25 Discos de 1968

 

Marcado pela forte agitação política e conflitos espalhados por diferentes partes do mundo, 1968, “o ano que não terminou”, foi para o cenário musical um período de intensa produção artística. Enquanto o Brasil via o nascimento da Tropicália e a forte contestação à Ditadura Militar, nos Estados Unidos e Europa, a psicodelia impulsionada um ano antes pelo Verão do Amor ganhava um novo capítulo. Nesse cenário turbulento, a chegada de obras fundamentais para o fortalecimento do jazz (Nefertiti), rock (Electric Ladyland), soul/R&B (Lady Soul), eletrônica (The United States of America) e música popular brasileira (Tropicalia ou Panis et Circencis). Uma seleção de clássicos organizados em nossa lista com 25 discos essenciais lançados há 50 anos. Menções honrosas paraGrande Liquidação, de Tom Zé, Friends, dos Beach Boys e Krishnanda, de Pedro Santos.

 

Aretha Franklin
Lady Soul (1968, Atlantic)

Mesmo com a mudança para a Atlantic Records, em 1967, Aretha Franklin lançou nada menos do que quatro álbuns de estúdio — Take It Like You Give It, ainda pela Columbia, Aretha Arrives, Take a Look e o principal deles, o clássico imediato I Never Loved a Man the Way I Love You. Inspirada, a cantora voltou no ano seguinte com uma nova preciosidade em mãos: Lady Soul. Produzido em um intervalo de poucas semanas, o trabalho concebido em colaboração com o velho parceiro, o produtor Jerry Wexler, mostra a força de Franklin mesmo nos instantes mais contidos. Um misto de soul, rock e R&B que tem início na enérgica Chain of Fools, cresce em faixas como (Sweet Sweet Baby) Since You’ve Been Gone, Come Back Baby e People Get Ready, essa última, de Curtis Mayfield, e segue em uma estrutura grandiosa até o romantismo doloroso que invade Ain’t No Way, composição em que a cantora se entrega ao jazz. Nada que se compare à força avassaladora de (You Make Me Feel Like) a Natural Woman, música originalmente composta por Carole King, porém, eternizada na voz de Franklin.

 

Big Brother and the Holding Company
Cheap Thrills (1968, Columbia)

Da icônica imagem de capa, produzida pelo quadrinista Robert Crumb, ao esforço do produtor John Simon em emular uma atmosfera de disco ao vivo, efeito da inserção de vozes e ruídos de uma multidão, cada elemento de Cheap Thrills parece trabalhado de forma minuciosa. Segundo registro Big Brother and the Holding Company, o trabalho de sete faixas segue exatamente de onde a banda — na época formada por Janis Joplin (voz), Sam Andrew (guitarra e baixo), James Gurley – (guitarra), Peter Albin (baixo e guitarra) e Dave Getz (bateria) —, haviam parado no ano anterior, durante o lançamento do homônimo debute do grupo. Em um misto de blues e rock psicodélico, cada canção do disco se abre para a voz rasgada de Joplin, sempre em contraste às guitarras lançadas por Andrew. Um misto de caos e delírio que cresce no interior de músicas como Summertime, Piece of My Heart e na extensa Ball and Chain, pouco mais de nove minutos em que a banda se entrega ao jogo de pequenos improvisos. Obra-prima do grupo, Cheap Thrills seria o último trabalho com a presença de Janis Joplin que partiria em carreira solo no ano seguinte.

 

Caetano Veloso
Caetano Veloso (1968, Phillips)

Um salto criativo. Se em Domingo (1967), registro assinado em parceria com Gal Costa, o diálogo com a bossa nova parecia orientar o trabalho de Caetano Veloso, um ano depois, ao mergulhar no primeiro álbum em carreira solo, o cantor e compositor baiano se apresentava ao público como uma figura transformada, curiosa. Princípio de todas as articulações que viriam a abastecer o movimento tropicalista, o trabalho que conta com arranjos e produção assinada por Rogério Duprat flutua entre a estranheza e o curioso senso de descoberta, postura evidente na inaugural (e hoje icônica) Tropicália. São composições que provam de temas psicodélicos (No Dia Em Que Eu Vim-me Embora), detalham guitarras carregadas de efeitos (Superbacana) e ainda revelam versos maquiados pela inserção de metáforas e significados ocultos, caso de Alegria, Alegria, música que dialoga com o cenário político/cultural daquele período. Entre pequenas colaborações, como Onde Andarás, canção assinada em parceria com Ferreira Gullar, cada fragmente do registro parece servir de ponte para o material que seria apresentado posteriormente no também clássico Tropicalia ou Panis et Circencis.

