25 Discos de 1998

 

Em um ano de Copa do Mundo, importantes transformações tecnológicas, lançamento de jogos icônicos, como The Legend of Zelda: Ocarina of Time, e perdas irreparáveis para o mundo da música — caso de Tim Maia, Frank Sinatra e Linda McCartney —, o cenário cultural vivia um período fértil. Enquanto o cinema via o surgimento de obras como O Grande Lebowski, Corra, Lola, Corra e O Show de Truman: O Show da Vida, no cenário musical, registros nacionais e estrangeiros pareciam brincar com a colagem de diferentes ritmos e possibilidades dentro de estúdio. Do pop conceitual de Madonna em Ray of Light ao Hip-Hop de nomes como Outkast e Beastie Boys, sobram registros de profunda relevância para o período. Com os ouvidos apontados para o passado, listamos 25 trabalhos de destaque lançados em 1998.

 

Air
Moon Safari (Virgin / Caroline / Parlophone / Astralwerks)

No final da década de 1990, a música eletrônica vivia um de seus períodos mais férteis. Da Big Beat de Fatboy Slim e The Chemical Brothers, aos temas dançantes da french house produzida pela dupla Daft Punk, sobram trabalhos capazes de arrastar o ouvinte para as pistas. Curioso perceber em Moon Safari, álbum de estreia dos franceses do Air, uma fuga declarada desse mesmo universo criativo. Claramente inspirado pela música minimalista dos anos 1960/1970, o jazz, o space pop e a bossa nova, o trabalho produzido por Nicolas Godin e Jean-Benoît Dunckel não apenas serviu para consolidar a cena chillout/downtempo, como parecia transportar o ouvinte para um mundo de sonhos e ilusões românticas. Melodias eletrônicas e diálogos com o passado que se revelam de forma nostálgica em composições como Kelly Watch the Stars, La femme d’argent, Sexy Boy, All I Need e Remember, essa última, canção que utiliza de samples de Do It Again, música originalmente composta pelo The Beach Boys. Um indicativo do som mágico que viria ser produzido pelo Air no restante da carreira.

 

Beastie Boys
Hello Nasty (1998, Capitol)

Em constante produção desde a segunda metade dos anos 1980, quando deram vida aos ótimos Licensed to III (1986) e Paul’s Boutique (1989), não seria uma surpresa se os integrantes do Beastie Boys retornassem com um álbum menor no início da década seguinte. Para a surpresa do público e crítica, Mike D, MCA e Ad-Rock não apenas mantiveram a boa forma, como presentearam o público com os excelentes Check Your Head (1992) e Ill Communication (1994), verdadeiros clássicos para a discografia do trio. Misto de fechamento e continuação dessa sequência de obras, Hello Nasty trata de forma (ainda mais) acessível a curiosa combinação entre rap, rock e música eletrônica incorporada pelo grupo desde o início da carreira. Muito embora lembrado pela boa repercussão do single Intergalactic, o trabalho que conta com produção assinada pelo brasileiro Mario Caldato Jr. reserva ao público uma verdadeira seleção de clássicos. São músicas como a dançante Body Movin, The Negotiation Limerick File, The Move, Remote Control e todo o vasto repertório de 22 faixas que abastece o disco.

 

Beck
Mutations (1998, Geffen)

Misture doses consideráveis de tropicalismo, bossa nova, Hip-Hop e pitadas agridoces de folk-rock. Acrescente uma camada extra de experimentos eletrônicos, a produção límpida de Nigel Godrich, grande parceiro do Radiohead, e um time seleto de instrumentistas dentro de estúdio. Dessa criativa colagem de referências e sonoridades veio a base para o colorido Mutations, perfeita representação da sonoridade incorporada por Beck no final da década de 1990. Obra essencial para o que seria explorado com maior destaque em Sea Change (2002), o registro mostra a opção do músico pela desaceleração, como uma fuga do material que havia sido testado dois anos antes em Odelay (1996). Fortemente influenciado pela música brasileira dos anos 1960/1970, o álbum delicadamente amadurece a relação confessa do cantor com a obra d’Os Mutantes, Caetano Veloso e Tom Jobim, acrescentando um fino toque de pluralidade ao conceito versátil que naturalmente parecia caracterizar a obra do músico norte-americano.

