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A adorável visita de Silva

Por: Cleber Facchi

Há sete meses quando o primeiro EP do músico capixaba Lúcio da Silva Souza surgiu, talvez nem os ouvintes, a imprensa ou o cantor tivessem a noção do burburinho que o pequeno registro de cinco faixas iria causar. De fato, nem mesmo hoje Silva parece ter uma noção exata de todo esse afeto e boa repercussão por parte do público. Afinal, durante as duas últimas apresentações do artista em São Paulo – respectivamente no sábado (12) como uma das atrações do Sónar e ontem (15) no SESC Pompeia – a timidez ainda era a principal reação do cantor em meio a forte participação do público, figuras emocionadas e que parecem conhecer verso por verso de cada mínima composição relacionada ao ainda fresco trabalho.

Curioso notar, que contrário ao que aconteceria com boa parte dos artistas, sejam eles grandes ou ainda pequenos, a timidez parece ser elemento necessário para as apresentações ao vivo do músico. Uma sensação adorável que circunda tanto os versos quase envergonhados expressos pelo cantor, como a recepção do público, que mesmo animado, aceita as diminuições do artista e se mantém sempre próximo, comportado. A timidez também flui como um sintoma de descoberta, como se toda canção ecoasse nova, entregando um inédito detalhe, ruído, acorde ou som, mesma percepção que perpassa as cinco músicas do primeiro trabalho.

Ao mesmo tempo em que a timidez tempera o espetáculo, não há como negar o quanto as faixas crescem ao vivo, rompendo aos poucos esse toque comportado e alcançando uma exaltação harmoniosa e por vezes surpreendente. Melhor exemplo disso está na maneira como Acidental, provavelmente a música mais simples e quase inexpressiva do álbum se transforma quando em contato com o público, atingindo contornos que beiram o épico em alguns momentos. E se a menor faixa do álbum evolui quando entregue ao vivo, o que dirá de músicas como 12 de Maio e Imergir, composições que atingem outros níveis ao encontrarem o apoio vocal do público.

Da mesma forma que as apresentações do músico intensificam o teor instrumental e lírico do registro, é ao vivo é que todas as influências que circundam o EP se fazem visíveis. Em Acidental, por exemplo, a bateria ascendente por vezes encontram um Arcade Fire mais simplista – pense se Wake Up fosse feita por duas pessoas. Já as outras composições parecem aproximar o músico de uma somatória de novas vertentes. A própria 2012, música inédita que deve ser lançada nas próximas semanas, bem como as outras desconhecidas canções lembram muito o que James Blake fez no disco de estreia ano passado, com Silva tocando de leve, bem de leve, no pós-dubstep. Há também Youth Lagoon, Toro Y Moi (do disco Causers Of This), e todo um arsenal de novas e necessárias referências.

Talvez o único erro do cantor (e também do público) durante a apresentação na última noite se relaciona com o fato de o artista não encarar o curto repertório como algo essencial, permitindo que composições fossem repetidas – tanto 12 de Maio como A Visita foram tocadas duas vezes à pedidos de quem estava presente. A formatação curta aumenta o aspecto de raridade do show, algo que a repetição das músicas quebra com certa dose de banalidade, como se faixas aos poucos perdessem o efeito inédito e toda a concisão da primeira vez que foram cantadas.

Mesmo que alguns pequenos deslizes se tornem visíveis no decorrer da performance, Silva é um artista que ainda deve crescer muito pelos próximos anos. Além do já grandioso catálogo de cinco poderosas composições que ele traz na manga, o músico também reserva um belo exemplar de ainda ocultas composições, faixas em pleno processo de construção, que aos poucos devem ser apresentadas ao público. Se a atual geração de ouvintes ainda precisa de alguém que ocupe a lacuna deixada pelo Los Hermanos na última década, msmo que ainda seja cedo afirmar isso, não me preocuparia em apostar minhas fichas no trabalho do compositor capixaba.