30 Discos de 1999


Para celebrar as duas décadas de lançamento de algumas das obras mais importantes dos anos 1990, resgatamos uma seleção de trabalhos ainda hoje atuais e que servem de referência para diferentes exemplares da cena eletrônica, pop, hip-hop, R&B e rock. São registros significativos para a produção estrangeira, como The Soft Bulletin, do The Flaming Lips, Ágætis Byrjun, do Sigur Rós e 13, do Blur. Da música brasileira, vem o delicado Com Você… Meu Mundo Ficaria Completo, obra-prima de Cássia Eller, o político Lado A Lado B, última grande obra d’O Rappa, além, claro, do clássico Seja Como For, um dos grandes exemplares do rap nacional. Nos comentários, conta pra gente: quais são seus discos favoritos de 1999?


American Football
American Football (1999, Polyvinyl)

Versos consumidos pela dor, melodias atmosféricas e inserções detalhistas que vão do uso de metais à percussão minuciosa. Marcado pela delicadeza dos elementos, a estreia do American Football é uma obra que exige tempo até se revelar por completo para o ouvinte. Concebido em meio a camadas instrumentais, a estreia do grupo norte-americano mostra o esforço de Steve Holmes (guitarras e teclados). Steve Lamos (bateria, percussão e trompete) e Mike Kinsella (voz, guitarras e baixo) em transformar as próprias desilusões em música. São paisagens instrumentais que servem de base para a poesia existencialista e nostálgica de Kinsella, veterano da cena de IIllinois e personagem de destaque em bandas como Cap’n Jazz e Joan of Arc. Gravado em um intervalo de apenas dois dias, o trabalho revela ao público clássicos como The Summer Ends, Never Meant e I’ll See You When We’re Both Not So Emotional, frações do lirismo sentimental que rege o disco e uma das principais referências criativas para dezenas de outras bandas que viriam a surgir na década seguinte.

Basement Jaxx
Remedy (1999, XL)

É difícil ouvir as canções de Remedy e não ser prontamente arrastado para as pistas. Primeiro álbum de estúdio da dupla Basement Jaxx, o registro alavancado pela pegajosa Red Alert não apenas sintetiza a força criativa que há tempos vinha orientando o trabalho de Felix Buxton e Simon Ratcliffe, como dialoga de forma expressiva com tudo aquilo que parecia movimentar a cena britânica no momento em que o disco foi lançado. Concebido em meio a fragmentos de vozes, diálogos com ritmos periféricos, sintetizadores atmosféricos e pequenas corrupções estéticas, o registro que ainda conta com músicas como Bingo Bango, Jump n’ Shout e Rendez-Vu joga com os instantes, mudando de direção a cada nova faixa. Exemplo disso está no detalhismo de Always Be There, música que vai do R&B ao 2-step inglês em uma linguagem marcada pelo frescor, como uma fuga dos excessos que pareciam movimentar a produção de outros representantes do gênero.

Beck
Midnite Vultures (1999, DGC)

Se em Odelay (1996) Beck parecia estabelecer as regras do próprio trabalho, com a chegada de Midnite Vultures, três anos mais tarde, o músico conseguiu perverter esse resultado em uma estrutura completamente frenética. De essência dançante e marcado por referências que apontam para a década de 1970 – principalmente o R&B e o Funk -, o sexto registro em estúdio de músico norte-americano é uma explosão, como se todos os efeitos acumulados ao longo dos anos 1990 intencionalmente fugissem ao controle do artista. Kraftwerk encontra Prince, David Bowie esbarra em Bestie Boys e toda uma soma de referências instáveis parecem cuidadosamente ordenados pelo artista em parceria com a dupla de produtores The Dust Brothers. Com faixas como Hollywood Freaks, Nicotine & Gravy e Sexx Laws, o músico daria um passo seguro em relação ao grande público, o que não exclui a visão da obra como um catálogo excêntrico de sons e experimentos variados. É como se Beck assumisse um personagem diferente a cada faixa, fazendo do registro o estímulo para uma sequência de obras que seriam lançadas nos anos 2000.