 

Belle and Sebastian
The Boy with the Arab Strap (1998, Jeepster)

Pouco interessado em repetir a fórmula testada nos dois primeiros álbuns de estúdio, Tigermilk e If You’re Feeling Sinister, ambos de 1996, Stuart Murdoch e demais parceiros do Belle and Sebastian passaram meses isolados dentro de estúdio, provando de novas melodias, arranjos, versos e temas acústicos. Desse esforço coletivo e contínua interferência de Isobel Campbell e Stuart David, hoje ex-integrantes da banda, veio a rica contribuição para o nascimento de The Boy with the Arab Strap. Terceiro registro de inéditas da banda escocesa, o trabalho inaugurado pela agridoce It Could Have Been a Brilliant Career delicadamente amplia a ironia cômica testada desde os primeiros discos de inéditas, fazendo da inserção de orquestrações mágicas o estímulo para uma obra marcada pelo completo amadurecimento poético/instrumental do coletivo. No repertório do disco, preciosidades como Sleep the Clock Around, Seymour Stein, The Rollercoaster Ride, Is It Wicked Not to Care? e a faixa-título do disco, uma das grandes criações da banda na década de 1990.

 

Black Star
Mos Def & Talib Kweli are Black Star (1998, Rawkus / Priority, EMI / Universal)

Da estreia de RZA em carreira solo, com Bobby Digital in Stereo, ao vasto repertório do coletivo A Tribe Called Quest, em The Love Movement, passando pela maturidade do Outkast no hoje clássico Aquemini, não há como negar que o ano de 1998 foi deveras produtivo para o rap norte-americano. Peça fundamental dentro desse imenso conjunto de obras, Mos Def & Talib Kweli are Black Star pinta um curioso retrato da cidade de Nova York no final dos anos 1990. Acompanhados por um time seleto de produtores, os rappers Talib Kweli e Mos Def (hoje Yasiin Bey) discutem criminalidade, violência urbana, drogas, sexo e racismo de forma descritiva, minuciosa. Enquanto batidas e bases seguem em uma estrutura branda, por vezes jazzística, nos versos, faixas como Definition, Respiration e Thieves in the Night detalham um conjunto de ideias tão viscerais quanto acessíveis ao público médio. Fragmentos sutilmente encaixados em um universo próprio da dupla, cuidado que se reflete mesmo no cardápio de samples incorporados ao álbum, vide a inserção de músicas compostas por Gil-Scott Heron e Minnie Riperton.

 

Boards of Canada
Music Has the Right to Children (1998, Warp)

Os irmãos Mike Sandison e Marcus Eoin passaram grande parte da década de 1990 se aventurando em uma série de experimentações com instrumentos analógicos, uso inusitado de samples e fragmentos que transportaram a música eletrônica para um novo território, vide a sequência de faixas apresentadas nos inaugurais Twoism EP (1995) e Hi Scores EP (1996). Todavia, foi durante a produção do primeiro álbum de inéditas, Music Has the Right to Children, que o duo escocês alcançou melhor resultado em estúdio. De essência cósmica, o trabalho dominado pela inserção de sintetizadores etéreos, vozes submersas, captações de campo e variações do ambient techno/downtempo convida o ouvinte a se perder um universo de pequenas incertezas. São pouco mais de 70 minutos em que cada fragmento do disco parece bagunçar as experiências do espectador, flutuando em uma cama de melodias abstratas, base para a composição de Pete Standing Alone, Aquarius, Turquoise Hexagon Sun e demais faixas sutilmente apresentadas pela dupla no decorrer da obra.

