30 Discos de 2003

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30 Discos de 2003

Ano fundamental para a consolidação do rock indie e todas as transformações que marcaram a música no começo do novo século, 2003 se transformou na morada de uma dezena de obras hoje entendidas como clássicas. Seja no crescimento do cenário nova-iorquino – com a estreia de bandas como Yeah Yeah Yeahs e The Rapture -, na experimentação eletrônica ou pela expressiva contribuição para o Rap nacional, a sequência de lançamentos que ocuparam a música há uma década refletem de maneira positiva na construção de uma série de obras recentes. Celebrando o fértil período, separamos 30 obras fundamentais e que completam dez anos de lançamento em 2013. Registros memoráveis que passeiam pelo Hip-Hop, Rock e Eletrônica tanto na música nacional, como na produção estrangeira.

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Autoramas

Autoramas
Nada Pode Parar os Autoramas (Monstro Discos)

O pop funciona de maneira excêntrica e brilhante nas mãos do Autoramas. Com um pé no Garage Rock dos anos 1970 e outro no rock independente dos anos 1990, a banda carioca encabeçada por Gabriel Thomaz fez do terceiro álbum sua obra mais comercial e ainda assim autêntica. Carregando nos efeitos, as linhas de baixo de Simone do Vale servem de base para as guitarras naturalmente sujas de Thomaz, tudo isso enquanto a bateria enérgica de Bacalhau se esparrama desgovernada por toda a formação da obra. Esbanjando hits até o último segundo, o disco vai da faixa de abertura, Você Sabe (com o clipe premiado no VMB de 2005) aos versos de Megalomania, O Bom Veneno e Caso Perdido em uma medida furtiva, pegajosa e em nenhum instante óbvia. Entretanto, é na sujeira melódica de Música de Amor e nas distorções de Resta Um que o álbum cresce. Resultado do interesse assumido da banda pela Surf Music e obras clássicas da Jovem Guarda, as faixas serviriam como alicerce para os trabalhos futuros do grupo.

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Bnegão
BNegão e Os Seletores de Frequências
Enxugando Gelo (Independente)

BNegão não custou a se adaptar passado o fim das atividades com o Planet Hemp. De fato, pouco tempo após o lançamento do bem recebido MTV Ao Vivo, o rapper carioca já tinha em mãos um novo álbum, dando inicio ao Seletores de Frequências. Extensão menos lisérgica e muito mais política do trabalho que vinha desenvolvendo previamente, com o lançamento de Enxugando Gelo o rapper ampliou não apenas os limites dos próprios versos, mas da instrumentação que o cercava. Para além da relação entre o Rap e o Hardcore, bem definida desde o clássico Usuário (1994), BNegão e os parceiros de banda firmaram no Soul, Funk e elementos do Dub um princípio de novidade. O resultado está na construção de músicas significativas como A Verdadeira Dança do Patinho ou a própria faixa título, músicas que colidem gêneros como uma alavanca para os versos. Distribuído gratuitamente via internet, o álbum foi um dos primeiros registros nacionais a fugir das grandes gravadoras.

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Broadcast

Broadcast
Haha Sound (Warp)

A julgar pelo lançamento cada vez menor de registros e a busca por uma frente de novos estilos, no começo dos anos 2000 qualquer álbum voltado ao Dream Pop parecia de forma bastante natural preso ao passado. Parcos representantes de um gênero esquecido e que buscavam se sustentar em meio a velhos acertos redundantes. Longe de repetir fórmulas ou construir um trabalho centrado em composições desgastadas, em 2003 James Cargill e os parceiros do Broadcast deram vida ao clássico Haha Sound, obra que não apenas parecia perverter as bases do gênero, como dava novo sentido à ele. Longe de se afundar em composições letárgicas e camadas suaves de distorção, o músico e a sequência mutável de colaboradores vão em busca de pequenos experimentos. Ora centrado em marcas específicas do Krautrock, ora sustentado reformulações eletrônicas de nítido invento, o disco cresce em uma medida particular da banda, um encontro esquizofrênico entre marcas talvez esquecidas do passado com inventos raros e centrados no presente.

