25 Discos de 1989


Em um cenário marcado pela turbulência política, vide a queda do Muro de Berlim, a inevitável desestabilização da União Soviética e as primeiras eleições por meio do voto direto no Brasil pós-Ditadura Militar, a produção musical vivia um período de intensa criação. Do fortalecimento do rock alternativo, protagonizado por nomes como Pixies e Faith No More, passando pelo pop de Janet Jackson e Madonna, o rap de Beastie Boys e De La Soul à transformação da música brasileira pelos trabalhos de Marisa Monte, Titãs e Sepultura, sobram lançamentos significativas que fizeram de 1989 um ano marcado pela rica seleção de obras.


Beastie Boys
Paul’s Boutique (Capitol)

Você consegue imaginar um disco de rap livre do rico catálogo de samples que tradicionalmente abastece esse tipo de obra? Difícil, não é mesmo? Entretanto, se hoje a prática é encarada com naturalidade, parte desse resultado se deve ao trabalho do Beastie Boys em Paul’s Boutique. Concebido em parceria com a dupla californiana Dust Brothers, o segundo álbum de estúdio do trio nova-iorquino segue uma trilha completamente diferente em relação ao antecessor Licensed to III (1986). Para a composição do álbum, que ainda conta com a presença do brasileiro Mario Caldato Jr., foram utilizados mais de 100 fragmentos extraídos de diferentes obras. São nomes como Pink Floyd, The Beatles, Johnny Cash, Jimi Hendrix e centenas de outros artistas que acabam servindo de pano de fundo para a rima bem-humorada do grupo. Até o compositor Bernard Herrmann, responsável pela trilha sonora do filme Psicose (1960), é resgatado na caótica Egg Man. Revolucionário na época em que foi lançado, Paul’s Boutique teria sua influência reconhecida somente anos mais tarde, efeito do descontentamento da gravadora em relação à recepção fria da obra e do inevitável encerramento precoce da divulgação do trabalho.

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Caetano Veloso
Estrangeiro (Phillips)

Na extensa discografia de Caetano Veloso, Estrangeiro é um trabalho que tradicionalmente acaba passando despercebido. Uma pena. Gravado na cidade de Nova York, o trabalho que conta com produção de Peter Scherer e Arto Lindsay mostra um artista fragmentado, longe de casa e disposto a se reinventar. Síntese dessa profunda desconstrução criativa ecoa com naturalidade logo na homônima faixa de abertura do disco. São pouco mais de seis minutos em que o cantor e compositor baiano deixa a a própria voz correr livremente, dançando em meio a ruídos que escapam da guitarra de Lindsay e a percussão detalhista de Naná Vasconcelos, junto de Carlinhos Brown, grande responsável pela força rítmica da obra. Surgem ainda preciosidades como a crescente Jasper, a bossa tímida de Branquinha e até a acessível Meia Lua Inteira, um afoxé composto por Brown. Frações da completa versatilidade de Veloso dentro de estúdio.

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De La Soul
3 Feet High And Rising (Tommy Boy / Warner Bros.)

Ouvir 3 Feet High And Rising é como se perder em um universo de formas delirantes, referências extraídas de diferentes campos da música e versos marcados pela completa lisergia e bom humor. Primeiro álbum de estúdio do De La Soul, o registro guiado pelas rimas dos parceiros Posdnuos, Trugoy e Maseo parte de uma estrutura nostálgica para brincar com o passado de forma divertida e autoral. São composições montadas a partir de clássicos do soul, funk e rock psicodélico dos anos 1960 e 1970, como um colorido labirinto psicodélico. Concebido em parceria com Prince Paul, o trabalho rapidamente seria abraçado pelo grande público, efeito da boa repercussão em torno de músicas como Plug Tunin’, Potholes in My Lawn, The Magic Number e Eye Know. Nada que se compare ao sucesso do trio nova-iorquino em Me Myself and I. Concebida a partir de trechos de (Not Just) Knee Deep, do Funkadelic, a faixa rapidamente assumiria o topo das paradas de sucesso, fazendo do grupo um dos grandes destaques do R&B/rap daquele ano.

