10 discos para gostar de Slowcore

Por: Cleber Facchi

10 discos para gostar de Slowcore

Ainda que não exista a consolidação de uma cena específica ou movimento que possa ser analisado isoladamente, entre o fim dos anos 1980 e início da década de 1990, uma sequência de artistas deram vida ao famigerado Slowcore. Espécie de extensão da desaceleração imposta por veteranos como Slint e outros grupos de peso da época, o “gênero” também conhecido como sadcore, usa do ambiente musicalmente hermético e dos versos confessionais como uma base natural para toda uma avalanche de obras.

Encarado como um subgênero do rock alternativo, o estilo tomou conta de grande parte dos registros da época, obras assinadas por grupos como Galaxie 500, Red House Painters e Codeine, a cantores em carreira solo, caso dos primeiros anos de Cat Power ou a curta produção de Elliott Smith. Em um sentido de explicar ou talvez organizar parte do que foi essa transformação, catalogamos um conjunto de dez discos abastecidos pelas mesmas experiências do Slowcore e que resumem parte da estética que caracteriza os versos, arranjos e toda a formação atmosférica do mesmo segmento. Não estranhe o nó na garganta.

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Mercury

American Music Club
Mercury (1993, Warner Bros.)

Desde o lançamento de The Restless Stranger, em 1985, a interpretação de Mark Eitzel quanto matéria-prima da própria obra havia dado ao American Music Club um amplo cenário de possibilidades líricas. Utilizando da própria melancolia como um estímulo, o músico californiano fez das confissões a abertura para um universo marcado pela densidade dos arranjos e o teor ébrio das vozes, experimento ampliado no adulto California (1988), porém, encarado com maior naturalidade em Mercury (1993). Primeiro álbum da banda sob a proteção de um grande selo, o disco é mais do que um bem executado conjunto de arranjos e versos em um grande estúdio, mas uma obra de imersão. De Gratitude Walks, na abertura, passando por I’ve Been a Mess e Over and Done, cada instante do disco explora a tristeza do compositor, que fala sobre amor e abandono em um sentido de reaproveitamente de velhos clichês. Arranjos sombrios, um olhar para a música americana e a voz suja de Eitzel, elementos que colaboram para o cenário particular que pinta o disco com tristeza.

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Bedhead

Bedhead
What Fun Life Was (1994, Trance Syndicate)

Em 1994, olhar para a guerra britânica entre Blur e Oasis ou saborear os últimos instantes da cena de Seattle talvez fosse mais interessante do que explorar a produção independente texana, entretanto, lá estava o Bedhead com o primeiro álbum de estúdio. Musicalmente amplo se comparado com outros discos próximos, What Fun Life Was é o resultado de anos de experiências acumuladas e pequenos ensaios resumidos pela banda com singles ou EPs. Comandado pelos irmãos Matt e Bubba Kadane, o álbum é uma coleção de memórias tristes, faixas que atentam para o existencialismo jovial sem tropeçar na redundância dos versos. Ainda que o território Lo-Fi preparado para o disco esteja longe de emanar limpidez, por trás da overdose de ruídos se escondem melodias detalhistas, acordes elaborados e a capacidade da banda em cercar o ouvinte musicalmente. O primeiro até de uma série de três registros guiados pelas mesmas experiências soturnas.

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Cat Power

Cat Power
Moon Pix (1998, Matador)

Chan Marshall parecia interessada em quebrar os limites de própria música em 1998. Distante do folk hermético que havia assumido nos três primeiros álbuns, a cantora trouxe para dentro do quarto registro em estúdio uma sonoridade abrangente, além, claro, de um novo catálogo de versos dolorosos e marcados pela depressão. Acompanhada por Mick Turner e Jim White, da banda australiana Dirty Three, Chan deu vida a um dos registros mais sofredores daquele ano, quiçá de toda a década de 1990, trafegando de maneira sóbria por entre arranjos de sopro e guitarras essencialmente sofredoras. Por todos os lados do trabalho borbulham verdadeiros blocos de melancolia, experiência que guia o álbum em totalidade. São canções como Metal Heart ou a devastadora Moonshiner, faixas que assumiriam de forma definitiva a imagem de Marshall como um dos grandes ícones dos corações partidos. Ponto de partida para o cenário explorado pela cantora nos anos 2000, Moon Pix é uma obra perfumada pelo álcool e a saudade, experiências tão amargas hoje, quanto na época em que foram lançadas.

