30 Discos de 2009


Em se tratando de música, qualquer apreciador tem seu momento favorito. Pode ser o lisérgico ano de 1967, com The Beatles, Pink Floyd e The Velvet Underground; a caótica produção de 1977, vide obras de artistas como Sex Pistols, Fleetwood Mac e David Bowie ou mesmo a rica coleção de registros lançados em 1991, com os trabalhos de Nirvana, My Bloody Valentine e Primal Scream.

Entretanto, poucos momentos me parecem tão inventivos – principalmente em se tratando da produção brasileira –, quanto o ano de 2009. Da letargia de Céu, em Vagarosa, ao som cósmico do Animal Collective, na obra-prima Merriweather Post Pavilion, sobram registros importantes lançados durante o período. Uma fina seleção de obras resumida neste especial com 30 discos essenciais que foram apresentados há uma década. Nos comentários, compartilhe com a gente: quais sã discos favoritos de 2009.


Animal Collective
Merriweather Post Pavilion (Domino)

Sons de planetas captados por satélites da NASA; melodias de vozes que resgatam a leveza de obras clássicas como Pet Sounds (1967); versos divididos entre o amor e a esquizofrenia. Em Merriweather Post Pavilion, oitavo registro em estúdio da banda norte-americana Animal Collective, todos os experimentos testados em mais de uma década de ensaios e álbuns complexos assume um estágio de conforto e perfeição. Ainda que os arranjos e toda a estrutura musical do trabalho pareça ampliar conceitos inicialmente testados em outros álbuns do grupo – caso de Feels (2005) e Strawberry Jam (2007) -, o nítido flerte com o pop na composição dos versos expande visivelmente o alcance da obra. Trata-se do trabalho em que o coletivo mais se aproxima do “grande público”, reforçando o uso de arranjos e letras acessíveis, direcionamento explícito em faixas como Summertime Clothes, Brothersport e, principalmente, na pegajosa My Girls. Ficou impressionado com a ilusão de ótica causada pela capa do disco? Espere só até perceber os efeitos de cada música no seu cérebro.

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Arctic Monkeyes
Humbug (Domino)

Para além do hermético Tranquility Base Hotel & Casino (2018), Humbug talvez seja o trabalho mais revolucionário na carreira do Arctic Monkeys. Depois de dois discos marcados pelo forte frescor adolescente – Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not (2006) e Favourite Worst Nightmare (2007) –, o registro entregue em agosto de 2009 revelou ao público uma banda claramente madura, completa. Entre versos existencialistas, instantes de profundo delírio psicodélico e emoções afloradas, o destaque acaba ficando por conta da força das guitarras de Jamie Cook e Alex Turner. Parte dessa transformação nasce da interferência direta de Josh Homme (Queens of The Stone Age) como produtor do disco em parceria com o experiente James Ford (Florence + The Machine, HAIM). São músicas como a crescente Crying Lightning, Dance Little Liar e Potion Approaching em que Turner e os parceiros de banda buscam inspiração em clássicos do rock produzido na década de 1970. Mesmo a delicada Cornerstone se espalha em meio a guitarras lisérgicas, estímulo para a poesia aflorada que viria viria a assumir novos contornos nos futuros lançamentos da banda.

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Banda Gentileza
Banda Gentileza (Independente)

Dividido entre o humor e a melancolia, o primeiro álbum de estúdio do grupo paranaense Banda Gentileza encanta pela profunda honestidade estampada nos versos. São histórias de amor, desilusões, crises existencialistas e instantes de profundo refinamento poético. Com produção de Plínio Profeta, o trabalho ganha forma no romantismo brega de Coracion, passa pelos metais e guitarras detalhistas de O Indecifrável Mistério de Jorge Tadeu, cresce na divertida Piá de Prédio e segue em meio a pequenas variações rítmicas, como na viola caipira de Teu Capricho, Meu Despacho ou mesmo no sambinha de Preguiça. Retalhos instrumentais e líricos que refletem completo amadurecimento de Heitor Humberto e seus parceiros de banda, como uma extensão natural de tudo aquilo que o grupo curitibano havia testado nos primeiros EPs e músicas apresentadas no MySpace.

