20 Discos de 1972

Por: Cleber Facchi e Fernanda Blammer

Já passamos por 1967, 1979 e até pelo ano de 1993, entretanto, nenhuma especial da seção 10 Discos foi tão difícil de ser construído quanto eleger uma seleção de obras que marcaram 1972. Ano riquíssimo para a produção nacional – marcada pelo rock e a psicodelia – ou mesmo para a cena estrangeira – inclinada ao experimento e novas aproximações com a música pop -, expandimos nosso especial para eleger não apenas uma dezena de obras, mas 20 Discos de 1972. São trabalhos que mantém a influência constante, passeando pelo R&B, Krautrock, Rock Progressivo, Folk e Samba. Ainda assim alguns trabalhos que gostamos muito acabaram de fora da seleção final, entre eles Araçá Azul de Caetano Veloso e Let’s Stay Together de Al Green – optamos por manter apenas um disco de cada artista -, as trilhas sonoras de Superfly (Curtis Meyfield) e The Harder They Come, além de Obscured By Clouds do Pink Floyd. Aproveite para indicar nos comentários do post qual o próximo ano a ser analisado pelo Miojo Indie.

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Al Green

Al Green
I’m Still in Love With You (Hi)

Poucos aproveitaram o ano de 1972 tão bem quando Al Green. Enquanto Let’s Stay Together, trabalho lançado em Janeiro daquele ano, trouxe o lado mais pegajoso e pop do norte-americano, com a chegada de I’m Still in Love With You, em Outubro do mesmo ano, a maturidade do cantor parecia aflorar. Exageradamente romântico e capaz de transformar os próprios sentimentos em um mecanismo de aproximação com o ouvinte, Green passeia pelo disco em meio a encaixes precisos da Soul Music. Willie Mitchell, que já havia trabalhado com o músico no álbum anterior, assume com cuidado a posição de cada instrumento, dividindo com Green parte das músicas registradas no disco e mantendo durante todo o tempo uma atmosfera mezzo romântica, mezzo melancólica. Confessional, o compositor assina um verdadeiro catálogo de clássicos como Look What You Done for Me, What a Wonderful Thing Love Is e Simply Beautiful, composições que se derramam em meio a naipes de metais, guitarras temperadas pelo suíngue e a voz sempre presente de Green.

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Big Star

Big Star
#1 Record (Ardent)

Passadas mais de quatro décadas desde o clássico #1 Record, nenhum grupo ainda conseguiu igualar as mesmas melodias simétricas e as guitarras polidamente encaixadas do primeiro disco do Big Star – tudo bem, o Teenage Fanclub conseguiu chegar muito perto. Embora não mantenha um foco na sonoridade ensolarada do surf rock, típica de bandas da época, as doces harmonias construídas por Alex Chilton e seus parceiros de grupo funcionam perfeitamente para sonorizar o clima ensolarado que preenche a obra. Garantindo significado único à música pop (e estabelecendo as bases para o que viria a ser entendido mais tarde como Power Pop), o álbum e faixas como Thirteen, Don’t Lie To Me e Feel tornam a música propagada ao longo dos anos 1970 ainda atrativa e compatível com o que é produzido atualmente. Radiante, o registro possibilita uma paisagem de versos e acordes que passeiam encantadoramente pelos ouvidos do espectador, tornando evidente toda a grandiosidade do grupo de Memphis, Tennessee.

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Transa

Caetano Veloso
Transa (Polygram)

Gravado em Londres, onde vivia em exílio desde o fim da década de 1960, Transa é uma plena representação de tudo o que ocupava a vida e as experiências do cantor baiano durante o período. Plenamente influenciado pelo encontro entre o rock, o reggae e elementos da música brasileira, o músico e parceiros como Jards Macalé e Moacyr Albuquerque ocupam o trabalho com uma soma criativa de guitarras e versos que se dividem constantemente entre o inglês e o português. Doloroso, o álbum ecoa saudade e ruído durante toda a construção, algo que se revela com beleza logo na faixa de abertura, You Don’t Know Me, segue pela dor exposta em Triste Bahia e vai assim até a curta duração de Nostalgia, no encerramento do disco. Base para aquilo que Caetano viria a desenvolver no restante da década de 1970, Transa é uma apropriação de diversos elementos antes testados pelo Beatles e outros grupos britânicos, mas que se relacionam com acerto nos percursos assumidos pelo músico. No mesmo ano Veloso lançaria outro clássico, o experimental e inicialmente desprezado Araçá Azul.

