Artista: M O O N S
Gênero: Indie, Folk, Alternativa
Acesse: https://listentomoons.bandcamp.com/

 

Songs of Wood & Fire (2016, La Femme Qui Roule) é um disco que se revela em essência antes mesmo que a primeira música, a instrumental Hunting You, tenha início. Do título bucólico – “canções de madeira e fogo”, em português –, passando pelo trabalho do artista gráfico Jade Marra para a capa do álbum – um momento de afeto e proximidade de um casal –, cada fragmento da obra serve de indicativo para a poesia doce e arranjos sempre delicados de André Travassos na estreia como M O O N S.

Mais conhecido pelo trabalho com o temporariamente extinto grupo Câmera, coletivo responsável por registros como o ótimo Mountain Tops (2014), Travassos faz de cada uma das canções dentro do presente álbum um registro de pura intimidade, leveza e melancolia. Composições marcadas pela dor, saudade ou mesmo ensolarados sussurros românticos, como se o cantor e compositor mineiro fosse capaz de interpretar diferentes personagens e suas histórias ao longo da obra.

“Estávamos frente a frente, tentamos dizer ‘oi’ / Foram os minutos mais longos da minha vida / O silêncio se manteve, mesmo ensurdecedor / Todo o local parecia vazio”, canta na descritiva The Best Thoughts About You, faixa que detalha o reencontro de um casal de forma leve, como se Travassos convidasse o público a provar de diferentes histórias, tormentos e casos de amor. Uma poesia quase narrativa, completa pelo minimalismo dos instrumentos que se espalham ao fundo do álbum.

O dedilhado limpo e os arranjos de cordas em Golden Sun, no melhor estilo Mutual Benefit, guitarras e texturas acústicas em Good Luck Baby, o violão solitário que se espalha e cresce dentro da faixa título do disco, uma atmosfera típica dos trabalhos de Elliott Smith. São pouco mais de 40 minutos em que Travassos e um time de instrumentistas da cena mineira, entre eles Jennifer Souza e o produtor Leonardo Marques, integrantes da Transmissor, ocupam todos as brechas do trabalho.

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Artista: Sabotage
Gênero: Hip-Hop, Rap

 

Treze anos separam a morte de Mauro Mateus dos Santos, o Sabotage, do homônimo e recém-lançado álbum póstumo em homenagem ao rapper. Construído em um intervalo de mais de uma década, o sucessor do elogiado Rap É Compromisso! (2000) — 3º lugar na nossa lista dos 100 Melhores Discos Nacionais dos anos 2000 —, mostra o que teria acontecido se o artista, morto em janeiro de 2003, aos 29 anos de idade, ainda estivesse na ativa. Um time de produtores, músicos e velhos colaboradores que se reveza para garantir continuidade ao trabalho do paulistano.

Com direção musical assumida por Tejo Damasceno e Rica Amabis, do Instituto, e Daniel Ganjaman, parceiro de longa data do rapper, o registro de 11 faixas nasce como um resgate de diferentes projetos iniciados logo após o lançamento da trilha sonora de O Invasor (2002), filme de Beto Brant que conta com o próprio Sabotage no elenco. Trechos gravadas nos estúdios da gravadora YB ou mesmo esboços que acabaram encostados após o assassinato de rapper.

Durante o processo de produção e explícito refinamento do disco, um convite reservado apenas a velhos parceiros e artistas com quem o Sabotage já havia trabalhado em estúdio. “A dinâmica foi só trabalhar com quem trabalhava com ele, já que ele não está aqui para dar opinião. São pessoas das quais ele respeitava as qualidades musicais. Amigos ele tinha milhares, mas me refiro a gente que trabalhou com ele mesmo”, explicou Damasceno em entrevista à Rolling Stone.

Entre os colaboradores do álbum, nomes como Sandrão (Míssel), Negra Li (Canão foi Tão Bom), DJ Cia, responsável pela produção de três composições do disco (País da Fome: Homens Animais, Quem Viver Verá e Míssel) e Rappin’ Hood (Maloca é Maré) – todos integrantes do RZO, grupo apresentou Sabotage em meados dos anos 1990. Sobram ainda nomes Fernandinho Beat Box (Levada Segura), Dexter (Quem Viver Verá), a cantora Céu (O Gatilho), além de diversas faixas em que Damasceno e Amabis assumem de vez o manto do Instituto.