 

Cat Power
Moon Pix (1998, Matador Records)

Chan Marshall parecia interessada em quebrar os limites de própria música em 1998. Distante do folk hermético que havia assumido nos três primeiros álbuns de inéditas, a cantora e compositora trouxe para dentro do quarto registro em estúdio uma sonoridade abrangente, além, claro, de um novo catálogo de versos dolorosos, sempre consumidos pela depressão. Acompanhada pelos músicos Mick Turner e Jim White, da banda australiana Dirty Three, Chan deu vida a um dos registros mais sofredores daquele ano, quiçá de toda a década de 1990, trafegando de maneira sóbria por entre arranjos de sopro e guitarras essencialmente sofredoras. Por todos os lados do trabalho borbulham verdadeiros blocos de melancolia, experiência que guia o álbum em totalidade. São canções como Metal Heart ou a devastadora Moonshiner, faixas que assumiriam de forma definitiva a imagem de Marshall como um dos grandes ícones dos corações partidos. Ponto de partida para o cenário explorado pela cantora nos anos 2000, Moon Pix é uma obra perfumada pelo álcool e a saudade, experiências tão amargas hoje, quanto na época em que foram lançadas.

 

Elliott Smith
XO (1998, DreamWorks)

Quem esperava que a mudança de Elliott Smith para uma grande gravadora pudesse prejudicar o trabalho do músico norte-americano acabou encontrando em XO uma grata surpresa. Sequência ao material apresentado um ano antes em Either/Or (1997), o registro que conta com distribuição pelo selo DreamWorks mostra a capacidade do músico em explorar a própria obra com ainda mais sensibilidade. Um trabalho minucioso e confessional reflexo da produção atenta de Rob Schnapf (Beck, The Vines) e Tom Rothrock (Stevie Nicks, Foo Fighters). Entregue ao público meses após a participação de Smith na trilha sonora do filme Gênio Indomável (1997), XO nasce como uma confirmação para a obra do artista. Do momento em que tem início, em Sweet Adeline, passando por músicas como Waltz #2 (XO), Baby Britain, Independence Day e Everybody Cares, Everybody Understands, cada composição detalhada no interior do disco mostra a capacidade do cantor em traduzir sentimentos tão universais de forma a dialogar com as mais variadas faixas de público. Um turbilhão poético que emociona mesmo nos instantes mais sorridentes.

 

Graforréia Xilarmônica
Chapinhas de Ouro (1998, Zoon Records)

O bom humor sempre foi encarado como o principal componente criativo para o trabalho produzido pela Graforréia Xilarmônica. Basta voltar os ouvidos para o cômico Coisa de Louco II (1995), estreia definitiva do quarteto gaúcho pelo lendário selo Banguela Records. Uma coleção de versos marcados pelo forte descompromisso, temas urbanos, relacionamentos fracassados e fina comicidade, componentes que também se repetem no segundo álbum de inéditas da banda comandada por Frank Jorge, Carlo Pianta, Alexandre e Marcelo Birck, Chapinhas de Ouro. Inaugurado pela enérgica Eu Gostaria de Matar os Dois, o trabalho segue em uma criativa mistura de ritmos que vai da jovem guarda ao pop rock dos anos 1970/1980, preferência evidente durante toda a execução da obra. Um repertório enxuto e essencialmente divertido, reflexo de faixas como Mixto Quente, Colégio Interno e Eu, essa última, posteriormente regravada e eternizada pelos mineiros do Pato Fu no álbum Ruído Rosa (2001).

 

Madonna
Ray of Light (1998, Maverick / Warner Bros.)

