10 Discos Essenciais: Carpark Records

 

Criado no fim da década de 1990 pelo agitador cultural Todd Hyman, a Carpark Records é a casa de alguns dos projetos mais inovadores e referenciais da música norte-americana recente. Responsável pelos primeiros discos de artistas como Beach House, Toro Y Moi, Cloud Nothings e demais representantes da cena estadunidense, a gravadora segue em meio a produção de obras tão nostálgicas quanto atuais, ponto de partida para cada um dos dez registros que recheiam a nossa lista de 10 discos essenciais da gravadora. Nos comentários, conta pra gente: quais são seus discos favoritos do selo? 

 

Beach House
(2006, Carpark Records)

Basta uma rápida audição do primeiro álbum de estúdio do Beach House para que todas as referências da banda sejam delicadamente reveladas ao público. Entre melodias que parecem vindas de algum disco do The Zombies e vozes ecoadas que dialogam com a obra de gigantes do Dream Pop, como Cocteau Twins, Mazzy Star e This Mortal Coil, cada fragmento do autointitulado registro se revela aos poucos, em pequenas doses. Da abertura tímida, em Saltwater, passando pela leveza de Auburn and Ivory e Tokyo Witch, até alcançar a atmosfera crescente de Master of None, uma das canções mais lembradas da banda, cada elemento do disco parece trabalhado de forma hipnótica pela dupla Victoria Legrand e Alex Scally. Nos versos, um cenário corrompido pela inserção de temas como separação, medo, isolamento e outros problemas típicos de qualquer jovem adulto. Um reflexo do período de forte mudança que sufocava os próprios artistas. Arranjos e vozes enevoadas, densas, ponto de partida para toda a sequência de obras que a dupla original de Baltimore viria produzir ao longo da carreira.

 

Dan Deacon
Spiderman of the Rings (2007, Carpark Records)

Em atuação desde o início dos anos 2000, Dan Deacon precisou gravar e distribuir de forma independente quatro álbuns de inéditas — Meetle Mice (2003), Silly Hat vs. Egale Hat (2003), Goose on the Loose (2003) e Live Recordings 2003 (2004) —, até conquistar uma parcela maior do público e ser convidado pela Carpark Records a produzir um novo registro autoral. Como resultado desse longo período de forte invento e profunda transformação criativa veio o experimental Spiderman of the Rings (2007). Misto de síntese e clara evolução quando comparado aos primeiros trabalhos de Deacon, o registro de nove faixas faz de cada fragmento um curioso retrato da sonoridade esquizofrênica do produtor nova-iorquino. Não por acaso, Wooody Wooodpecker, música de abertura do disco, cresce em meio a samples do personagem Pica-Pau. Surgem ainda músicas como a colorida Wham City, o noise pop de Snake Mistakes, além, claro, de The Crystal Cat, composição que acabou transformando Deacon em meme por conta do vídeo de divulgação.

 

Toro Y Moi
Underneath the Pine (2011, Carpark Records)

Das ambientações etéreas testados em Causers of This (2010) para o flerte com o pop, experimentações curiosas com o soul/funk da década de 1970 e a busca declarada por novas possibilidades. Poucos meses após o lançamento do primeiro álbum de estúdio como Toro Y Moi, Chaz Bundick decidiu seguir um rumo completamente diferente durante a produção do segundo registro de inéditas da carreira, Underneath the Pine (2011). São pouco menos de 40 minutos em que o músico norte-americano vai da neo-psicodelia ao synthpop em uma criativa desconstrução da famigerada chillwave. Imerso em um conceito essencialmente melódico, Bundick encontrou os elementos necessários para a produção de músicas como Still Sound, New Beat, How I Know e cada novo fragmento sutilmente apresentado no decorrer da obra. Um fino cruzamento de ideias e referências que vão de Prince à banda franco-britânica Stereolab, fazendo da colorida imagem de capa do disco a passagem para esse estranho universo montado pelo músico.

 

Adventure
Lesser Known (2011, Carpark Records)

Benny Boeldt sempre foi um completo aficionado pela música produzida entre o final dos anos 1980 e início da década de 1990. Da trilha sonora de clássicos do Super Nintendo, passando pelo resgate de grandes exemplares do synthpop/new wave, como Kraftwerk, Pet Shop Boys e Devo, difícil ouvir o trabalho do músico norte-americano como Adventure e não perceber o curioso diálogo com o passado. Um contínuo desvendar de velhas experiências que alcança melhor resultado nas composições de Lesser Known (2011). Segundo álbum de inéditas de Boeldt, o sucessor do homônimo disco lançado em 2008 não apenas amplia o catálogo de referências do artista, como reforça a tonalidade pop do registo, presenteando o ouvinte como um rico conjunto de temas melódicos, ora dançantes, ora entristecidos. São músicas como a nostálgica Lights Out, Feels Like Heaven e todo um repertório minucioso que sutilmente amplia os domínios do disco. Nada que se compare ao cuidado em Rio, possivelmente uma das melhores composições da presente década.

 

Cloud Nothings
Attack on Memory (2012, Carpark Records / Wichita Recordings)

O apreço de Dylan Baldi pelo rock alternativo dos anos 1980/1990 nunca foi uma surpresa para ninguém. Basta voltar os ouvidos para os dois primeiros trabalhos do músico no Cloud Nothings, a coletânea Turning On (2011) e o homônimo debute de 2011, para perceber o completo fascínio do guitarrista norte-americano pela obra de artistas como Nirvana, Fugazi e The Jesus Lizard. Não por acaso, Baldi convidou o veterano Steve Albini (Big Black, Shellac) para a produção do segundo álbum de inéditas da banda, Attack On Memory (2012). De essência confessional — Baldi vinha lidando com a depressão na época em que as canções foram compostas —, o registro de 12 faixas cresce em uma estrutura raivosa e crescente, conceito detalhado de forma explícita nos quase nove minutos da intensa Wasted Days. Entre diálogos com o power pop dos anos 1970 e flertes com o pós-hardcore, o músico entrega ao público uma coleção de faixas tão ensurdecedoras quanto grudentas, caso de Stay Useless, Cut You e Fall In, ponto de partida para a “continuação” no disco seguinte da banda, o também excelente Here and Nowhere Else (2014).