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Beth Orton
Central Reservation (1999, Heavenly Records)

Mesmo com a boa repercussão de Trailer Park (1996), quando entrou em estúdio para as gravações do terceiro álbum de estúdio da carreira, Beth Orton ainda era uma artista muito mais reconhecida pela colaboração com grandes nomes da eletrônica inglesa, como William Orbit e The Chemical Brothers, do que pelo próprio trabalho. Nada que Central Reservation não fosse capaz de mudar. Dividido entre instantes de profundo refinamento melódico (Sweetest Decline) e faixas marcadas pelo forte diálogo com as pistas (Stolen Car), Orton entrega uma obra musicalmente equilibrada, porém, imensa na forma como a cantora explora os próprios sentimentos. São versos consumidos pela dor, canções ancoradas em delírios românticos e poemas tão dolorosos quanto libertadores, como uma versão atualizada do material entregue uma década antes pela conterrânea Tracy Chapman. Com produção de Victor Van Vugt (P.J. Harvey, Depeche Mode), o registro ainda viria a servir de base para os futuros lançamentos da cantora, como o sucessor Daybreaker (2002).

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Blur
13 (1999, Food / Parlophone)

Tudo parecia desmoronar quando os integrantes do Blur entraram em estúdio para as gravações do sexto registro de inéditas da banda. Enquanto o guitarrista Graham Coxon parecia cada vez mais distante do resto grupo, faltando a diversas sessões, Damon Albarn passava por um lancinante processo de adaptação após o fim do relacionamento com a cantora e compositora Justine Frischmann, do grupo Elastica. O resultado desse período de forte instabilidade emocional está nas canções de 13, obra que brinca com a incerteza das fórmulas instrumentais como um estímulo para a construção dos versos. Blocos de ruídos e instantes de profunda leveza, dualidade que se reflete logo nos primeiros minutos do disco, na sequência que vai do soul melancólico de Tender aos ruídos de Bugman. Um ziguezaguear de ideias e experiências pessoais que se conecta pela minúcia do produtor William Orbit (Madona, Beth Orton), responsável por amarrar faixas conceitualmente distintas, como No Distance Left to Run, Caramel, B.L.U.R.E.M.I., 1992 e o hit Coffee & TV, dentro de um mesmo universo criativo.

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Bonnie “Prince” Billy
I See a Darkness (1999, Palace / Domino)

A década de 1990 está repleta de obras consumidas pela dor. Do misto de apresentação e despedida que embala o trabalho de Jeff Buckley, em Grace (1994), passando pela sequência de obras produzidas por nomes como Elliott Smith e Cat Power, sobram registros dominados pela força dos sentimentos. Poucos tão comoventes quanto I See a Darkness. Primeiro álbum de estúdio de Will Oldham como Bonnie “Prince” Billy, o trabalho de 11 faixas se espalha em meio a instantes de profunda melancolia, desilusões amorosas e versos embriagados, como um convite a se perder pelo que havia de mais doloroso na vida do cantor e compositor norte-americano na época em que o registro foi gravado. São vozes duplicadas que se espalham em meio a arranjos diminutos, com uma parcial fuga e lenta desconstrução de tudo aquilo que o músico havia testado anos antes na série de obras como Palace. Canções como Death to Everyone, A Minor Place e a própria faixa-título que fizeram do álbum um dos mais tocantes do período.

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Built To Spill
Keep It Like a Secret (1999, Up / Warner Bros. Records)

Do ápice alcançado em Perfect from Now On (1997), Doug Martsch decidiu ir além. Na contramão do material apresentado dois anos antes, o músico norte-americano passou a investir na composição de faixas menores, porém, ainda mais detalhistas, colidindo guitarras carregadas de efeitos e vozes melódicas, mudança de direção que se revela por completo logo na inaugural The Plan. Claro que a propositada busca por novas sonoridades em nada interfere na produção de atos lentos e deliciosamente complexos. É o caso de Carry the Zero, ainda hoje, uma das músicas mais executadas do Built To Spill, além, claro, da derradeira Broken Chairs, com seus quase nove minutos de pura colisão de ideias e guitarras sujas. Co-produzido em parceria com Phil Ek, Keep It Like a Secret é claramente uma tentativa de Martsch em dialogar com outros exemplares do rock alternativo produzidos no final da década de 1990. São guitarras rápidas, como em Sidewalk, ou mesmo atos de pura confissão romântica, como em Else, uma das músicas mais sensíveis já compostas por Martsch – “Apenas deste lado do amor / É onde você encontrará a confiança … Suas necessidades te consomem / Para sempre / E com isso está a necessidade de estar aqui / Juntos“. Ponto de partida para o material que viria a ser produzido pela banda na década seguinte, Keep It Like a Secret ainda serviria de inspiração para nomes como Death Cab For Cutie, Modest Mouse e toda uma geração de artistas cresceram no início dos anos 2000.

