"Aromanticism"

Ano: 2017
Selo: Jagjagwar
Gênero: Folk, R&B, Soul
Para quem gosta de: Sufjan Stevens e Grizzly Bear
Ouça: Lonely World e Doomed
Nota: 8.3

Resenha: “Aromanticism”, Moses Sumney

A voz é a principal ferramenta de trabalho para o cantor e compositor norte-americano Moses Sumney. Basta voltar os ouvidos para toda a sequência de obras que vem sendo produzidas pelo músico de San Bernardino, Califórnia, nos últimos anos para perceber isso. Do canto melancólico que invade composições avulsas como Seeds, ao encontro com Sufjan Stevens nos palcos, até alcançar registros pequenos como os EPs Mid-City Island (2014) e Lamentations (2016), difícil não ser arrastado pela onda de sentimentos e confissões intimistas que chegam até o ouvinte por meio da voz minuciosa do artista.

Obra de imersão, Aromanticism (2017, Jagjagwar), primeiro álbum de estúdio de Sumney, usa da voz como um precioso fio condutor, costurando cada uma das 11 composições que sutilmente ganham forma e destaque ao longo do disco. Entre arranjos diminutos, sempre econômicos, o músico californiano estabelece as regras para um trabalho contido e grandioso na mesma proporção, como um labirinto de emoções que joga com o parcial isolamento do eu lírico, sempre sensível, acolhedor.

“E o vazio fala com você / De um jeito que ninguém fala / E essa voz enche o ar / Neve pela manhã indo a lugar nenhum … Nascido neste mundo sem consentimento ou escolha / Solitário, solitário, solitário, solitário, solitário, solitário“, canta em Lonely World, um reflexo da poesia atormentada de Sumney, melancólico durante toda a construção do disco. Um som entristecido, completo pelos questionamentos que invadem a confessional Doomed, nona faixa do disco (“De onde vem a realização? / Quando expulso / A partir desta casca mortal / Será que morrerei por ficar dormente?“).

Em Quarrel, quarta faixa do álbum, Sumeny amplia a carga dramática do trabalho de forma expressiva, mergulhando na exposição de conflitos intimistas de forma sempre dolorosa. “Chamar isso de uma disputa não está certo / Citando essa discussão / Então implica de forma imoral / Que somos oponentes iguais“, canta enquanto uma base densa à la Grizzly Bear se espalha ao fundo da composição. Versos que mesmo sussurrados chegam até o ouvinte como facas afiadas, conceito explorado maior naturalidade em músicas como a dolorosa Indulge Me (“Todos os meus velhos amantes encontraram outros“).

Sem necessariamente mergulhar em um gênero musical específico, Sumeny passeia por entre décadas e referências de forma sempre atenta, hipnótica. São melodias acústicas que apontam para a bossa nova (Plastic), espalham elementos do jazz, soul e R&B em uma base dominada por arranjos orquestrais (Don’t Bother Calling), ou mesmo olham para o folk dos anos 1970 de forma transformadora (Doomed), esbarrando em elementos típicos da obra de Bon Iver e Sufjan Stevens – esse último, colaborador de longa data do músico californiano e parceiro em uma série de projetos recentes.

Grandioso mesmo no minimalismo de suas composições, Aromanticism encanta pela forma como Sumney parece jogar com os próprios sentimentos e confissões angustiadas, estreitando de maneira natural a relação com o público. Versos consumidos pelo medo, abandono e relacionamentos instáveis, como a passagem para um refugio sentimental do artista. Uma obra que começa na voz doce e tormentos detalhadas pelo músico norte-americano, mas que parece crescer para além dos limites sentimentais e experiências que apontam a direção seguida no registro.

 

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