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Can

Can
Ege Bamyasi (United Artists)

Do impulso criativo firmado em Monster Movie (1969) ao ponto de compreensão em Tago Mago (1971), o grupo encabeçado por Holger Czukay trouxe na instabilidade dos sons a base para uma completa perversão de tudo o que tomava conta da cena musical naquele momento. O resultado dessa  reformulação dos próprios sons e princípios instrumentais do Can está em Ege Bamyasi, quarto registro em estúdio ponto de maior transformação em toda a carreira do coletivo germânico. Tomado pela incerteza, o disco se movimenta em meio a composições que dançam sob arranjos essencialmente sutis (Sing Swan Song), faixas alinhadas em métricas jazzísticas (One More Night) ou canções que simplesmente se distanciam de tudo o que foi previamente estabelecido pelo grupo (Vitamin C, Soup). Psicodélico, mas sem os enfeites exagerados do Pink Floyd, agressivo, porém, livre do teor comercial que guiava o Led Zeppelin, o disco cresce em experimentos como fonte primordial, abrindo espaço para a voz torta de Damo Suzuki guie o ouvinte. Interessado no trabalho de Animal Collective, Gang Gang Dance ou qualquer artista que brinca com os experimentos na presente fase? Saiba que a principal fonte deles está neste disco.

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David Bowie
David Bowie
The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars (RCA)

Quando apresentou Hunky Dory, em 1971, David Bowie parecia desesperado em buscar por identidade, efeito que o músico britânico tratou de perverter por completo durante o lançamento do clássico The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars. Centrado na historia fantástica do alienígena Ziggy Stardust – que vem para a Terra em uma tentativa de salvar o planeta, monta uma banda (o Spiders From Mars) e acaba cedendo aos excessos do Rock’n’Roll -, o trabalho nada mais é do que uma metáfora para as transformações culturais e sexuais que tomavam a vida do músico naquele período. Reflexo da temporada em que viveu na cidade de Nova York e que acabou se relacionando com o cenário Glam Rock, o disco é uma completa reformulação de tudo o que Bowie havia experimentado previamente. Melódico e carregado de hits, o disco brinca com os versos em faixas como Rock ‘n’ Roll Suicide, Starman e Five Years, princípio para todas as invenções que viriam a marcar a fase mais criativa de toda a carreira do músico inglês até o fim da década de 1970.

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Gilberto Gil

Gilberto Gil
Expresso 2222 (Universal)

Os três anos de exílio em Londres serviram para reforçar a relação de Gilberto Gil com a produção nacional. De volta ao Brasil em 1972, o músico baiano manteve firme a relação com o rock britânico construída além-mar, trazendo na incorporação de elementos temáticos da cultura nordestina um estímulo dinâmico para a construção de Expresso 2222. Enquanto as guitarras se esparramam desmedidas por toda a extensão do álbum, versos do cancioneiro nordestino servem de base para o processo de readaptação do compositor, que surge envolto de forma curiosa em meio a expressões populares, sonorizações típicas e uma evolução natural daquilo que havia proposto anos antes com as cores da Tropicália. Enquanto Back In Bahia reforça a aproximação nostálgica do músico com a própria essência, faixas como Chiclete com Banana e a canção título demonstram uma plena adaptação, efeito que se intensifica na participação de Gal Costa (Sai do Sereno) e Caetano Veloso (Cada Macaco No Seu Galo). O disco abre espaço para a fase mais criativa do músico, que ainda viria a produzir clássicos como Refazenda (1975), Refavela (1977) e a colaboração com Jorge Ben no essencial Ogum – Xangô (1975).