 

Chico Buarque
Chico Buarque de Hollanda – Volume 3 (1968, RGE)

Quando se discute sobre a poesia política de Chico Buarque, Morte e Vida Severina (1966) e o clássico Construção (1971) talvez sejam as principais referências ao trabalho do cantor e compositor carioca. Todavia, sobrevive nas canções de Chico Buarque de Hollanda – Volume 3, quarto álbum de estúdio do artista, um fino exercício desse evidente amadurecimento poético. Mesmo embalado pelo romantismo melancólico de faixas como Ela Desatinou, Carolina, Januária Retrato em Branco e Preto, essa última, colaboração com Tom Jobim, parte expressiva do trabalho se projeta como um declarado ato de enfrentamento ao governo ditatorial. Músicas como a já conhecida Funeral de um Lavrador, gravada dois anos antes, e a icônica Roda Viva. Originalmente composta para a peça de teatro de mesmo nome, também escrita por Buarque, a canção que incialmente não tinha contornos políticos, acabou se transformando em um símbolo de luta contra o regime, dialogando com a mesma poesia provocativa de Apesar de Você e Cálice.

 

Cream
Wheels of Fire (1968, Polydor)

Wheels of Fire é um desses discos que você descobre ainda na adolescência, mas que acaba carregando para o resto da vida. Sequência ao maduro Disraeli Gears (1967), uma das grandes preciosidades do rock psicodélico nos anos 1960, o trabalho que mais uma vez conta com a produção de Felix Pappalardi mostra o esmero do trio formado por Eric Clapton (guitarra e voz), Jack Bruce (voz e baixo) e Ginger Baker (bateria e voz) na composição de cada elemento da obra. São verdadeiras viagens instrumentais, como na reinterpretação do blues Sitting on Top of the World, ou nas orquestrações que invadem a inaugural White Room, ainda hoje, uma das canções mais executadas do supergrupo britânico. Minucioso na primeira metade, Wheels of Fire cresce ainda mais no segundo bloco de canções. São quatro faixas gravadas ao vivo — Crossroads, Spoonful, Train Time e Toad —, que mostram a passagem do trio pelo Teatro Fillmore, em São Francisco, na Califórnia.

 

Gilberto Gil
Gilberto Gil (1968, Philips Records / Universal Music)

Um dos marcos do movimento tropicalista, Frevo Rasgado, como é conhecido o segundo registro de inéditas de Gilberto Gil, mostra um artista louco, entregue ao lento desvendar de ideias e pequenas possibilidades dentro de estúdio. Trata-se de uma colorida mistura de ritmos, fórmulas instrumentais, versos e elementos da cultura regional, transformação evidente logo na provocativa imagem de capa do disco, com o músico baiano trajando vestes militares em meio a formas psicodélicas. Entre as canções que recheiam o disco, uma verdadeira coleção de clássicos da nossa música. São faixas como Domingou, Procissão, Luzia Luluza, Coragem pra Suportar e a icônica Domingo no Parque, composição premiada com o segundo lugar no III Festival de Música Popular da TV Record, de 1967. Junto de Gil, a breve interferência d’Os Mutantes, além, claro, dos arranjos e a regência de Rogério Duprat, grande responsável pelo colorido lisérgico que invade o disco.

 

Jimi Hendrix
Electric Ladyland (1968, Reprise)

Terceiro e último disco do The Jimi Hendrix Experience, Electric Ladyland não apenas preserva a essência experimental dos antecessores Are You Experienced e Axis: Bold as Love, lançados em 1967, como eleva lírica e musicalmente o trabalho de Jimi Hendrix. São 16 faixas e pouco mais de 70 minutos de duração em que o cantor, compositor e guitarrista norte-americano brinca com a colagem de diferentes gêneros musicais, indo do rock psicodélico ao toque sedutor do R&B, base para grande parte do repertório apresentado na primeira metade do registro. São canções improvisadas, como nos 15 minutos de Voodoo Child, o toque provocativo em Have You Ever Been (To Electric Ladyland), ou mesmo a colagem de ritmos, em Still Raining, Still Dreaming, música que anteciparia uma série de conceitos posteriormente incorporados pelo Led Zeppelin e demais representantes do hard rock na década de 1970. O destaque acaba ficando para a bem-sucedida adaptação de All Along the Watchtower, música originalmente composta por Bob Dylan.

