Aperitivo: 10 EPs de 2015

Em um ano de grandes lançamentos e obras de peso como To Pimp a Butterfly, In ColourCarrie & Lowell e Sobre a Vida em Comunidade, seria um erro descartar a imensa variedade de EPs – nacionais ou mesmo estrangeiros – marcados pelo mesmo desempenho assertivo. Correndo atrás do prejuízo e listando alguns dos registros de estaque nos últimos meses, abaixo você encontra uma seleção com 10 grandes lançamentos musicais de 2015. São obras que vão do Hip-Hop ao Indie Pop, do R&B ao uso de arranjos experimentais, mantendo a mesma qualidade de outros grandes registros e trabalhos “completos”.

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Desampa
/// EP (2015, Thump)

A cada EP apresentado por Desampa, uma nova máscara. Enquanto Err EP (2013) revelava ao público um artista curioso, ainda instável, em busca de um som movido pelas referências, com a chegada de HUE EP (2014), obra lançada poucos meses depois, um nítido amadurecimento do músico/produtor. Do encontro entre o R&B do segundo trabalho a eletrônica testada no primeiro registro, a base para um espaço musicalmente confortável e amplo criativamente, terreno desconstruído de com minúcia dentro do terceiro e mais recente projeto do paulistano: /// EP. Lançado em parceria com o produtor indiano I M C, o registro de três faixas revela o lado mais “experimental” de Desampa, reforçando o uso de batidas quebras, colagens eletrônicas e de voz, além da lenta desconstrução do R&B testado no disco anterior. A julgar pelo posicionamento instável dos vocais, um diálogo com toda a nova cena do Hip-Hop/R&B estrangeiro, pinçando elementos que vão do recente trabalho de How To Dress Well em “What Is The Heart?” (2014), até referências extraídas da eletrônica britânica, principalmente James Blake e FKA Twigs.

Nota: 7.8
Para quem gosta de: James Blake, Silva e SBTRKT
Ouça: Waiting e Icarus

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Lotic
Heterocetera EP (2015, Tri Angle)

Nenhum trabalho apresentado por Lotic nos últimos anos pareceu tão caótico e, ainda assim, coeso quanto o recente Heterocetera EP. Brincando com o próprio universo de referências acumuladas nos últimos três anos, o registro de cinco faixas soa como uma lenta desconstrução de toda a massa de ruídos aplicados pelo produtor em obra como Fallout e Sankofa / Glittering – ambas de 2013. Ainda que a base climática na inaugural Suspension indique a construção de um registro ponderado, a expressiva interferência de ruídos metálicos, batidas sujas, além da completa ausência de voz transportam o ouvinte para um cenário completamente novo, perturbado. Em um ambiente de formações instáveis, Lotic apresenta faixas que crescem (Heterocetera) e encolhem (Slay) a todo o instante, costurando elementos que vão da música ambiental, até batidas típicas do Hip-Hop. Assim como nas quatro canções de Fallout EP, difícil estabelecer com exatidão onde o produtor vai parar no fechamento do disco, afinal, cada faixa sobrevive e cresce dentro de um cercado musical independente, forçando o ouvinte a se adaptar a cada nova curva.

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Jam City, Kelela e Evian Christ
Ouça: Suspension e Heteroceterea

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Metá Metá
Metá Metá EP (2015, Independente)

Passado três anos desde o último álbum de inéditas, MetaL MetaL (2012), as guitarras de Kiko Dinucci continuam a apontar a direção dentro do Metá Metá. Completo pelo saxofone instável de Thiago França e a voz precisa de Juçara Marçal, o trio paulistano assume com o primeiro EP de estúdio uma sonoridade ainda mais versátil (e suja), expandindo com naturalidade os limites instrumentais em relação aos dois últimos trabalhos da carreira. Enquanto a inaugural Atotô garante continuidade ao som testado no registro de 2012, mesclando elementos da cultura africana com o rock distorcido de Dinucci, Sozinho, faixa de encerramento do disco, cresce como uma continuação do primeiro trabalho da banda, tropeçando vez ou outra em elementos incorporados por Juçara Marçal no álbum Encarnado (2014), estreia solo da artista. Entretanto, o grande destaque do EP fica por conta da intensa versão do grupo para o clássico Me Perco Nesse Tempo. Originalmente gravada em 1986 no registro de estreia da banda de pós-punk As Mercenárias e, posteriormente, regravada pelo Ira! como parte do álbum 7 (1996), a faixa de apenas dois minutos explode como uma criação própria do Metá Metá, indicando parte das referências que sustentam a obra do trio.