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Cássia Eller
Com Você… Meu Mundo Ficaria Completo (1999, Universal Music)

Cássia Eller havia atravessado a década de 1990 em uma sequência de obras marcadas pela profunda entrega emocional e crueza na composição dos versos, estrutura evidente em trabalhos como homônimo disco de 1994 e, principalmente, registros ao vivo, caso do intenso Veneno Vivo, lançado em 1998. Entretanto, ao entrar em estúdio para as gravações do quinto registro em carreira solo, a cantora e compositora carioca decidiu seguir um caminho diferente. Acompanhada de Nando Reis, a artista decidiu mergulhar de cabeça na música popular brasileira, colidindo diferentes ritmos e fórmulas instrumentais que vão do samba ao uso de elementos da cultura nordestina. No repertório, faixas compostas especialmente para a artista, caso de Gatas Extraordinárias, de Caetano Veloso, Palavras ao Vento, de Marisa Monte e Moraes Moreira, e toda a sequência de músicas assinadas pelo parceiro de produção. Um fino exercício da completa versatilidade de Eller, cuidado que se reflete no minimalismo de As Coisas Tão Mais Lindas ou mesmo na turbulência de faixas como Infernal e Um Branco, Um Xis, Um Zero.

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Destiny’s Child
The Writing’s on the Wall (1999, Columbia)

Em 1998, durante o lançamento do autointitulado registro de estreia, as integrantes do Destiny’s Child pareciam apenas seguir a trilha de outros coletivos de R&B, investindo na produção de um som formatado, óbvio. Entretanto, com a chegada de The Writing’s on the Wall, em julho do ano seguinte, a postura assumida pelo grupo era outra. Com produção de Kevin “She’kspere” Briggs e contando com a interferência de nomes como Missy Elliott, o trabalho indicava o fortalecimento criativo do quarteto, principalmente Beyoncé Knowles, responsável pela composição de parte dos versos e produção do álbum. Lançado em meio a conflitos internos que resultaram na substituição de LaTavia Roberson e LeToya Luckett por Michelle Williams e Farrah Franklin, o trabalho teria parte expressiva de suas canções, como Bills, Bills, Bills, Bug a Boo e Jumpin’ Jumpin em uma posição de destaque em algumas das principais paradas de sucesso. Nada que se compare ao fenômeno de Say My Name, ainda hoje, uma das composições mais expressivas da década de 1990.

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Fiona Apple
When the Pawn… (1999, Clean Slate / Epic)

Com a boa repercussão em torno do primeiro álbum de estúdio da carreira, Tidal (1996), Fiona Apple teve a autorização da gravadora para se aventurar na composição de um novo registro de inéditas. O resultado dessa busca por um material conceitualmente desafiador está na produção de When the Pawn…, obra que conta com a produção de Jon Brion (David Byrne, Aimee Mann) e transporta o som produzido pela cantora e compositora norte-americana para um novo território criativo. Como indicado logo na abertura do disco, em On the Bound, são variações instrumentais que encontram na força das batidas, flertes com o rap e delírios jazzísticos a base conceitual para uma obra guiada em essência pela força dos sentimentos. Canções como melancólica Paper Bag, Fast as You Can e a derradeira I Know, responsáveis por reforçar o misto de canto e rima que Apple vinha aprimorando desde o início da carreira.

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Lenine
Na Pressão (1999, Sony BMG)

Instantes de calma e profunda agitação. Em Na Pressão, quarto álbum de estúdio do cantor e compositor Lenine, cada fragmento do disco encanta pelo profundo comprometimento do músico pernambucano em brincar com as possibilidades. São retalhos instrumentais que vão do samba ao regionalismo nordestino, do rock à música eletrônica em uma colorida colagem de ideias, como uma interpretação ainda mais complexa do material apresentado dois anos antes, em O Dia em Que Faremos Contato (1997). Da abertura do disco, na ensolarada Jack Soul Brasileiro, homenagem a Jackson do Pandeiro, passando pelo minimalismo de Paciência, ao refinamento na percussão de Meu Amanhã (Intuindo o Til) e Sons de Rede, camadas instrumentais e poéticas se espalham por entre as brechas da obra, tornando a experiência de ouvir o disco diferente a cada nova audição. Bem-sucedida colaboração com o produtor Tom Capone, o trabalho ainda serviria de inspiração para o disco seguinte de Lenine, o também versátil Falange Canibal (2002).