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Faith No More
The Real Thing (Slash / Reprise)

Em 1988, quando os integrantes do Faith No More entraram em estúdio para as gravações de The Real Thing, o grupo californiano já contabilizava dois bons registros de inéditas, We Care a Lot (1985) e Introduce Yourself (1987). Entretanto, foi com o lançamento do primeiro registro guiado pela poesia de Mike Patton — integrante do Mr. Bungle que foi convidado a substituir o vocalista Chuck Mosley —, que a banda comandada por Billy Gould (bateria) e Mike Bordin (baixo) conseguiu se destacar. São pouco mais de 50 minutos em que o quinteto — completo pelos músicos Roddy Bottum (teclados) e James Martin (guitarras) —, brinca com a criativa colagem de ritmos, costurando elementos do hard rock e heavy metal com uma estrutura funkeada, sonoridade que rapidamente garantiu ao grupo comparações ao trabalho do Red Hot Chili Peppers. Recebido de forma positiva pelo público, efeito da boa repercussão em torno de músicas como Epic e Falling to Pieces, The Real Thing ainda abriria passagem para o trabalho seguinte da banda, o denso Angel Dust (1992).

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Fugazi
13 Songs (Dischord)

Muito embora o intenso Repeater (1990) seja o primeiro álbum de estúdio do Fugazi, foi com o lançamento da coletânea 13 Songs, um ano antes, que o grupo norte-americano de punk/pós-hardcore foi oficialmente apresentado ao público. Concebido a partir de canções produzidas para os dois primeiros EPs de inéditas da banda — Fugazi (1988) e Margin Walker (1989) —, o trabalho entregue em setembro de 1989 sintetiza com naturalidade a força criativa e principal desejo do guitarrista Ian MacKaye: produzir algo próximo do The Stooges, porém, flertando com o reggae. Prova disso está na música de abertura do trabalho, Waiting Room, uma canção que ganha forma a partir da linha de baixo de Joe Lally e a bateria firme de Brendan Canty. Intensa, a canção parece apontar a direção seguida pela banda em músicas como Bad Mouth, Suggestion e todo o rico repertório que abastece o álbum. São estruturas pouco convencionais que se completam com o canto ora declamado, ora berrado de MacKaye e do também vocalista Guy Picciotto.

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Galaxie 500
On Fire (Rough Trade)

Beach House, Mazzy Star, Neutral Milk Hotel e Low. Esses são apenas alguns dos artistas que encontraram no atmosférico On Fire uma importante fonte de inspiração. Sequência ao inaugural Today (1988), obra que apresentou ao público o trabalho do trio Dean Wareham, Damon Krukowski e Naomi Yangm, o registro entregue em setembro de 1989 mostra um claro amadurecimento em relação ao material entregue um ano antes. Da melancolia explícita em músicas como Snowstorm, Strenge e Tell Me, passando pela textura das guitarras e vozes sobrepostas que se entrelaçam até a derradeira versão para Isn’t It a Pity, de George Harrison, perceba como cada composição do disco se projeta de forma a revelar um universo de pequenos detalhes e curvas instrumentais. Instantes de fúria (When Will You Come Home) e parcial recolhimento (Blue Thunder) que viriam a orientar o som produzido pela banda até o lançamento do álbum seguinte, This Is Our Music (1990).

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Janet Jackson
Janet Jackson’s Rhythm Nation 1814 (A&M)

Pensar em Rhythm Nation simplesmente como um disco seria um erro. Da criativa colisão de ritmos mais uma vez assumida pela dupla Jimmy Jam e Terry Lewis – synthpop, R&B, rap, disco, rock, industrial e funk –, passando pelo cuidado na direção de cada videoclipe, coreografias montadas especialmente para o trabalho e uma turnê disputadíssima que contou com um público de aproximadamente três milhões de pessoas, cada elemento do álbum se projeta de forma grandiosa. É como se Jackson pensasse em todos os aspectos da obra, levando o amadurecimento iniciado em Control (1986) a um novo patamar. A própria decisão da artista em mesclar canções de amor com faixas que discutem problemas sociais, criminalidade e drogas – contrariando a decisão da gravadora –, confirma a visão apurada da artista. O resultado, obviamente, não poderia ser outro. Estima-se que um intervalo de um ano, o registro tenha vendido mais de 20 milhões de cópias, rivalizando com os números do irmão, Michael. De fato, Rhythm Nation foi o primeiro álbum na história da Billboard Hot 100 a ter sete singles nas cinco primeiras posições das paradas, reflexo da boa repercussão de músicas como Miss You Much, Escapade, Love Will Never Do (Without You) e a própria faixa-título. Comparado ao clássico What’s Going On (1971), de Marvin Gaye, efeito da forte poesia política, e declaradamente inspirado pelos trabalhos de Joni Mitchell e Bob Dylan, o quarto álbum de Janet Jackson viria a apontar a direção seguida por variedade de artistas pelos próximos anos – caso de Beyoncé, Mary J. Blige e Mariah Carey –, mantendo a cantora em um posto ainda hoje inigualável.