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Lou Reed

Lou Reed
Transformer (RCA)

Enquanto o autointitulado primeiro disco solo resgatou composições esquecidas durante o período com o The Velvet Underground, Transformer serviu para apresentar Lou Reed em nova fase e de maneira definitivamente autoral. Recheado por composições inéditas, o álbum é um passo além daquilo que o músico havia testado previamente, assumindo um esforço comercial em relação aos últimos lançamentos com a antiga banda. Capaz de brincar com o apelo melódico dos sons em Perfect Day e Walk on the Wild Side, e ainda assim agressivo na construção de músicas como Vicious e Hangin’ ‘Round, Reed finaliza uma obra de composição versátil, entregando os versos sempre inventivos a um reduto de natureza pop sem parecer descartável em nenhum momento. Acompanhado de forma precisa por David Bowie e pelo produtor Mick Ronson, o álbum abre espaço para uma sequência de registros harmônicos, interrompidos apenas durante o lançamento do sujo e curioso Metal Machine Music (1975).

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Miles Davis

Miles Davis
On The Corner (Columbia)

Quem observa os lamentos climáticos de Miles Davis em obras clássicas como Kind Of Blue (1959), Nefertiti (1968) e toda a primeira década de lançamentos pela Columbia talvez fosse incapaz de imaginar os rumos assumidos pelo músico a partir da década de 1970. Trilhando o mesmo percurso inventivo de Bitches Brew (1970) e Live-Evil (1971), com a chegada de On The Corner em Outubro de 1972 Davis conseguiu se reinventar – mais uma vez. Quente, o trabalho assume na relação com o Rock Psicodélico, Funk e Jazz Fusion um exercício criativo e plenamente dominado pela transformação dos sons. Se valendo durante todo o tempo de um trompete carregado de efeitos e distorções, o jazzista comanda uma verdadeira orquestra, assumindo um percurso impregnado pelo groove e a manifestação torta dos sons durante todo o tempo. De forte aproximação com a música latina, percussão focada na essência africana e imperfeições que lidam abertamente com o experimento, o trabalho antecipa com invenção diversos elementos que viriam a ocupar a eletrônica e principalmente o Hip-Hop a partir da década de 1980.

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Harvest

Neil Young
Harvest (Reprise)

Poucos artistas mantiveram uma fase tão produtiva quanto Neil Young no começo da década de 1970. Responsável por obras como On The Beach (1974) e Tonight’s the Night (1975), o cantor e compositor norte-americano faria de Harvest (1972) o princípio de todas as transformações que se seguiriam até o fim da mesma década. Quarto registro em carreira solo do músico, o álbum é marcado pela saudade e pela composição dolorosa de cada uma das faixas. A diferença em relação aos trabalhos anteriores está na maneira como o músico se desprende da música Country para tratar de um disco instrumentalmente maior. Embora guitarras (como as de Alabama) se espalhem pelo álbum (principalmente na segunda metade), na maior parte do tempo Young preza pela delicadeza das composições. De acabamento intimista, faixas aos moldes de Out on the Weekend, Heart Of Gold e Are You Ready for the Country? lidam com violões, pianos e vozes de forma acolhedora, preferência que serviria de influência para os lançamentos seguintes do cantor, bem como de uma variedade de outros músicos, profundamente inspirados pela bem sucedida obra do músico.

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Neu!

Neu!
Neu! (Brain)

A divergência de ideias e a busca por uma sonoridade cada vez mais experimental serviu como motivo para que Klaus Dinger e Michael Rother deixassem o Kraftwerk no começo de carreira para formar o Neu! em 1971. O resultado de toda essa busca por uma nova sonoridade viria logo no ano seguinte, quando o primeiro registro em estúdio da banda foi oficialmente apresentado ao público. Desenvolvido em cima de seis faixas extensas e essencialmente experimentais, o disco cresce em meio ao loop excêntrico de guitarras, batidas alimentadas de forma matemática e a colagem de sons impulsionados de forma natural pelos ruídos. Trabalhado do princípio ao fim como uma espécie de faixa única, o disco agrupa as canções de maneira sempre aproximada, resultando em uma estrutura hermética que preenche de maneira climática toda a composição final do registro. Essencial para a arquitetura do Krautrock, o álbum resume na sonoridade ruidosa o princípio criativo para aquilo que Joy Division, Sonic Youth e Radiohead viriam a desenvolver décadas mais tarde. Ainda que influente para diversas gerações de bandas, o trabalho ocultaria os lançamentos seguintes do grupo, incapaz de repetir o mesmo feito.