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Black Drawing Chalks
Life Is a Big Holiday for Us (Monstro Discos)

Antes de existir Carne Doce, Boogarins ou qualquer outro representante recente da cena goiana, eram as guitarras do Black Drawing Chalks que chamavam a atenção do público. Em Life Is a Big Holiday for Us, segundo álbum de estúdio do quarteto formado por Victor Rocha (guitarra e voz), Renato Cunha (guitarra), Denis de Castro (baixo) e Douglas de Castro (bateria), cada elemento do disco parece pensado para seduzir o ouvinte, efeito das guitarras embriagadas pelo stoner rock de estrangeiros como Queens of The Stone Age e, principalmente, pelo rock cru de conterrâneos como MQN. Com produção de Fabrício Nobre, cada composição do disco consegue hipnotizar o ouvinte em uma primeira audição. Da abertura do álbum, com My Favorite Way, música do ano pela Rolling Stone Brasil, passando por faixas como My Radio, Don’t Take My Bear e Magic Travel, difícil não ser arrastado pelo turbilhão sonoro que orienta a experiência do ouvinte até o último instante do trabalho.

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Bat For Lashes
Two Suns (Echo / Parlophone)

Se você ouvir o trabalho de Natasha Khan em Fur and Gold (2006), primeiro álbum de estúdio como Bat For Lashes, e depois voltar os ouvidos para Two Suns, lançado três anos mais tarde, vai perceber duas artistas completamente diferentes. Monumental e pop na mesma proporção, o trabalho que conta com co-produção de David Kosten, parceiro desde o registro anterior, bebe da obra de veteranas Kate Bush, Björk e Fiona Apple, porém, de forma sempre autoral, particular, identidade explícita durante toda a execução da obra. São pouco mais de 40 minutos em que Khan e um time seleto de instrumentistas se dividem entre a composição de faixas orquestrais e épicas, como Siren Song, Good Love e Two Planets, e músicas acessíveis, capazes de capturar a atenção do ouvinte logo em uma primeira audição. É o caso da empoeirada Pearl’s Dream, música que parece resgatada dos anos 1980, e, principalmente, Daniel, ainda hoje, uma das composições mais conhecidas da artista britânica.

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Caetano Veloso
Zii & Zie (Universal Music)

Sequência ao elogiado (2006), obra em que explorou o recente término de relacionamento com a empresária Paula Lavigne, Zii & Zie mostra um lado ainda mais introspectivo e sombrio de Caetano Veloso. Produzido em colaboração com os músicos da Banda Cê – Pedro Sá (guitarra), Marcelo Callado (bateria) e Ricardo Dias Gomes (baixo) –, parceiros desde o álbum anterior, o registro vai da poesia delirante de Perdeu, com suas guitarras sujas e tortas, ao colorido tropical de A Cor Amarela, música que sintetiza com naturalidade os “transambas” incorporados pelo artista baiano no decorrer da obra. São paisagens instrumentais e poéticas (Lapa, Falso Leblon), personagens (Menina da Ria) e instantes de profunda inquietação (Sem Cais) que recriam a cidade do Rio de Janeiro de forma particular, fria, reflexo do momento em que o álbum foi gravado, durante um período de fortes chuvas estampado na soturna imagem de capa do disco.

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Céu
Vagarosa (Urban Jungle / Universal Music)

Com o lançamento do primeiro álbum de estúdio, em 2005, Céu já havia pervertido uma série de conceitos há muito consolidados na música popular brasileira. Entretanto, foi com a chegada de Vagarosa, quatro anos depois, que a artista paulistana alcançou um novo estágio criativo. Sereno, como o próprio título indica, o registro produzido em parceria entre a cantora, Beto Villares, Gustavo Lenza e Gui Amabis flutua em meio a variações do reggae, pop psicodélico, samba e jazz, ampliando parte do universo originalmente explorado em músicas como Malemolência e Lenda, ambas do primeiro disco. O resultado dessa estrutura está na composição de um trabalho essencialmente letárgico e mágico, ponto de partida para a construção de faixas como Cangote, a releitura de Rosa Menina Rosa, música originalmente composta por Jorge Ben Jor e a jazzística Nascente. Entre as participações especiais que recheiam o disco, nomes como Luiz Melodia, Anelis Assumpção e Thalma de Freitas, colaboradoras no paralelo Negresko Sis, e o cearense Fernando Catatau (Cidadão Instigado), dono das guitarras que pontuam o disco na delirante Espaçonave.

