10 Discos Para Gostar de Krautrock

Por: Cleber Facchi

10 Discos Para Gostar de Krautrock

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Resposta aos anos de declínio criativo impulsionados pelo pós-guerra, ao final dos anos 1960 uma frente de artistas davam início a um novo cenário cultural germânico. Longe de repetir as experiências musicais expostas na cena britânica e estadunidense, grupos como Can, Faust e Neu! trouxeram no experimento a chave para a renovação, definindo não apenas as bases para Krautrock, mas uma série de conceitos que seriam expandidas para além do cerco alemão.

Inicialmente observado de forma negativa pela crítica musical da época – o próprio termo Krautrock, é uma “brincadeira” com as palavras “rock” e “repolho azedo” -, o estilo em poucos tempos tomou conta do público, resultado do esforço coletivo de seus idealizadores em construir uma identidade artística, ainda que isso não fosse necessariamente uma intenção. Embora riquíssimo, seguindo as demais listas já publicadas, separamos apenas 10 discos para gostar de Krautrock, classificando em diferentes “níveis” – 1, 2 e 3 – de forma a facilitar a audição dos novos ouvintes.

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Krautrock

Amon Düül II
Yeti (1971, Liberty)

Nascido como um coletivo político-cultural no final da década de 1960, o Amon Düül encontrou na constante interferência – interna e externa – de seus integrantes, a base para um projeto marcado pela multiplicidade de conceitos. Com a ruptura do grupo no fim do mesmo período, parte dos membros se mudaram para a Inglaterra, enquanto a outra metade permaneceu na Alemanha, fazendo do Amon Düül II um projeto essencialmente voltado ao experimento. De orquestrais clássicos ao manuseio particular do rock psicodélico, ao estrear com Phallus Dei (1969) a banda definiria todas as regras para aquilo que Yeti (1971), obra-prima do coletivo, revelaria em um jogo de experiências ainda mais provocantes. Fortemente influenciados pelo consumo de LSD, os integrantes se permitiram passear por entre atos isolados, transformando cada extensa música do trabalho em um bloco específico de sons. Apenas o princípio para uma sequência de obras que ocupariam com linearidade toda a década de 1970. [2]


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Ash-Ra

Ash Ra Tempel
Ash Ra Tempel (1971, Ohr)

Mais conhecido pelos inventos eletrônicos testados na década de 1980, o músico/produtor Manuel Göttsching, o autor do clássico E2-E4 (1984), passou grande parte dos anos 1970 brincando com as experimentações climáticas do Ash Ra Tempel. Projeto formado por Göttsching em parceria com o tecladista Klaus Schulze e o baixista Hartmut Enke, a banda precisou apenas do primeiro registro em estúdio, uma autointitulado disco lançado em 1971, para se transformar em um dos projetos mais relevantes da produção germânica do período. Brincando com texturas extensas – são “apenas” duas faixas na casa dos 20 minutos de duração -, cada integrante condensa sintetizadores e arranjos em um efeito que vai da calmaria à desconstrução, algo explícito na transformação de Traummaschine. Nítida obra de descoberta, o trabalho manifesta em cada instante um jogo volátil de sobreposições, antecipando em décadas marcas específicas que vários representantes do Pós-Rock e Drone viriam a anunciar como novidade. [3]

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Can

Can
Tago Mago (1971, United Artists)

Se pudesse definir o Krautrock em uma só obra, Tago Mago, terceiro registro em estúdio do Can, provavelmente seria o escolhido. Personificação de todas as experiências que ocupavam a Alemanha no começo dos anos 1970, o álbum vai do rock psicodélico aos ensaios da música progressiva sem perder a natural dose de experimentação. Versos que detalham de forma nonsense trechos cotidianos, guitarras que crescem e desaparecem, vozes embaladas como instrumentos, a cada instante a banda muda intencionalmente de direção, seguindo apenas as orientações sóbrias de Holger Czukay. Tão linear, quanto excêntrico, o disco converge tudo e nada em um estado assumido de desordem, como uma imensa Jam Session que parece longe de ser finalizada. Típica obra de vanguarda, o trabalho fez das sete extensas canções uma base para aquilo que obras tão díspares viriam a ressuscitar anos mais tarde. Naturalmente inventivo, o álbum seria apenas a abertura para que o grupo focasse ainda mais na instabilidade dos arranjos, algo que Ege Bamyasi (1972) e Future Days (1973) trariam como um propósito talvez maior nos anos seguintes. [1]