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Codeine

Codeine
Frigid Stars (1990, Sub Pop)

Poucas obras concentram tamanha melancolia em seus versos e arranjos quanto Frigid Stars, álbum de estreia do grupo nova-iorquino Codeine. Resultado das experiências dolorosas acumuladas durante anos por Chris Brokaw, vocalista da banda, o disco se movimenta em uma espiral lenta, como se cada acorde sustentado pelo grupo pesasse intencionalmente sobre o ouvinte. Guiadas pela colagem de distorções, o álbum cria o ambiente desgastado, perfeito para os versos confessionais incorporados pelo músico. Como um bloco único de experiências, o disco equilibra pequenos acordes ascendentes e vocalizações arrastadas, prendendo o público em uma espécie de vórtice sorumbático – rompido apenas no fechamento da obra. Base para o que seria expandido para The White Birch (1994), a estreia do Codeine é mais do que um agregado particular de Brokaw, mas um estímulo para o conjunto de bandas que viriam logo em sequência, todas guiadas pelas mesmas imposições tristes.

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Elliot Smith

Elliott Smith
Either/Or (1997, Kill Rock Stars)

É possível contar nos dedos o número de artistas que assumiram o próprio sofrimento com o mesmo lirismo de Elliott Smith. Capaz de traduzir os mais complexos sentimentos com naturalidade e beleza, o músico fez dos dos primeiros registros, Roman Candle (1994) e Elliott Smith (1995), pequenos ensaios para o que viria a ser tratado de foram ainda mais confessional (e dolorosa) em Either/Or (1997). Ainda que o sucesso do cantor só chegasse de fato no lançamento seguinte, XO (1998), efeito da inclusão do músico na trilha sonora do filme Gênio Indomável (1997), é com o terceiro registro “em estúdio” que Smith revela todo o seu potencial. Captado em ambientes caseiros e estúdios semi-profissionais, o álbum ultrapassa os desvios na qualidade técnica por conta da sensibilidade do compositor – sempre brando, mesmo nos instantes mais comoventes. Estão lá músicas como Between the Bars, Ballad of Big Nothing e Say Yes, faixas que reforçam o completo abandono de Smith, que usa dessa “ferramenta” como um passo direto para ocupar a mente perturbada de qualquer ouvinte.

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Galaxie 500

Galaxie 500
Today (1988, Aurora)

Meses antes de apresentar a obra-prima On Fire (1989), Dean Wareham, Damon Krukowski e Naomi Yang fizeram do primeiro álbum do Galaxie 500 um esboço sombrio. Longe do cenário onírico e da sonoridade densa que ocuparia o registro seguinte, Today (1988) é um disco que reforça todas as particularidades do trio norte-americano, fazendo de cada faixa do álbum um objeto de recolhimento confesso. Arranjos sujos, vozes econômicas e batidas ponderadas, tudo parece condensado de forma homogênea no interior da obra, que mesmo entre faixas mais “aceleradas” como Pictures e Parking Lot não ocultam o enclausuramento temático do disco. Depressivo, mas não menos apaixonado, Today, como o título aponta, revela um exercício despretensioso, como versos típicos de jovens adultos mergulhados em doses leves de distorção. Ainda que a recordação mais frequente em torno da curta obra do Galaxie 500 esteja relacionada ao disco de 1989, é no interior do álbum de estreia – e em faixas como Don’t Let Our Youth Go to Waste e Temperature’s Rising – que reside toda a essência do grupo.