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Cat Power

Cat Power
You Are Free (Matador)

Chan Marshall já havia destilado o próprio sofrimento para a construção dos excelentes What Would the Community Think (1996) e Moon Pix (1998), porém, nunca de forma tão honesta e musicalmente bem resolvida quanto em You Are Free. Mais completa e complexa obra da cantora norte-americana, o disco assume no universo fechado da artista um princípio amargurado para abastecer cada uma das faixas que o resumem. Acumulo de uma sequência de relacionamentos frustrados, problemas com o álcool e uma forte depressão que predominava durante toda a composição do álbum, Marshall utiliza dessa soma de exageros como uma catapulta para o crescimento natural do disco. Acompanhada por Dave Grohl e Eddie Vedder, a cantora dá vida a um dos catálogos mais sofridos de toda a produção musical da última década, reforço que se adorna pelos versos de Good Woman, I Don’t Blame You, Speak For Me e todo o conjunto mezzo libertador, mezzo desesperado de sons que orquestram a obra.

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Death Cab For Cutie

Death Cab For Cutie
Transatlanticism (Barsuk)

Maior obra da carreira do Death Cab For Cutie, em Transatlanticism a banda norte-americana alcança uma maturidade rara, transitando com perfeição entre o pop e o indie rock melódico sem exageros. Uma mistura essencial para o bom desempenho do registro e, claro, para o sucesso do grupo, ainda limitado a uma parcela específica de ouvintes. Com Ben Gibbard entregando os versos mais dolorosos e bem explorados da carreira da banda para a produção detalhada do guitarrista Chris Walla, o disco se mantém dentro de uma atmosfera repleta de sensações melancólicas e angustiantes. Essa percepção ultrapassa a barreira dos versos enaltecidos pelo vocalista, alcançando de forma cuidadosa a sonoridade da obra, algo que as guitarras, mesmo expansivas e assumam com sutileza e certo controle. Entre faixas mais “animadas” como Title And Registration e The Sound Of Settling, destacam-se criações brandas, como a própria faixa título, ou mesmo outras à exemplo de Tiny Vessels e A Lack Of Color.

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De Leve

De Leve
O Estilo Foda-se (Sony)

O deboche é a principal ferramenta do carioca De Leve em toda a extensão de O Estilo Foda-Se. Bem humorado e ácido até o último instante, o rapper orquestra na construção do primeiro disco solo uma estrutura distinta ao que abastecia o gênero até o presente momento – pelo menos na cena nacional. Ironizando a Industria Fonográfica e incentivando a pirataria, o disco traz logo na faixa de abertura, Prá Bombá No Seu Estéreo, um prelúdio das polêmicas que viriam a caracterizar a atuação do carioca mesmo nos lançamentos seguintes. Entre exageros alcoólicos (Caipirinha Man), rimas de provocação machista (Menstruação) e versos que não poupam nem a si próprio (Essa É Pros Amigos), o disco incorpora no discurso provocativo um sustento que se mantém criativo para além das rimas, costurando diálogos cômicos por todo o disco e uma base instrumental nunca limitada. Bem recebido, o álbum encontraria mais tarde uma espécie de continuação no também sarcástico Manifesto ½ 171 (2006).
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Dizzee Rascal

Dizzee Rascal
Boy in Da Corner (XL)

Enquanto o Hip-Hop norte-americano se concentrava em exageros e aproximações redundantes com o pop – salvo pelo desempenho de poucos artistas -, em solo britânico Dizzee Rascal encontrava novo rumo ao gênero com o lançamento de Boy in da Corner. Firmando base na eletrônica atenciosa do UK Garage e outros subgêneros da eletrônica local, o rapper passeia pelas ruas de Londres trazendo versos confessionais e descritivos. São canções que pervertem o R&B em uma medida sintética (I Luv U), costuram o rap da década de 1990 em uma sonoridade de esforço robótico (Cut ‘Em Off), até firmar um conjunto de músicas alheias a tudo o que definia o estilo durante o período. Primeiro registro de uma seleção de acertos que marcariam a carreira do rapper durante toda a década de 2000, o álbum seria o princípio de obras movidas pela mesma estrutura e alheias ao Rap convencional. Uma base para o que impulsiona desde o pop ensolarado do primeiro disco de Lily Allen, Alright, Still (2006), aos inventos regionais de M.I.A.