 

Johnny Cash
At Folsom Prison (1968, Columbia)

O fascínio de Johnny Cash pela Penitenciária Estadual de Folsom, na Califórnia, bem como a vida no sistema prisional, teve início no começo dos anos 1950, durante o período em que o músico norte-americano serviu à força aérea dos Estados Unidos e teve contato com o filme Inside the Walls of Folsom Prison (1951), de Crane Wilbur. Veio daí a inspiração para Folsom Prison Blues, música que levou Cash a se apresentar em diferentes prisões espalhadas pelo país. Em 1967, depois de passar por um longo período de reabilitação, Cash e o produtor Bob Johnston decidiram registrar uma apresentação ao vivo, dentro do complexo penitenciário de Folsom, estímulo para as 16 faixas que abastecem o icônico At Folsom Prison (1968). Com a presença de June Carter, Carl Perkins e os músicos do Tennessee Three, Cash passeia por entre composições autorais (Send a Picture of Mother) e versões para o trabalho de outros artistas (Dark as the Dungeon), sempre acompanhado pelos gritos efusivos dos detentos. Mesmo com pouco investimento da gravadora para a divulgação do trabalho, At Folsom Prison alcançaria sem dificuldade o topo das paradas de sucesso, se transformando em um dos registros mais lembrados de Cash.

 

Laura Nyro
Eli and the Thirteenth Confession (1968, Columbia)

Relacionamentos fracassados, a proximidade da morte, abusos com drogas e a permanente busca pelo amor, esses são alguns dos temas que marcam o segundo álbum de estúdio da cantora e compositora nova-iorquina Laura Nyro, Eli and the Thirteenth Confession. Sequência ao material apresentado um ano antes, em More Than a New Discovery (1967), e uma das principais influência para o trabalho de Kate Bush, Tori Amos, St. Vincent e Fiona Apple, o registro que abre com a intensa Luckie se espalha em meio a variações de jazz, soul e música pop, como se a artista testasse os próprios limites dentro de estúdio. Junto da cantora, as orquestrações do experiente Charles Calello, compositor que já havia trabalhado com nomes como Frank Sinatra. O resultado está na composição de faixas marcadas pela completa versatilidade da artista, caso de Poverty Train, Sweet Blindess, Eli’s Comin’Stoned Soul Picnic, música que ganharia ainda mais destaque na reinterpretação do coletivo The 5th Dimension.

 

Miles Davis
Nefertiti (1968, Columbia)

Sempre prolífico, em 1968 Miles Davis lançou não apenas um, mas três álbuns de estúdio. Entregue ao público em janeiro daquele ano, Nefertiti, o mais relevante deles, é o último trabalho totalmente acústico do trompetista norte-americano, servindo como um precioso rito de passagem para a fase elétrica que seria inaugurada no disco seguinte, Miles in the Sky (1968). Acompanhado pelos músicos Tony Williams (bateria), Ron Carter (baixo), Wayne Shorter (saxofone) e Herbie Hancock (piano), esses dois últimos, principais responsáveis pela composição das faixas, Davis passeia por entre atos melódicos e pequenos respiros criativos que se abrem para a inserção de cada instrumento. São canções lentas, propositadamente arrastadas, como se o quinteto explorasse ao máximo cada nota dentro de estúdio. Peças detalhistas como a já conhecida Fall, Madness, Riot e a própria faixa título, composições em que a melancolia cresce desmedida, lembrando o som incorporado no antecessor Sorcerer (1967).