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Cluster

Cluster
Zuckerzeit (1974, Brain)

Enquanto o estado de desordem parecia movimentar o trabalho de bandas como Can e Neu!, Hans-Joachim Roedelius e Dieter Moebius concentraram todos os esforços na produção de um cenário hermético de pequenos inventos. Responsáveis pelo Cluster, o duo germânico trouxe no azulejo tímido se sintetizadores a base para aquilo que centenas de outros artistas encontraram anos mais tarde nas esferas da Ambient Music e do Space Rock. Em Zuckerzeit, obra mais icônica da rica produção da banda, a dupla aparece cercados por um catálogo colorido de aparelhagens eletrônicas, manuseando harmonias e ruídos sintéticos como uma massa fina, delicadamente manipulável. Acompanhados de Michael Rother, a principal mente aos comandos do Neu!, o duo parece longe de resgatar traços específicos ou pequenas referências, transformando cada composição do trabalho em um ponto visível de novidade. Um cardápio tão imenso de texturas e interferências eletrônicas, que a surpresa parece ser um constante parceira do ouvinte. [1]

.Krautrock

Cosmic Jokers
Galactic Supermarket (1974, Kosmiche Musik)

Aos “comandos” de Manuel Göttsching, Klaus Schulze (Tangerine Dream), Harald Grosskopf (Ash Ra Tempel) e Rosi Muller deram vida em 1973 ao Cosmic Jokers. Misto de supergrupo com ponto de encontro para algumas das mentes mais instáveis da cena musical germânica, o coletivo trouxe na individualidade de cada colaborador a base para uma obra que conseguiu ir além do que parecia previsto durante a formação da banda. Ondulando sintetizadores, guitarras versáteis e até vocais sampleados, Galactic Supermarket, álbum de 1974 e segundo exemplar em estúdio do grupo, talvez seja o ponto de maior relação instrumental entre os músicos. Desenvolvido em um conjunto de dois atos fragmentados – Kinder des Alls e Galactic Supermarket -, o registro, mais do que repetir experiências prévias, parece a todo o instante romper com uma possível zona de conforto, resultando em um catálogo de colagens musicais marcadas em essência pelo ineditismo. [2]

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Faust

Faust
Faust IV (1973, Virgin)

Das tramas de ruídos impostas pelo Sonic Youth, aos passeios lisérgicos que marcam a trajetória do Animal Collective, poucos registros na década de 1970 assumem tamanha influência quanto IV do grupo germânico Faust. Ponto explícito de aprimoramento, o trabalho condensa em pouco mais de 40 minutos não apenas os fundamentais elementos que marcaram a atuação da banda nos primeiros registros em estúdio, mas uma excêntrica aura ao vivo que expande de forma não tímida tudo o que outros artistas haviam experimentado antes. Marcado pelo loop psicodélico de ruídos e batidas, o álbum parece administrar tudo aquilo que os conterrâneos do Neu! haviam testado um ano antes, porém, em uma medida totalmente anárquica. Simbólica, Krautrock, faixa de abertura do disco é ainda hoje um ponto de clara representação para tudo o que caracteriza o gênero, espalhando ao longo de 11 minutos as pistas do que Jennifer, Giggy Smile e demais canções da obra viriam a manifestar com maior controle posteriormente. Um álbum que parece cruzar a linha da insanidade a todo o instante. [2]

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Krautrock

Kraftwerk
Autobahn (1974, Phillips)

