Aquecimento: “Reflektor”, Arcade Fire

Por: Cleber Facchi

Reflektor

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Toda expectativa (quase) sempre vem acompanhada de uma boa dose de frustração, mas tentar prever o que está por vir junto de um grande disco é um exercício sempre prazeroso. Dentro desse pensamento inauguramos mais uma nova seção no Miojo Indie. É a Aquecimento, especial que vai tentar (veja bem) prever ou antecipar pequenas tendências, referências e marcas que devem acompanhar os futuros lançamentos musicais. Em geral, uma lista de discos, músicas, clipes ou até mesmo filmes que preparam o caminho para a chegada de algum futuro grande disco. Como o próprio nome logo anuncia, um pequeno aquecimento gerado sob forte expectativa e boas pistas já administradas pelos próprios artistas.

Para começar, nada mais justo do que escolher o comentado Reflektor, quarto álbum em estúdio do Arcade Fire e um dos registros mais aguardados do ano. Com previsão de lançamento para o dia 28 de Outubro, o disco traz na produção de James Murphy (LCD Soundsystem) e Markus Dravs uma proposta de ruptura em relação aos trabalhos anteriores – Funeral (2004), Neon Bible (2007), The Suburbs (2010) -, ou pelo menos é isso que o autointitulado single de abertura revela com bastante propriedade. Preparando terreno para o que chega nos próximos meses, selecionamos 10 músicas, discos e até mesmo um filme que você precisa ouvir antes da chegada do novo álbum.

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Arcade Fire – Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)

Por que ouvir: Faixa de encerramento do álbum The Suburbs, a canção traz nos sintetizadores, vozes plásticas e na fluidez eletrônica um princípio para o trabalho seguinte. É quase possível entender Reflektor como uma continuação natural e ainda mais complexa da música, prova de que toda possível mudança do Arcade Fire já estava preparada há tempos.

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Talking Heads – Remain In Light (1980, Sire)

Por que ouvir: Obra-prima do Talking Heads, o álbum lançado em 1980 é a base para boa parte dos registros recentes, sendo uma inspiração confessa de James Murphy, produtor do novo disco. Desde o lançamento de Neon Bible, a aproximação da banda canadense com o grupo nova-iorquino era bastante clara, marca anunciada nas guitarras e na busca por um som cada vez menos hermético. Até o presente visual proposto para a arte de divulgação do grupo parece inspirado na banda veterana.

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Arcade Fire – Speaking in Tongues (ft. David Byrne)

Por que ouvir: Por falar em Talking Heads, ainda em 2011, durante o lançamento da edição especial do álbum The Suburbs, a banda entregou boas pistas sobre o terceiro disco. Melhore exemplo disso está na versão para Speaking in Tongues, canção que dá título ao quinto disco do grupo nova-iorquino e que que na versão do grupo canadense chega acompanhada do próprio David Byrne nos vocais.

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LCD Soundsystem – Losing My Edge

Por que ouvir: Um dos marcos do Dance-Punk na década passada, Losing My Edge foi a música que apresentou oficialmente o LCD Soundsystem e consequentemente o trabalho de James Murphy. Base para a curta discografia da banda, a canção ecoa com leveza orquestral em Reflektor, sendo o princípio para uma série de composições recentes, de outros artistas, centrados na mesma proposta.

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David Bowie – Lodger (1979, RCA)

Por que ouvir: Último capítulo da “Era Berlin” de David Bowie, Lodger é um meio termo entre as experimentações abastecidas em Low (1977) e a New Wave que ocuparia toda a década de 1980. Parceiro de longa data do grupo canadense, Bowie (que também canta em Reflektor), já trouxe diversas influências para a obra de Win Butler, sendo um dos principais responsáveis pelas transições “eletrônicas” do grupo ainda no álbum passado.

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Música Haitiana

Por que ouvir: Em entrevista recente para a BBC, Win Butler afirmou que uma passagem da banda pelo Haiti durante a turnê de The Suburbs serviu para despertar um novo sentido musical na banda. A julgar pela linha de baixo levemente suingada e os sintetizadores nada frígidos, a preferência se faz clara e presente. Gravado no Haiti, o clipe interativo de Vincent Morisset é outra dica sobre a nova tendência da banda.

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New Order – Power, Corruption & Lies (1983, Factory)

Por que ouvir: Segundo trabalho de estúdio do New Order, Power, Corruption & Lies traz nos sintetizadores e no percurso atmosférico um equilíbrio para as transformações do grupo. Basta observar o quanto Sprawl II e Reflektor carregam uma série de referências da obra do trio britânico. É preciso lembrar que o disco também serve de base para boa parte da eletrônica construída na década de 1990, referência que também passeia pela nova estética do Arcade Fire.

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Manuel Goettsching – E2-E4 (1984, Inteam)

Por que ouvir: O compositor germânico Manuel Goettsching pode não ser tradicionalmente lembrado como uma grande referência no mundo pop, mas é uma grande inspiração para James Murphy e outros artistas do gênero. E2-E4, de 1984, é a obra mais completa do alemão, sendo homenageado pelo próprio líder do LCD Soundsystem durante o lançamento do álbum 45:33, em 2006. A julgar pelo manuseio das referências sintéticas em Reflektor, a obra de Goettsching deve trazer boas referências para o grupo canadense.

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Her – Spike Jonze (2013)

Por que assistir: Embora só estreie oficialmente em dezembro – uma prévia deve surgir em meados de outubro -, quase dois meses após o lançamento de Reflektor, Her do diretor Spike Jonze deve carregar marcas bem específicas da nova fase do grupo. Convidada para assumir a trilha sonora da película, a banda canadense pode abastecer a ficção científica do diretor norte-americano com boa parte das referências construídas ao longo dos meses.

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Roxy Music – For Your Pleasure (1973, Virgin)

Por que ouvir: De todas as referências que definem a obra do Arcade Fire, o Roxy Music sempre foi encarado em um plano de fundo complementar, quase invisível. Com a busca por um som menos orquestral e quase “festivo”, é visível uma participação maior do coletivo britânico na obra dos canadenses, preferência que tem o clássico For Your Pleasure replicado de diversas formas em Reflektor. Uma das principais influências de James Murphy, ou mesmo dos veteranos do Talking Heads, o trabalho é um disco mais do que essencial.