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Artista: Weyes Blood
Gênero: Chamber Pop, Indie, Folk
Acesse: https://weyesblood.bandcamp.com/

 

Natalie Mering passou por um lento processo de amadurecimento nos últimos cinco anos. Do lançamento do primeiro disco como Weyes Blood, o obscuro The Outside Room (2011), passando pela produção de obras como The Innocents (2014) e até o EP Cardamom Times (2015), cada trabalho apresentado pela cantora e compositora nova-iorquina parece aproximar o público de um novo universo de possibilidades e temas instrumentais, proposta que se reforça com a chegada do doloroso Front Row Seat to Earth (2016, Mexican Summer).

Movida pela solidão, medos e saudade, Mering faz de cada composição ao longo do registro um claro exercício de exposição do próprio sofrimento. “Você precisa de mim do jeito que eu preciso de você? / Vamos ser sinceros para uma mudança / Você precisa de alguém? / Você precisa do meu amor?”, questiona em Do You Need My Love, um atormentado delírio confessional que resume com naturalidade a dor que abastece grande parte das canções do trabalho.

Em Seven Words, sétima faixa do disco, confissões românticas e versos marcados pelo sofrimento do eu lírico dançam sem pressa no interior da canção. “Com o tempo, ambos estaremos livres dessa bola com correntes … Quando a poeira baixar / E você esquecer que eu estava aqui / Esperando / Pendurada”, canta enquanto uma delicada cortina instrumental desce e cobre toda a base da canção, reforçando a temática dolorosa que Mering usa para dialogar com o ouvinte.

Nos poucos instantes em que a poesia romântica do trabalho deixa de ser um objeto de destaque, a cantora se concentra na produção de faixas que dialogam com o presente. É o caso de Generation Why, música que a artista discute a artificialidade da vida digital e os excessos da geração Y – os Millennials. “Leve-me através das ondas de mudança / Eu sei o meu lugar / É uma coisa bonita / Y-O-L-O, por quê? / Y-O-L-O, por quê? / Y-O-L-O, por quê?”, entrega a letra da canção.

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Artista: Leonard Cohen
Gênero: Folk, Singer-Songwriter, Blues,
Acesse: https://www.leonardcohen.com/

 

A voz talhada pelo tempo, arranjos e batidas sempre contidas, por vezes minimalistas, reforçando a atmosfera soturna e o tom confessional que sustenta de cada fragmento poético. Em You Want It Darker (2016, Columbia), 14º álbum de estúdio do cantor e compositor canadense Leonard Cohen, referências religiosas, a relação com a morte, medos e reflexões existencialistas se espalham ao fundo do trabalho, resultando em um novo e bem-sucedido capítulo dentro da extensa discografia do veterano.

Estou pronto para morrer. Espero que não seja desconfortável”, disse Cohen em um recente artigo escrito pelo jornalista David Remnick para a revista The New Yorker. Em You Want It Darker, o diálogo com a morte se estende do primeiro ao último instante da obra. São versos maquiados pelo uso de metáforas e referências particulares, mas que acabam funcionando como um aceno melancólico, referência explícita na dolorosa Traveling Light – “Boa noite, minha estrela cadente / Outrora tão brilhante, minha estrela cadente”.

Íntimo da morte, porém, nunca pessimista, apenas sereno, o registro de apenas nove faixas segue exatamente de onde Cohen parou nos dois últimos álbuns de estúdio, Old Ideas (2012) e Popular Problems (2014). São versos declamados, sempre densos, como devaneios e pequenas interpretações sobre a própria vida. Um ato sorumbático, por vezes fúnebre, proposta que acaba aproximando o trabalho do mesmo universo de temas incorporados por David Bowie no derradeiro Blackstar (2016).

Em Treaty, segunda faixa do disco, versos que brincam com a interpretação do ouvinte. Referências, adaptações e símbolos ocultos que tanto fazem da composição uma triste confissão romântica, como um diálogo do eu lírico com Deus – “Eu gostaria que houvesse um tratado / Entre o seu amor e o meu”. O mesmo conceito religioso acaba se repetindo em outros instantes do disco, como na homônima canção de abertura do álbum, música marcada pelo explícito uso de citações bíblicas.

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Artista: BK
Gênero: Hip-Hop, Rap, Alternativo
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Batidas secas se espalham sem pressa em cima do uma base acinzentada, densa. Samples empoeirados se perdem ao fundo de cada composição, como se antigos discos de vinil dessem voltas em torno de uma sequência esquizofrênica de vozes e melodias. Claustrofóbicas rimas sujas detalham o cotidiano de uma mente sufocada pelo caos de qualquer centro urbano. Personagens, confissões e melancólicas histórias de superação dançam uma valsa lenta, torta, levemente descompassada.