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Le Tigre
Le Tigre (1999, Mr. Lady)

Poucas vezes antes o discurso político de Kathleen Hanna pareceu tão acessível, divertido e íntimo do grande público quanto no primeiro álbum de estúdio do Le Tigre. Com o fim das atividades do Bikini Kill, a cantora e compositora norte-americana convidou Johanna Fateman e Sadie Benning para formar um novo projeto. O resultado desse encontro está nas 12 faixas que embalam o autointitulado registro de estreia do trio. Partindo de uma criativa reciclagem de conceitos, Hanna e as parceiras de banda vão do pop empoeirado dos anos 1960, resgatando conceitos de bandas como The Shangri-Las, à new wave e pop punk do início da década de 1990. Nos versos, a força do discurso feminista, elementos da cultura LGBTQI+, conflitos intimistas e o evidente desejo do grupo em fazer o ouvinte dançar. Não por acaso, o disco abre com a pegajosa Deceptacon, um disco-punk urgente e pronto para as pistas, sonoridade que viria a inspirar o trabalho de bandas como Cansei de Ser Sexy e Gossip. Posteriormente completo pela presença de JD Samson, substituto de Benning, o Le Tigre lançaria outros dois álbuns de estúdio, Feminist Sweepstakes (2001) e This Island (2004).

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MF DOOM
Operation: Doomsday (1999, Fondle ‘Em Records)

Com o fim das atividades do KMD, efeito direto da polêmica levantada pela capa de Black Bastards (1993), Daniel Dumile acabou se distanciando dos palcos. Entretanto, em uma tentativa de preservar a própria identidade e seguir com o trabalho como rapper, em 1997, o artista começou a se apresentar com o rosto coberto, fazendo da máscara de Doutor Destino, um dos grandes vilões da Marvel, o início da produção como MF DOOM. Primeiro registro do artista nessa nova fase, Operation: Doomsday reflete a capacidade de Dumile em jogar os instantes, mergulhando na composição de versos urbanos e canções marcadas pelo delírio dos temas incorporados pelo artista. São músicas como Doomsday, Rhymes Like Dimes, Go With The Flow e Dead Bent que se completam pela inserção de trechos de filmes, músicas empoeiradas dos anos 1980 e antigos seriados de TV, estrutura que seria melhor explorada pelo artista no hoje clássico Madvillainy (2003), colaboração com Madlib no cultuado Madvillain.

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Mos Def
Black on Both Sides (1999, Rawkus / Priority)

Mos Def já havia dado uma boa mostra do próprio trabalho quando se uniu ao rapper Talib Kweli para dar vida ao colaborativo Mos Def & Talib Kweli Are Black Star (1998). Entretanto, ainda faltava ao artista nova-iorquino um registro em que pudesse explorar a construção das rimas de forma particular, dando sequência ao material entregue no primeiro single em carreira solo, Universal Magnetic, de 1997. Com a boa repercussão em torno do Black Star, o rapper teve o caminho livre pela gravadora para dar vida ao autoral Black on Both Sides. Naturalmente íntimo de tudo aquilo que Mos Def vinha produzindo desde o início da década de 1990, o álbum se espalha em meio a versos políticos que discutem racismo, religiosidade, opressão policial e as pequenas inquietações de qualquer indivíduo, estrutura que viria a orientar o trabalho do artista pelas próximas décadas. Marcado pela fina seleção de samples que resgata nomes como Kraftwerk, Fela Kuti, The Notorious B.I.G. e Aretha Franklin, Black on Both Sides ainda se abre para a chegada de nomes como Busta Rhymes, Q-Tip e o próprio Kweli.

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Nine Inch Nails
The Fragile (1999, Nothing / Interscope)

The Fragile é uma obra consumida pela expectativa. Entregue ao público cinco anos após o lançamento do elogiado The Downward Spiral (1994), o trabalho causou comoção ao estrear no topo da Billboard, porém, rapidamente perdeu posições frente ao estranhamento gerado pela sonoridade incorporada por Trent Reznor para o terceiro álbum de estúdio do Nine Inch Nails. Co-produzido em parceria com o britânico Alan Moulder (My Bloody Valentine, The Smashing Pumpkins) e completo pela presença de nomes como Dr. Dre, o registro de 23 faixas e mais de 100 minutos de duração segue uma trilha completamente distinta em relação ao som que vinha sendo incorporado pelo músico desde a estreia com Pretty Hate Machine (1989). São ambientações ruidosas, vozes carregadas de efeitos e a propositada fuga de um direcionamento comercial, estrutura que se reflete mesmo nos momentos mais acessíveis do disco, como em The Day the World Went Away e a extensa We’re in This Together. Ideias que se espalham de forma torta, sem ordem aparente, tornando a experiência do ouvinte deliciosamente incerta.