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Cidadão Instigado
Uhuuu! (EAEO Records)

Poucas vezes antes o som produzido pela Cidadão Instigado pareceu tão acessível (e louco) quanto nas canções apresentadas em Uhuuu!. Sequência ao experimental Cidadão Instigado e o Método Túfo de Experiências (2005), o trabalho inaugurado em meio a versos descompassados de O Nada encontra no pop psicodélico dos anos 1970 e 1980 o principal componente criativo para o fortalecimento das canções. Exemplo disso está na estrutura melódica que embala a empoeirada Contando Estrelas, música que sintetiza a poesia triste que acaba se repetindo em faixas como Homem Velho, Como as Luzes e, principalmente, Dói, composição que ainda conta com a colaboração do guitarrista Edgard Scandurra. É como se Fernando Catatau (voz, guitarra e teclados), Regis Damasceno (guitarra e violão), Rian Batista (baixo), Dustan Gallas (teclado e violão) e Clayton Martin (bateria) resgatassem a essência romântica de veteranos como Fagner e Zé Ramalho. Um permanente e curioso diálogo com o passado, proposta detalhada em músicas como Doido, encontro com o paulistano Arnaldo Antunes, além, claro, de composições puramente lisérgicas, caso de Deus É Uma Viagem e a caótica A Radiação na Terra.

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Dirty Projectors
Bitte Orca (Domino)

Em 2007, durante o lançamento de Rise Above, o som produzido pelo Dirty Projectors já havia se transformado por completo. Entretanto, o que ninguém imaginava é que o grupo voltasse com um registro ainda mais inventivo em tão pouco tempo. Lançado em 2009, Bitte Orca é o trabalho que de fato tornou pública e mundialmente conhecida a banda comandada por Dave Longstreth. Cruzando elementos da World Music – proposta que faria David Byrne se sentir orgulhoso –, melodias acessíveis que brincam com a soul music e todo um jogo de referências instrumentais imprevisíveis, o álbum segue de forma crescente, com Longstreth mergulhando fundo na tríade de vozes femininas que o acompanham até o encerramento da obra. Recheado por nove composições de fluidez versátil, temos nos vocais em ritmo semi-tribal e nas guitarras tratadas de forma hipnótica as bases para que faixas como Temecula Sunrise, Stillness Is the Move e Useful Chamber cresçam de forma detalhista, puxando o ouvinte para dentro desse imenso jogo de referências e percursos não óbvios.

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Emicida
Pra quem já Mordeu um Cachorro por Comida, até que eu Cheguei Longe (Laboratório Fantasma)

Vencedor em onze edições consecutivas na disputada Batalha dos MCs, na Santa Cruz, Emicida não custou a atrair a atenção do público quando decidiu lançar o primeiro single da carreira, Triunfo. Marcada pela força das rimas e a tradicional assinatura do rapper – “A rua é nóiz” –, a canção foi a escolhia para apresentar a primeira mixtape de inéditas do artista, Pra quem já Mordeu um Cachorro por Comida, até que eu Cheguei Longe, obra que não apenas apresentou oficialmente o trabalho do paulistano, como rapidamente fez dele um dos novos fenômenos do gênero. Partindo da rima crua que embala a inaugural Intro (É Necessário Voltar ao Começo), Emcida revela ao público um extenso repertório de 25 faixas, parte expressiva delas produzidas de forma caseira, pelo próprio rapper – como Vai Ser Rimando e Ela Diz. Surgem ainda colaborações com outros representantes da cena paulistana, caso de Rashid e Projota, em Ainda Ontem; Rael, na ótima Outras Palavras e Daniel Choen, em Eu Tô Bem. Fragmentos que vão do R&B romântico, em Fica Mais Um Pouco Amor, à rima melancólica de Ooorra…(A Que Deu Nome a Mix Tape), homenagem do artista ao próprio pai, morto quando Emicida ainda era criança.

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Fever Ray
Fever Ray (Mute / Rabid)

Karin Dreijer Andersson havia atravessado a década de 2000 ao lado do irmão Olof Dreijer em uma série de obras que fizeram do The Knife um dos projetos mais inventivos do período. Entretanto, foi com o lançamento do primeiro álbum de estúdio como Fever Ray, em 2009, que a cantora e produtora sueca de fato se revelou ao público. Cercada de mistério, Andersson e o principal parceiro de produção, Christoffer Berg, brincam com a construção de faixas reducionistas, sempre econômicas, porém, imensas na forma como a cantora discute conceitos feministas e conflitos existencialistas durante toda a execução da obra. O resultado dessa estrutura está na composição de músicas tão climáticas e intimistas, como If I Had a Heart, como na produção de faixas levemente dançantes, caso de Seven. Um repertório deliciosamente contido, preciso, proposta que orienta a experiência do ouvinte até os últimos instantes da obra, nas experimentais Keep the Streets Empty for Me e Coconut.

