10 Discos Para Celebrar O Outono

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10 Discos Para Celebrar o Outono

Já suamos com uma lista de ótimos discos para aproveitar o verão, pulamos para debaixo dos cobertores com um especial com os melhores álbuns para passar o inverno e até celebramos a primavera com uma seleção dos registros mais encantadores dos últimos tempos. Agora é a vez do Outono ganhar destaque no Miojo Indie. Assim como nas outras estações, preparamos dez registros que se relacionam conceitualmente com a estação, resultado que inevitavelmente acabou voltado ao trabalho artistas da música Folk e outros projetos do gênero em nossa nova seleção. De Elliot Smith a Nick Drake, de Grizzly Bear a Fleet Foxes, é hora de sofrer com 10 Discos Para Celebrar o Outono.

Aviso: Lista não recomendada para você que está sozinho, com o coração partido ou tem fortes tendências suicidas. Não nos responsabilizamos por pulsos cortados ou qualquer outra forma de manifestação suicida. Beber café em um fim de tarde melhora significativamente a audição dos registros selecionados. 

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Cat Power

Cat Power
Moon Pix (1998, Matador)

Em 1998 Charlyn Marie Marshall parecia interessada em quebrar todos os limites de própria música. Distante da música folk confessional e hermética que havia elaborado em seus três anteriores álbuns, Marshall trouxe para dentro do quarto registro em estúdio uma musicalidade muito mais abrangente, além de um novo catálogo de sons dolorosos e encantadoramente amargos. Acompanhada por Mick Turner e Jim White da banda australiana Dirty Three, a cantora deu formas a um dos registros mais sofredores daquele ano e de toda a década de 1990, trafegando de maneira sorumbática por entre arranjos de sopro surpreendentemente coesos e que se misturavam a guitarras estridentes e essencialmente sofredoras. Por todos os lados pintam verdadeiros épicos da melancolia. Canções como a soturna Metal Heart ou a devastadora Moonshiner, composições que posicionariam de forma definitiva a imagem de Marshall como um ícone dos corações partidos. Mesmo instrumentalmente cuidadoso e preenchido pela dor, o disco seria uma preparação para o que a norte-americana reservaria em seus futuros lançamentos.

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Elliot Smith

Elliott Smith
XO (1998, DreamWorks)

Elliott Smith há tempos não era mais uma figura musical desconhecida do grande público ou limitado a uma parcela minúscula de ouvintes. A boa repercussão de Either/Or (1997) havia o posicionado como uma das novas vozes da música folk norte-americana. Como se não bastasse isso, a participação do músico na cerimônia do Oscar naquele mesmo ano – defendendo a música Miss Misery, faixa composta especialmente para o filme de Gus Van Sant, O gênio Indomável (Good Will Huntinga, 1997) – havia apresentado o trabalho do cantor e compositor ao resto do mundo, transformando Smith em um dos maiores nomes do cenário musical naquele momento. XO, primeiro trabalho do artista através do selo Dream Works, flui como uma espécie de exata continuação daquilo que fora propagado pelo músico em seu trabalho anterior. Um álbum que mesmo intimista e tocado pela dor evidenciava suas composições em moldes quase grandiosos, músicas bem mais volumosas e recheadas por uma instrumentação diversificada. Por mais que Figure 8, seguinte lançamento de Smith fosse bem recebido, é com XO que o artista seria lembrado e alcançaria o ápice.

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Fiona Apple

Fiona Apple
The Idler Wheel… (2012, Epic)

Um coração partido e pronto, Fiona Apple deu vida a uma das obras mais amarguradas da música recente. Com o título imenso de The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do, o quarto registro em estúdio da compositora nova-iorquina traz uma infinidade de referências conquistadas pela artista em quase duas décadas de atuação. Construído no decorrer de um imenso hiato – Extraordinary Machine, último disco da cantora foi apresentado em 2005 -, o álbum aproxima os vocais amargurados de Fiona com a instrumentação sutil que movimenta as faixas, proporcionando uma sequência de batidas, respiros, gritos e harmonias instáveis que apenas ampliam o toque desesperador da obra. Ponta do iceberg doloroso que Appla deixa flutuar no oceano de lamentos que é o álbum, Every Single Night abre de forma colossal espalhando de forma confessional a dicotomia agridoce que decide os rumos da obra – trabalho que parece acalentar e sufocar o ouvinte durante toda a extensão. Obrigado a quem quer que tenha partido o coração dela.