A grande beleza no trabalho de Madonna sempre esteve na capacidade de adaptação da cantora. Do colorido neon de Like a Virgin (1984) ao tom sóbrio e flerte com o R&B em Bedtime Stories (1994), durante grande parte dos anos 1980 e 1990, a cantora sempre pareceu interessada em corromper a própria sonoridade, brincando com as possibilidades a cada novo álbum. Com Ray of Light não poderia ser diferente. Sétimo trabalho de inéditas da artista, o disco lançado em março de 1998 talvez seja o registro que melhor sintetiza a permanente mutação que define a vida da cantora – dentro ou mesmo fora do estúdio. Enquanto Madonna celebrava a chegada da primeira filha, Lourdes, e a conversão à Cabala, a estreita relação com o produtor William Orbit, responsável por grande parte das faixas do disco, parece estimular todo esse universo de novos temas e inspirações, gerando uma verdadeira explosão criativa que se reflete em cada uma das 13 canções do álbum. Ao mesmo tempo em que os arranjos e entalhes eletrônicos esbarram na mesma sonoridade de artistas como Björk e Portishead, em se tratando dos versos, Madonna amplia ainda mais o próprio catálogo de referências. Mesmo que faixas como Little Star – escrita para a filha – sejam capazes de dialogar com o cotidiano da cantora, grande parte de Ray of Light explora um conjunto de elementos e conceitos existencialistas, íntimos de qualquer ouvinte. Canções que que mergulham na temática do amor (Drowned World/Substitute for Love), fé (Shanti/Ashtangi) e conflitos sociais (Swim), porém, sem necessariamente distanciar a cantora das pistas de dança.

 

Marcelo D2
Eu Tiro É Onda (1998, Sony)

Depois de dois excelentes álbuns como integrante do Planet Hemp — Usuário (1994) e Os Cães Ladram mas a Caravana Não Para (1997) —, Marcelo D2 decidiu investir no primeiro trabalho em carreira solo. Produzido de forma caseira, durante um breve intervalo das atividades do grupo carioca, Eu Tiro É Onda pinta um curioso retrato do cotidiano, infância e referências particulares do rapper carioca. Logo na abertura do disco, a biográfica 1967, faixa que reflete sobre o crescimento do artista, resgatando memórias particulares vindas de diferentes épocas e experiências, um indicativo da trilha seguida por D2 durante toda a execução da obra. Produto do cruzamento entre as batidas do Hip-Hop com fragmentos do samba, o trabalho de 13 músicas sustenta em composições como Mantenha o Respeito, Império Contra-Ataca e a própria faixa-título um indicativo de todo o material que viria a ser produzido pelo rapper nos próximos inventos em carreira solo, principalmente no hoje clássico A Procura da Batida Perfeita (2003).

 

Massive Attack
Mezzanine (1998, Cirva / Virgin)

Mezzanine é uma verdadeira preciosidade não apenas dentro da discografia do Massive Attack, mas, principalmente, em relação ao efervescente cenário da eletrônica britânica no final dos anos 1990. Na contramão de nomes como Fatboy Slim, The Prodigy e demais representantes do mesmo período, Robert Del Naja e Daddy G decidiram investir na produção de um som marcado pela completa leveza dos arranjos, temas jazzísticos e fragmentos extraídos de diferentes campos/décadas da música. Uma coleção de ideias que não apenas se apropria de fragmentos vindos de canções produzidas por The Velvet Underground (Risingson) e Isaac Hayes (Exchange), como amplia parte do material apresentado pela dupla inglesa no também clássico Blue Lines (1991). O resultado dessa criativa colisão de experiências está na formação de músicas como Teardrop, Angel, Inertia Creeps e Man Next Door, algumas das composições mais conhecidas (e regravadas) do Massive Attack. Entre colaborações com veteranos da cena britânica, como Elizabeth Fraser (Cocteau Twins), e a interferência direta do produtor Neil Davidge (David Bowie, Unkle), Mezzanine acabaria servindo de base para toda a sequência de obras produzidas pela dupla no decorrer dos anos 2000.

 

Mercury Rev
Deserter’s Songs (1998, V2 Records)

Deserter’s Songs é um disco mágico. Da primeira nota em Holes ao último acorde de Delta Sun Bottleneck Stomp, cada elemento do quarto álbum de inéditas do Mercury Rev parece transportar o ouvinte para um ambiente marcado pela completa leveza dos arranjos e versos. Uma fina transformação do pop psicodélico habitual, efeito da constante colaboração entre o guitarrista Jonathan Donahue, o cantor David Baker, além, claro, de todo o time de instrumentistas convidados a participar do trabalho. Com produção assinada por Dave Fridmann, artista que vinha colaborando com o The Flaming Lips nas gravações de The Soft Bulletin, obra “irmã”, lançada no ano seguinte, Deserter’s Songs colide temas orquestrais e melodias pop com a mesma naturalidade que veteranos como The Beach Boys. Composições como Goddess on a Hiway, Tonite It Shows e Opus 40 que convidam o ouvinte a se perder em um universo de pequenas minúcias e temas orquestrais, vide o preciosismo em Endlessy, uma das criações mais sensíveis já produzidas pela banda.