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O Rappa
Lado A Lado B (1999, Warner Music)

Violência policial, religiosidade, medo e o evidente desejo de sobreviver a mais um dia. Em Lado A Lado B, terceiro álbum de estúdio do grupo carioca O Rappa, cada fragmento do disco tinge com crueza o misto de canto e rima que orienta a experiência do ouvinte até o último instante da obra. Um retrato detalhista da periferia brasileira que se completa pelo fina sobreposição de ritmos que vai do rap ao samba, do rock ao reggae de forma propositadamente inexata, torta. Instantes de caos e momentos de breve equilíbrio, resultado da combinação entre a poesia urbana de Marcelo Yuka e a produção minuciosa de Chico Neves (Skank, Los Hermanos), junto do norte-americano Bill Laswell (Motörhead, Yoko Ono), responsável pelas gravações do disco. Completo pela icônica imagem de capa do norte-americano Doze Green, o registro que ainda conta com a interferência direta de Marcelo Falcão, Xandão Menezes, Lauro Farias e Marcelo Lobato, revelaria ao público algumas das composições mais significativas da banda, caso de Me Deixa, Minha Alma (A Paz que Eu Não Quero), O Que Sobrou do Céu e a própria faixa-título. Um turbilhão criativo que ainda viria a orientar o sucessor O Silêncio Q Precede o Esporro (2003), já sem a presença de Yuka.

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Pato Fu
Isopor (1999, BMG)

Os integrantes do Pato Fu haviam atravessado a década de 1990 em uma sequência de obras marcadas pelo completo experimentalismo, caso de Rotomusic de Liquidificapum (1993), ou mesmo registros que se permitiam provar de diferentes fórmulas instrumentais e ritmos, como em Gol de Quem? (1995) e Tem Mas Acabou (1996). Entretanto, com a chegada de Televisão de Cachorro (1998) e a boa repercussão de faixas como Canção pra Você Viver Mais e Antes que Seja Tarde, o grupo, na época formado por Fernanda Takai, John Ulhoa, Ricardo Koctus e Xande Tamietti, decidiu mergulhar de cabeça na música pop. Não por acaso, ao entrar em estúdio para as gravações do quinto álbum de inéditas da carreira, o quarteto mineiro acabou investindo em uma sonoridade ainda mais acessível. O resultado dessa criativa mudança de direção está nas canções do radiofônico Isopor, trabalho que mais uma vez contou com a produção de Dudu Marote e revelou ao público algumas das canções mais pegajosas já produzidas pela banda, caso de Made in Japan, Depois e Perdendo Dentes. Um pop refrescante, leve, mas que se permite provar de colagens eletrônicas que vão do trip-hop ao drum and bass.

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Pavement
Terror Twilight (1999, Matador / Domino)

Stephenk Malkmus talvez deteste o resultado final de Terror Twilight, efeito direto do alto custo de produção — o músico estima que o disco tenha custado mais de U$ 100.000 —, e excessivo esmero do produtor Nigel Godrich (Radiohead, Beck), entretanto, difícil não se deixar conduzir pela poesia delirante e melodias cuidadosas que embalam o quinto e último álbum de estúdio do Pavement. Sequência ao bom Brighten the Corners (1997), lançado dois anos antes, o registro completo pela presença de Bob Nastanovich (percussão, teclados), Scott Kannberg (voz, guitarra), Steve West (bateria, percussão) e Mark Ibold (baixo, voz) mostra uma banda contida, mas não menos inventiva e profundamente detalhista. São camadas de guitarras e vozes límpidas que pouco se assemelham ao material entregue nos iniciais Slanted and Enchanted (1992) e Crooked Rain, Crooked Rain (1994). É como se do material entregue em Spit on a Stranger, faixa de abertura e uma das canções mais sensíveis produzidas pela banda, fosse concebido todo o repertório do disco. Até Jonny Greenwood aparece para tocar uma harmônica em Platform Blues e Billie, ocupando as pequenas brechas deixadas pela banda.

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Sigur Rós
Ágætis Byrjun (1999, Fat Cat / Smekkleysa)

Não importa quantas vezes você ouça: Ágætis Byrjun é um registro diferente a cada nova audição. Concebido em um intervalo de quase oito meses, o segundo álbum de estúdio do Sigur Rós não apenas avança criativamente em relação ao antecessor Von, de 1997, como reflete o completo amadurecimento estético do grupo islandês, na época formado por Jón Þór “Jónsi” Birgisson (voz e guitarras), Kjartan Sveinsson (teclados), Georg Hólm (baixo) e Ágúst Ævar Gunnarsson (bateria). Concebido em uma medida própria de tempo, o registro que conta com produção de Ken Thomas (Wire, M83) convida o ouvinte a se perder em um universo marcado pelos detalhes. São guitarras atmosféricas, vozes trabalhadas como instrumentos e a percussão complementar que surge em momentos estratégicos da obra. Um exercício minucioso que se reflete na construção de músicas extensas, como Svefn-g-englar, com mais de dez minutos de duração, ou mesmo Ný batterí, com sua estrutura crescente, vozes duplicadas e melodias atmosféricas que se revelam ao público em pequenas doses. Recebido de forma positiva pela crítica, o trabalho rapidamente atrairia uma multidão de ouvintes, fazendo do grupo um dos mais cultuados do período.

