10 Discos Essenciais: Jagjaguwar


Formado em 1996 por Darius Van Arman, um professor de matemática que decidiu gerenciar o trabalho de bandas formadas por alguns de seus amigos, o selo Jagjaguwar aos poucos se transformou na casa de alguns dos projetos mais importantes da cena alternativa dos Estados Unidos. Inicialmente voltado para a distribuição de artistas independentes que pareciam provar com elementos do folk/country, a gravadora aos poucos abriu suas portas para a chegada de novos artistas, dialogando com elementos do R&B, música eletrônica e soul. Hoje parte de um coletivo de selos que se formou em Bloomington, Indiana, a marca segue como responsável pela distribuição de obras produzidas por nomes como Bon Iver, Sharon Van Etten, Unkown Mortal Orchestra e Angel Olsen.


Okkervil River
Black Sheep Boy (2005, Jagjaguwar)

Ouvir as canções de Black Sheep Boy é como se transportar para algum lugar entre o final dos anos 1960 e início da década de 1970. Do momento em que tem início, na autointitulada faixa de abertura, música originalmente lançada por Tim Hardin em 1967, fica evidente o desejo do vocalista e líder Will Sheff em transportar para o presente uma série de conceitos testados décadas antes. São violões empoeirados e guitarras consumidas pela nostalgia, estrutura que se completa pelo lirismo confessional e doloroso do músico norte-americano, como uma clara transformação quando comparado aos antecessores Don’t Fall in Love with Everyone You See (2002) e Down the River of Golden Dreams (2007). Completo pela interferência direta de um time seleto de instrumentistas, o trabalho chama a atenção pela forma como Sheff se permite provar de ruídos atmosféricos, como em In A Radio Song, reforçando o conceito doloroso e acolhedor que orienta a experiência do ouvinte até a faixa de encerramento do álbum, A Glow.

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Dinosaur Jr.
Farm (2009, Jagjaguwar)

Depois de um longo hiato de uma década, J Mascis e Lou Barlow decidiram regressar com um novo álbum de inéditas do Dinosaur Jr, Beyond (2007). Entretanto, foi com o lançamento Farm (2009), dois anos mais tarde, que a banda de Massachusetts, agora completa pelo baterista Emmett Murph, conseguiu se restabelecer criativamente. Consumido pelas guitarras sujas de Mascis, força evidente logo nos primeiros minutos do disco, em I Want You to Know, o trabalho segue em uma estrutura lenta e ruidosa, sufocando o ouvinte a cada novo movimento. São faixas atmosféricas, como a densa Plans, a melancolia embriagada de Said The People, música que cheira a Black Sabbath, ou mesmo I Don’t Wanna Go There, com seus quase nove minutos de distorções e batidas tortas. Nada que inviabilize a criação de faixas urgentes, caso da inaugural Pieces e, principalmente, Over It, música que aponta para a boa fase do grupo, em Bug (1988) e Green Mind (1991). Intenso, Farm reverberaria em toda a sequência de obras apresentadas pela banda nos próximos anos, como I Bet on Sky (2012) e Give a Glimpse of What Yer Not (2016).

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Bon Iver
Bon Iver (2011, Jagjaguwar / 4AD)

Com o lançamento de Blood Bank EP, em meados de 2009, Justin Vernon decidiu investir na produção de um material pontuado pelo uso de ambientações eletrônicas, como uma parcial fuga do minimalismo acústico detalhado no primeiro álbum de estúdio como Bon Iver, For Emma, Forever Ago (2007). Partindo desse criativo processo de adaptação e busca por novas possibilidades, em 2011, o cantor e compositor norte-americano deu vida ao segundo registro de inéditas da carreira. Inaugurado pela atmosférica Perth, o trabalho costura passado e presente do cancioneiro norte-americano de forma sensível, como se Vernon resgatasse incontáveis elementos do soft rock produzido no final dos anos 1970 de maneira particular. São melodias delicadas, vozes tratadas como instrumentos e variações eletrônicas que seguem de onde o artista havia parado meses antes, durante o lançamento de Relayted (2010), primeiro registro do coletivo Gayang, do qual colaborou em parte expressiva das canções. O resultado desse evidente comprometimento estético está na produção de músicas como Calgary, Beth/Rest, Towers e a minuciosa Holocene, canção que parece maior e mais complexa a cada nova audição, revelando camadas que vão do jazz ao experimentalismo eletrônico. Um clássico imediato.