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Domenico+2

Domenico+2
Sincerely Hot (Ping Pong)

Segundo registro da parceria entre Moreno Veloso, Alexandre Kassin e Domenico Lancelotti pelo projeto +2, Sincerely Hot trouxe na combustão de sons propostos pelo baterista Domenico um contraponto à calmaria ministrada em Máquina De Escrever Música (2000). Sustentado em cima de uma arquitetura eletrônica, guitarras experimentais e uma temática que se adorna pela década de 1970, o disco assume nos versos um misto de ironia e erotismo, efeito que preenche com acerto cada uma das canções derramadas pelo disco. Recheado pelo suingue e passagens excêntricas pelo Funk, o álbum esquenta nas batidas de Te convidei pro samba, fragmenta o samba na faixa título até respirar na calmaria de músicas como Despedida e Solar. Contando com a participação de Caetano Veloso, Marisa Monte, Jorge Mautner, Lenine e um grupo seleto de convidados, o disco muda de rumo a cada nova composição, indo do Soul nostálgico em Felizes ficaremos na Estrada  até a bossa nova em Telepata.

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Four Tet

Four Tet
Rounds (Domino)

Se Dialogue (1999) e Pause (2001) representam de forma clara uma busca de Kirean Hebden por um espaço na eletrônica britânica, Rounds surge como um pleno posicionamento do artistas em um cenário de natureza particular. Longe de qualquer limite técnico ou conceitual, o produtor faz do álbum um trabalho de experimento constante, exercício que não apenas concedeu à ele o tão cobiçado território, como definiu o Four Tet como um dos projetos mais inventivos do novo século. Sem medo de apostar em diferentes temáticas instrumentais, Hebden foge à regra no que determina os limites da eletrônica, se envolvendo abertamente com elementos do pós-rock, jazz e diversos outros agregados sonoros de manifestação sempre inexata. Livre das ambientações etéreas que viriam a guiar o artista em There Is Love in You (2010), o disco parece crescer em uma formação específica dos sons, como se Hebden, mesmo inclinado ao invento, atuasse dentro de limites bem delineados.

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Jay-Z

Jay-Z
The Black Album (Roc-A-Fella/Def Jam)

Jay-Z já havia desenvolvido um exercício criativo e visivelmente aberto ao grande público na composição final de The Blueprint (2001), entretanto, foi com o lançamento de The Black Album que o rapper assumiu de vez as direções do rap norte-americano. Brincando abertamente com o Pop, a eletrônica e recortes que vez ou outra esbarravam no rock, o rapper e o time de produtores que o acompanham durante toda a obra finalizam um trabalho de esforço ainda maior do que os primeiros inventos do artista. Musicalmente acessível e recheado de hits – como 99 Problems, What More Can I Say e Encore -, o álbum parece trabalhado em uma medida ascendente, incoporando nos versos de ambientação pessoal um estímulo para catapultar a persona imposta pelo rapper. Contando com a presença de Timbaland, Kanye West, Rick Rubin e um time já acertado no trabalho anterior, Jay-Z fez do disco não apenas um complemento para a própria obra, mas para parte expressiva dos jovens rappers que viriam logo em sequência.

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isco

Lightning Bolt
Wonderful Rainbow (Load)

O ruído é a única garantia para o ouvinte que se aventura em Wonderful Rainbow. Musicalmente “acessível” se levarmos em conta os experimentos sujos que a dupla norte-americana vinha desenvolvendo desde o meio dos anos 1990, o álbum incorpora em dez rápidas composições um sentido pleno de anarquia e destruição. São mais de 40 minutos de distorções atentas ao Noise Rock, batidas que tendem ao Hardcore e toda uma movimentação musical que preza pela incerteza – tanto nos sons, como nos parcos vocais. Enquanto a bateria de Brian Chippendale indica o caminho a ser seguido, Brian Gibson preenche todo o restante do trabalho com experimentos desconsertantes, capazes de assustar em poucos instantes o ouvinte habitado ao som claro da música pop. Base para o que viria a orientar o trabalho de bandas como No Age e outros interessados no Noise Pop, o álbum encontra na proximidade entre as músicas uma espécie de faixa única, exercício aprimorado com destreza pela dupla.

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Ventura
Los Hermanos
Ventura (BMG)

Com o lançamento de O Bloco do Eu Sozinho (2001), o Los Hermanos havia provado ser capaz de algo maior do que um único hit – representado pela ascensão meteórica impulsionada por Anna Julia. Todavia, a busca por uma sonoridade menos comercial e hermética acabou por distanciar a banda carioca do grande público, feito que parece solucionado na arquitetura bem resolvida de Ventura. Valorizando o uso de metais em acerto com o samba, guitarras abastecidas pelo rock nova-iorquino e versos de grandeza imposta, o álbum revela o verdadeiro ponto de maturidade do grupo. Enquanto Marcelo Camelo aposta no lado sentimental da obra, visível na sensibilidade feminina de A Outra e na trama que costura Conversa De Botas Batidas, Rodrigo Amarante opta por conceitos existenciais (O Velho E O Moço), crônicas amargas (Do Sétimo Andar) e um teor poético de esforço urbano (Um Par). Aclamado pela crítica e responsável pela legião de fãs que cresceriam em torno da banda, o álbum é ao mesmo tempo o ápice e o princípio das divisões conceituais que encerrariam a produção do grupo anos mais tarde.

