúdo e estreito diálogo da emissora com os militares durante o período da ditadura – “E a nossa prensa faz da pólis, família / Da vida, televisão / Da história, alquimia / Do golpe, revolução“. Uma poesia densa que acaba se refletindo na base instrumental do disco, ponto de partida para o turbilhão psicodélico músicas como Sobre Amores e Pedras e Itinerarium Extaticum In Temporalibus. Interessante perceber que mesmo dentro desse ambiente cinza, faixas como Sinédoque, Mulher e Maria³, parceria com Benke Ferraz (Boogarins), estimulam a formação de pequenos respiros e bolsões criativos garantem leveza ao disco, como uma passagem para os primeiros inventos da banda em estúdio.

 

Nuven
Partir (2016, Balaclava Records)

É difícil classificar o trabalho de Gustavo Teixeira em um gênero ou conceito específico. Claramente influenciado pelas ambientações eletrônicas que abasteceram a cena britânica durante toda a década de 1990, o produtor paulistano fez do primeiro álbum de estúdio sob o título de Nuven um perfeito diálogo com a obra de veteranos como Aphex Twin, Four Tet e Boards of Canada. Composições montadas a partir de pequenos retalhos instrumentais, vozes sampleadas, sintetizadores e batidas que dialogam com as pistas, porém, a todo instante regressam ao mesmo ambiente onírico detalhado pelo artista logo na inaugural Vista. Composições como a semi-psicodélica Escape, música que sutilmente dialoga com a obra de Flying Lotus e Caribou, porém, em nenhum momento capaz de prejudicar a identidade musical de Teixeira. Em Claro, terceira faixa do disco, guitarras sampleadas jogam de forma inteligente com a construção das batidas. No decorrer da obra, surgem nomes como Ale Sater (Terno Rei), colaborador do artista na curiosa Entre Águas, e Santiago Mazzoli (Ombu), convidado a participar na faixa de encerramento do disco, a atmosférica Remoto.

 

Cabana Café
Moio (2016, Balaclava Records)

Existe uma diferença enorme entre o som produzido para as composições de Panari (2013), primeiro álbum de estúdio da Cabana Café, e o maduro Moio (2016). Longe do pop óbvio explorado pelo coletivo paulistano no primeiro álbum de estúdio, vozes e arranjos complexos, por vezes experimentais, aproximam o ouvinte de um novo jogo de possibilidades. Retalhos instrumentais, ruídos e temas essencialmente efêmeros, como se um delicioso suspiro criativo orientasse cada ato da banda. Como Vândalo, faixa de abertura do disco parece indicar, Moio sustenta um precioso toque de disco ao vivo. Guitarras e batidas exploradas de maneira essencialmente fluida. O sintetizador atmosférico, como uma manta, cobrindo as pequenas lacunas da obra, a voz sempre presente e instável da vocalista Rita Oliva – tão provocante quanto no trabalho apresentado em Superfície (2015), delicada estreia do P A R A T I. Blocos que se encaixam lentamente, como uma curiosa jam session. A julgar pela imagem de capa do disco, trata-se de um disco montado a partir da lenta sobreposição de ideias. Peças (in)completas que solucionam a essência instrumental/lírica do disco.

 

Giovani Cidreira
Japanese Food (2017, Balaclava Records / Natura Musical)

Mac DeMarco encontra Milton Nascimento, melodias empoeiradas resgatam o que há de mais nostálgico na década de 1980, como um mergulho na obra de veteranos do período, caso The Smiths, The Fall e Legião Urbana. Uma coleção de ideias, fragmentos e referências óbvias, mas que em nenhum momento ocultam a fina identidade musical do cantor e compositor baiano Giovani Cidreira no segundo álbum de estúdio, o versátil Japanese Food. Um colorido catálogo de possibilidades que cresce na poesia particular do artista, vide a força criativa que orienta a construção dos versos em Vai Chover, Última Vida Submarina, Um Capoeira e Movimento da Espada. A mesma pluralidade de elementos acaba se refletindo na base instrumental do disco. Arranjos que provam de elementos originalmente testados no pós-punk inglês, bebem de forma contida da psicodelia brasileira no início dos anos 1970 e seguem pelo interior do trabalho de forma a delinear um precioso labirinto criativo. Um passo seguro em relação aos experimentos incorporados no homônimo debute de 2015.

 

Veja também: 10 Discos Essenciais: XL Recordings


Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Send this to friend