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Fleet Foxes

Fleet Foxes
Helplessness Blues (2011, Sub Pop)

Enquanto o bem sucedido registro de estreia parecia transportar o Fleet Foxes para algum cenário bucólico durante a idade média, Helplessness Blues dá um salto significativo no tempo e na instrumentação que rege o trabalho do grupo. Desprovido do caráter matinal que alimentava o disco de 2008, o segundo registro em estúdio da banda de Seattle parece se relacionar diretamente com toda a produção musical da década de 1970. Estão lá os arranjos sutis de Nick Drake, o clima Country de Neil Young e até os vocais polidos de Brian Wilson nos últimos suspiros do The Beach Boys. Uma seleção de referências abastecidas pela melancolia das palavras e pelo ar entristecido do fim de tarde. Ainda que Montezuma e Battery Kinzie pareçam abastecidas pelo mesmo espírito acolhedor do álbum de estreia, The Shrine/An Argument e Grown Ocean tratam de incorporar um novo alinhamento ao som do grupo, algo próximo do épico. Regido pela necessidade de transformação, o disco parece lentamente abandonar diversas características iniciais da banda, como se a mudança ou a troca de estações, bem representada em diversas faixas, fosse uma necessidade.

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Galaxie 500

Galaxie 500
On Fire (1989, Rough Trade)

As texturas densas de guitarras, os vocais abafados e as letras consumidas pela dor fazem de On Fire uma das obras mais importantes rock alternativo. Segundo registro em estúdio do trio Galaxie 500, o álbum é ao lado de Psychocandy do The Jesus and Mary Chains e Loveless do My Blood Valentine um marco do Dream Pop e de todas as transformações que “sujaram” o cenário musical da época com distorções imedidas. Seguindo a proposta inaugurada com o disco Today (1988), o registro é o ponto de maior transformação dentro da curta, porém inventiva trajetória da banda. Dono de algumas das composições mais delicadas (e naturalmente dolorosas) da discografia do trio – como Blue Thunder, Tell Me e When Will You Come Home -, o trabalho se sustenta em um jogo de composições acinzentadas, faixas capazes de ressaltar o que há de mais sombrio nos sentimentos humanos. Livre de quaisquer exageros instrumentais, On Fire parece amarrar todas as canções em um imenso bloco de som, acerto que faz do registro um dos trabalhos mais influentes de todos os tempos.

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Grizzly Bear

Grizzly Bear
Yellow House (2006, Warp)

O segundo registro em estúdio do Grizzly Bear é um trabalho marcado pelo contraste. Enquanto as letras mergulham na mais profunda tristeza – revivendo amores que não deram certo, doses amargas de solidão e desespero -, a instrumentação parece fluir em uma direção contrária. Perfumado por pequenas orquestrações, melodias sublimes e todo um jogo instrumental que parece fluir para além dos quatro integrantes da banda, o disco lentamente arrasta o ouvinte para um oceano de tristeza e sofrimento. Mesmo confortado pela linearidade dos sons (proposta totalmente abandonada com o lançamento do disco seguinte, Veckatimest de 2009), Yellow House trata das pequenas experimentações como um complemento à delicadeza da obra. Enquanto Lullabye e Knife usam dos vocais como um artifício para fugir da obviedade, Central And Remote e Marla investem no instrumental, quebrando a estrutura de composições mais “simples”, como On A Neck, On A Spit e Colorado.

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Harvest

Neil Young
Harvest (1972, Reprise)

Poucos artistas mantiveram uma fase tão produtiva quanto Neil Young no começo da década de 1970. Responsável por obras como On The Beach (1974) e Tonight’s the Night (1975), o cantor e compositor norte-americano faria de Harvest (1972) o princípio de todas as transformações que se seguiriam até o fim da mesma década. Quarto registro em carreira solo do músico, o álbum é marcado pela saudade e pela composição dolorosa de cada uma das faixas. A diferença em relação aos trabalhos anteriores está na maneira como o músico se desprende da música Country para tratar de um disco instrumentalmente maior. Embora guitarras (como as de Alabama) se espalhem pelo álbum (principalmente na segunda metade), na maior parte do tempo Young preza pela delicadeza das composições. De acabamento intimista, faixas aos moldes de Out on the Weekend, Heart Of Gold e Are You Ready for the Country? lidam com violões, pianos e vozes de forma acolhedora, preferência que serviria de influência para os lançamentos seguintes do cantor, bem como de uma variedade de outros músicos, profundamente inspirados pela bem sucedida obra do músico.

