Aquecimento: “O Mais Feliz da Vida”, A Banda Mais Bonita Da Cidade

Por: Cleber Facchi
Foto: Rosano Mauro

A Banda Mais Bonita Da Cidade

Se por um lado o vídeo de Oração precisou de poucos minutos para transformar os curitibanos d’A Banda Mais Bonita da Cidade em um novo fenômeno nacional, por outro lado a atmosfera “estranha” do primeiro álbum de estúdio desmotivou muita gente. Quem esperava por uma obra marcada pelo mesmo efeito grandioso da canção que apresentou o coletivo, acabou se deparando com um jogo de canções tortas, capazes de brincar com o pop, porém, em uma composição incapaz de suprir a expectativa de uma maioria. Com a chegada de O Mais Feliz da Vida, segundo registro em estúdio, é bem provável que a banda paranaense consiga reverter essa situação. O trabalho, que chega no dia primeiro de outubro, potencializa o uso das melodias, acerta na escolha dos versos e traz em uma carga de influências a base para toda a nova estética da banda. Em uma tentativa de de preparar o ouvinte e apresentar parte do que sustenta o novo álbum, a seção Aquecimento traz um conjunto de dez obras/referências – discos, músicas ou até mesmo pessoas – que você deveria conhecer antes de chegar ao ainda inédito trabalho. Só não esqueça de manter a  expectativa baixa.

A Banda Mais Bonita da Cidade – Terminei Indo

Lançada como parte do compacto Canções que Vão Morrer No Ar, Terminei Indo antecipa com delicadeza parte do que abastece a presente fase do grupo curitibano, tanto nos versos, como nos instrumentos. Sutil, a faixa assinada pelo pernambucano China distancia a banda da esquizofrenia pop instalada no decorrer do primeiro disco, amenizando vozes e instrumentos em uma estética próxima do Folk, mas que se permite acrescer de uma carga de novos elementos. Prepare-se para uma obra com a mesma atenção às harmonias, porém, em uma medida ampliada, quase épica em diversos momentos.

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Pink Floyd – The Wall (1979, Columbia)

Uma das bases para a composição de O Mais Feliz da Vida está na realização de uma obra conceitual. A proposta, iniciada em meados dos anos 1960, quando grupos como The Beatles, The Beach Boys e Frank Zappa resolveram brincar com obras fechadas, de forte aproximação estética e lírica, serve como estratégia e a fagulha para a construção final do novo álbum dos curitibanos. Influência declarada do coletivo paranaense, o grupo britânico Pink Floyd ecoa com precisão ao longo do novo registro, que traz uma série de elementos instalados na obra-prima The Wall, de 1979.

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Arcade Fire – Funeral (2004, Merge)

As vozes orquestradas da faixa-título e os primeiros instantes do novo álbum do grupo curitibano não escondem: Arcade Fire habita em O Mais Feliz da Vida. Paixão antiga de Rodrigo Lemos, desde os tempos da extinta Poléxia, a banda canadense surge espontaneamente pelo trabalho dos paranaenses, que entre arranjos e cordas, bases instrumentais sombrias e pianos climáticos trazem uma série de elementos fixados no clássico Funeral, de 2004. A obra, costurada de forma quase mórbida pela morte, também regressa ao efeito conceitual que abastece a presente fase do grupo de Curitiba.

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Nuno Ramos

Pintor, desenhista, poeta e escritor, o paulistano Nuno Ramos foi um dos escolhidos para abastecer o trabalho do grupo curitibano no novo disco. Autor de uma série de composições que atravessam a produção musical brasileira, Ramos é o responsável por Olhos Da Cara, nona música do álbum, e canção que transporta os vocais de Uyara Torrente para um universo totalmente novo dentro da estética da banda. A faixa, já gravada por Rômulo Fróes em Um Labirinto em Cada Pé (2011), passa por uma verdadeira transformação nas mãos do coletivo.