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Julee Cruise
Floating into the Night (Warner Bros.)

Julee Cruise não poderia ter pensado em um título melhor para o primeiro álbum de estúdio da carreira — em português, “flutuando pela noite“. Delicado conjunto de ideias que vinham sendo concebidas em parceria entre a cantora, o compositor Angelo Badalamenti e o cineasta David Lynch desde 1985, o trabalho de dez faixas transita entre canções produzidas para a trilha sonora filmes, como Blue Velvet (1986), e músicas que seriam incorporadas ao novo projeto autoral de Lynch, o seriado Twin Peaks. É o caso de Falling, música em que a voz etérea de Cruise se espalha em meio a sintetizadores e inserções atmosféricas que viriam a ser exploradas na música de abertura da série. Surgem ainda músicas como a já conhecida Mysteries of Love, I Float Alone e sua poesia entristecida, além, claro, da delicada Rockin’ Back Inside My Heart, canção que parece replicar o pop dos anos 1960 em uma linguagem naturalmente íntima da obra. Recebido de forma positiva pela crítica, Floating into the Night viria a servir de inspiração para nomes como Beach House e, principalmente, o grupo norte-americano Chromatics.

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Kate Bush
The Sensual World (EMI / Columbia)

Último grande álbum de Kate Bush na década de 1980, The Sensual World substitui a urgência explícita em Hounds of Love (1985), para dar vida a um trabalho pontuado de nítida pela sensibilidade. Parcialmente livre da base eletrônica e do já desgastado diálogo com o syntphop, a cantora e compositora britânica encontrou em uma aproximação com a música folclórica o ponto clara de evolução para a obra. Estão lá elementos da música celta (Love and Anger), emanações fragmentadas entre o soul e jazz (na faixa-título), além de uma carga de novos experimentos acústicos que se espalham com leveza por todo o disco. Se antes Bush havia se confortado em um território próprio, com o sexto registro em estúdio o teor de descoberta mais uma vez estava no ar. São os arranjos de cordas que descem suavemente pelo registro, as vocalizações limpas que abraçam o ouvinte e todo um catálogo de faixas pontuadas pelo teor subjetivo dos versos. Da interferência constante da guitarra de David Gilmour, ao visível posicionamento do compositor Michael Nyman em toda a obra, poucas vezes uma obra conseguiu soar tão particular e acessível quanto esta.

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Legião Urbana
As Quatro Estações (EMI)

Em 1988, quando Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá entraram em estúdio para as gravações do quarto álbum de inéditas da Legião Urbana, o grupo brasiliense há muito havia se consolidado como um dos novos fenômenos do rock brasileiro. Com apresentações cada vez mais disputadas e caóticas – como na fatídica apresentação daquele ano no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, onde mais de 60 pessoas foram presas e outras 200 ficaram feridas –, o grupo, agora livre do baixista Renato Rocha, passou a se dedicar ainda mais ao processo de gravação. O resultado desse maior comprometimento criativo está na produção de As Quatro Estações, obra em que o trio sutilmente rompe com o punk incorporado ao antecessor Que País É Este 1978/1987 (1987) para provar de elementos da música pop e art rock. Exemplo disso está na composição de faixas propositadamente exageradas, grandiosas, caso da orquestral Eu Era um Lobisomem Juvenil e Feedback Song for a Dying Friend, essa última, uma homenagem a Cazuza (1958 – 1990) e ao fotógrafo norte-americano Robert Mapplethorpe (1946 – 1989). Entretanto, a beleza do disco sobrevive justamente em suas composições mais acessíveis e radiofônicas. Faixas como Há Tempos, Meninos e Meninas, Quando O Sol Bater Na Janela Do Teu Quarto e Pais e Filhos, ainda hoje responsáveis por apresentar o trabalho da banda a toda uma nova geração de ouvintes.