Nota: 8.2 [M.D.]
Para quem gosta de: Passo Torto, Juçara Marçal e Rodrigo Campos
Ouça: Atotô e Me Perco Nesse Tempo

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Nana
Berli(m)possível (2015, Independente)

Nana está de volta. Dois anos após o lançamento de Pequenas Margaridas, um dos traabalhos mais graciosos da música brasileira em 2013, a baiana regressa ao mesmo ambiente temático e “germânico” de Expressionismo Alemão para apresentar o inédito Berli(m)possível EP. São apenas quatro composições – Ano novo, Amor, bicho geográfico, Berli(m)possível e Recomeçar -, material suficiente para que a cantora mais uma vez transporte para dentro do universo enevoado e sutil do último grande álbum de estúdio. De um lado, o tempero doce do Twee Pop e referências que inevitavelmente tropeçam na obra inicial de bandas como Belle and Sebastian ou Camera Obscura. No outro oposto, a utilização de ritmos nacionais; elementos do samba, bossa nova e acréscimos regionais que fazem do EP um trabalho acolhedor. Como indicado logo na capa do registro, uma obra marcada pela tonalidade cinza e sempre entristecida dos versos, porém, lentamente dominada pela uso de cores vivas, traço evidente em cada arranjo doce do trabalho.

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Mallu Magalhães, Marcelo Jeneci e Camera Obscura
Ouça: Ano Novo e Recomeçar

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NAO
February 15 EP (2015, Little Tokyo)

Batidas flexíveis, vocal parcialmente encoberto pelo uso de efeitos eletrônicos e a típica atmosfera de R&B dos anos 1990. Da abertura em Inhale Exhale ao fechamento com It’s You, cada faixa de February 15 EP entrega não apenas as principais referências da cantora britânica NAO, como ainda revela ao público um som de natureza essencialmente particular, autoral. Outrora colaboradora do produtor Jai Paul, a jovem londrina encontra nas cinco composições do curto registro um som de expressiva (e intencional) limpidez, como uma fuga do clima obscuro lançado com o projeto NAO Vs A.K. Paul – ouça So Good. Em se tratando da utilização de batidas e bases que orientam todo o projeto, uma possível extensão do mesmo material lançado pela dupla AlunaGeorge no álbum Body Music (2013). A mesma relação também ecoa de forma explícita nos vocais, efeito da composição “pueril” que preenche e acompanha as vozes da cantora, sempre próximas de Aluna Francis. Todavia, o diálogo de NAO com outros artistas vai ainda mais longe, mergulhando na atmosfera de veteranas como Missy Elliott, Aaliyah sem necessariamente perder o controle da própria obra.

Nota: 8.3 [M.D.]
Para quem gosta de: AlunaGeorge, Jai Paul e FKA Twigs
Ouça: Apple Chery e Golden

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Petite Noir
The King Of Anxiety EP (2015, Domino)

Enquanto as batidas crescem lentamente, sem pressa, as guitarras ocupam as pequenas lacunas instrumentais, deixando o caminho livre para que a vozes de Yannick Ilunga encaminhe o ouvinte para dentro de Come Inside, soturna faixa de abertura do EP The King Of Anxiety (2015, Domino). Nascido na Bélgica, porém, criado na Cidade do Cabo, África do Sul, Ilunga, hoje protegido sob o nome de Petite Noir, encontra em elementos da própria cultura – racismo, opressão e medo – a base para todo o pequeno registro, uma coleção de faixas que mesmo amarguradas, não ocultam o acerto (e beleza) das melodias. São apenas cinco composições – Come Inside, Chess, Shadows, Till We Ghosts e The Fall -, músicas que passeiam por mais de três décadas de referências, amarrando desde elementos do Pós-Punk inglês – principalmente Joy Division -, atravessam o Hip-Hop/R&B dos anos 1990 até alcançar o mesmo som versátil que apresentou o TV On The Radio no começo da década passada. Difícil não se entregar aos encantos e manipulações vocais de Ilunga, artista capaz de promover desde faixas comerciais e dançantes (Chess), ao mesmo tempo em que é capaz de arrastar o ouvinte para um cenário de forte amargura e opressão lírica (Shadows).

Nota: 8.0
Para quem gosta de: TV On The Radio, Foals e Kelela
Ouça: Chess e Come Inside

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Rico Dalasam
Modo Diverso EP (2015, Independente)

Não há como negar que o título de “rapper gay” serviu para chamar a atenção da imprensa e público em relação trabalho de Rico Dalasam. Todavia, longe da construção de rótulos ou mesmo do cercado temático montado no single Aceite-C, de 2014, curioso perceber no discurso universal do EP Modo Diverso a verdadeira força do trabalho produzido pelo paulistano. Livre de um gênero específico, classe social e outros fatores que possam “limitar” o trabalho do jovem rapper, cada uma das seis faixas busca apoio em sentimentos e tormentos partilhados um evidente ponto de apoio. Composições naturalmente costuradas por elementos do universo LGBT – como RuPaul’s Drag Race, Britney Spears e Kylie Minogue -, porém, adaptadas aos mais variados públicos, focando em relacionamentos (Não Posso Esperar) e no presente sentimento de abandono do “protagonista” (Deixa) que ocupa a mente e os versos do protagonista. Partidário da mesma linguagem pop de Karol Conká e outros artistas próximos, Dalasam finaliza um trabalho descomplicado, rápido, carregando no cruzamento de ritmos – principalmente o Funk Carioca e a música eletrônica – um mecanismo de fortalecimento da própria identidade.