 

Ms. Lauryn Hill
The Miseducation of Lauryn Hill (1998, Ruffhouse / Columbia)

Seja como integrante do The Fugees ou como colaboradora nos trabalhos de Mary J. Blige, D’Angelo, Missy Elliott e Erykah Badu, Lauryn Hill passou grande parte da década se aventurando em diferentes núcleos do Hip-Hop/R&B. Todavia, foi com o lançamento do primeiro álbum em carreira solo, The Miseducation of Lauryn Hill, que a cantora, compositora, rapper e produtora foi oficialmente apresentada ao grande público. Produto da série de referências acumuladas pela artista desde o início da carreira, o extenso registro faz de cada composição um objeto precioso e essencial para a música da época. Mesmo que Doo Wop (That Thing) seja a canção mais lembrada (e tocada) do trabalho, sobram criações icônicas como Everything Is Everything, When It Hurts So Bad e Lost Ones. Surgem ainda colaborações bem-sucedidas, caso de Nothing Even Matters, encontro com o parceiro de longa data, D’Angelo, To Zion, com Carlos Santana, além da parceria com Mary J. Blige em I Used to Love Him. Mesmo a versão para Can’t Take My Eyes Off You se transforma na voz da norte-americana. Um trabalho marcado pelo completo esmero de artista e seus parceiros de produção, Che Guevara e Vada Nobles, cuidado que se reflete ainda hoje, duas décadas de lançamento do álbum, único registro autoral da carreira de Hill.

 

Mundo Livre S/A
Carnaval na Obra (1998, Abril Music)

Carnaval na Obra é uma obra de pequenas transformações para o trabalho da Mundo Livre S/A. Entregue ao público meses após a saída do ex-percussionista Otto, o álbum de 14 faixas e quase 70 minutos de duração nasce como uma clara extensão dos dois primeiros registros de inéditas do grupo, conduzindo o ouvinte em direção a um novo alinhamento conceitual/poético. Com produção dividida entre Carlos Eduardo Miranda, Edu K, Mario Caldato e Eduardo BiD, a obra de essência política se espalha em meio a um universo de temas orientados pelo samba rock, porém, temperados por doses consideráveis de música eletrônica e diálogos com a cultura africana, vide a parceria com Jorge Du Peixe em O Africano e o Ariano. Dividido entre instantes de puro experimentalismo (A Expressão Exata) e faixas comerciais (Bolo de Ameixa), Carnaval na Obra cresce como uma parcial ruptura em relação ao rock testado com Guentando a Ôia (1996), da mesma forma em que expande uma série de conceitos originalmente testados em Samba Esquema Noise (1994). Trata-se de uma obra lírica e musicalmente versátil, antecipando sonoridades que seriam exploradas de maneira bem-sucedida no álbum seguinte da banda, Por Pouco (2000).

 

Neutral Milk Hotel
In the Aeroplane Over the Sea (1998, Merge / Domino)