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M83

M83
Dead Cities, Red Seas & Lost Ghosts (Gooom)

Por mais que a beleza da obra de Anthony Gonzalez se revele com maior acerto nos sintetizadores de Saturdays = Youth (2008) e no teor épico-conceitual de Hurry Up, We’re Dreaming (2011), foi com Dead Cities, Red Seas & Lost Ghosts que o músico francês conseguiu mostrar de fato o que era capaz de produzir. Resolvendo os erros que arrastaram o autointitulado debut de 2001, o álbum traz no cruzamento entre o Dream Pop e a eletrônica um propósito constante de novidade. Raspando em conceitos climáticos que abraçam o Pós-Rock, Krautrock e uma série de elementos construídos nos anos 1970, o álbum mantém na estrutura ascendente o esforço de transformação das músicas. Enquanto canções como Run Into Flowers trazem guitarras perfumadas pela eletrônica, outras como America e Noise aproximam o registro de um efeito experimental, um aglutinado de nuances sujas, mas que jamais abandonam o uso de sons detalhistas revelados ao fundo de cada composição. Era apenas o princípio de uma sequência de registros memoráveis.

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Manitoba

Manitoba
Up In Flames (Domino)

A versatilidade é a principal marca do trabalho de Dan Snaith. Antes de apresentar ao mundo os inventos eletrônicos incorporados pelo Caribou ou mesmo pela sonoridade instável do Daphni, o produtor canadense fez do Manitoba um espaço de constante descoberta e mudança dos próprios rumos. Embora Start Breaking My Heart (2001) já fosse capaz de revelar o interesse musical do artista, é na variedade de conceitos expressos em Up In Flames que a obra de Snaith floresce. Delicado em essência, o disco rompe com as marcas prévias do canadense, absorvendo uma gama rica de instrumentos, talvez impensáveis para um trabalho do gênero. Por mais que a atmosfera eletrônica seja a base para a construção de todo o trabalho, a cada nova composição o sentido lírico e instrumental do registro é intencionalmente alterado. Enquanto músicas como Hendrix With Ko tocam a psicodelia em uma fórmula futurística, outras, à exemplo de Bijoux, passeiam pela Ambient Music em um esforço totalmente criativo e íntimo da música folk. Um universo inteiro transmitido em música.

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Marcelo D2

Marcelo D2
A Procura da Batida Perfeita (Sony)

Marcelo D2 havia entregue diversas pistas em Eu Tiro é Onda (1998), mas foi com o lançamento de A Procura Da Batida Perfeita que o rapper soube de fato como brincar com os sons e rimas de forma a abraçar o grande público. Sustentado em um encontro bem resolvido entre o Hip-Hop e o samba, o disco foge de todos os limites que haviam guiado a carreira do carioca dentro do Planet Hemp, apresentando ao ouvinte todo um novo catálogo de novidades. Comercialmente aberto ao público, o disco trouxe em músicas como Qual É, Loadeando e A Maldição do Samba a faceta mais acessível, porém, não menos óbvia do rap nacional, exercício que o rapper sustenta em totalidade na produção do disco. Musicalmente dinâmico, o trabalho coleciona no catálogo de samples um princípio para que as rimas de D2 cresçam convincentes, marca expressa na estrutura de C.B Sangue Bom e principalmente na rima coesa de Vai Vendo. Você pode até torcer o nariz, mas garanto que conhece boa parte das rimas apresentados neste disco.