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Florence + The Machine
Lungs (Island)

Goste ou não, mas uma coisa é certa: Lungs é um desses fenômenos imediatos cada vez mais raros no mundo da música. Bem-recebido pelo público e crítica, o trabalho rapidamente transportou Florence Welch para o topo não apenas da cena britânica, mas para junto de grandes nomes da indústria da música. E não poderia ser diferente. Das 13 composições que recheiam o disco, pelo menos seis delas foram trabalhadas como singles – Kiss with a Fist, Dog Days Are Over, Rabbit Heart (Raise It Up), Drumming Song, You’ve Got the Love e Cosmic Love –, sucesso que se reflete no alto número de vendas da obra e apresentação cada vez mais disputadas da artista. De fato, Welch passou mais de dois anos trabalhando na divulgação do disco, efeito direto da boa repercussão das canções. Vozes e arranjos essencialmente catárticos, reflexo do profundo diálogo da artista com veteranas do gênero, como Björk, PJ Harvey, Kate Bush e outros nomes de peso da produção europeia. Uma sucessão de pequenos acertos que serviria de base para toda a sequência de obras entregues pela artista nos próximos anos.

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Girls
Album (True Panther Sounds)

De um lado, a poesia confessional e dolorosamente honesta de Christopher Owens. No outro, os arranjos minuciosos e melodias empoeiradas de Chet White. Desse encontro vem o primeiro álbum de estúdio da banda californiana Girls. Produto das experiências e conflitos pessoais de cada integrante do projeto, o registro atravessa o rock litorâneo dos anos 1960 e 1970 para dialogar com dream pop/garage rock que tomava conta da cena alternativa dos Estados Unidos no final da década de 2000. São faixas como a delirante Hellhole Ratrace, com seus quase sete minutos de versos melancólicos e guitarras espaçadas, lisérgicas; na inaugural Lust For Life, um turbilhão sonoro e poético que parece apontar parte da direção seguida no restante da obra; em Headache, vozes e melodias quase submersas, sensíveis. Nada que se compare ao trabalho da banda na honesta Laura, música que parece saída de algum disco do Beach Boys e reflete a perfeita combinação de Owens e White em estúdio. No ano seguinte, a dupla voltaria com o também excelente Broken Dreams Club EP (2010).

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Grizzly Bear
Veckatimest (Warp)

O explícito amadurecimento criativo em Yellow House (2006) foi apenas o início de uma série de transformações que marcaram a carreira do Grizzly Bear na segunda metade dos anos 2000. Fino exemplo desse profundo amadurecimento poético e instrumental ecoa com naturalidade nas canções de Veckatimest. Terceiro álbum de estúdio do quarteto nova-iorquino, o trabalho não apenas avança em relação ao antecessor, como revela ao público um mundo de novas possibilidades. São coros de vozes que parecem apontar para a obra de veteranos como The Beach Boys, arranjos que transitam entre as melodias acústicas de Nick Drake e o jazz avant-garde, versos políticos e instantes de profunda exposição sentimental. De fato, cada composição do disco se abre de forma a revelar um universo de pequenos detalhes. Do canto gospel em Fine For Now aos pianos coloridos de Two Weeks, da atmosfera delirante de Ready, Able à melancolia minimalista de Foreground, difícil não se emocionar com o rico material orquestrado em conjunto entre Ed Droste, Daniel Rossen, Chris Taylor e Christopher Bear.

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Lucas Santtana
Sem Nostalgia (Dignóis / YB Music)

Passado o flerte com o dub, no experimental 3 Sessions In a Greenhouse (2006), Lucas Santtana veio com uma ideia inusitada: produzir um disco inteiro utilizando apenas voz e violão. Entretanto, para além dos clichês e fórmulas desgastadas do gênero, o cantor e compositor baiano se permitiu inovar, brincando com a sobreposição de samples, captações caseiras e colagens instrumentais tratadas como percussão, proposta que faz de Sem Nostalgia uma obra marcada em essência pelos detalhes. Cercado de colaboradores, como Arto Lindsay (Caetano Veloso, Marisa Monte), Regis Damasceno (Cidadão Instigado), Gustavo Lenza e João Brasil, cada composição do álbum faz da economia dos elementos a passagem para um universo imenso, produto das confissões românticas e instantes de profunda desilusão declamados por Santtana. São canções como Amor em Jacumã, Cira, Regina E Nana, Hold Me e Who Can Say Which Way em que o eu lírico flutua em meio a instantes de profunda libertação e parcial recolhimento.