Nota: 8.4 [M.D.]
Para quem gosta de: Karol Conká, Tássia Reis e Amiri
Ouça: Deixa e Aceite-C

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Sants
Chavoso EP (2015, Trapdoor Records)

Diego Santos já não é o mesmo produtor de quando apareceu em 2013 com a dobradinha Soundies! e Low Moods. Longe da sonoridade “caseira” testada nos dois primeiros registros – proposta explorada com acerto até o lançamento do álbum Noite Ilustrada, em 2014 -, a busca por um som cada vez mais detalhista parece guiar o trabalho do paulistano, maduro em cada uma das três faixas que sustentam Chavoso EP (2015, Trapdoor Records). Mesmo orientado pela limpidez e plasticidade das batidas, o registro mantém firme o diálogo com a temática urbana originalmente explorada pelo produtor, sustentando no experimento e explícita busca por referências inéditas um novo ponto de partida. Peça mais curiosa de todo o trabalho, Bico talvez seja a composição que melhor traduz o novo ambiente conceitual escolhido por Sants. Inaugurada pela colagem de samples e ruídos cíclicos que se aproximam da mesma estrutura lançada pelo coletivo PC Music, a faixa aos poucos desemboca em um cruzamento de beats, sintetizadores e sussurros de natureza minimalista, como se diferentes composições fossem recortadas e montadas dentro de uma única canção.

Nota: 8.0 
Para quem gosta de: CESRV, TNGHT e SOPHIE
Ouça: Bico e Chavoso

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Tei Shi
Verde EP (2015, Mom & Pop / Mermaid Avenue)

É difícil estabelecer com precisão em que gênero ou cena musical específica está encorado o trabalho de Tei Shi. Nascida em Buenos Aires, porém, criada em cidades como Bogotá, Vancouver, Montreal e hoje habitante de Nova York, Valerie Teicher reflete na própria sonoridade a pluralidade de referências extraídas de cada cidade (ou país) em que viveu. Tendo na própria melancolia um possível elemento de “equilíbrio” para as canções, a artista segue com suavidade de onde parou em 2013 no Saudade EP, transformando o sucessor Verde EP em uma obra regida pela mesma delicadeza e sofrimento. Em um cenário de reverberações etéreas, tão próxima do Dream Pop como de vozes e batidas típicas do R&B, Teicher joga o ouvinte para todos os lados, sempre de forma tímida, confortada pelos próprios sentimentos. Com exceção da já conhecida Bassically – faixa que abraça o mesmo som dançante e nostálgico de Blood Orange no álbum Cupid Deluxe (2013) -, uma seleção de composições montadas com precisão e leveza. Faixas que a qualquer momento podem se esfarelar na mente do ouvinte.

Nota: 7.6
Para quem gosta de: Yumi Zouma, Blood Orange e Mr. Twin Sister
Ouça: Bassically

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Yumi Zouma
EP II (2015, Cascine)

Desde que o quarteto Yumi Zouma decidiu convidar a dupla sueca Joel Karlsson e Henrik Markstedt do Air France para colaborar na inédita It Feels Good To Be Around You que a sonoridade do coletivo neozelandês se transformou, revelando um novo formato. De um lado, as melodias pop testadas no primeiro EP, no outro, a manipulação de sintetizadores, vozes e arranjos de forma etérea, como um diálogo doce com os mesmos elementos da Balearic Beat. Produto final dessa transformação está em EP II (2015, Casine), obra que reforça o amadurecimento do grupo – tanto nos versos como instrumentos -, ao mesmo tempo em que potencializa o caráter jovial que sustenta a banda desde o primeiro single. São cinco canções inéditas que (mais uma vez) reforçam o uso de versos pegajosos e refrão fácil (Alena), pequenos experimentos (Song for Zoe & Gwen) e referências empoeiradas que dialogam com o Soft Rock dos anos 1970 ou mesmo com o indie Pop inglês no começo dos anos 1980 – principalmente The Pastels. Um coleção tímida de desilusões amorosas, personagens e sutilezas que ampliam o universo particular da banda alimentado desde o single The Brae.

Nota: 8.4 [M.D.]
Para quem gosta de: Mr. Twin Sister, The Pastels e Alvvays
Ouça: Alena e Song for Zoe & Gwen

OBS: álbuns classificados como [M.D.] vão direto para nossa lista de Melhores Discos.


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