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Outkast

OutKast
Speakerboxxx/The Love Below (Arista)

André 3000 e Big Boi não tinham mais saídas passado o ápice criativo que sustenta Stankonia (2000). Obra-prima do OutKast, o trabalho amarra as pontas soltas que ficaram para trás em Aquemini (1998), transformando a dupla de Atlanta, Georgia nos responsáveis por um dos projetos mais inventivos do Rap norte-americano daquele instante. A solução encontrada pelo duo foi a de fragmentar o aguardado quinto álbum em duas obras distintas: Speakerboxxx e The Love Below. Enquanto a primeira metade, assinada por Big Boi, assume a relação natural com o Rap – principalmente marcas alcançadas nos primórdios do gênero -, cabe ao trabalho encabeçado por André 3000 o lado mais pop e de aproximação com a música negra. Com mais de duas horas de duração e colaborações que rompem com a individualidade criativa de cada membro, o álbum garante um esforço além da imposição antológica da obra, mas a comprovação de que a dupla ainda tinha muito o que experimentar. Comercialmente bem recebido, o disco fez do single Hey Ya a composição mais tocada de 2003.

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Pipodélica

Pipodélica
Simetria Radial (Baratos Afins)

O fascínio pelos sons inaugurados nas décadas de 1960 e 70 servem como base para uma centena de bandas, entretanto, poucos sabem como olhar para o período com verdadeira atenção e ainda encontrar nele novidade. Registro de estreia da banda catarinense Pipodélica, Simetria Radial traz no manuseio coeso das vozes e guitarras um sentido de invenção. Influenciado pela obra de grupos como Pink Floyd, The Beatles e Secos & Molhados, o álbum representa em 14 faixas uma busca assumida por reviver e ainda assim transformar marcas específicas do passado. São guitarras que dançam pela psicodelia (João Ninguém e o Quadro Novo), sons capazes de revigorar o rock clássico (Meio Sem Fim) e todo um arsenal de experimentos encaixados em um doce conforto pop. Com produção cuidadosa e versos de apelo radiofônico, o trabalho praticamente suga o ouvinte para um vórtice de sensações e sons flutuantes.

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Prefuse 73

Prefuse 73
One Word Extinguisher (Warp)

Ao fundir bases experimentais com colagens típicas do trabalho de DJ Shadow e outros veteranos, Scott Herren encontrou no primeiro álbum do Prefuse 73, Vocal Studies + Uprock Narratives (2001), um sentido claro de novidade ao Hip-Hop e principalmente para a música eletrônica. Para a construção do segundo registro em estúdio, o produtor norte-americano resolveu ir ainda mais longe. Com os rumos alterados a todo o instante, One Word Extinguisher soluciona em 23 músicas rápidas um cenário de possibilidades criativas para diversos gêneros. Entre viagens jazzísticas, ensaios abstratos que parecem resgatar a IDM dos anos 1990 e todo um agrupado de colagens musicais, Herren cria um trabalho tão rico, que mais parece uma imensa discografia picotada e alinhada de forma aleatória. Apostando no uso de sons e vozes assíncronos, o produtor caminha pelos experimentos, pinçando vez ou outra elementos específicos para serem encaixados em uma atmosfera totalmente irregular.

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Radiohead

Radiohead
Hail to the Thief (Parlaphone)

Depois de dois grandes discos marcados pela desconstrução do som habitual, Hail to the Thief trouxe um som menos denso e com um elemento que tinha sido quase que esquecido pelo grupo: as guitarras. O disco mescla os sons eletrônicos e frenéticos de Kid A (2000) e Amnesiac (2001) com a memória das guitarras que embalavam o rock alternativo dos dois primeiros registros do grupo. O resultado soa como um respiro após um período intenso, mas sem perder o que já foi construído. Grande parte das letras foram moldadas pela revolta de Thom Yorke em relação a Guerra ao Terror, iniciativa militar norte-americana para combater o terrorismo depois de 11 de setembro. As sessões de gravações do álbum duraram apenas quatro semanas e várias músicas foram apresentadas previamente em apresentações do grupo. Hail to the Thief não é o melhor álbum do Radiohead, mas também não significa um retrocesso, ele é um meio termo necessário no currículo da banda.

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Sufjan
Sufjan Stevens
Greetings from Michigan: The Great Lake State (Secretly Canadian)

No início de 2003 Sufjan Stevens resolveu dar inicio a um dos mais ambiciosos (e geniais) projetos da música norte-americana: The 50 States Project. Espécie de gigantesca homenagem aos 50 estados que compõem o território dos Estados Unidos da América, o músico deu início à atividade com o lançamento do sutil Greetings from Michigan: The Great Lake State, trabalho em que se aventura musicalmente pela região de origem, bem como estabelece todo um novo e detalhado enquadramento à cena folk contemporânea. Posteriormente, mesmo que a imensa ideia tenha se revelado como uma brincadeira por parte do compositor e abandonada após o lançamento do ainda mais belo Illinois (2005), fugir da beleza e das formas sonoras que se sobrepõe no interior da obra é uma tarefa quase impossível. Com letras sempre descritivas – que vão desde arcos fechados até manifestações subjetivas do músico -, Stevens cria as bases para que toda uma gigantesca e delicada tapeçaria musical seja estendida pelo álbum, que se dissolve de forma natural em acordes doces e aconchegantes.