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Foxygen
We Are the 21st Century Ambassadors of Peace & Magic (2013, Jagjaguwar)

Da mística imagem de capa ao uso das melodias, da captação empoeirada dos arranjos ao romantismo nostálgico que embala os versos, ouvir as canções de We Are the 21st Century Ambassadors of Peace & Magic é como se transportar para o passado. Terceiro álbum de estúdio de Sam France e Jonathan Rado no Foxygen, o registro que conta com produção de Richard Swift (Damien Jurado, The Shins) se espalha aos poucos, em pequenas doses, emulando de maneira particular o trabalho de veteranos do rock psicodélico. Exemplo disso está na atmosfera hippie de No Destruction, composição que aponta a direção seguida pela dupla californiana até o último instante do álbum. São músicas como a agridoce Shuggie, com suas pequenas variações de ritmos, o rock litorâneo e cru da faixa-título ou mesmo a leveza de San Francisco, música que faz lembrar o trabalho de nomes como Mama Cass Elliot, The Zombies e The Beach Boys. Uma coleção de pequenos acertos que, ainda hoje, parece incapaz de ser igualada pelos próprios integrantes da banda.

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Unknown Mortal Orchestra
II (2013, Jagjaguwar)

Em 2011, quando os integrantes do grupo neo-zelandês Unknown Mortal Orchestra deram vida ao primeiro álbum de estúdio da carreira, havia um claro interesse em emular o rock torto de veteranos como Captain Beefheart, Frank Zappa e outros personagens inusitados dos anos 1960. Entretanto, com a chegada de II, dois anos mais tarde, o grupo formado por Ruban Nielson, Jake Portrait e Kody Nielson passou a investir em novas possibilidades, encontrando em elementos do R&B e soul a base para um novo universo autoral. Síntese desse criativo processo de transformação ecoa com naturalidade na melancólica So Good at Being in Trouble, música consumida pela saudade dos versos e profundo esmero na composição dos arranjos, como uma interpretação acessível do material entregue pela banda no primeiro álbum de estúdio. Claro que essa propositada mudança de direção não interfere na entrega de músicas como a ruidosa No Need for a Leader e Faded in the Morning, além, claro, de Swim and Sleep (Like a Shark), evidente ponto de equilíbrio entre esses dois universos conceituais.

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Sharon Van Etten
Are We There (2014, Jagjaguwar)

Do momento em que tem início, na atmosférica Afraid of Nothing, até alcançar a faixa de encerramento do disco, Every Time the Sun Comes Up, cada fragmento de Are We There reflete a poesia melancólica e profunda entrega emocional de Sharon Van Etten. Declaradamente influenciada pela obra de Bruce Springsteen, a cantora e compositora norte-americana decidiu revisitar o passado de forma autoral, fazendo do dialogo com diferentes representantes da música estadunidense a base para um trabalho que parece maior e mais completo a cada nova audição. São nomes como Adam Granduciel (The War On Drugs), Jonathan Meiburg (Shearwater), Mackenzie Scott (Torres), Jana Hunter (Lower Dens) e Mary Lattimore que auxiliam a artista de New Jersey a transformar os próprios sentimentos no principal alicerce criativo do registro. Canções como Your Love Is Killing Me, Our Love, Taking Chances e I Love You But I’m Lost, em que a multi-instrumentista parece sufocar em um oceano de experiências particulares, como uma extensão madura e sensível do material entregue nos antecessores Epic (2010) e Tramp (2012).