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Pélico – Que Isso Fique Entre Nós (2011, YB)

Outro que teve música regravada pelo grupo paranaense no novo álbum é Pélico. Autor de uma sequência de canções marcadas pela amargura, o cantor e compositor paulistano teve a própria Que Isso Fique Entre Nós, faixa que dá título ao último álbum de estúdio, selecionada pela banda para se abrigar no novo disco. Se na versão original o autor/personagem se esparrama em um jogo de confissões tímidas e intencionalmente arrastadas, nas mãos do coletivo paranaense o efeito passa a ser outro. Para sentir um pouco do efeito instalado no ainda inédito lançamento, passear pela (curta) discografia de Pélico é uma experiência naturalmente reveladora e gratificante.

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Tibério Azul

Para a construção de Maré Alta, uma das 11 faixas que integram o repertório do novo álbum, quem aparece emprestando alguns versos é o pernambucano Tibério Azul. Uma das mentes aos comandos do grupo recifense Mula Manca & a Fabulosa Figura, o cantor e compositor traz para dentro do disco uma contribuição mínima, mas que cheira aos mesmos acertos líricos de Bandarra, álbum de estreia em carreira solo e uma das obras nacionais mais curiosas de 2011.

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Chico Neves

Possivelmente um dos produtores mais requisitados da cena nacional, o veterano Chico Neves aparece no novo álbum d’A Banda Mais Bonita da Cidade de forma rápida, porém, expressiva. Responsável pela condução em estúdio da faixa-título, Neves abre caminho para aquilo que Vinícius Nisi finaliza com acerto no restante da obra. Na ativa desde o fim da década de 1970, o produtor já trabalhou ao lado de bandas como Skank (Maquinarama), Ludov (Disco Paralelo) e Los Hermanos (O Bloco do Eu Sozinho) na construção de uma série de obras marcantes para o repertório brasileiro.

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Lemoskine – Toda Casa Crua (2012, Independente)

A história da Lemoskine – projeto paralelo de Rodrigo Lemos – às vezes se confunda ao nascimento da Banda Mais Bonita da Cidade. Mais do que partilhar integrantes, versos e conceitos próprios, os dois projetos se aproximam ainda mais com a chegada de O Mais Feliz da Vida. Carregando uma série de princípios antecipados no álbum de 2011, o novo disco do grupo curitibano parece captar a mesma essência do projeto autoral de Lemos, porém, em um estado de grandeza. Enquanto músicas como Toda Bonita e Estilingue soam compactas, nas mãos do coletivo o efeito é de oposição, quase como se uma obra servisse de sustento à outra.

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Poléxia

Já que chegamos ao território particular de Rodrigo Lemos, voltar ao cercado musical escolhido pela extinta Poléxia é quase uma obrigação. Enquanto no álbum de 2011 a banda curitibana esbarrava em uma série de marcas do falecido grupo de Lemos, vide a regravação de Aos Garotos de Aluguel, com o presente disco o sentido passa a ser outro. É como se o grupo se buscasse aprimorar uma série de traços deixados em faixas como Ficar em Casa e Melhor Assim, potencializando referências e absorvendo o passado de forma a produzir um efeito de ineditismo.

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A Banda Mais Bonita da Cidade (2011, Independente)

O fenômeno em torno do vídeo/viral de Oração fez muita gente correr em direção ao primeiro disco do grupo curitibano, experimentar com pressa, e deixar tudo para trás. Com o novo álbum à caminho, dar uma segunda chance ao trabalho de estreia da banda pode revelar uma série de marcas e experiências musicais que talvez tenham escapado da primeira audição do disco. Ainda que seja uma obra marcada pelas ideias – boa parte delas desordenadas -, o disco é a chave para aquilo que o coletivo amplia e também entende com maior acerto durante a construção do novo álbum, logo, voltar para os versos de Mercadoramama, Canção Pra Não Voltar e demais faixas do debut pode se transformar em um ponto de revelação ao ouvinte.


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