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Lulina
Cristalina (YB Music)

Como grande parte dos artistas que surgiram na década de 2000, a recifense Lulina deu vida aos primeiros registros autorais de forma essencialmente artesanal, compondo e registrando suas músicas em um estúdio caseiro montado no próprio quarto. Desse vasto repertório de obras independentes – são pelo menos dez registros autorais, dezenas de músicas e EPs –, veio a base para o primeiro álbum de estúdio da cantora e compositora pernambucana: Cristalina. Misto de coletânea e obra de inéditas, o trabalho sintetiza algumas das principais faixas da artista, como a divertida Balada do Paulista, Jerry Lewis, Criar Minhocas É Um Negócio Lucrativo, Bichinho do Sono e a agridoce Meu Príncipe, música que mostra a capacidade de Lulina em produzir melodias simples, porém, deliciosamente pegajosas.

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Móveis Coloniais de Acaju
C_mpl_te (Trama)

Mesmo com apresentações lotadas em diversos festivais de música pelo Brasil, ninguém poderia prever o sucesso da Móveis Coloniais de Acaju com o segundo álbum de estúdio da carreira: C_mpl_te. Ainda mais acessível em relação ao antecessor, Idem (2005), o trabalho de 12 faixas sustenta no explícito refinamento melódico e letras feitas para serem cantadas a plenos pulmões a base para um registro de essência crescente, maior a cada nova audição. Exemplo disso está em Adeus e O Tempo, duas das principais faixas do disco e uma clara representação do romantismo doce que serve de sustento à obra. Surgem ainda composições como Falso Retrato (U-hu), Sem Palavras, Descomplica e Café com Leite, representantes da colorida mistura de ritmos que acompanha o trabalho do grupo brasiliense desde o início da carreira.

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Neon Indian
Psychic Chasms (Lefse)

Deveria ter tomado ácido com você / Tocar as estrelas, e os planetas também“. A lisergia explícita nos versos de Should Have Taken Acid with You sintetiza com naturalidade o conceito de Alan Palomo dentro do Neon Indian. Acomodado em um universo de referências nostálgicas, talvez empoeiradas quando isolamos a sonoridade “rústica” de cada composição, Palomo fez do primeiro registro em estúdio, Psychic Chasms, uma colcha de retalhos psicodélicos. Da imagem estampada na capa do trabalho – uma sobreposição de recortes coloridas -, passando pela temática veranil de faixas como Deadbeat Summer e Terminally Chill, cada fragmento do álbum sustenta um diálogo autoral com a música (e cultura pop) de diferentes épocas. Uma coleção de ruídos místicos, confissões românticas e até mesmo sons resgatados de antigas fitas VHS, ingredientes para a construção de uma obra tão próxima da psicodelia ressaltada na década da 1960, quanto dos sintetizadores pegajosos que marcaram o pop dos anos 1980.

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Otto
Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos (Arterial Music)

A irregularidade talvez seja a principal marca dos primeiros trabalhos de Otto. Do regionalismo eletrônico que embala as canções de Samba pra Burro (1998) ao direcionamento econômico de Sem Gravidade (2003), cada novo álbum de estúdio parecia transportar o som produzido pelo músico pernambucano para um novo território. Em Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos, quarto registro de inéditas da carreira, uma obra marcada pelo equilíbrio. Doloroso, produto da recente separação entre o músico e a atriz Alessandra Negrini, além, claro, da morte precoce da mãe do cantor, o trabalho inspirado em A Metamorfose (1915), de Franz Kafka, faz de cada composição um exercício de profunda entrega sentimental. Da poesia lancinante que cresce em 6 Minutos (“Não precisa falar / Nem saber de mim / E até pra morrer / Você tem que existir“) à produção minuciosa de Pupillo (Nação Zumbi) e guitarras de Fernando Catatau (Cidadão Instigado) que cobrem toda superfície do registro, poucas vezes antes um trabalho de Otto pareceu tão completo e honesto. Uma obra consumida pela dor, proposta que se reflete mesmo na colaboração com Céu, em O Leite, e na dobradinha assumida em parceria com a mexicana Julieta Venegas, Saudade e a releitura de Lágrimas Negras.