De todos os trabalhos lançados em 1998, In the Aeroplane Over the Sea segue como o mais icônico e, ainda hoje, influente. Resultado das experimentações de Jeff Mangum no Pet Sounds Studio, do produtor Robert Schneider (The Apples in Stereo), o sucessor de On Avery Island (1996) mostra não apenas o amadurecimento da banda completa pelos músicos Jeremy Barnes, Scott Spillane e Julian Koster, como a necessidade de Mangum em produzir uma obra coesa liricamente. Não por acaso, parte expressiva do trabalho estabelece uma série de conexões com o livro O Diário de Anne Frank (1947), uma descrição detalhada dos últimos anos de vida da jovem judia Annelies Marie Frank durante a Segunda Guerra Mundial. Não se trata de um álbum conceitual, mas um reflexo de tudo aquilo que Mangum experienciava na época em que o trabalho foi concebido. A mesma força explícita nos versos ecoa em toda a base instrumental do disco. Uma criativa colisão de diferentes ritmos que passa pela música do Leste Europeu, punk-folk, temas jazzísticos e ambientações acústicas, sempre caseiras, estímulo para músicas como Two-Headed Boy, The King of Carrot Flowers, Pt. One e, principalmente, Holland, 1945. Da capa, uma colaboração entre Mangum e o artista gráfico Chris Bilheimer, aos versos, uma colisão de pequenos acertos que viriam a influenciar o trabalho de bandas como The Decemberists, Arcade Fire e toda uma geração de artista no início dos anos 2000.

 

Otto
Samba Pra Burro (1998, Trama)

Um artista entregue ao reinvento. Depois de dois álbuns como integrante do Mundo Livre S/A — Samba Esquema Noise (1994) e Guentando a Ôia (1996) —, Otto decidiu investir em um novo projeto, dessa vez, em carreira solo, porém, cercado de colaboradores como o produtor Apollo 9 e ex-parceiro de banda, o músico Fred 04. Claramente influenciado pelas transformações que tomavam conta da música eletrônica no final dos anos 1990, o cantor e compositor pernambucano fez do debute Samba Pra Burro um precioso cruzamento entre elementos do trip hop, downtempo, breakbeat e ritmos regionais, postura reforçada em cada fragmento do disco. Inaugurado pela colaboração com a cantora Bebel Gilberto, em Bob, o trabalho segue em meio a uma seleção de faixas icônicas, caso de Ciranda de Maluco, Tv à Cabo / O que Dá Lá É Lama, Low, Renault / Peugeot e O Celular de Naná, estímulo para toda a sequência de obras que viriam a ser produzidas pelo músico no decorrer dos anos 2000, vide a forte similaridade com o trabalho seguinte, Condom Black (2001).

 

Outkast
Aquemini (1998, LaFace)

Com o lançamento de ATLiens, em 1996, André 3000 e Big Boi alcançaram um novo estágio dentro da discografia do Outkast. Claramente influenciados pelo soul/funk psicodélico da década de 1970, a dupla norte-americana passou a investir em um som marcado pela força dos instrumentos, assumindo explícito distanciamento em relação a outros exemplares do rap estadunidense. Todavia, foi com a chegada de Aquemini, em setembro de 1998, que o duo parecia de fato ter ampliado os próprios domínios. De essência etérea, e trabalho dominado pela inserção de batidas lentas, por vezes íntimas do trip hop, transporta o ouvinte para um ambiente de emanações lisérgicas e melancólicas. Não por acaso, parte expressiva dos versos detalhados no decorrer da obra se entregam ao uso de temas existenciais, romances fracassados, medos, angústias e conflitos urbanos, vide músicas como a icônica Rosa Parks, “Da Art of Storytellin’ (Pt. 1), além, claro, da faixa-título do trabalho. Produzido em um intervalo de quase um ano, Aquemini ainda conta com o backing vocal de Erykah Badu, Cee Lo Green (Liberation), Raekwon (Skew It on the Bar-B), George Clinton (Synthesizer) e todo um time seleto de instrumentistas que acompanham a dupla durante toda a execução da obra.