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Preoccupations
Viet Cong (2015, Jagjaguwar /Flemish Eye)

Com o fim das atividades do Women, grupo responsável pelos ótimos Women (2008) e Public Strain (2010), Matt Flegel (baixo, voz) e Mike Wallace (bateria) decidiram se unir aos músicos Scott Munro (guitarra, sintetizador) e Daniel Christiansen (guitarra) para formar um novo projeto, o Viet Cong. Fortemente influenciados pelo rock suja da década de 1980, além, claro, das experiências ruidosas originalmente testadas na extinta banda, o quarteto canadense fez dessa densa massa instrumental a base para o registro de sete faixas que embala o primeiro álbum de estúdio da banda. Sequência ao material entregue no também experimental Cassette EP (2013), o trabalho se espalha em meio a vozes submersas (Continental Shelf), blocos de guitarras (Pointless Experience, Silhouettes) e maquinações eletrônicas que tendem ao rock industrial (March of Progress). Um som deliciosamente caótico e sombrio, estrutura que orienta a experiência do ouvinte até a faixa de encerramento da obra, a extensa Death. Mesmo com a boa repercussão em torno do trabalho, em 2015, o grupo se veria obrigado a mudar de nome, adotando a alcunha de Preoccupations como uma resposta ao contexto negativo de título Viet Cong.

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Angel Olsen
My Woman (2016, Jagjaguwar)

Conflitos, desilusões e as conquistas de ser uma mulher. Esses são alguns dos temas que orientam o terceiro álbum de estúdio da cantora e compositora norte-americana Angel Olsen, My Woman. Originalmente concebido como um registro duplo, porém, vetado pela gravadora, o trabalho de dez faixas naturalmente se divide em duas porções distintas, como uma tentativa da cantora em capturar a atmosfera de um antigo disco de vinil. Na primeira metade do disco, faixas como a urgente Shut Up Kiss Me, Not Gonna Kill You e a dolorosa Never Be Mine, quase uma continuação do material entregue dois anos antes, em Burn Your Fire for No Witness (2014). Nada que interfira na produção de músicas como a sensível Intern, canção que se abre para a inserção de sintetizadores e temas atmosféricos, indicativo de uma nova fase na carreira da cantora. Na segunda metade do álbum, faixas densas e propositadamente arrastadas, como Sister e Woman, estrutura que naturalmente parecia apontar para o primeiro registro da cantora, o acústico Half Way Home (2012).

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Moses Sumeny
Aromanticism (2017, Jagjaguwar)

A voz sempre foi encarada como o principal instrumento de Moses Sumeny. E não poderia ser diferente. Por conta do aprendizado tardio do violão, próximo da vida adulta, o cantor e compositor californiano encontrou no uso de captações a cappella a base para cada novo registro de inéditas. Não por acaso, quando entrou em estúdio para as gravações de Aromanticism, o músico norte-americano fez da própria voz a base para parte expressiva da obra. São melodias sobrepostas, corais trabalhados de forma atmosférica e pequenos respiros que se abrem para a minuciosa inserção dos arranjos, tornando a experiência do ouvinte sempre curiosa, mágica. Para a produção do trabalho, o artista que já havia colaborado com nomes como Sufjan Stevens, St. Vincent e Dirty Projectors, decidiu mergulhar no soul dos anos 1970, fazendo de faixas como Doomed, Quarrel, Lonely World e Make Out in My Car a passagem para um universo deliciosamente nostálgico e autoral, cuidado que se reflete durante toda a produção do disco.

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Jamilla Woods
Legacy! Legacy! (2019, Jagjaguwar)

Mais conhecida pelo trabalho como colaboradora em diferentes projetos da cena de Chicago, vide encontros com Chance the Rapper, Noname e Saba, em 2016, Jamila Woods fez do político Heavn, primeiro álbum de estúdio da carreira, a passagem para um universo de emanações que pareciam dialogar criativamente com o R&B e soul dos anos 1960 e 1970. Entretanto, foi com a chegada de Legacy! Legacy!, três anos mais tarde, que a cantora e compositora norte-americana alcançou melhor resultado. Com produção assinada em parceria com diferentes representantes da música estadunidense, o trabalho firma nas principais referencias criativas da artista o estímulo para a consolidação de uma obra que dança pelo tempo de forma tão referencial quanto íntima da essência de Woods. São pouco menos de 50 minutos em que a cantora busca inspiração em nomes como a artista plástica Frida Kahlo, a poetisa e ativista Nikki Giovanni, a atriz e cantora Eartha Kitt, fazendo do trabalho um misto de homenagem e delicado resgate conceitual.

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Menções honrosas: Happy New Year (2006), da banda Oneida, In the Future (2008), do Black Mountain, New Chain (2010), do Small Black, Thought Rock Fish Scale (2016), do Nap Eyes e MITH (2018), do poeta Lonnie Holley,


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