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Passion Pit
Manners (Frenchkiss)

Michael Angelakos já havia dado uma boa mostra do próprio trabalho durante o lançamento do caseiro Chunk of Change EP (2008). Entretanto, com a chegada de Manners, primeiro álbum de estúdio do Passion Pit, o músico norte-americano conseguiu ampliar ainda mais os limites da própria obra, dialogando com a música pop de forma criativa e particular. Da abertura do disco, na crescente Make Light, passando pelo coro de vozes em Little Secrets, a explosão de sintetizadores que invade The Reeling ou mesmo a completa melancolia que toma conta de músicas como Eyes As Candles e Swimming In The Flood, perceba como cada fragmento do disco reforça o cuidado de Angelakos na composição dos arranjos e melodias radiantes. Exemplo disso ecoa com naturalidade na dobradinha formada entre To Kingdom Come e a já conhecida Sleepyhead, um dos primeiros sucessos da banda. Pouco mais de seis minutos em que o ouvinte vai do pop nostálgico da década de 1980 ao uso de samples e colagens futurísticas que viriam a orientar o trabalho da banda no álbum seguinte, o também excelente Gossamer (2012).

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Phoenix
Wolfgang Amadeus Phoenix (Glassnote)

Bastam as guitarras cíclicas e os primeiros versos de Lisztomania para entender: Wolfgang Amadeus Phoenix está longe de parecer mais um simples disco comum. Esculpido com precisão, o quarto registro em estúdio do Phoenix é o ponto máximo de uma série de peças encaixadas ao longo da trajetória da banda. Dos versos matemáticos que passeiam por músicas como 1901 ao uso adequado das harmonias em faixas como Rome, cada criação do disco exerce uma função específica para hipnotizar o espectador. Um tradicional álbum de música pop, mas consegue ir além da banalidade ou do caráter descartável de qualquer obra do gênero. Desenvolvido ao longo de um ano, com Thomas Mars se valendo de cartões de estratégias oblíquas para a formação dos versos, WAP é uma obra que brinca com as percepções do ouvinte. São pequenos labirintos líricos e instrumentais, eficiência ressaltada no loop melódico que abre e finaliza o disco com a mesma competência. Dessa forma, é difícil estacionar na faixa de encerramento, Armistice, sem regressar inevitavelmente aos instantes iniciais do álbum. Synthpop (Countdown), Indie Rock (1901) e até momentos de maior experimento (Love Like a Sunset), tudo funciona com acerto e boas melodias dentro do colorido material que recheia o álbum.

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Pullovers
Tudo Que Eu Sempre Sonhei (Independente)

Formada no final da década de 1990 pelo cantor e compositor Luiz Venâncio, a Pullovers passou grande parte dos anos 2000 se revezando na produção de uma série de obras cantadas em inglês, produto de um claro diálogo da banda com o som que vinha sendo produzido por diferentes nomes da cena estrangeira. Entretanto, com a chegada de Tudo Que Eu Sempre Sonhei, terceiro e último álbum de estúdio do grupo paulistano, uma completa mudança de direção. Em bom português, cada composição do disco revela alguns dos principais tormentos, desilusões amorosas e sentimentos explorados por Venâncio. Da melancolia sóbria que invade a autointitulada faixa de abertura (“E por fim cresci, de insulto em insulto / Eu me vi como um adulto / Culto, pronto pra o que mesmo? / Já nem sei“), uma das maiores canções do rock nacional, passando pelo romantismo agridoce de O Amor Verdadeiro Não Tem Vista Para o Mar ou mesmo as angústias de Todas as Canções São de Amor, difícil não se deixar conduzir pela poesia confessional e fina estrutura melódica que orienta a experiência do ouvinte até a derradeira Tchau.