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punk

The Exploding Hearts
Guitar Romantic (Dirtnap)

Passada uma década desde o lançamento de Guitar Romantic e poucos foram os grupos capazes de igualar o mesmo descompromisso raivoso que preenche a estreia do The Exploding Hearts. Formada em Portland, Oregon em 2001, a banda trouxe no resgate instrumental de bandas como Buzzcocks, The Clash e outros veteranos do punk inglês um fluxo enérgico para a cena norte-americana – naquele momento preenchida pelo revival Pós-Punk. Tudo é resolvido em cima de guitarras rápidas, versos melódicos e um teor nostálgico que parece longe de parecer redundante ou gasto. Da bateria veloz de Thorns In Roses às guitarras bem encaixadas de Modern Kicks, cada instante proclamado no trabalho do grupo se manifesta em alinhamentos efêmeros, ampliando o teor jovial das vozes e sons que estacionam de forma criativa no Power Pop dos anos 1970. Poucos meses após o lançamento do disco, um acidente de carro ceifaria a vida de quase todos os integrantes, levando ao fim precoce de uma das bandas mais intensas do rock estadunidense.

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The National

The National
Sad Songs For Dirty Lovers (Brassland)

Com exceção do primeiro disco, toda a discografia do The National parece ter nascido de uma piscina de álcool e dramas não resolvidos. Canções de amor, solidão e desespero que acabam se confortando na Instrumentação sombria posicionada no interior de cada obra. Entretanto, nenhum dos álbuns do quinteto de Cincinnati, Ohio conta com tamanho teor alcoólico e emocional quanto Sad Songs for Dirty Lovers (2003). Segundo registro em estúdio da banda, o álbum flutua do princípio ao fim entre canções pacatas e berradas. Enquanto Cardinal Song, na abertura do disco, posiciona o grupo no mesmo cenário brando-desesperador dos registros futuros, as guitarras e gritos de Slipping Husband, logo em sequência, rompem completamente essa lógica. Até o fim do álbum It Never Happened, Murder Me Rachael e Lucky You mergulham ainda mais o registro em um ambiente desolador, arrastando o ouvinte para um universo que se constrói cada vez mais sombrio.
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The Postal Service

The Postal Service
Give Up (Sub Pop)

Depois de colaborar com o primeiro registro de Jimmy Tomborello com o Dntel – Life Is Full of Possibilities, de 2001 -, Ben Gibbard e o produtor californiano passaram a se comunicar com maior frequência, trocando bases eletrônicas e melodias gravadas em CD-Rs pelo correio. O resultado dessa cooperação à distancia veio na sutileza de Give Up, registro de estreia do The Postal Service e um dos álbums mais significativos da cena independente na última década. Tramado em cima de uma base minimalista de batidas, sintetizadores e guitarras eletrônicas, o disco absorve com exatidão elementos individuais de cada um de seus colaboradores. Com a intervenção de Chris Walla (também do Death Cab For Cutie), Gibbard trouxe as letras e melodias complementares à arquitetura sintética de Tomborello, resultando na solução de clássicos como Brand New Colony, Such Great Heights e demais composições que ao longo de uma década foram degustadas por ouvintes de todo o globo. Embora a dupla tenha colaborado posteriormente em singles e EPs, o mitológico e prometido segundo disco nunca foi lançado.

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The Rapture

The Rapture
Echoes (DFA)

Anárquico e dançante, assim é Echoes, disco de estreia do The Rapture e uma viagem lisérgica para o fim da década de 1970. Inventivo em relação a tudo o que ocupava o revival Pós-Punk da época, o álbum parece aprofundar a relação com o Dance Punk do Gang Of Four, olhando de forma atenta para os primórdios da House Music como um sentido pleno de mudança. Longe de parecer uma obra de colagens, a estreia do então quarteto nova-iorquino se sustenta por si própria, efeito assumido na eletrônica de I need your love, nas guitarras planejadas de Sister savior ou no arrasa-quarteirões que é House of jealous lovers, uma das melhores faixas lançadas na década passada. Despretensioso e ainda assim inclinado ao acerto, o disco antecipa na produção de Tim Goldsworthy e James Murphy (LCD Soundsystem) parte do que guiaria a música pelos próximos anos. Se com Is This It (2001) o The Strokes havia apresentado um cenário de novas possibilidades, com Echoes o The Rapture foi ainda mais além.

