10 Discos Para Gostar de IDM

Por: Cleber Facchi

10 Discos Para Gostar de IDM

Gênero desprezado por uns e adorado por uma centena de outros, a Intelligent Dance Music (IDM), independente de suas caracterizações ou aceitação, trouxe para a música eletrônica da década de 1990 um complemento nítido. Ponto de convergência entre as tramas sintéticas da música Techno e as ambientações típicas de estilos como o Downtempo, o gênero manifestou na estética de produtores como Richard David James (Aphex Twin) e duos à exemplo de Boards Of Canada um salto criativo em relação ao que parecia estagnado na atmosfera que alimentava as pistas naquele período. Ponto de convergência para as interferências musicais que veteranos da Ambient Music, Krautrock e até mesmo Jazz conquistaram décadas antes, a IDM acumula em pouco mais de duas décadas de “nascimento” uma seleção de obras que conseguem ir além dos próprios limites específicos do estilo, registros catalogados em mais um especial do Miojo Indie que apresenta agora 10 Discos Para Gostar de IDM. Assim como no especial sobre Ambient Music, todos os álbuns selecionados foram classificados em um grau de “complexidade”, indo de “1” a “3” de forma a facilitar a audição dos novos ouvintes.

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Actress

Actress
R.I.P. (4AD, 2012)

De todos os registros que reviveram a música eletrônica da década de 1990 no decorrer de 2012, nenhum se manifestou de forma tão original e bela quanto R.I.P. do britânico Actress. Longe de parecer uma continuação do que Richard David James (Aphex Twin) ou a dupla Boards Of Canada promoveram em seus próprios trabalhos, o inglês Darren Cunningham encontrou um ponto de transformação e perceptível originalidade. Utilizando da sobreposição constante dos ruídos, batidas e samples minimalistas de forma a produzir uma das obras mais delicadas que a música eletrônica apresentou nos últimos anos, o produtor captura o ouvinte em um cerco constante de experimentações sintéticas e quase sempre voltadas ao etéreo. Ainda que uma rápida audição pelo disco revele um trabalho de acabamentos rústicos e formas irregulares, difíceis de serem digeridas, afinal, quanto mais tempo passamos no decorrer da obra, mais ela revela seus detalhes. Seja pelas referências religiosas – Holy Water, Serpent, Jardin – ou tramas mitológicas – Shadow From Tartarus -, Cunningham abre as portas de um universo que parece existir apenas em sua mente, utilizando de “meras” batidas, ruídos e bips para contar histórias imensas e tramas sempre complexas. [2]

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Aphex Twin

Aphex Twin
Richard D. James Album (1996, Warp)

O enclausuramento natural do produtor irlandês Richard D. James serviu como a base para a construção de toda a série Selected Ambient Works, obra que trouxe no uso exato de harmonias climáticas a base para um dos maiores catálogos já construídos para a Ambient Music pós-Brian Eno. Entretanto, uma vez longe do condicionamento de estúdio a que estava submetido, o artista encontrou na ampla exposição dos sons um território de novidade. Lançado em 1996, Richard D. James Album é uma obra que substitui a leveza natural imposta pelo artista, por um jogo matemático de ruídos sintéticos. Focado em totalidade no aproveitamento das batidas, o disco encontra em traços específicos da música Techno, Drum and Bass e outras variações instrumentais praticamente criadas pelo produtor a chave para uma sequência de composições marcadas pela diversidade. Conceitualmente muito mais amplo que os primeiros álbuns, o registro isola cada canção em uma atmosfera específica de sons, o que faz com que o produtor se divida entre as pistas (Corn Mouth), orquestrações tímidas (Goon Gumpas) e até exposições sonoras típicas do krautrock (Fingerbib). Embora despreze o título de um dos pais da Intelligent dance music (rótulo que ele próprio ignora), James, ainda hoje, parece ser o primeiro nome que surge quando pensamos no gênero. [2]

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Autechre

Autechre
Tri Repetae (1996, Warp)

Uma obra construída em cima de detalhes, assim parece ser o terceiro registro da dupla britânica Autechre, Tri Repetae. Menos sintético e até delineado por azulejos orgânicos – uma quebra ao resultado parcialmente frio dos dois primeiros álbuns -, o álbum sobrepõe a crueza dos arranjos com base em uma carga de fragmentos instrumentais derramados suavemente pela obra. São pequenos samples ou sintetizadores menos tímidos que se acomodam entre as rachaduras do disco, transformando o trabalho em um álbum que praticamente obriga o ouvinte a voltar centenas de vezes em busca de novas respostas ou possíveis emanações ocultas. Com faixas que ultrapassam os oito minutos de duração, o registro praticamente inicia em cada nova música um exercício isolado da dupla, como se um novo trabalho nascesse e fosse finalizado durante o desenvolvimento de cada música. A proposta seria a base para aquilo que o grupo viria a desenvolver com maior acerto em obras como LP5 (1998) e Confield (2001), registros que mais parecem uma continuação do exercício cuidadoso imposto no terceiro álbum. Feito para ser apreciado em vinil – Sean Booth e Rob Brown consideravam o CD “limpo” demais para o resultado final do trabalho – Tri Repetae é uma obra que manipula o ruído a seu favor. [3]