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Lou Reed
New York (Sire)

Quando comparada ao material entregue por Lou Reed nos anos 1970, como Transformer (1972), Berlin (1973) e o curioso Metal Machine Music (1975), a década de 1980 parecia bem menos interessante para quem há tempos acompanhava o trabalho do ex-integrante do The Velvet Underground. Entretanto, com o lançamento de New York, em janeiro de 1989, o cantor e compositor norte-americano mais uma vez conseguiu despertar a atenção do público e crítica. Marcado pelas boas guitarras assinadas em parceria entre o músico e Mike Rathke, além, claro, de contar com a presença do antigo parceiro de banda, Moe Tucker, na percussão, Reed fez do 15º registro de inéditas na carreira uma obra marcada pela crueza dos elementos e força dos versos. São canções ancoradas em conflitos políticos, personagens e temas em constante debate na época em que o álbum foi lançado, como o crescente número de pessoas contaminadas pelo vírus da AIDS. Com músicas como Dirty Blvd. e Romeo Had Juliette, New York viria a se transformar em um dos grandes álbuns na carreira do cantor, indicando parte do som que viria a ser produzido pelo artista no início dos anos 1990.

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Madonna
Like a Prayer (Sire / Warner Bros.)

Se em 1986, com o lançamento de Papa Don’t Preach, Madonna havia conquistado a ira da Igreja Católica, com a chegada de Like a Prayer e do polêmico clipe da canção, a cantora e compositora norte-americana conseguiu ir além. Quarto registro de inéditas da artista, a obra lançada em março de 1989 não apenas pontuaria de forma definitiva a atuação de Madonna nos anos 1980, como transportaria o público para uma sequência de obras versáteis e essencialmente polêmicas ao longo de toda a década de 1990. Estimulada pelo rompimento conturbado do relacionamento com o ator Sean Penn, a cantora, mais uma vez, se transformou na matéria-prima do próprio trabalho, mergulhando em versos marcados pela sexualidade, empoderamento feminino, religião e conflitos pessoais. Para além da icônica faixa-título do álbum – produzido em parceria com Patrick Leonard e Stephen Bray -, sobram composições memoráveis como Cherish, Express Yourself, Keep It Together, Oh Father e Till Death Do Us Part. Mesmo o dueto Love Song, parceira com o cantor Prince, em nenhum momento interfere no conceito pessoal da obra, ainda hoje, uma das peças mais importantes da música pop.

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Marisa Monte
MM (EMI)

Depois de passar uma temporada estudando canto lírico em Roma, na Itália, Marisa Monte, influenciada pelo produtor Nelson Mota, decidiu voltar ao Brasil. Em 1988, durante uma série de apresentações ao vivo, parte da turnê Veludo Azul, Monte, que havia negado o contrato de diversas gravadoras por se considerar uma “artista dos palcos”, acabou aceitando o convite da EMI para produzir o primeiro álbum da carreira: MM (1989). Gravado durante um especial para a extinta TV Manchete, o trabalho é uma prova da versatilidade da cantora. Do rock dos Titãs (Comida) e Os Mutantes (Ando Meio Desligado), passando pelo samba de Candeia (Preciso Me Encontrar) até alcançar o jazz, na curiosa Negro Gato, Marisa Monte arremessa o ouvinte para incontáveis direções, solucionando na própria voz a linha que conduz o ouvinte até a derradeira Low Speak, única canção do disco gravada em estúdio. Entre interpretações memoráveis e canções inéditas, caso de Bem Que se Quis, o álbum – também lançado em VHS -, logo arremessou a artista carioca para o topo da lista de mais vendidos, abrindo passagem para a sequência de obras que seriam apresentadas ao longo dos anos 1990.

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Neneh Cherry
Raw Like Sushi (Virgin)

Neneh Cherry havia atravessado a década de 1980 em uma série de colaborações, obras e encontros musicais com diferentes representantes da cena inglesa. De apresentações ao lado do grupo de pós-punk The Slits, passando pelo forte diálogo com Robert Del Naja e Andrew Vowles, do Massive Attack, toda essa criativa colisão de ideias e trocas de experiências acabou contribuindo para o primeiro álbum de estúdio da cantora e compositora de origem sueca, Raw Like Sushi. Marcado pela pluralidade de ritmos, o álbum vai do R&B ao jazz, do synthpop ao rap em uma linguagem própria de Cherry. São variações instrumentais e poéticas que viriam a antecipar uma série de conceitos explorados por diferentes artistas no decorrer dos anos 1990. Catapultado pela boa repercussão em torno do single Buffalo Stance, o álbum ainda revelaria ao público preciosidades como Kisses on the Wind, Manchild e a climática Inna City Mamma.