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The Shins

The Shins
Chutes Too Narrow (Sub Pop)

Encantador. Do momento em que as guitarras de Kissing The Lipless têm início, aos sons que finalizam com calmaria Those To Come, cada instante de Chutes Too Narrow, segundo registro em estúdio do The Shins, esbanja melodias e sentimentos confessos. Delineado por harmonias detalhistas de vozes e instrumentos, o álbum vai até a década de 1960 em busca de inspiração, passa pela música folk dos anos 1970, o rock indie da segunda metade da década de 1990, até sustentar uma medida lírica e musical de maturação visivelmente própria. Phil Ek, que já havia trabalhado de forma coesa com Built To Spill e Les Savy Fav, assume na produção do registro um esforço genuíno. Cada instrumento, voz ou mínima porção instrumental parece encaixada com acerto, resultando em uma das sequências de faixas mais bem resolvidas de toda a trajetória do rock alternativo. Se Oh, Inverted World (2001) entregava as pistas sobre o trabalho da banda, então Chutes Too Narrow era a comprovação da coerência de James Mercer e seus parceiros.

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The Strokes

The Strokes
Room On Fire (RCA)

Todos foram pegos de surpresa por Is This It. A postura descompromissada, o jogo veloz das guitarras e os versos tramados em cima de uma estrutura bem definida, garantiram ao The Strokes a licença de entrar nos anos 2000 para romper com o que o Nirvana havia fixado anos antes. Sem romper com a fórmula pronta firmada no primeiro disco e desfilando pelo Hype em um estágio de aclamação, o grupo nova-iorquino fez de Room On Fire a base para tudo o que viria guiar a avalanche de bandas apresentadas logo em sequência. Seja pelos acordes sujos de Automatic Stop, o riff-chiclete de Reptilia ou a letra tola e inevitável de The End Has No End, tudo parece pensado de forma a fisgar o ouvinte. Gordon Raphael, que já havia trabalhado com o grupo no disco anterior, parece compreender com maior interesse a vocação da banda, transformando os vocais de Julian Casablancas em um instrumento alinhado às guitarras cantaroláveis de Nick Valensi. Poucas vezes “mais do mesmo” serviu de forma tão assertiva quanto neste disco.

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The Unicorns
The Unicorns
Who Will Cut Our Hair When We’re Gone? (Alien8)

Excentricidade e encanto se confundem no estranho universo de Who Will Cut Our Hair When We’re Gone?. Último registro em estúdio da banda canadense The Unicorns, o álbum traz no manuseio pop dos versos e sons uma alternativa para o ambiente caseiro que protege as canções da banda. Com versos de efeito nonsense e instrumentação Lo-Fi, o disco vai da primeira até a última música esbanjando um jogo de acordes tortos, complemento involuntário para músicas como I Was Born (A Unicorn), Ghost Mountain, Sea Ghost e todo um colorido jogo de faixas que surgem de forma aleatória pelo disco. Gravado de forma artesanal, a obra cresce como uma espécie de acumulo das experiências musicais produzidas pela banda desde o começo dos anos 2000, condução que absorve elementos de grupos como Modest Mouse, Of Montrel e vomita em uma medida colorida, difícil de ser evitada.

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TWS
The White Stripes
Elephant (V2/XL)

Tudo que faltava ao White Stripes era um hit. Fell in Love with a Girl, lançada como parte de White Blood Cells em 2001 até havia chego bem perto disso, mas ainda faltava à dupla uma composição capaz de apresentá-los de fato ao grande público. Veio então Elephant, em Abril de 2003, e poucas semanas antes a canção que mudaria a história da dupla: Seven Nation Army. Crescente e marcada por um dos riffs mais lembrados dos anos 2000, a música abre as portas para o que a dupla conduz de forma invejável no decorrer da obra. Catálogo de composições melódicas, o quarto registro em estúdio da dupla se apresenta como o ponto central de transformação. Enquanto sobras do Garage Rock vindo dos trabalhos passados se acumulam dentro de um composto agressivo, um maior aproveitamento dos sons estimulam a dupla a abandonar as repetições de outrora, resultando em canções tão criativas quanto a faixa de abertura da obra. Da crescente I Just Don’t Know What to Do with Myself aos sons comportados de In the Cold, Cold, Night, tudo segue em uma medida de acerto que vai do Folk ao Blues consolidando de vez a carreira da banda.