 

Pato Fu
Televisão de Cachorro (1998, BMG)

Longe do som esquizofrênico testado nos três primeiros trabalhos de estúdio — Rotomusic de Liquidificapum (1993), Gol de Quem? (1995) e Tem Mas Acabou (1996) —, Televisão de Cachorro marca o início de uma nova fase na carreira do Pato Fu. Trata-se de uma obra essencialmente acessível, pop e encorpada pela inserção de melodias pegajosas, por vezes íntima do power pop dos anos 1970, vide a enérgica Um Dia, Um Ladrão. Entre flertes com o trip-hop, como em Antes que Seja Tarde e a inaugural A Necrofilia da Arte, o destaque acaba ficando por conta da poesia sensível de Canção pra Você Viver Mais, música escrita em homenagem ao pai da vocalista Fernanda Takai, morto em decorrência de um câncer aos 52 anos de idade. Surgem ainda pequenas homenagens, como em Nunca Diga, versão para a música composta pelos amigos Graforréia Xilarmônica no álbum Coisa de Louco II (1995), além, claro, de Eu Sei, faixa originalmente gravada pela Legião Urbana no álbum Que País É Este (1987) e uma homenagem ao cantor Renato Russo, confesso adorador da banda mineira que havia morrido dois anos antes em decorrência da Aids.

 

Pearl Jam
Yield (1998, Epic)

A crueza explícita na inaugural Brain of J. parece orientar grande parte do trabalho do Pearl Jam em Yield. Quinto álbum de estúdio da banda de Seattle, o sucessor do bem-recebido No Code (1996) parece dispersar todo e qualquer traço de cansaço por parte da banda, energia evidente em cada acorde, batida e, principalmente, na voz firme de Eddie Vedder. Produzido em um intervalo de quase sete meses, o álbum marca um retorno da banda ao mesmo som pulsante de trabalhos como Ten (1991) e Vs. (1993), como um diálogo do grupo com a obra de veteranos do hard rock/garage rock produzido nos anos 1970, afinal, difícil não lembrar de Led Zeppelin na levada semi-acústica de músicas como No Way. Entre versos existencialistas e questionadores, parte expressiva deles inspirados em obras literárias, surgem algumas das composições mais icônicas do grupo, caso de Given to Fly, In Hiding, Wishlist e a frenética Do The Evolution, música eternizada na excelente animação de Kevin Altieri e Todd McFarlane para o clipe da canção. Um fechamento coeso para tudo aquilo que a banda produziu nos anos 1990.

 

PJ Harvey
Is This Desire? (1998, Island)

David Bowie em Earthling (1997), The Smashing Pumpkins com Adore (1998), Radiohead e o clássico OK Computer (1997). Em algum momento no final dos anos 1990, a fusão entre o rock e a música eletrônica parecia orientar o trabalho dos mais variados representantes da cena alternativa. Com PJ Harvey não poderia ser diferente. Para o quarto álbum em carreira solo, Is This Desire? (1998), a cantora e compositora britânica decidiu flertar com o uso de temas sintético, esbarrando com naturalidade em elementos do Trip-Hop/Industrial Rock, estímulo para grande parte do material que cresce no interior do disco. Nos versos, um doloroso turbilhão sentimental. Nos arranjos, um claro amadurecimento. Em parceria com Flood (The Smashing Pumpkins) e Marius de Vries (Massive Attack, Björk), produtores do disco, Harvey conseguiu transformar o recente término de relacionamento com o cantor Nick Cave no principal elemento para a formação das canções. O resultado está em uma sequência de músicas como A Perfect Day Elise, Joy, The River, No Girl So Sweet, The Wind e a derradeira faixa-título. Fragmentos do cotidiano doloroso de Harvey que chegam até o público cobertos pela precisão dos arranjos e inserções eletrônicas, resultando em um doloroso remix do universo originalmente explorado em To Bring You My Love (1995).

 

Pulp
This Is Hardcore (1998, Island)

Uma obra de excessos, delírios e depressão, assim pode ser resumido This Is Hardcore, sexto álbum de estúdio do Pulp. Encarado como um respiro final para o Britpop e todos os exageros que tomaram conta da música inglesa no final dos anos 1990, o registro de 12 faixas caminha por uma atmosfera amarga, de “fim de festa”, conceito explícito nos versos e no clima soturno de músicas como Party Hard e Help the Aged. Lançado três anos após a obra-prima Different Class (1995), o álbum parece seguir um caminho contrário em relação ao que a banda vinha experimentando desde o começo da década. São emanações instrumentais pouco eufóricas, alertando para a imposição quase “intimista” que viria a ser expandida por Jarvis Cocker em carreira solo. Abastecido por pianos, arranjos orquestrais e um enquadramento recluso, cada instante do disco parece romper com as cores e sons expandidas desde His ‘n’ Hers (1994), o que não quer dizer que músicas como I’m a Man ou mesmo a inaugural, ainda que sombria, The Fear, não sejam capazes de manter o ritmo do álbum em alta.