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Smog
Knock Knock (1999, Drag City)

Entre obras esquecíveis e trabalhos memoráveis, Bill Callahan havia atravessado a década de 1990 em uma sequência de registros que fizeram do Smog um dos projetos mais cultuados do período. Nada que se compare ao material entregue no elogiado Knock Knock. Sétimo álbum de estúdio da banda norte-americana, o registro utiliza da base ruidosa que corre ao fundo de cada canção como um complemento à poesia descritiva e melancólica do artista. São versos embriagados que se espalham de forma sempre atmosférica, estímulo para a formação de músicas como Held, Cold Blooded Old Times e a inaugural Let’s Move to the Country, síntese criativa do material que orienta a experiência do ouvinte até a faixa de encerramento do disco, Left Only with Love. Parte dessa estrutura vem da interferência direta do produtor Jim O’Rourke, artista que no mesmo ano havia lançado o experimental Eureka. São ambientações sujas e versos sentimentais, conceito que viria a orientar as composições de Callahan até o início do trabalho em carreira solo, na segunda metade dos anos 2000.

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Suba
São Paulo Confessions (1999, Ziriguiboom)

Nascido na Sérvia, porém, residente no Brasil desde o início da década de 1990, Mitar Subotić, o Suba, talvez seja um dos artistas estrangeiros que melhor que soube como explorar a música brasileira dentro de estúdio, transportando conceitos antigos para os novos tempos. Responsável pela produção de obras como Benzina (1996), de Edgard Scandurra, Silêncio (1996), de Arnaldo Antunes e Pierrot do Brasil (1998), de Marina Lima, em 1999, o produtor decidiu convidar parte desses colaboradores a trabalhar na composição do primeiro álbum em carreira solo, São Paulo Confessions. Marcado pela criativa colagem de ritmos que vai da bossa nova ao acid jazz, o registro que conta com nomes como Taciana, Katia B e a estreante Cibelle, sintetiza toda a versatilidade de Subotić na costura de cada elemento rítmico ou instrumental. Uma colorida colcha de retalhos que acabou parcialmente silenciada na noite de lançamento da obra, quando Suba, em uma tentativa de resgatar o material que vinha produzindo para Tudo Tanto (2000), de Bebel Gilberto, acabou morrendo por inalar a fumaça do incêndio em seu apartamento.

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The Chemical Brothers
Surrender (2019, Freestyle Dust / Virgin / Astralwerks)

Poucos registros sintetizam com tamanha naturalidade a música eletrônica produzida no final da década de 1990 quanto Surrender. Terceiro álbum de estúdio do The Chemical Brothers, o trabalho segue a trilha dos antecessores Exit Planet Dust (1995) e Dig Your Own Hole (1997), porém, se permite provar de fórmulas pouco convencionais, brincando com a inserção de ruídos eletrônicos, abstrações e melodias delirantes. Para a composição do álbum, Tom Rowlands e Ed Simons decidiram estreitar a relação com colaboradores vindos de diferentes campos da música. São nomes como Noel Gallagher (Let Forever Be), com quem a dupla britânica havia trabalhado dois anos antes, o veterano Bernard Sumner (Out of Control) e Hope Sandoval (Asleep from Day). Nada que pareça capaz de igualar a boa repercussão de Hey Boy Hey Girl, um dos marcos da Big Beat e, ainda hoje, uma das composições mais lembradas da dupla inglesa.

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The Dismemberment Plan
Emergency & I (1999, DeSoto)

Classificar o som produzido pelo The Dismemberment Plan em Emergency & I está longe de parecer uma tarefa simples. Do momento em que tem início, na linha de baixo destacada de A Life of Possibilities, passando pelo misto de pós-hardcore e funk, em What Do You Want Me to Say?, teclados emulando arranjos de cordas, na crescente Spider in the Snow, cada composição do disco parece transportar o ouvinte para um novo território criativo. Parte dessa estrutura versátil vem da forma como o próprio álbum foi concebido. Primeiro registro do grupo de Washington D.C. com o suporte de uma grande gravadora, a Interscope, o trabalho mostra o esforço de Eric Axelson (baixo e teclados), Jason Caddell (guitarra e teclados), Joe Easley (bateria) e Travis Morrison (vocal, guitarra e teclados) em se reinventar dentro de estúdio, avançando criativamente em relação aos antecessores “!” (1995) e The Dismemberment Plan Is Terrified (1997). Bem-recebido pelo público e crítica, Emergency & I ainda serviria de base para o trabalho seguinte da banda, o ótimo Change (2001).