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New Order
Technique (Factory Records)

Sempre alternando entre o pós-punk e a música eletrônica, o New Order havia atravessa os anos 1980 em uma sequência de obras bem-sucedidas. Longe da sobra do Joy Division, obras como Power, Corruption & Lies (1983) e Brotherhood (1986) fizeram do grupo de Manchester um dos mais importantes do período. Entretanto, ao final da década, Bernard Sumner, Peter Hook, Stephen Morris e Gillian Gilbert sentiam a necessidade de avançar criativamente, ampliando a essência eletrônica que vinha sendo aprimorada desde o álbum Movement (1981). Em busca de uma sonoridade mais “ensolarada”, o quarteto viajou para Ibiza, onde passou a incorporar elementos da balearic beat e acid house, ponto de partida para o transformador Technique. Dinâmico, o registro entregue em janeiro de 1989 preserva a essência dos antigos trabalhos da banda, porém, se permite provar de novas possibilidades, como as guitarras carregadas de efeitos em Run e a rica tapeçaria eletrônica que cobre a inaugural Fine Time. Ponto de partida para o material que seria apresentado pelo quarteto na década de 1990, Technique seria o último grande registro do grupo lançado pela Factory Records.

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Nine Inch Nails
Pretty Hate Machine (TVT Records)

Pretty Hate Machine é um registro curioso. Produto do isolamento de Trent Reznor em diferentes estúdios de seus produtores favoritos, o trabalho que contou com distribuição pelo selo independente TVT Records rapidamente foi abraçado pelo público, efeito das letras confessionais e atmosfera desconcertante que serve de sustento ao registro. Longe do rock industrial que hoje vem sendo explorado pela banda, o trabalho inaugurado pela intensa Head Like a Hole parte da criativa desconstrução de elementos do synthpop e rock alternativo da época, efeito da sobredose de ruídos e inserções eletrônicas que crescem no decorrer da obra. Entre samples de artistas como Prince, Jane’s Addiction e Public Enemy, além, claro, de trechos extraídos do filme O Expresso da Meia-Noite (1978), faixas como Something I Can Never Have, Sin e Down in It crescem em uma estrutura propositadamente irregular, caótica, proposta que viria a ser explorada de forma ainda mais delirante e crua no álbum seguinte da banda, The Downward Spiral (1994).

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Nirvana
Bleach (Sub Pop)

Com a boa repercussão em torno do single Love Buzz, lançado em 1988, a Sub Pop encomendou ao Nirvana a produção de um novo EP de inéditas. Entretanto, depois de três semanas de ensaios exaustivos, Kurt Cobain decidiu que a banda entraria em estúdio para a produção do primeiro álbum de estúdio da carreira. Mais uma vez acompanhados pelo produtor local Jack Endino, o grupo — na época completo com Krist Novoselic (baixo) e Chad Channing (bateria) —, decidiu investir na composição de um material ainda mais denso e sujo em relação ao som que vinha sendo produzido por outros representantes da efervescente cena de Seattle. Exemplo disso está na produção de músicas como a caótica Negative Creep, as guitarras carregadas de efeitos em Blew, música que reflete o fascínio de Cobain pela obra do Pixes, além, claro, da crescente School, faixa que aponta para a obra de veteranos como Led Zeppelin. Nada que interfira na produção de músicas mais acessíveis, caso de About a Girl, ainda hoje, uma das composições mais tocadas da banda. Ignorado pelo público, porém, aclamado pela crítica, Bleach seria relançado em 1992, aproveitando o sucesso em torno do álbum seguinte da banda, o hoje clássico Nevermind (1991).