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Pink Moon

Nick Drake
Pink Moon (Island)

De acabamento intimista e gravado em duas rápidas sessões, Pink Moon representa não apenas os anseios e melancolias que tomavam conta da mente de Nick Drake em 1972, mas de qualquer jovem ouvinte que hoje descubra o universo construído no interior do álbum. Utilizando apenas de violões bucólicos e raros pianos na faixa-título, Drake e o produtor John Wood deixam fluir um registro que mesmo simples pelos arranjos, cresce dentro do cenário doloroso e ao mesmo tempo acolhedor formado pelo músico. São composição que tratam sobre o medo de crescer e a necessidade de encontrar algum lugar para si próprio (Place To Be), medo da solidão (Wich Will) e, acima de tudo, sobre a necessidade sobreviver a isso tudo – marca expressiva em faixas como Roads e From The Morning. Último registro em estúdio do sempre recluso compositor, Pink Moon foi inicialmente recebido sem grande euforia, resultado do desinteresse do cantor em divulgar o trabalho. Essencialmente macambúzio, o disco se orienta como uma materialização de todos os sentimentos depressivos que acompanhavam Drake naquele instante até o dia de sua morte, dois anos mais tarde por conta de uma overdose de medicamentos.

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Novos Baianos

Novos Baianos
Acabou Chorare (Som Livre)

Até o lançamento de Acabou Chorare, em 1972, o coletivo Novos Baianos parecia em busca de identidade, efeito que transformou o debut É Ferro na Boneca (1970) em uma plena representação do rock psicodélico que ocupava a música naquele instante. Fortemente influenciados por João Gilberto, pelas guitarras de Jimi Hendrix e abertos ao teor coletivo da temática Hippie, com o segundo registro em estúdio a banda assumiu uma completa reformulação sonora e poética, exercício que guia com versatilidade a ainda hoje influente obra. De um lado estão as guitarras dinâmicas de Pepeu Gomes, abrindo espaço para a voz sempre instável de Baby Consuelo; no outro oposto, os arranjos ponderados e a voz pacata de Morais Moreira, encontro que se acresce de ritmo na mistura ensolarada de samba, bossa nova e rock que acaba por conduzir toda a formação do registro. Espécie de respiro ao teor melancólico e denso que ocupava a música nacional durante o período – efeito da pressão imposta pela Ditadura Militar -, o álbum se expande em meio a canções de forte apelo melódico e descompromisso, manuseio claro nos versos e sons que alimentam A Menina Dança, Besta é Tu e Tinindo, Trincando, clássicos imediatos que acompanham o fluxo acelerado do disco. Influência assumida de uma centena de artistas nacionais, Acabou Chorare ocupa um merecido lugar de destaque no topo dos grandes registros brasileiros.

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Paul Simon

Paul Simon
Paul Simon (CBS)

O fascínio de Paul Simon pela World Music parece algo típico do inventivo Graceland (1986), entretanto, mais de uma década antes, a relação do norte-americano com os diferentes ritmos regionais já era algo expressivo na construção do segundo disco em carreira solo. Primeiro registro em estúdio desde o fim da parceria com Art Garfunkel, o autointitulado álbum de 11 faixas é uma interpretação particular de Simon em relação à Folk Music ampliada anos antes por Bob Dylan. Delicado, o trabalho se constrói em meio a representações poéticas particulares do músico, que usa travessias pelo passado e metáforas para manifestar um disco essencialmente confessional. Musicalmente o álbum possibilita ao músico experimento. Enquanto Mother and Child Reunion, na abertura do disco, se apropria de elementos claros do reggae, Duncan absorve no uso de flautas peruanas um complemento sublime. Sobre ainda para o percussionista Airto Moreira marcar presença em Armistice Day e Me and Julio Down by the Schoolyard, antecipando de forma tímida o que viria a caracterizar a atuação do músico de New Jersey na década de 1980.