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The Flaming Lips
The Soft Bulletin (1999, Warner Bros.)

Se alguém me perguntasse que instrumentos toquei, eu diria: o estúdio inteiro“. A frase dita por Wayne Coyne durante o processo de divulgação de The Soft Bulletin sintetiza o completo refinamento melódico que orienta o nono álbum de estúdio do The Flaming Lips. Concebido durante um período de forte instabilidade emocional para os integrantes da banda, com parte dos membros se despedindo de entes próximos e mergulhados em depressão, o registro parte dessa arquitetura triste como um estímulo para a construção dos versos e entalhes instrumentais. São orquestrações, sintetizadores e até retalhos eletrônicos, como uma versão aprimorada do material entregue quatro anos antes, durante o lançamento de Clouds Taste Metallic (1995). Parte desse resultado vem da forte interferência do produtor Dave Fridmann que, um ano antes, havia auxiliado o Mercury Rev na composição do também sensível Deserter’s Songs (1998). Tocante, o trabalho marcado por músicas como Waitin’ for a Superman e Race for the Prize não apenas seria responsável por apresentar o trabalho do grupo a uma parcela maior do público, como serviria de estímulo para o bem-recebido Yoshimi Battles the Pink Robots (2002), entregue três anos mais tarde.

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The Magnetic Fields
69 Love Songs (1999, Merge)

Desde o início da década, em 1990, Stephin Merritt e seus parceiros de banda, Claudia Gonson, Sam Davol, John Woo e Shirley Simms, vinham se aventurando na produção de uma série de obras curiosas. Trabalhos sempre introspectivos, sensíveis, caso de The Charm of the Highway Strip e Holiday, ambos de 1994. Nada que se compare ao trabalho do grupo norte-americano no hoje clássico 69 Love Songs. Inspirado pelo Teatro de Revista e, inicialmente, pensado como uma peça teatral, o registro aos poucos foi se transformando dentro de estúdio, resultando em, como o próprio título aponta, 69 canções de amor. São versos apaixonados, desilusões e experiências centrados em personagens (homossexuais, héteros e bissexuais), cenas e acontecimentos típicos de qualquer indivíduo romântico. Um delicado turbilhão emocional que se espalha em um intervalo de quase três horas de duração. Entre as preciosidades que recheiam o projeto, canções como a melódica The Luckiest Guy on the Lower East Side, Nothing Matters When We’re Dancing e, principalmente, The Book of Love, ainda hoje, uma das principais composições do grupo de Boston.

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The Olivia Tremor Control
Black Foliage (1999, Flydaddy / Cloud)

Captações de campo, vozes em coro, melodias ruidosas e orquestrações tortas. Do momento em que tem início até alcançar a última nota, Black Foliage: Animation Music Volume One mostra a capacidade de Will Cullen Hart e seus parceiros de banda em se reinventar dentro de estúdio. Tão delirante e inexato quanto o material entregue no antecessor Music from the Unrealized Film Script: Dusk at Cubist Castle (1996), o registro de 27 faixas, parte expressiva delas vinhas, vai de encontro a clássicos da música psicodélica, como Pet Sounds (1966), dos Beach Boys, e Revolver (1966), dos Beatles, porém, em uma linguagem própria do coletivo de Ruston, Louisiana. São faixas consumidas pelo experimentalismo lisérgico, como A Sleepy Company, ou mesmo canções em o grupo busca replicar o estilo de veteranos do gênero, como na nostálgica I Have Been Floated. Nada que prejudique o surgimento de composições minimamente acessíveis. É o caso de Hideaway, ainda hoje, uma das músicas mais lembradas da banda.