 

Os Mutantes
Os Mutantes (1968, Polydor)

Dos ruídos e instantes de completo delírio que abrem o trabalho, em Panis et Circenses, de Caetano Veloso e Gilberto Gil, passando pelo rock descomplicado de Minha Menina, a anti-bossa em Baby ou mesmo a mistura de ritmos regionais e toda a percussão de Bat Macumba, cada elemento do primeiro álbum d’Os Mutantes parece transportar o ouvinte para um território completamente novo, incerto, conceito que parece impossível de ser replicado mesmo hoje, cinco décadas depois do lançamento o disco. Trata-se de um esforço coletivo entre a mente insana do trio, na época formado por Rita Lee (voz, flauta doce, percussão), Arnaldo Baptista (baixo, teclados, voz) e Sérgio Dias (guitarras, voz), em parceria com o maestro Rogério Duprat, dono dos arranjos que se espalham de forma inexata ao longo da obra. Junto ao grupo, a produção minuciosa de Manoel Barenbein, responsável por ampliar mesmo o ruído mais insignificante que se esconde por entre as brechas das canções. Um espaço aberto ao reinvento, postura que seria mantida pela banda até o início da década seguinte, influenciando dezenas de artistas como Beck, Stereolab, David Byrne e Boogarins.

 

Silver Apples
Silver Apples (1968, Kapp)

É difícil imaginar que o primeiro álbum do Silver Apples tenha sido produzida há cinco décadas. Contando apenas com um sintetizador primitivo, além, claro, da bateria seca de Dan Taylor, Simeon Oliver Coxe conseguiu antecipar uma série de elementos e experimentos eletrônicas que viriam a abastecer diferentes projetos pelos próximos anos. São nove faixas e pouco mais de 30 minutos de duração em que o ouvinte é mergulhando em um cenário de ambientações hipnóticas, como em Velvet Cave, passa por instantes de detalhada psicodelia eletrônica, vide Oscillations, e ainda se depara com uma série de conceitos inovadores, como o inusitado uso de samples na quarta faixa do disco, Program. Um lento desvendar de ideias que se apropria de elementos do jazz, vide Seagreen Serenades, porém, a todo instante parece jogar com um conjunto de regras próprias, apontando a direção que viria a ser explorada por artistas como Suicide, The Apples in Stereo e Stereolab anos mais tarde.

 

Simon & Garfunkel
Bookends (1968, Columbia)

O sucesso em torno de The Sound of Silence, música eternizada na trilha sonora do filme A Primeira Noite De Um Homem (1967), poderia facilmente sufocar a obra de Paul Simon e Art Garfunkel, restringindo o trabalho da dupla norte-americana ao clássico caso de um projeto marcado pelo rótulo de “one-hit wonder”. Inventivo, Simon decidiu ir além, transportando o som produzido em estúdio para um novo território criativo. O resultado está na produção do experimental Bookends, um verdadeiro mosaico de vozes, ruídos, captações caseiras e melodias preciosas, sempre climáticas. Entre ambientações que se descolam do folk para dialogar de forma sutil com elementos do jazz, uma poesia sensível e sempre intimista, ganha forma. Trata-se de uma obra conceitual, guiada em essência pela temática da juventude, desilusões amorosas, conflitos e o medo de encarar a vida adulta. Canções que refletem a sempre conturbada relação entre os dois músicos, caso de Fakin’ It, ou mesmo faixas que exploram a construção de um personagem específico, como Punky’s Dilemma e Mrs. Robinson, essa última, segunda composição da dupla a alcançar o topo das paradas de sucesso.

 

The Band
Music from Big Pink (1968, Capitol)

Depois de colaborar com Bob Dylan, Ronnie Hawkins e uma dezena de outros representantes da cena norte-americana, Rick Danko (baixo e voz), Levon Helm (bateria e voz), Garth Hudson (órgão, piano e saxofone), Richard Manuel (piano, órgão e voz) e Robbie Robertson (guitarra e violão) entraram em estúdio para a gravação do primeiro álbum de estúdio como The Band, Music from Big Pink. O próprio nome do coletivo — “a banda”, em português —, veio justamente do trabalho do grupo como músicos de apoio de diferentes projetos autorais. Sob a produção de John Simon, o quinteto delicadamente amplia uma série de conceitos que vinham sendo explorados ao lado de Dylan, autor de três faixas do disco (This Wheel’s on Fire, Tears of Rage e I Shall Be Released) e da ilustração que estampa a capa do trabalho. São variações da música americana, country e folk, sonoridade reforçada em músicas como To Kingdom Come, a entusiasmada We Can Talk e The Weight, música eternizada na trilha sonora do filme Easy Rider (1969).