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Rodrigo Campos
São Mateus Não É Um Lugar Assim Tão Longe (Agogô Cultural / Ambulante Discos)

Criado no bairro de São Mateus, Zona Leste da cidade de São Paulo, Rodrigo Campos encontrou em memórias da infância (Para Onde Vão os Meninos de São Mateus), personagens (Lúcia, Salve Fabrício), cenas (Os Olhos Dela) e acontecimentos locais (Amor na Vila Sônia, Rua Três) a base para o primeiro álbum de estúdio da carreira: São Mateus Não É Um Lugar Assim Tão Longe. Marcado pela minúcia dos arranjos, o trabalho de 14 faixas ganha forma aos poucos, sem pressa, flutuando em meio a variações do samba, estímulo para a cada uma das canções sutilmente narradas pelo músico paulista. Delicado, o registro ainda se abre para a breve interferência de um time seleto de músicos da cena paulistana. São inserções pontuais assinadas por diferentes instrumentistas, além, claro, da poesia complementar de Curumin e da cantora Luisa Maita, dona da voz doce que se espalha por entre as brechas do álbum.

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Romulo Fróes
No Chão Sem o Chão (YB Music)

Rômulo Fróes já havia se aventurado em uma série de obras curiosas ao longo dos anos 2000, vide as composições apresentadas em Calado (2004) e Cão (2006). Nada que se compare ao trabalho do cantor e compositor paulistano em No Chão Sem o Chão. Extenso, são 33 faixas espalhadas em um intervalo de quase duas horas de duração. Na primeira metade do projeto, Primeira Sessão: Cala Boca Já Morreu, o lado mais intenso da obra. Canções como a caótica A Anti-Musa, com seus quase oito minutos de ruídos e versos delirantes, conceito que se reflete na enérgica Deserto Vermelho, Anjo e segue até a semi-declamada Pierrô Lunático. Na segunda porção do álbum, Segunda Sessão: Saiba Ficar Quieto, a serenidade dos versos e melodias sempre contidas, direcionamento que se reflete em músicas a tímida Gelatina e Astronauta, essa última, guiada pela voz doce da convidada Nina Becker.

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St. Vincent
Actor (4AD)

Passada a divulgação do bem-recebido Marry Me (2007), St. Vincent decidiu realizar um sonho: recriar a trilha sonora de filmes clássicos da Disney produzidos entre os anos 1930 e 1940. Para as gravações do álbum, a cantora e compositora decidiu se isolar em um estúdio caseiro, produzindo grande parte do material no GarageBand. Entretanto, insatisfeita com o resultado das canções, a artista foi de encontro ao produtor John Congleton, com quem passou a trabalhar de forma ainda mais sensível a composição dos arranjos e melodias sutilmente detalhadas pela inserção de arranjos de cordas, metais, sopros e pianos. O resultado desse profundo refinamento instrumental e poético está nas canções de Actor, obra que amplia os horizontes da musicista, porém, preservando a mesma identidade que vinha sendo detalhado desde o início da carreira. Composições como Actor out of Work, The Strangers e Marrow em que Annie Erin Clark pouco se assemelha à artista consolidada em obras recentes como Strange Mercy (2011) e Masseduction (2017).

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The Antlers
Hospice (Frenchkiss)

Poucos registros lançados na última década concentram tamanha carga emocional quanto Hospice. Terceiro álbum de estúdio da banda nova-iorquina The Antlers, o trabalho parte de experiências de abusos reais sofridas pelo vocalista Peter Silberman para a composição de uma obra puramente conceitual e metafórica. Entre instantes de fúria e atos econômicos, sempre detalhistas, Silberman canta sobre o encontro entre um enfermeiro e uma paciente terminal que sofre de câncer nos ossos. São músicas colossais, vide a experimental Sylvia, ou mesmo atos puramente melódicos, como Bear, música em que o grupo – completo pelos músicos Michael Lerner e Darby Cicci –, fatia a canção em pequenos atos, sempre irregulares. Composições que mesmo subjetivas, como na crescente Two e Kettering, revelam ao público uma solução de versos capazes de dialogar com o que há de mais doloroso na vida de qualquer ouvinte.