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Paulinho da Viola
Eu Canto Samba (BMG)

Dono de uma extensa seleção de obras que se espalha por toda a década de 1970 — vide clássicos como A Dança da Solidão (1972) e Nervos de Aço (1973) —, Paulinho da Viola entrou no anos 1980 de forma contida, revelando ao público um limitado conjunto de obras. Entre registros como Prisma Luminoso (1983), o destaque acaba ficando por conta de Eu Canto Samba. Entregue ao público em meados de 1989, o trabalho segue a trilha dos antigos lançamentos do cantor e compositor carioca, flutuando em meio a versos de amor e instantes de profunda contemplação. São músicas como Um Caso Perdido e Não Tenho Lágrimas, síntese da poesia triste que vem sendo explorada pelo artista desde o início da carreia. Nada que se compare ao trabalho do artista em composições como Quando Bate Uma Saudade e a própria faixa-título do disco, pequenas homenagens de Paulinho ao samba e seus personagens.

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Pixies
Doolittle (Elektra / 4AD)

Insano, Surfer Rosa (1988) acabou servindo como um poderoso indicativo da completa versatilidade do Pixies dentro de estúdio. Frações inexatas do mais profundo experimento instrumental e poético assinado em parceria com o produtor Steve Albini. Nada que se compare ao trabalho da banda no álbum seguinte, Doolittle (1989). Do momento em que tem início, em Debaser, passando pela construção de músicas como Wave of Mutilation, I Bleed, Monkey Gone to Heaven e Hey, cada fragmento do registro produzido por Gil Norton serve de passagem para um universo próprio da banda. São versos surrealistas, delírios poéticos assinados pelo vocalista Black Francis e colisões instrumentais que transportam a banda para diferentes territórios criativos. Mesmo músicas acessíveis, como Here Comes Your Man, uma confessa homenagem ao pop-rock dos anos 1960, em nenhum momento parece seguir um caminho óbvio. De fato, a cada nova composição, um novo conceito parece desmembrado pela banda, na época formada por Joey Santiago (guitarras), David Lovering (bateria) e Kim Deal, co-autora de Silver. Mesmo recebido de forma tímida pelo público, Doolittle acabaria influenciando uma geração de artistas como Nirvana, Radiohead, Pavement e outros nomes de peso da década de 1990.

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Sepultura
Beneth The Remains (Roadrunner Records)

Não se deixe enganar base instrumental que abre o trabalho do Sepultura em Beneth The Remains. Passado o breve respiro atmosférico que inaugura o álbum, são as batidas lançadas por Igor Cavalera que apontam a direção seguida pela guitarra melódica de Andreas Kisser e a voz gutural de Max Cavalera. Um ambiente caótico que se completa pela linha de baixo destacada de Paulo Jr. e breve participação do tecladista Henrique Portugal (Skank). Primeiro trabalho da banda com distribuição pelo selo norte-americano Roadrunner Records, o registro de nove faixas mostra uma banda ainda mais intensa e madura em relação ao material entregue dois anos antes, em Schizophrenia (1987). Da força avassaladora que invade o disco, em Inner Self, passando pela dobradinha formada por Slaves of Pain e Lobotomy, cada fragmento do álbum mostra a crueza e entrega do grupo mineiro. Um misto de diálogo e propositada desconstrução de tudo que vinha sendo explorado por diferentes representantes do thrash metal estrangeiro.

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The Blue Nile
Hats (Linn / A&M)

A boa repercussão em torno de A Walk Across the Rooftops (1984), primeiro álbum de estúdio do grupo escocês The Blue Nile, praticamente forçou um regresso da banda aos estúdios para a imediata finalização de um novo registro de inéditas. Mesmo pressionados pela gravadora, os músicos Paul Buchanan, Robert Bell Paul e Joseph Moore se viram obrigados a recuar, afinal, não haviam composições suficientes para a produção de um novo registro autoral. Entre ameaças de processos da gravadora, conflitos entre os integrantes e o permanente bloqueio criativo, Buchanan e os parceiros de grupo levaram cinco anos até a finalização do aguardado Hats. Entretanto, o longo período de espera valeu a pena. Concebido a partir de camadas de sintetizadores e ambientações eletrônicas, o registro de sete faixas delicadamente amplia o sophisti-pop que vinha sendo explorado pela banda desde o início da carreira. Canções como Headlights on the Parade, Saturday Night e a melancólica The Downtown Lights que não apenas contaram com a boa repercussão do público e crítica, como fizeram da obra um dos registros mais cultuados e influentes da década de 1980.