 

Roberto Carlos
O Inimitável (1968, CBS)

Primeiro álbum de Roberto Carlos após a saída do programa Jovem Guarda, da TV Record, O Inimitável é um claro ponto de ruptura na carreira do cantor e compositor capixaba. Logo na abertura do disco, a doce melancolia de E Não Vou Mais Deixar Você Tão SóNinguém Vai Tirar Você De Mim, músicas que transportam o som produzido pelo artista para um território completamente novo, intimista e naturalmente livre da jovialidade tola que parecia impulsionar os antigos trabalhos do cantor. Contudo, a mudança de direção em nada interfere na produção faixas essencialmente enérgicas, caso do clássico imediato Se Você Pensa, parceria com Erasmo Carlos, além de Ciúme de VocêNão Há Dinheiro Que Pague, ambas fortemente influenciadas pela música negra dos Estados Unidos. Completo pela presença de Renato e seus Blue Caps e dos teclados de Lafayette, o álbum ainda carrega nas confissões de Eu Te Amo, Te Amo, Te AmoQuase Fui Lhe Procurar parte do romantismo que viria a ser explorado pelo músico durante toda a década de 1970.

 

The Beatles
The Beatles (1968, Apple)

Por trás da imagem minimalista que estampa a capa do 10º registro de inéditas dos Beatles, uma obra caótica. Concebido durante um período de forte interferência criativa de Yoko Ono, desencontros e conflitos diários entre os integrantes da banda — Ringo Starr chegou a abandonar as sessões do disco temporariamente —, o sucessor do psicodélico Magical Mystery Tour (1967) mostra o esforço do quarteto britânico em se reinventar dentro de estúdio, fazendo de cada uma das 30 faixas que recheiam o álbum duplo um fragmento curioso. Estão lá composições icônicas como Back in the U.S.S.R., a pegajosa Ob-La-Di, Ob-La-Da e Helter Skelter, assumidas por Paul McCartney; as baladas Dear Prudence e I’m So Tired, de John Lennon; a lisergia mágica de While My Guitar Gently Weeps, composta e cantada por Harrison, além de atos marcados pelo mais profundo experimento, caso da extensa Revolution 9, pouco mais de oito minutos de ruídos, vozes e captações sobrepostas. Uma porção de ideias, muitas delas desconexas, mas que em nenhum momento ocultam o brilhantismo de seus realizadores, antecipando parte da estranheza (e conflitos) que viriam a orientar os últimos discos da banda, caso de Abbey Road (1969) e Let It Be (1970).

 

The Byrds
The Notorious Byrd Brothers (1968, Columbia)

Produzido em um período turbulento, The Notorious Byrd Brothers, quinto álbum de estúdio do grupo californiano The Byrds, utiliza da relação tumultuada de seus integrantes como um importante componente criativo. Sequência ao maduro Younger Than Yesterday (1967), o trabalho de 11 composições passeia por entre gêneros — pop barroco, rock psicodélico, folk, música eletrônica e jazz —, sustentando nas boas melodias de Roger McGuinn um importante elemento de conexão entre as faixas. Gravado em 1967, seguido da demissão do guitarrista David Crosby e do baterista Michael Clarke, TNBB em nenhum momento deixa transparecer essa forte instabilidade. Trata-se de uma obra segura, pouco menos de 30 minutos em que versos guiados por sentimentos, personagens e delírios lisérgicos servem de estímulo para a fortalecimento do trabalho. Fortemente influenciado pela música country, o álbum abriria passagem para o álbum seguinte da banda, Sweetheart of the Rodeo, outra obra-prima lançada no mesmo ano.

 

The Kinks
The Kinks Are the Village Green Preservation Society (1968, Pye / Reprise)

Poucos trabalhos sintetizam com tamanha naturalidade as tradições cenários, personagens e elementos da cultura inglesa quanto The Kinks Are the Village Green Preservation Society. Último registro com a formação original do The Kinks — Pete Quaife deixaria os parceiros de banda, Ray Davies, Dave Davies e Mick Avory, no ano seguinte —, o registro que levou dois anos até ser finalizado cresce como uma coletânea de ideias que refletem os costumes da sociedade londrina. Da abertura, em The Village Green Preservation Society, passando por músicas como Last of the Steam-Powered Trains, Sitting by the Riverside, Animal Farm, All of My Friends Were There e People Take Pictures of Each Other, cada faixa parece transportar o ouvinte para um ambiente completamente novo, real, ainda que liricamente transformado. Em se tratando dos arranjos, uma clara evolução em relação aos discos que o antecedem. Atos curtos, essencialmente harmônicos, como uma interpretação pop do som testado pela banda no psicodélico Something Else by The Kinks (1967).