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Paulinho da Viola

Paulinho da Viola
A Dança da Solidão (EMI)

O sofrimento é parte essencial na construção final de A Dança da Solidão. Obra-prima de Paulinho da Viola, o álbum percorre versões e faixas autorais de inclinação sempre macambúzia, músicas capazes de maturar aquilo que o sambista carioca vinha desenvolvendo desde a metade da década de 1960. Entre inventos próprios e canções que revivem o trabalho de Cartola (Acontece), Nelson Sargento (Falso Moralista) e Geraldo das Neves (Papelão), o músico passeia por composições tomadas pela amarga dos versos e o apelo cotidiano das temáticas. São músicas que retratam de forma branda o abandono, como em Duas Horas da Manhã (“Vou subindo o morro sem alegria/ Esperando que amanheça o dia/ Qual será o paradeiro daquela que até agora não voltou?”), e o ciclo vicioso do sofrimento, bem expresso nos versos de Coração Imprudente (“E depois de cair no chorinho/ Sofrer de novo o espinho/ Deixar doer novamente”), faixas que compartilham do sofrimento como uma manifestação coletiva, fazendo dos vocais de Paulinho apenas o princípio um elemento guia.

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Randy Newman

Randy Newman
Sail Away (Atlantic)

Mais conhecido pelo trabalho na trilha sonora de filmes como Toy Story, Monstros S/A e diversos outros clássicos da Disney, Randy Newman desenvolveu na década de 1970 uma coleção de registros importantes para a consolidação do Soft Rock na cena norte-americana. Em constante produção desde o fim da década de 1960, o arranjador e pianista californiano trouxe em Sail Away de 1972 seu melhor exemplar. Harmônico, o álbum cresce em uma estrutura confortável de vozes, bases de piano e todo um acabamento musical tomado por orquestrações clássicas que simplesmente dançam de acordo com as vozes do cantor. Erroneamente tratado como um disco doloroso e até confessional, o álbum nada mais é do que uma representação irônica de Newman sobre a política, religião, os costumes e o estilo de vida estadunidense. Uma evidencia retratada assim que o disco tem início nos versos sarcásticos da faixa título, quando proclama “Na América cada homem é livre/ para cuidar de sua casa e família/ Você será tão feliz quanto um macaco em uma árvore de macacos”.

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Roxy Music

Roxy Music
Roxy Music (Polydor)

Antes da invasão do Punk Inglês ou mesmo da  apropriação de sintetizadores que definiriam a New Wave na década de 1980, os britânicos do Roxy Music se divertiam com os mesmos elementos de forma criativa, antecipando tendências. Manifestação assertiva dos versos de Bryan Ferry, teclados de Brian Eno e guitarras velozes de Phil Manzanera, o registro de estreia do Roxy Music se apresenta como um jogo criativo de vozes e sons que ocupam toda a extensão da obra. Abertura para uma série de registros clássicos assinados pela banda – entre eles For Your Pleasure (1973), Stranded (1973) e o icônico Country Life (1974) -, o autointitulado debut aposta em uma sonoridade que separa e reagrupa os elementos durante todo o percurso do trabalho. Sempre próximo da música pop, porém, observando nisso um esforço constante de transformação, o álbum brinca com elementos exatos do Glam Rock, Art Rock e experimentações tímidas, convertendo músicas como 2 H. B., Ladytron e If There Is Something na base para o que viria a ser compreendido em totalidade apenas décadas mais tarde.