Embora apresentado como um dos responsáveis pelos rumos do Krautrock, o Kraftwerk sempre manteve uma postura isolada em relação aos demais artistas conterrâneos. Centrado na produção de um som menos experimental, e até pop se levarmos em conta a obra de grupos como Faust e Can, a banda germânica de Ralf Hütter trouxe nos sintetizadores um novo objetivo, antecipando a eletrônica e marcas que seriam aproveitadas por outras esferas da música. Entretanto, mesmo dentro de suas especificidades, o grupo de forma alguma pode ser observado separadamente. Tendo nos três primeiros registros de estúdio uma espécie de ensaio, a banda encontrou em Autobahn, de 1974, sua primeira obra de efeitos conceituais e maturidade assumida. Tratando de temas cotidianos e específicos – no presente caso, as rodovias germânicas -, a banda praticamente transporta o ouvinte para um novo cenário, utilizando do orquestrado de sintetizadores e vozes um efeito de movimento constante. A experiência, bem recebida pelo público e crítica, seria repetida ainda em Radio-Activity (1975), Trans-Europe Express (1977) e The Man-Machine (1978). [1]

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Neu!

Neu!
Neu! (1972, Brain)

A divergência de ideias e a busca por uma sonoridade cada vez mais experimental serviu como motivo para que Klaus Dinger e Michael Rother deixassem o Kraftwerk no começo de carreira para formar o Neu! em 1971. O resultado de toda essa busca por uma nova sonoridade viria logo no ano seguinte, quando o primeiro registro em estúdio da banda foi oficialmente apresentado ao público. Desenvolvido em cima de seis faixas extensas e essencialmente experimentais, o disco cresce em meio ao loop excêntrico de guitarras, batidas alimentadas de forma matemática e a colagem de sons impulsionados de forma natural pelos ruídos. Trabalhado do princípio ao fim como uma espécie de faixa única, o disco agrupa as canções de maneira sempre aproximada, resultando em uma estrutura hermética que preenche de maneira climática toda a composição final do registro. Essencial para a arquitetura do Krautrock, o álbum resume na sonoridade ruidosa o princípio criativo para aquilo que Joy Division, Sonic Youth e Radiohead viriam a desenvolver décadas mais tarde. Ainda que influente para diversas gerações de bandas, o trabalho ocultaria os lançamentos seguintes do grupo, incapaz de repetir o mesmo feito. [1]

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Krautrock

Popol Vuh
In den Gärten Pharaos (1971, Pilz)

Até a morte de Florian Fricke, em dezembro de 2001, o Popol Vuh manteve a construção de uma discografia marcada pela impecabilidade dos arranjos. Fascinado pela mitologia de diferentes etnias, além, claro, da construção de temas instrumentais conduzidos pelo etéreo, Fricke fez das próprias orquestrações uma seleção de histórias  movidas pelos sons. Lançado em meados de 1971, In den Gärten Pharaos, segundo registro em estúdio do projeto, talvez seja a melhor representação de tudo o que viria a conduzir a trajetória do compositor. Enquanto ambientações conduzidas por sintetizadores definem as bases de cada canção, uma tapeçaria percussiva trata de romper instantaneamente com o marasmo da obra, fazendo com que a mente do espectador flutue entre o chão e o céu em instantes. Acompanhado pelo percussionista Holger Trülzsch e o tecladista Frank Fiedler, Fricke cria uma obra tão vasta, que basta um passeio pela obra de Daniel Lopatin e outros artista recentes para perceber até onde o Popol Vuh conseguiu chegar. [2]

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Tangerine Dream

Tangerine Dream
Zeit (1972, Ohr)

Com uma discografia que se acumula desde o final dos anos 1960, e um catálogo de obras (de estúdio) que ultrapassa com facilidade os 90 lançamentos, definir a trajetória do Tangerine Dream em um único álbum é um exercício no mínimo injusto. Projeto orquestrado (com acerto) por Edgar Froese, o mutável coletivo alemão concentra algumas das obras mais significativas de toda a produção musical dos anos 1970, trazendo em diferentes fases, a base para a projeção de um universo particular. Em Zeit, álbum de 1972, todo o concentrado conceitual da banda talvez se manifeste de forma mais provocativa, afinal, são quatro faixas (de quase 20 minutos cada) em que todas as regras da banda surgem detalhadamente assumidas. Desenvolvido em cima de um jogo de harmonias em overdubs, o trabalho acumula vozes, ruídos e toda uma carga de interferências em um propósito que beira o misticismo. Trata-se de uma obra sobre o tempo, aspecto comprovado na composição atmosférica que Froese busca repassar em cada agregado sintético exposto pelos teclados e pequenas orquestrações dissolvidas. [3]


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