 

The Mothers of Invention
We’re Only in It for the Money (1968, Verve)

Estou completamente chapado / Eu sou hippie e estou viajando“. A poesia delirante e naturalmente cômica de Who Needs the Peace Corps? diz muito sobre o som produzido por Frank Zappa em We’re Only in It for the Money. Anárquico, mesmo para os padrões atuais, o trabalho de 19 faixas parece apontar para todas as direções sem necessariamente buscar refúgio em um conceito específico, preferência reforçada logo na imagem de capa do disco, originalmente inspirada em Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967) dos Beatles. Fragmentos psicodélicos, experimentos e poemas delirantes que ampliam parte do material explorado pelo músico norte-americano desde a estreia com Freak Out! (1966). Uma coletânea de faixas tortas como Flower Punk, Let’s Make the Water Turn Black e Take Your Clothes Off When You Dance que se espalham em meio a vozes aleatórias, ruídos e sobreposições estéticas, fazendo do álbum um convite a se perder pela mente insana de Zappa e seus parceiros.

 

The Rolling Stones
Beggars Banquet (1968, Decca / London)

Longe dos experimentos e delírios lisérgicos concebidos durante a produção de Their Satanic Majesties Request (1967), em 1968, quando os Rolling Stones entraram em estúdio para as gravações do nono álbum de inéditas, Beggars Banquet, havia um claro desejo da banda em retornar às raízes R&B, country e bluegrass. Concebido durante um período de forte instabilidade para os integrantes da banda — Brian Jones se mostrava cada vez menos presente em estúdio, efeito do uso excessivo de drogas, internações e passagens pela polícia —, o trabalho é o primeiro registro da bem-sucedida parceria entre o grupo britânico e o produtor Jimmy Miller. Intenso e quente quando exige ser, como na inaugural Sympathy for the Devil, cada canção do álbum de 10 faixas e pouco mais de 40 minutos de duração encanta pela forma como a voz de Mick Jagger passeia por entre melodias acústicas, por vezes econômicas, lançadas de forma sempre minuciosa por Keith Richards. O resultado está na formação de preciosidades como Street Fighting Man, Salt Of The Earth e No Expectations, essa última, guiada em essência pela guitarra slide de Jones, posteriormente afastado da banda por conta dos abusos com drogas.

 

The United States of America
The United States of America (1968, Columbia)

Você já imaginou como seria o som do The Velvet Underground se Lou Reed e John Cage trocassem as ruas de Nova York pelo ambiente ensolarado de Los Angeles? Primeiro e único exemplar do coletivo californiano The United States of America, o homônimo registro lançado em março de 1968 talvez seja a melhor representação de como seria essa mudança fantasiosa. Resultado da parceria entre o músico Joe Byrd (piano, produção eletrônica, órgão) e a cantora Dorothy Moskowitz, o trabalho de dez faixas se espalha em meio a experimentos com a música eletrônica, delírios psicodélicos e ambientações futurísticas que transportam o ouvinte para um ambiente curioso, mágico. Completo pela presença dos músico Gordon Marron (violino elétrico, efeitos), Rand Forbes (baixo), Craig Woodson (bateria eletrônica, percussão), o álbum produzido por David Rubinson (Herbie Hancock, Bobby Womack) vai do jazz ao pop em uma linguagem completamente vanguardista, servindo de inspiração para o trabalho de artistas como Portishead, Stereolab e tantos outros projetos que viriam a surgir anos mais tarde.