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Stevie Wonder

Stevie Wonder
Talking Book (Tamla)

Embora tivesse atravessado a década de 1960 em meio a uma seleção de registros bem resolvidos, foi ao longo dos anos 1970 que Stevie Wonder trouxe o melhor catálogo da carreira. Princípio de uma série de acertos que resultariam em obras como Innervisions (1973) e Songs in the Key of Life (1976), Talking Book traz na multiplicidade dos sons e vozes a base inventiva para que o seria traduzido em uma das obras mais criativas do Soul/Funk durante todo o período. Valorizando o uso de vocais fracionados com uma sequência de colaboradores, Wonder alimenta a criação de músicas como You Are the Sunshine of My Life e You and I, canções que encontram no propósito romântico uma abertura para o universo particular do músico. Ora mergulhado em uma sonoridade calorosa (como a expressa em Superstition), ora capaz de esboçar uma composição tomada de sutilezas (vide Blame It on the Sun), o disco garante segmento ao esforço iniciado meses antes com Music of My Mind (também de 1972), maturando um projeto que cruza o rock e o R&B em uma medida própria do norte-americano.

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T. Rex

T. Rex
The Slider (Wizard)

Quem olha para o trabalho do T. Rex quase sempre encontra nas guitarras e vozes épicas de Electric Warrior (1971) uma plena representação do trabalho da banda britânica. Entretanto, é na composição melódica que The Slider que Marc Bolan, vocalista e criador da banda, parece realmente ter encontrado a sonoridade que parecia em busca desde o começo da carreira. Registro fundamental para a consolidação do Glam Rock em solo inglês, o álbum incorpora no esforço dicotômico de guitarras sujas e vozes polidas um princípio para a realização de todo o disco. Seguindo os passos do trabalho lançado um ano antes, porém, tratando cada faixa com cuidado e profunda atenção, o disco fecha uma seleção bem traduzida de canções alimentadas pelas drogas, sexo e as visões distorcidas de Bolan, que assume com cuidado cada verso do registro. Tony Visconti, que já havia trabalhado com a banda nos dois primeiros discos, volta para finalizar o álbum com uma carga de arranjos suntuosos, orquestrando vozes e sons de maneira a ocupar todas as lacunas da obra.

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rolling

The Rolling Stones
Exile On Main St. (Rolling Stones)

Um registro de excessos e acertos, assim é a proposta que orienta Exile On Main St., décimo e possivelmente a maior obra já lançada pelos ingleses do The Rolling Stones. Resultado de uma fuga do grupo para a França – a banda acumulava dívidas altíssimas no Reino Unido, fruto de anos de impostos não pagos, sendo obrigada a se exilar fora da Inglaterra para que não tivesse os bens apreendidos -, o álbum flutua entre os abusos com as drogas e a necessidade da banda em voltar para casa. Em construção desde o fim da década de 1960, o registro duplo se apresenta como uma confessa homenagem aos sons proclamados na década de 1950, principalmente o Blues e a música Country. Intenso, o álbum reforça a parceria entre Mick Jagger e Keith Richards, que assumem em quase totalidade a composição lírica e sonora do álbum. Intenso, o disco acerta até a última música, crescendo em meio a faixas como Rip This Joint, Sweet Virginia e Let It Loose, composições que alternam a crueza dos arranjos com instantes de visível cuidado instrumental.

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Yes

Yes
Close to the Edge (Atlantic)

A experimentação assumida desde o começo da década de 1970 favoreceu ao Yes um princípio natural de transformação com o lançamento de Close to the Edge. Originalmente concebido em cima de três imensas composições – além da faixa título acompanham And You and I e Siberian Khatru -, o registro se divide em pequenos atos, possibilitando ao quinteto de instrumentistas a construção de paisagens sonoras de esforço épico. Embora Steve Howe assuma com detalhe a formação de todas as bases sonoras que caracterizam o disco, brincando com as guitarras e violões em uma medida carregada de misticismo, é de Rick Wakeman a responsabilidade em ampliar os limites da obra. Responsável pelas harmonias sintetizadas que ocupam o trabalho, o tecladista cobre toda e qualquer lacuna que surge eventualmente, estruturando o terreno perfeito para que os vocais de Jon Anderson, o baixo de Chris Squire e a bateria de Bill Bruford (que deixaria o grupo passada a gravação do disco) cresçam de forma sempre inventiva. A banda havia criado uma linguagem própria e ao mesmo tempo o princípio para uma centena de bandas que viriam pelos próximos anos.

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