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The Wrens

The Wrens
The Meadowlands (Absolutely Kosher)

Em construção desde o fim da década de 1990, The Meadowlands não é apenas o melhor registro da carreira do The Wrens, mas a comprovação de que o tempo, quando ministrado nas mãos de um grupo veterano, funciona de maneira assertiva. Ponto de plena compreensão das guitarras, versos e temas incorporados pelo grupo desde o final dos anos 1980, o terceiro álbum de estúdio da banda de New Jersey circunda referências e incorpora no uso de uma linguagem particular uma solução musical invejável. Entre guitarras que esbanjam aproximações com o rock independente da década de 1990 e vocais melódicos capazes de resgatar a essência de bandas como Big Star e Replacements, o disco cresce livremente por entre canções de amor, representações cotidianas de cada integrante e uma solução instrumental sempre atenta ao detalhe, feito que poucos grupos ao longo da mesma década seriam capazes de repetir.

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YYS

Yeah Yeah Yeahs
Fever to Tell (Interscope)

As guitarras velozes de Is This It, o clima sombrio imposto em Turn on the Bright Lights e todas as transformações que ocupavam Nova York no começo dos anos 2000 mostravam que uma cena bem estabelecida crescia ali. Contudo, mesmo a grandeza de obras que brotavam ao longo do período deixavam em aberto a vaga de uma figura carismática e que fosse capaz de representar toda a somatória de lançamentos, posto ocupado por Karen O assim que o primeiro disco do Yeah Yeah Yeahs foi apresentado ao público. Cru e intenso em totalidade, Fever To Tell rasga os versos da cantora enquanto Nick Zinner e Brian Chase dão conta de sustentar toda a musicalidade instável que cresce pela obra. Seja pelos ruídos épicos de Y Control, o Punk Lo-Fi de Man ou o romantismo confesso que a banda esbanja na lacrimal Maps, cada pedaço do registro representa com exatidão as transformações que ocupavam a cena alternativa do período. Primeira grande obra com produção assinada por Dave Sitek (TV On The Radio), Fever To Tell ultrapassou os limites da cidade de origem, se transformando em um dos exemplares mais queridos da década.

Veja também:

Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

18 thoughts on “30 Discos de 2003

  1. A pior lista até agora por aqui. Decepcionante. Salvo exceções (The national, Radiohead, The strokes.)O resto é lixo, principalmente essas porcarias nacionais.

  2. “principalmente essas porcarias nacionais”

    Tem pelo menos uns 3 clássicos nacionais ai amigo, lixo é o Room On Fire, cópia da cópia do Strokes que nem deveria estar na lista. Ainda fico no aguardo para as listas de 1991 e 1969 que ainda não saíram. Sem contar que naqueles especiais de estilos poderia rolar sobre Shoegaze e IDM, não?

  3. Achei que teríamos THE KNIFE com DEEP CURTS, excelente disco de 2013.

    🙁

  4. Tem uns idiotas que só pq curtem musica estrangeira e se acham os fodões e ficam renegando a produção nacional… foda-se otário!

  5. Adoro música nacional, sou músico, más não dá pra gostar desses lixos, ” B negão, De leve, Marcelo D2, pode parar Sou mais o Autoramas e Los Hermanos.
    Caro Danilo, não sou idiota e não gosto só de música estrangeira e nem sou fodão, não gostar de rap ou hip hop ou samba não é renegar a produção , se você não respeita opinião dos outros não comente neste blog, que por sinal é muito bom.
    Obs. otário é,,,,,,,,,,

  6. My morning jacket – It still movies
    Muse – Absolution
    The mars volta – De loused in the comatorium

  7. Eduardo, não entendi uma coisa. Vc chamou de lixo pq a qualidade geral é ruim mesmo, ou apenas pq vc não gosta do estilo rap/hip-hop?

    Se for a primeira opção, dá pra respeitar sua opinião, mas se for a segunda, seria falta de bom senso da sua parte, até irracional.

    É o equivalente nos filmes de dizer, por exemplo, que Se Beber Não Case é lixo só pq eu não gosto de comédia.

  8. Eu colocaria o álbum Invincible do Michael Jackson. Apesar de não ter a repercussão que sem dúvidas o álbum merece, o mesmo é uma obra prima a ser ouvida.

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