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The Roots
Things Fall Apart (1999, MCA)

Se você ouvir as canções de Things Fall Apart, lançado em fevereiro de 1990, e, posteriormente regressar aos três primeiros álbuns de estúdio produzidos pelo The Roots, Organix (1993), Do You Want More? (1995) e Illadelph Halflife (1996), vai perceber um projeto completamente distinto. Da icônica seleção de capas que utiliza de cenas do Movimento pelos Direitos Civis dos negros nos Estados Unidos, passando pelo seleto time de colaboradores que recheiam o disco, cada elemento da obra reflete o cuidado do grupo da Filadélfia na composição dos elementos. São versos políticos, urbanos e descritivos que pintam um retrato cru da sociedade norte-americana no final da década de 1990. Um espaço aberto à interferência de nomes como Erykah Badu, D’Angelo, Common, Mosdef, Eve e um time seleto de instrumentistas que se unem a Questlove e seus parceiros de banda para a realização da obra. Casa de clássicos como You Got Me e The Next Movement, o trabalho viria a orientar toda a sequência de músicas produzidas pelo The Roots no decorrer dos anos 2000.

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Tom Waits
Mule Variations (1999, ANTI-)

A década de 1990 talvez seja o período de maior experimentação na carreira de Tom Waits. Vindo de uma sequência de obras importantes produzidas nos anos 1980, caso de Swordfishtrombones (1983) e Rain Dogs (1985), o cantor e compositor californiano iniciou essa nova fase com o ruidoso Bone Machine (1992), estímulo criativo para que o artista estreitasse a relação com outros campos das artes, como em The Black Rider (1993), obra em que transporta para dentro de estúdio o material produzido para o musical de Robert Wilson. Passado esse momento de forte agitação, Waits acabou entrando em um longo período de silenciamento, hiato que só seria rompido com a chegada de Mule Variations. Marcado pelos ruídos, o trabalho que conta com produção da esposa e parceira de longa data Kathleen Brennan, segue exatamente de onde o cantor havia parado em Bone Machine. São abstrações sombrias, poemas musicados e instantes de profunda entrega emocional, direcionamento evidente em algumas das principais faixas do disco, como Chocolate Jesus, Come on Up to the House, Get Behind the Mule e, principalmente, a bem-recebida Hold On.

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Wilco
Summerteeth (1999, Reprise)

Inspirado pela literatura produzida na virada para o século XX, Jeff Tweedy e os integrantes do Wilco entraram em estúdio para as gravações do terceiro álbum de estúdio da banda. Entretanto, foram os problemas conjugais do músico que acabaram ganhando destaque em parte expressiva dos versos, conduzindo o trabalho do grupo – na época formado por John Stirratt (baixo), Ken Coomer (bateria), Jay Bennett (guitarras e pianos) –, para um novo território criativo. O resultado desse direcionamento melancólico está na composição de faixas como She’s a Jar, I’m Always in Love, How to Fight Loneliness e When You Wake Up Feeling Old, fragmentos do lirismo agridoce que ganharia ainda mais destaque no álbum seguinte do grupo, o clássico hoje Yankee Hotel Foxtrot (2002). São versos essencialmente confessionais e intimistas, mas que se completam pelo maior refinamento na composição dos arranjos, efeito direto da inserção de sintetizadores, melodias de pianos e camadas instrumentais que ocupam todas as brechas do registro.

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Xis
Seja Como For (1999, 4P Discos)

Em 1997, quando entrou em estúdio para as gravações do primeiro álbum em carreira solo, Xis estava longe de parecer um artista iniciante. Em atuação desde o fim da década de 1980, quando ajudou a formar o coletivo DMN, o rapper paulistano que já havia colaborado com nomes como Dentinho e DJ Hum encontrou na produção de KL Jay, dos Racionais MC’s, o estímulo para a composição do histórico Seja Como For. Concebido em meio a fragmentos de vozes, vinhetas e retalhos instrumentais que vão da música gospel ao funk, o trabalho de 18 faixas pinta um retrato minucioso e da situação política e social do Brasil no final dos anos 1990. Da rima descritiva que ganha forma em Bem Pior (“Infelizmente, assim, segue, assim, a rua / Polícia, tiro na nuca, filho da puta / País do caralho, só tem pilantra“), passando pela construção nostálgica de Segue a Rima (“Ainda lembro, ‘Senhor Tempo Bom’ como eu lembro / ‘Os Primo’ vão toca pega a lona olha o tempo“) à poesia lisérgica de Paranoia Delirante (“Agitação, adrenalina acelerada / Muita fumaça, muita brisa, várias quebrada“), cada composição do disco parece transportar o ouvinte para um universo completamente novo. Catapultado pelo sucesso em torno da música Us Mano e As Mina, vencedora no prêmio de Melhor Videoclipe de Rap no VMB de 2000, Seja Como For garantiria ao artista paulistano um convite para gravar o álbum seguinte, Fortificando a Desobediência (2001), pela WEA, um dos braços da gigante Warner Music Brasil.

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