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Boards Of Canada

Boards Of Canada
Music Has the Right to Children (1998, Warp)

Se a eletrônica até então parecia submetida a um cenário de frieza, resultado claro do uso calculado das batidas, samples e encaixes instrumentais sintéticos, com a chegada de Music Has the Right to Children, em 1998, todo esse resultado foi rompido. Complexo, estranho, mas acima de tudo, impossível de ser evitado, o registro de estreia da dupla Boards Of canada praticamente transporta o ouvinte para um cenário em que todas as regras foram alteradas e reescritas pelos produtores Mike Sandison e Marcus Eoin. Utilizando da captação de sons campestres, porém, estilizados em estúdio, o álbum assume em cada curta composição um nascimento, crescimento e morte imediata, como se a efemeridade fosse a bases para o ambiente sentimental/nostálgico que o duo busca para abastecer o trabalho. Vozes flutuam de forma aleatória, o vento esbarra na manipulação tímida das harmonias, batidas orgânicas crescem e se fragmentam instantaneamente. Tudo parece borbulhar em um cenário matinal tímido, como se a fragilidade fosse a resposta para o acerto da obra. Embora delimitado em um espaço (curto) de 62 minutos, o álbum parece crescer para além dos limites a que está submetido, resultado da constante interferência de ruídos, sons ambientais e colagens sujas que abastecem a obra em um sentido curioso de convite ao espectador. [2]

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Dntel

Dntel
Life Is Full of Possibilities (2001, Plug Reserch)

Se existe um responsável pela ampla difusão do rótulo da IDM no começo do novo século, este alguém é Jimmy Tamborello. Dono de um catálogo de invenções particulares que se acumulam desde o fim dos anos 1980, o artista norte-americano encontrou no primeiro álbum com o Dntel um princípio para a popularização natural do gênero, bem como um flerte bem empregado com a música pop. Confesso interessado no trabalho de veteranos da ambient music e outros produtores que ampliaram os rumos da eletrônica a partir dos anos 1990, o produtor fez da colagem de fórmulas a passagem para a arquitetura de um cenário musical totalmente próprio. Lançado em outubro de 2001, Life Is Full of Possibilities acumula aquilo que o artista havia testado artesanalmente anos antes, encaixando em um grupo de parcerias vocais um ponto de expansão desse cenário. Enquanto músicas como Pillowcase obrigam o produtor a mergulhar em um universo de timidez, outras como Fireworks reforçam o uso quase matemático das batidas, trazendo nos vocais de Anywhere Anyone (Mia Doi Todd) e (This Is) The Dream of Evan and Chan (Ben Gibbard) o principal acerto de toda a obra. Confessional por natureza, o álbum seria a base para aquilo que Tamborello e Gibbard (Death cab For Cutie) viriam a desenvolver no The Postal Service. [1]

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Ellen Allien

Ellen Allien
Berlinette (2003, BPitch Control)

Em um cenário dominado na sua maioria por homens, a produtora germânica Ellen Allien desfila com autenticidade como a responsável por um dos cardápios mais complexos da eletrônica recente. Isolada em um cenário que perverte a música Techno em pequenos experimentos e vocalizações (quase) próximas do Pop, a artista trouxe no segundo registro em estúdio um salto criativo (e particular) dentro da IDM. Cercada por sintetizadores, vozes essencialmente robóticas e batidas abafadas que resgatam os primórdios da IDM, Berlinette é uma obra que se apresenta de forma a brincar com as percepções do ouvinte. Batidas assíncronas, vozes etéreas e uma mudança constante de rumo são alguns dos princípios para aquilo que pavimenta a construção de músicas aos moldes de Sehnsucht, Push e demais canções do trabalho. Faixas que mesmo alinhadas em uma atmosfera nítida de proximidade, se perdem (de forma assertiva) em um jogo minucioso de nuances próprias. Acompanhada por um time específico de colaboradores – incluindo Sascha Ring (Apparat), com quem desenvolveria o ótimo Orchestra of Bubbles, em 2006 -, Allien trouxe na mutabilidade dos sons não apenas o princípio para cada faixa instalada no trabalho, mas para grande parte das obras posteriormente apresentadas pela artista. [1]