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Nick Drake

Nick Drake
Pink Moon (1972, Island)

De acabamento intimista e gravado em duas rápidas sessões, Pink Moon representa não apenas os anseios e melancolias que tomavam conta da mente de Nick Drake em 1972, mas de qualquer jovem ouvinte que hoje descubra o universo construído no interior do álbum. Utilizando apenas de violões bucólicos e raros pianos na faixa-título, Drake e o produtor John Wood deixam fluir um registro que mesmo simples pelos arranjos, cresce dentro do cenário doloroso e ao mesmo tempo acolhedor formado pelo músico. São composição que tratam sobre o medo de crescer e a necessidade de encontrar algum lugar para si próprio (Place To Be), medo da solidão (Wich Will) e, acima de tudo, sobre a necessidade sobreviver a isso tudo – marca expressiva em faixas como Roads e From The Morning. Último registro em estúdio do sempre recluso compositor, Pink Moon foi inicialmente recebido sem grande euforia, resultado do desinteresse do cantor em divulgar o trabalho. Essencialmente macambúzio, o disco se orienta como uma materialização de todos os sentimentos depressivos que acompanhavam Drake naquele instante até o dia de sua morte, dois anos mais tarde por conta de uma overdose de medicamentos.

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The Microphones

The Microphones
The Glow Pt. 1 (2001, K Records)

A partir da segunda metade da década de 1990, Phil Elvrum tornou-se responsável por uma variedade de lançamentos caseiros, que assim como os dois álbuns do Neutral Milk Hotel, se transformariam em marcos da música independente norte-americana. Contudo, foi só a partir da chegada do novo século que o músico pareceu ter encontrado a medida exata entre suas composições intimistas e a ambientação acústica que projetava através de suas criações. Invento que teria seu ápice com a chegada do delicado e também grandioso The Glow Pt. 2 em idos de 2001. Muito embora Elvrum já tivesse estabelecido um bom resultado um ano antes, a partir do lançamento de seu sexto registro “em estúdio”, It Was Hot, We Stayed in the Water, foi só com a chegada do sétimo trabalho que o cantor e compositor foi capaz de amarrar tanto as experimentações (algo bem perceptível nos primeiros registros) quanto a fluidez amena de suas recentes composições. Esse encontro entre distintas vertentes resulta em um álbum capaz de dialogar ao mesmo tempo com aqueles que buscavam pela música folk intimista no melhor estilo Eliott Smith, quanto por quem buscava o mesmo nível de demência reforçado por Daniel Johnston.

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The Tallest Man On Earth

The Tallest Man on Earth
The Wild Hunt (2010, Dead Oceans)

Kristian Matsson já havia surpreendido com o lançamento de Shallow Grave (2008), trabalho de estreia do The Tallest Man on Earth, entretanto, foi com The Wild Hunt em 2010 que o músico conseguiu sintetizar toda a amargura de sua mente em uma obra única. Encontro doloroso entre Bob Dylan dos primeiros discos e Elliot Smith, o cantor e compositor sueco faz de cada instante no registro um passeio por aspectos intimistas e confessionais do próprio cotidiano. Mesmo que a dor se instale em cada mínimo instante do disco, a sobriedade e o esforço de Matsson em não desabar mantém firme a condução do registro. Recheado por algumas das canções mais tristes já produzidas recentemente – entre elas Love is All, Thousand Ways e A Lion’s Heart -, o cantor transforma o próprio sofrimento em um mecanismo de aproximação com o ouvinte, estabelecendo um resultado muito próximo do alcançado por Nick Drake em sua curta discografia. Da capa aos versos, tudo em The Wild Hunt se apresenta de forma amarga, porém honesta pela forma como o músico assume suas composições.

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Veja também:

Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

11 thoughts on “10 Discos Para Celebrar O Outono

  1. ótima lista!
    cada um desses discos compõem uma cor na bucólica paleta do outono.

    algumas outras cores:
    – () [Sigur Rós]
    – Blue [Joni Mitchell]
    – Ma Fleur [The Cinematic Orchestra]

  2. Acho que “I Speak Because I Can” da Laura Marling e “Teen Dream” do Beach House cairiam bem. Mesmo assim, a lista ficou muito boa!

  3. Só corrigindo, o Galaxie 500 é uma banda americana, da região de Boston, não britânica como foi dito!! Esse disco On Fire, tem uma versão estupendamente maravilhosa para Isn´t it a Pity de George Harrison, que eu choro toda vez que eu ouço!!!

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