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The xx
xx (Young Turks / XL Recordings)

No final da década de 2000, o Reino Unido passava por um período de forte saturação criativa. A cada nova edição da NME, dezenas de novas bandas que insistiam em replicar a fórmula desgastada de conterrâneos como Arctic Monkeys, Bloc Party e outros tantos artistas que surgiram no início do mesmo período. Satisfatório perceber no primeiro álbum de estúdio do The xx uma completa fuga desse resultado previsível. Marcado pela forte economia dos arranjos, o trabalho de 11 faixas ganha forma aos poucos, sempre guiado pela produção minuciosa de Jamie Smith, responsável por encaixar cada um dos instrumentos e vozes lançados pelos parceiros de banda – Romy Madley Croft (guitarra e voz), Oliver Sim (baixo e voz) e Baria Qureshi (sintetizadores). Frações instrumentais e poéticas que atravessam o pós-punk de veteranos como Young Marble Giants e The Cure para dialogar com o R&B de Sade, Aaliyah e outros personagens de destaque do gênero, conceito que viria a ser aprimorado a cada novo registro de inéditas do grupo.

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Tiê
Sweet Jardim (Warner Music)

É difícil não se deixar conduzir pelo trabalho de Tiê no inaugural Sweet Jardim. Minimalista na composição dos arranjos, o álbum de dez faixas cresce na completa entrega sentimental que orienta a experiência do ouvinte até a formação da homônima canção de encerramento do disco. São versos consumidos em essência pela dor (Assinado Eu), saudade (5º Andar) e instantes de profunda confissão romântica (Chá verde). Composições montadas a partir de memórias recentes da artistas paulistana, mas que acabam se relacionando com os principais conflitos de todo e qualquer ouvinte. Cercada de colaboradores, como Toquinho, Tatá Aeroplano, Tulipa Ruiz, Thiago Pethit e Nana Rizinni, o álbum produzido por Plínio Profeta viria a orientar os futuros lançamentos da artista de forma sensível, ponto de partida para a composição de obras como A Coruja e o Coração (2011).

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Wado
Atlântico Negro (Pimba)

Desde o início da carreira, Wado vinha demonstrando forte interesse pela pluralidade de ritmos e uso minucioso de elementos da cultura periférica, estímulo para a formação de obras como o inaugural Manifesto da Arte Periférica (2001) e Terceiro Mundo Festivo (2008). Nada que se compare ao cuidado do artista catarinense/alagoano em Atlântico Negro. Produto do rico intercâmbio cultural entre o continente africano e a América, o registro parte da ancestralidade embarcada nos navios negreiros para a consolidação de ritmos inicialmente marginalizados, como o samba, funk, rap, afoxé e reggaeton. Inaugurado em meio a trechos do escritor moçambicano Mia Couto, o trabalho cresce de forma a revelar versos que discutem as incertezas da vida (Estrada), conflitos sociais (Cordão de Isolamento), política internacional (Rap Guerra no Iraque), sentimentos (Frágil) e novas formas de relacionamentos (Macaco Pavão). Um colorido e bem-servido cardápio de ideias que viria a orientar os trabalhos de Wado pelos próximos anos.

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Yeah Yeah Yeahs
It’s Blitz (Dress Up/ DGC / Interscope)

Em meados de 2008, quando Karen O, Nick Zinner, Brian Chase e o produtor David Sitek (TV On The Radio) entraram em estúdio para as gravações do terceiro álbum de estúdio do Yeah Yeah Yeahs, ninguém esperava que o trio fosse além do material apresentado nos antecessores Fever to Tell (2003) e Show Your Bones (2006). Entretanto, munidos de sintetizadores e melodias claramente ancoradas no pop dos anos 1980, o grupo nova-iorquino não apenas foi além, como conseguiu se reinventar por completo. Prova disso está na sequência de abertura do álbum, em Zero e Heads Will Roll, ainda hoje, composições essenciais em qualquer pista de dança. O mesmo cuidado e força criativa se reflete ainda em músicas como Dull Life, Hysteric e a delicada Skeletons, faixa que resgata a mesma poesia sensível da vocalista em clássicos da banda, como Maps.

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Menções honrosasCrack The Skye, do Mastodon; Primary Colours, do The Horrors; Man On The Moon: The End Of Day, do rapper Kid Cudi; o segundo álbum de Mallu Magalhães; Rock’n’Roll, de Erasmo Carlos; Iê Iê Iê, de Arnaldo Antunes; The Fame Monster, de Lady Gaga; a estreia de La Roux; Embryonic, de The Flaming Lips; o terceiro álbum do Franz Ferdinad; Two Dancers, do Wild Beasts; Sometimes I Wish We Were An Eagle, de Bill Callahan; Tarot Sports, do Fuck Buttons; It’s Not Me, It’s You, de Lily Allen e a homônima estreia do The Pains Of Being Pure At Heart.


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