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Flying Lotus

Flying Lotus
Los Angeles (Warp, 2008)

Classificar a obra do norte-americano Steve Ellison com o Flying Lotus parece ser um exercício impossível de ser finalizado, entretanto, mesmo que passeie por entre estilos, cada obra do produtor parece focar em uma tendência específica. Enquanto o debut 1983 (2006) é um típico exercício de descoberta, Cosmogramma (2010) uma passagem pelo Instrumental Hip-Hop e Until The Quiet Comes (2012) um flerte com o Jazz, Los Angeles, de 2008, encontra na nostalgia dos arranjos um princípio para a expansão da IDM e de diversos outros traços da música eletrônica concentrada nos anos 1990. Com um manuseio simples de samples e batidas (que em alguns momentos lembram um Boards Of Canada suingado), Ellison faz de cada curta canção espalhada pela obra uma espécie de ponto de convergência para diferentes essenciais instrumentais. Como se fossem pequenos blocos de sons derramados aleatoriamente, o registro muda de direção sem qualquer forma de apego, como se tudo que o produtor realmente estivesse em busca fosse experimentar. Com pequenas colaborações, incluindo Laura Darlington e Gonjasufi, Los Angeles parece ser a porta de entrada mais segura e ao mesmo tempo desafiadora para o universo autoral de Flying Lotus. [2]

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Four Tet

Four Tet
There Is Love in You (2010, Domino)

Se em Rounds (2003), Kieran Habden conseguiu filtrar todas as experiências musicais de forma a desenvolver um cenário instrumental próprio, com There Is Love in You (2010) o produtor britânico não apenas alcançou o exemplar mais cuidadoso do Four Tet, como conseguiu ir além do próprio universo a que estava inicialmente habituado. Extenso e marcado pelo uso delicado dos samples e sintetizadores, o disco se divide abertamente entre as experiências da Ambient Music, as emanações de Aphex Twin e Boards Of Canada, além de todo um jogo de variações instrumentais capazes de alterar os rumos da obra constantemente. Ora dono de uma fluidez atmosférica (Circling), ora preso em um loop melódico de sobreposições (Sing, Angel Echoes), Habden encontra na variedade dos arranjos a certeza para a constante transformação dos rumos do disco. Hipnótico, o álbum posiciona vozes e sons em um cenário de complemento, evitando possíveis arrestas, ao mesmo tempo em que aprisiona o ouvinte em uma obra que precisa ser apreciada do princípio ao fim sem interrupções. [2]

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Mouse On Mars

Mouse On Mars
Iaora Tahiti (1995, Too Pure)

Enquanto Vulvaland (1994), estreia da dupla germânica Jan St. Werner e Andi Toma pelo Mouse On Mars, é uma obra de composições e efeitos naturalmente condensados, prontos, Iaora Tahiti parece recortar todo esse conjunto de sons e espalhar de forma aleatória em uma massa de referências formada por outros fragmentos sonoros. Exercício constante de pequenas transformações, o álbum é a chave para aquilo que o duo viria a desenvolver com maior propriedade nos próximos anos, casando batidas, sintetizadores e pequenos recursos de voz em um jogo propositalmente instável. Brincando com sons que vão além da música eletrônica, algo que Kanu potencializa no Krautrock e Bid em efeitos que esbarram no Dub, cada instante do registro se esparrama em um jogo de sensações vastas, como se o território musical proposto pela dupla fosse ampliado e naturalmente desfeito em cada composição. Em 1997 a dupla voltaria com Autoditacker, obra que parece construída como uma continuação aos encaixes propostos com este disco. [3]

Squarepusher.

Squarepusher
Music Is Rotted One Note (1998, Warp)

Antes de se transformar em uma espécie de produto para as apresentações ao vivo, o cuidado em estúdio e a busca por uma obra de composições detalhistas era a base para o trabalho de Tom Jenkinson. Grande mente aos comandos do Squarepusher, o produtor britânico atravessou os anos 1990 em meio a um jogo atento de ambientações sintéticas, cruzamentos com o Jazz e uma versão particular da mesma IDM proposta no início da década. Enquanto a maioria buscava pelo silêncio pontuado pela calmaria sintética dos arranjos, Jenkinson foi em busca do oposto, carregando no efeito amplo dos sons os blocos de concreto conceituais para a construção de Music Is Rotted One Note. Quase uma sequência ao que o produtor havia testado um ano anotes em Hard Normal Daddy (1997), o álbum soluciona no agrupado caótico o princípio para cada inédita música. São bases recheadas de ruídos, efeitos que vão do silêncio à explosão eletrônica em segundos, além de um forte esforço de agrupamento, como se todas as canções espalhadas pelo registro fossem na verdade imensos fragmentos de uma obra fechada. [2]


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