 

Memory Tapes,
Grace/Confusion (2012, Carpark Records)

Em uma visão ampla, Seek Magic (2009) segue como o grande álbum da carreira do Memory Tapes e um dos marcos da música psicodélica/chillwave no fim da década de 2000. Todavia, foi com o lançamento de Grace/Confusion, em meados de 2012, que o cantor, compositor e produtor Dayve Hawk deu início a uma nova fase na própria carreira. Livre da parcial frieza que marca as canções detalhadas durante a produção do antecessor Player Piano (2011), o segundo disco pelo selo Carpark Records mostra a busca do artista por um som essencialmente grandioso, efeito da forte instrumentação que serve de base para o registro. Composições como a extensa Sheila, com mais de oito minutos de duração, em que Hawk lentamente se afasta do conceito eletrônico detalhado nos dois primeiros discos para investir em um trabalho marcado pela estrutura lisérgica dos arranjos, cuidado evidente em cada uma das seis composições que abastecem o disco.

 

Speedy Ortiz
Major Arcana (2013, Carpark Records)

Poucos grupos recentes parecem capazes de replicar com tamanha naturalidade a essência do rock alternativo nos anos 1990 quanto os integrantes do Speedy Ortiz. Depois de dois álbuns produzidos de forma independente — The Death of Speedy Ortiz e Cop Kicker, ambos de 2011 —, além, claro, de uma pluralidade de singles/EPs, o grupo comandado por Sadie Dupuis entrou em estúdio para a produção do primeiro álbum de estúdio: Major Arcana. Em um intervalo de apenas 30 minutos, cada composição do registro parece transportar o ouvinte para um território instrumental/poético diferente. Difícil não lembrar do material produzido por veteranas como Liz Phair, The Breeders e demais coletivos/projetos femininos que surgiram no mesmo período, preferência reforçada no conceito agridoce de músicas como Pioneer Spine, Tiger Tank e Now Below. Um confesso resgate de informações e contínuo diálogo com o passado, mas que em nenhum momento sufoca a identidade criativa da banda.

 

Les Sins
Michael (2014, Carpark Records)

Poucos meses após o lançamento do excelente Anything in Return (2013), obra em que explora o R&B de forma curiosa e autoral, Chaz Bundick decidiu investir em um som cada vez mais voltado à música eletrônica produzida no início dos anos 1990. Veio daí a inspiração para o dançante Michael (2014), primeiro grande álbum do produtor norte-americano sob o título de Les Sins. Perfeita representação da versatilidade de Bundick, o registro inaugurado por Talk About segue em uma atmosfera dançante até o último segundo. Entre colaborações, caso de Why, parceria com o cantor Nate Salman, Michael parece transportar o ouvinte para diferentes campos de forma sempre curiosa. Composições como Bother em que Bundick parece explorar o mesmo universo de artistas como Disclosure de forma particular, testando possibilidades e transportando o ouvinte para diferentes campos da música, como um contínuo desvendar da identidade musical do produtor norte-americano.

 

Skylar Spence
Prom King (2015, Carpark Records)

Mais conhecido pelo trabalho com o Saint Pepsi, em 2014, Ryan DeRobertis decidiu investir em um novo projeto autoral. Inspirado pelo pop dos anos 1970/1980 e os temas dançantes explorados por veteranos como Nile Rodgers, Duran Duran e Daft Punk, o cantor, compositor e produtor norte-americano deu vida ao primeiro álbum sob o título de Skylar Spence: Prom King (2015). Do momento em que tem início, na introdutória faixa de abertura, passando por canções pegajosas como Can’t See You, Ridiculous!, Fall Harder e Cash Wedensday, cada fragmento do disco parece pensado para grudar na cabeça do ouvinte. O destaque acaba ficando por conta do hit I Can’t Be Your Supermen, composição em que DeRobertis vai de encontro à música disco/funk, porém, em uma estrutura particular, detalhando camadas de ruídos, samples e sintetizadores atmosféricos que servem de complemento direto aos versos descomplicados que invadem o trabalho. Um misto de reverência criativa e reciclagem que acompanha o ouvinte até o último segundo do disco.

 

Palm
Rock Island (2018, Carpark Records)

Com o lançamento de Shadow Expert EP, em junho do último ano, Eve Alpert (guitarra, voz), Kasra Kurt (guitarra, voz), Gerasimos Livitsanos (baixo) e Hugo Stanley (bateria) pareciam resumir mudança de direção assumida pelos integrantes do Palm. A busca declarada por um som marcado pela pluralidade dos elementos e possibilidades dentro de estúdio, proposta que se repete com naturalidade dentro de segundo álbum de inéditas da banda original de Filadélfia, Pensilvânia, o colorido Rock Island. Fuga do óbvio, o trabalho de 11 faixas sutilmente amplia o universo explorado pela banda desde a estreia com Trading Basics (2015). São vozes em coro, fragmentos psicodélicos, referências ao trabalho de veteranos como The Beach Boys, além de arranjos cíclicos que não apenas prendem a atenção do ouvinte, como parecem pensados para causar desconforto, lembrando o Animal Collective em obras como Sung Tongs (2004) e Strawberry Jam (2007). Um labirinto de sensações que bagunça a experiência do ouvinte durante toda a execução.

 

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