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Idaho

Idaho
Three Sheets to the Wind (1996, Caroline)

Em atuação desde o começo dos anos 1990, a californiana Idaho parece seguir em busca de uma sonoridade contrária ao ambiente eufórico de Los Angeles, cidade sede do grupo. Aos comandos de Jeff Martin, único membro em atuação desde o começo da banda, o projeto coleciona uma seleção de obras fundamentais para a melancolia que ocupou o rock alternativo há duas décadas. Registros como Year After Year (1993) e This Way Out (1995), em que as guitarras de Martin pintam um plano de fundo soturno para as letras quase sempre abastecidas pela depressão do próprio criador. Dentro desse conjunto de obras coesas e que parecem dialogar conceitualmente, Three Sheets to the Wind é a que mais se destaca. Terceiro álbum de estúdio da banda, o registro de dez faixas reforça o amadurecimento do projeto, que mantém firme o uso de versos minimalistas, enquanto as harmonias e distorções leves parecem conduzir as experiências do ouvinte.

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Low

Low
Things We Lost In The Fire (2001, Kranky)

A leveza é uma constante natural dentro da discografia do Low. Parte da primeira geração de artistas guiados pelo clima denso do slowcore, o grupo de Duluth, Minnesota fez da extensa coleção de obras um catálogo de melodias tristes, porém, nenhum trabalho iguala o mesmo senso de perfeição que reside no interior de Things We Lost In The Fire (2001). Quinto registro em estúdio da banda – que já havia evoluído (e muito) com Long Division (1995) e The Curtain Hits the Cast (1996) -, o álbum deixa de lado o labirinto tímido dos primeiros discos para alertar para a grandeza dos arranjos e versos. Basta ao ouvinte a trinca sustentada por Sunflower, Whitetail e Dinosaur Act para perceber as pequenas mudanças em torno do universo da banda – agora íntima de melodias muito mais acessíveis. Seja pela presença de Steve Albini quanto produtor do álbum, ou um natural processo de crescimento do grupo, mas o fato é que cada instante da obra emana complexidade e leveza em uma mesma medida, como se uma vez dentro do terreno próprio do disco fosse impossível sair.

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Red House Painters
Red House Painters (1993, 4AD)

Mark Kozelek é um dos “personagens” mais importantes de toda a cena alternativa que abasteceu a música norte-americana entre os anos 1980/1990. Mais conhecido (hoje) pelos registros à frente do Sun Kil Moon, o músico de Massillon, Ohio, fez dos inventos conquistados com o Red House Painters uma espécie de abertura para toda a própria obra, bem como para o trabalho de uma variedade de outros artistas. Utilizando de todo um cercado de experiências particulares como estímulo para o trabalho em grupo, Kozelek e os parceiros de banda fizeram do segundo álbum de estúdio, conhecido pelo público como “Rollercoaster“, um mundo de lamentos e pequenas confissões musicadas. Estão lá faixas extensas, como Mother e Funhouse, ou mesmo criações mais curtas, caso de Grace Cathedral Park e Things Mean a Lot, músicas que reforçam a capacidade do músico em contar histórias, sem necessariamente perder o fluxo instrumental das melodias. Assim como os futuros lançamentos de Kozelek – em carreira solo ou como Sun Kil Moon -, Rollercoaster é um disco que exige tempo do espectador, como se buscasse ocultar suas experiências, entregando poucas respostas.

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The Antlers

The Antlers
Hospice (2009, Frenchkiss Records)

“Autobiográfico”, doloroso e dividido do princípio ao fim entre o real e a insanidade, assim é Hospice (2009), um dos registros mais sufocantes lançados na última década. Obra-prima do grupo nova-iorquino The Antlers, o disco se concentra na relação de uma paciente terminal e funcionário de um hospício, posicionamento que em nenhum instante dificulta o exercício metafórico dado ao álbum. São composições administradas por atos extensos e essencialmente atmosféricos, típicos do pós-rock, mas que explodem nos momentos de maior sofrimento, tratamento explícito na imposição de Sylvia, Two e demais faixas que abastecem dolorosamente o conteúdo da obra. Reflexo da própria depressão de Peter Silberman, vocalista e principal compositor do disco, Hospice é um caminho (sem volta) para dentro de um ambiente guiado pelo desespero das vozes, versos e arranjos – cada vez mais intensos e perturbadores com o passar do disco. Dissolvido em uma medida de tempo particular, o disco aos poucos converte o próprio ouvinte em “paciente”, preso ao manicômio conceitual que define a formação do disco.


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