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The Cure
Desintegration (Fiction)

Como indicado durante o lançamento de The Head on the Door (1985), Robert Smith e os parceiros do The Cure passaram a investir na composição de um trabalho cada vez mais pop e íntimo do grande público, conceito reforçado também no álbum seguinte do grupo britânico, Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me (1987). Entretanto, ao entrar em estúdio para as gravações do oitavo registro de inéditas, Smith decidiu seguir um caminho diferente. Sufocado pela própria depressão, além, claro, do exagerado uso de entorpecentes, como LSD, o cantor e compositor inglês mergulhou na formação de um material essencialmente etéreo, denso, como um regresso ao som entregue em obras como Seventeen Seconds (1980) e Faith (1981). Prova disso está na faixa de abertura do disco, a atmosférica Plainsong, estímulo para o som produzido pelo grupo no restante do trabalho. Claro que essa mudança de estrutura não interferiu na produção de músicas comercialmente acessíveis. É o caso de Lovesong, faixa que levou o The Cure para o topo das paradas de sucesso, além, claro, de Pictures Of You, ainda hoje, uma das canções mais executadas da banda.

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The Stone Roses
The Stone Roses (Silvertone)

De Oasis a Blur, de Coldplay a The Cardigans, não foram poucos os artistas que encontraram na obra do The Stone Roses um importante alicerce criativo. E não poderia ser diferente. Em um universo dominado pelos exageros psicodélicos que tomavam conta da região de Manchester no final da década de 1980, o grupo formado por Ian Brown, John Squire, Mani e Reni soube como poucos a melhor forma de administrar a própria lisergia e referências melódicas que pareciam dialogar com veteranos (The Byrds) e novatos do jangle pop (The Smith). Vem justamente dessa colorida mistura de elementos a base para cada uma das 11 composições que recheiam o trabalho. Da abertura do disco, no rock sujo de I Wanna Be Adored, passando pelo coro de vozes em She Bangs the Drums, o pop nostálgico de Made of Stone ou o mais completo delírio de I Am the Resurrection, com mais de oito minutos de duração, cada fragmento da obra parece seduzir e hipnotizar o ouvinte sem grandes dificuldades. Mesmo com a boa repercussão em torno do álbum, a banda só voltaria com um novo registro de inéditas cinco anos mais tarde, com o lançamento de Second Coming (1994).

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Titãs
Õ Blésq Blom (WEA)

Guiado pela inexata colagem de ritmos e pequenas experimentações expressas logo na artesanal imagem de capa do trabalho, Õ Blésq Blom talvez seja a obra mais complexa (e corajosa) já lançada pelos Titãs. Com produção invejável de Liminha, inclusão de arranjos eletrônicos e o uso apurado de sintetizadores, o quinto álbum do coletivo paulistano tinha tudo para ser uma obra ignorada pelo público, efeito de sua estrutura não convencional, mas que, curiosamente, acabou sendo absorvida com naturalidade. A própria tonalidade melódica de músicas como Flores, Miséria e Palavras serve como um respiro para o lado mais “estranho” da obra, posto assumido por O Camelo e o Dromedário, O Pulso, além das vinhetas da dupla Mauro e Quitéria – casal de repentes pernambucanos convidados para a abertura e fechamento do álbum. Livre da crueza lançada nos trabalhos de 1986 e 1987, mas nem por isso encarado como um disco pacato, Õ Blésq Blom assume um completo distanciamento da cena musical da época, equilibrando rock, pop e até traços de MPB em um ambiente tão atrativo, quanto provocador.

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Tom Petty
Full Moon Fever (MCA)

Estranho pensar em Full Moon Fever como o primeiro álbum de Tom Petty em carreira solo. Embora assine individualmente o trabalho, parte expressiva da obra concebida entre 1987 e 1988 contou com a colaboração de membros do Heartbreakers, como o baterista Stan Lynch e o guitarrista Mike Campbell, além, claro, de veteranos como George Harrison e Roy Orbinson, esse último, morto durante o processo de finalização da obra. O resultado dessa criativa interferência está na produção de um verdadeiro catálogo de hits. Da abertura do disco, em Free Fallin, um dos grandes sucessos do músico na década de 1980, passando por preciosidades como Runnin’ Down a Dream, I Won’t Back Down e Yer So Bad, cada composição do disco encontra nos sentimentos e conflitos particulares de Petty o principal componente criativo para o fortalecimento dos versos, proposta que viria a orientar o trabalho de nomes como The War On Drugs, Kurt Vile e outros novos artistas fortemente influenciados pela obra do cantor.

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