 

The Velvet Underground
White Light/White Heat (1968, Verve)

Cinco décadas depois de lançado, e poucos trabalhos parecem capazes de igualar o mesmo conceito provocativo e invento detalhado em White Light/White Heat. Concebido após a repercussão negativa em torno do debute The Velvet Underground & Nico (1967), além, claro, da demissão conjunta de Andy Warhol e Nico, o trabalho produzido e gravado em apenas dois dias por Tom Wilson (Bob Dylan, Simon and Garfunkel) escancara a completa insanidade do grupo nova-iorquino. Enquanto Lou Reed se concentra em explorar o submundo urbano e seus personagens marginalizados, John Cale e Sterling Morrison brincam com os ruídos, mergulhando o ouvinte em meio a camadas de texturas e distorções sujas. Dentro desse ambiente caótico surgem histórias como a lobotomia de uma transexual (Lady Godiva’s Operation), orgias de drag queens (Sister Ray) e abusos com drogas, tema exaltado logo na faixa-título do disco, uma descrição detalhada (e louca) sobre os efeitos da anfetamina. Último álbum com a presença de Cale, White Light/White Heat seria tão ignorado quanto o antecessor, porém, viria a servir a ser apontado como peça fundamental para o nascimento de diferentes exemplares do punk/pós-punk pelas próximas décadas.

 

The Zombies
Odessey and Oracle (1968, CBS)

Imagine que você tem um verdadeiro clássico em mãos, porém, conflitos internos culminam no desmantelamento da banda meses antes do trabalho ser lançado? Por mais inusitado que possa parecer, foi exatamente isso que aconteceu com Odessey and Oracle, obra-prima do grupo britânico The Zombies. Sequência ao material apresentado em 1965, em Begin Here, o registro que teve parte das canções gravadas no lendário Estúdio Abbey Road mostra o esforço da banda — na época formado por Colin Blunstone (voz), Rod Argent (teclados e backing vocal), Paul Atkinson (guitarras e backing vocal), Chris White (baixo e backing vocal) e Hugh Grundy (bateria e backing vocal) —, em provar de novas harmonias vocais e arranjos melódicos. Uma interpretação particular do mesmo pop de câmara detalhado pelo The Beach Boys durante o lançamento do clássico Pet Sounds (1966). Casa de músicas como Care of Cell 44, Butcher’s Tale (Western Front 1914), Maybe After He’s Gone, A Rose for Emily e Time of the Season, Odessey and Oracle seria redescoberto ao longo dos anos, servindo de inspiração para dezenas de projetos, além, claro, da consequente reativação das atividades do grupo.

 

Van Morrison
Astral Weeks (1968, Warner Brothers)

De Elvis Costello a Jeff Buckley, de Bruce Springsteen a coletivos como The Pogues e The Waterboys, não foram poucos os artistas que encontraram em Astral Weeksm, segundo álbum de estúdio do norte-irlandês Van Morrison, uma importante fonte de inspiração. Produzido durante um período turbulento na carreira do músico — preso a um contrato com a antiga gravadora, a Bang Records —, o trabalho de oito faixas sustenta na força melancólica e profunda honestidade dos versos a passagem para uma das obras mais sensíveis da década de 1960. Entre versos dolorosamente românticos (Sweet Thing), reflexões sobre a necessidade de amadurecer (The Way Young Lovers Do) e personagens imersos em um cenário descritivo (Madame George), Morrison entrega ao público uma obra que exige tempo até ser desvendada em essência. Fragmentos poéticos que se espalham em meio a arranjos orquestrais, flautas e temas acústicos que mesmo voltados ao folk-rock, a todo momento evidenciam o fascínio do músico pelo jazz. Da icônica imagem de capa aos versos, uma obra que parece maior a cada nova audição.

 

Vários Artistas
Tropicalia ou Panis et Circencis (1968, Philips Records)

Da icônica imagem de capa produzida pelo fotógrafo Olivier Perroy, passando pela colorida mistura de ritmos, vozes e conceitos que dialogam com diferentes campos da arte (como o concretismo e o rock psicodélico), cada fragmento de Tropicalia ou Panis et Circencis reflete a criativa transformação de seus realizadores. Um dos marcos do movimento tropicalista, o álbum-manifesto planejado por Caetano Veloso e Gilberto Gil se abre para a chegada de um seleto grupo de artistas que vinham se apresentando nos grandes festivais de música, principalmente aqueles organizados pela TV Record. São nomes como Gal Costa, Nara Leão, Os Mutantes e Tom Zé, além, claro, dos poetas Capinam e Torquato Neto, e do maestro Rogério Duprat, responsável pelos arranjos da obra. Um curioso revezando criativo que se reflete na produção de músicas icônicas como Miserere Nóbis, Parque Industrial, Bat Macumba, Baby e a própria faixa-título, indicativo de tudo aquilo que seria produzido por diferentes representantes da música popular brasileira entre o final dos anos 1960 e início da década de 1970.

 

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