 

Sparklehorse
Good Morning Spider (1998, Capitol)

Em 1996, durante a divulgação do álbum Vivadixiesubmarinetransmissionplot (1995), Mark Linkous foi convidado a abrir uma série de shows para o Radiohead na Europa. Consumido pela própria depressão e os contantes abusos com drogas, o cantor e compositor norte-americano acabou sofrendo uma overdose quase fatal no meio da turnê, sendo internado às pressas e passando por meses de reabilitação por conta de complicações ocasionadas pelo episódio. Reflexo desse período sombrio de forte isolamento, melancolia e proximidade com a morte se reflete no segundo registro de inéditas do músico como Sparklehorse: Good Morning Spider. Dividido entre composições essencialmente sensíveis (Saint Mary) e atos raivosos (Pig), o trabalho de 17 faixas e quase 60 minutos de duração lentamente amplia o universo confessional detalhado durante a produção do elogiado debute do músico original de Richmond, Virginia. Um rico catálogo de versos entristecidos que acabariam servindo de base para o trabalho seguinte do músico, o doloroso e maduro It’s a Wonderful Life (2001), obra-prima de Linkous.

 

The Smashing Pumpkins
Adore (1998, Virgin

Em estúdio, as gravações do The Smashing Pumpkins nunca foram tranquilas. Conflitos entre os integrantes da banda, o pulso firme de Billy Corgan e conflitos pessoais acompanharam o trabalho do grupo desde o inaugural Gish (1991). Gravado logo após a morte da mãe de Corgan e do divórcio do cantor, Adore elevou essa mesma ambientação caótica a outro nível. Inventivo quando próximo do antecessor Mellon Collie and the Infinite Sadness (1995), o álbum que conta com produção dividida entre Brad Wood e Flood mostra a necessidade da banda de Chicago em se reinventar. Um bom exemplo disso está na base eletrônica que costura grande parte do trabalho. Inserções minimalistas que se revelam logo na abertura do disco, em Ava Adore, passa pelos sintetizadores e batidas crescentes de Daphne Descends e segue até a construção de músicas como Behold! The Night Mare, próximo ao encerramento do disco. Uma criativa desconstrução, mas que em nenhum momento oculta as avalanches de ruídos e guitarras que Corgan vinha explorando desde o começo da carreira.

 

Tortoise
TNT (1998, Thrill Jockey)

Poucos trabalhos parecem capazes de armazenar um conjunto tão vasto de referências quanto TNT, terceiro álbum de estúdio do grupo norte-americano Tortoise. Em um intervalo de 70 minutos, a banda original de Chicago, Illinois se entrega ao experimento, incorporando de forma curiosa elementos do rock, dub, minimalismo, música eletrônica, krautrock e ambiente, amarrando todo esse vasto catálogo de ritmos e texturas em uma composição de natureza incerta, mas ainda assim acessível, capaz de emocionar o ouvinte. De atmosfera densa, cada uma das 11 canções que se espalham ao longo do disco convidam o ouvinte navegar por um vasto oceano de possibilidades rítmicas, esforço que muda os rumos da obra a cada segundo. Diferente dos dois trabalhos que o precedem – Tortoise (1994) e Millions Now Living Will Never Die (1996) –, TNT mergulha o coletivo em uma fluência de composição jazzística, absorvendo elementos específicos da trajetória de bandas como Slint e Bark Psychosis, porém, em uma transmutação continua dos sons. Um disco em que a incerteza e completo desprendimento se transforma na principal garantia para o trabalho da banda.

 

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