Em Castelos & Ruinas (2016, Piramide Perdida), primeiro registro em carreira solo do carioca Abebe Bikala, sonhos, desilusões, delírios e tormentos pessoais servem de estímulo para a poesia intimista produzida pelo rapper. Uma clara extensão do mesmo som atormentado que o artista vem desenvolvendo como integrante do coletivo Nectar Gang, porém, mergulhado em um universo de temas e referências ainda mais complexas, pessoais, resultando em um trabalho essencialmente sombrio.

Livre da MPB-Rap e incontáveis colaborações que alimentam grande parte do Hip-Hop brasileiro — principalmente a cena de São Paulo —, BK faz do registro uma obra enxuta, quase minimalista. Produzido em sua maioria por El Lif Beatz e JXNVS, o álbum de 11 faixas cresce em meio a beats contidos e bases essencialmente soturnas, sufocantes, como um diálogo (in)voluntário do rapper com o mesmo material produzido por Earl Sweatshirt, Vince Staples e outros nomes do presente cenário norte-americano.

Personagem central da própria obra, BK encontra em cada composição um espaço para desenvolver pequenas reflexões existencialistas. “Quando criança eu sonhava em crescer e ter todo o melhor dessa vida / Hoje sou um homem crescido, e a criança em mim ainda é viva”, pontua em Quadros, uma delicada parceria com Luccas Carlos e a cantora Ashira Wolf, um das poucas do trabalho, em que o rapper promove uma análise nostálgica sobre o próprio crescimento, esbarrando em conflitos típicos de qualquer jovem adulto.

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Artista: Hurtmold & Paulo Santos
Gênero: Experimental, Instrumental, Alternativo
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Não há espaço para o óbvio dentro da discografia do coletivo paulistano Hurtmold. Em quase duas décadas de carreira, os integrantes Maurício Takara, Guilherme Granado, Marcos Gerez, Mário Cappi, Fernando Cappi e Rogério Martins fizeram da colagem de referências, ruídos e paisagens instrumentais a base para a construção de uma seleção de obras marcadas pela complexidade e esmero na montagem de cada canção. Jazz, rock, noise ou apenas “experimental”. Um jogo de ideias, ritmos e referências que se projeta de forma essencialmente versátil dentro de Curado (2016, Sesc).  

Resultado da parceria entre o grupo paulistano e o veterano Paulo Santos, um dos integrantes do recém-extinto Uakti, coletivo mineiro de música de vanguarda, o trabalho de apenas dez faixas mostra o esforço de cada integrante na construção de uma obra completamente instável, imprevisível. Arranjos e batidas que dialogam com a sonoridade urbana da Hurtmold, porém, projetadas dentro do ambiente de fórmulas minimalistas e melodias geradas a partir de instrumentos sempre inusitados do “convidado”.

Da mesma forma que na extensa discografia do grupo mineiro, Santos transporta para dentro do presente álbum um pequeno arsenal de peças curiosas. São instrumentos criados a partir de tubos de PVC, encaixes metálicos e componentes gerados a partir de elementos coletados na natureza, caso de uma curiosa flauta de bambu. Componentes que ocupam um lugar de destaque no interior da obra, vide o saxtubo soturno que se espalha ao fundo da minuciosa Pastel de Pixo, segunda faixa do disco.  

Como a capa do disco parece indicar – trabalho que conta com a assinatura do guitarrista Mario Cappi, também responsável pela arte dos demais lançamentos da banda –, Curado é uma obra de possibilidades infinitas. Composições inicialmente contidas, econômicas, mas que acabam se fragmentando em diferentes atos, curvas e temas sempre complexos. Um bom exemplo disso está em Contas, música que cresce lentamente, cercada de vibrafones e outros instrumentos de percussão, dialogando com uma série de elementos do clássico Music for 18 Musicians (1978), de Steve Reich.

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Artista: Bruno Souto
Gênero: Alternativo, Indie, Romântico
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Romântico. Três anos após o lançamento do primeiro registro em carreira solo, Estado de Nuvem (2013), o cantor e compositor pernambucano Bruno Souto, está de volta com um novo álbum repleto de composições inéditas. Em Forte (2016, Deck Disc), cada canção presente no interior do trabalho se projeta como um precioso exercício confessional. Memórias e fragmentos sentimentais que incorporam o que há de mais doloroso, sensível e honesto na poesia do artista.

Claramente inspirado pelo mesmo romantismo de Odair José, Amado Batista e outros gigantes do cancioneiro popular, Souto faz de cada música um doloroso registro intimista. São declarações de amor movidas pela provocação (Forte), faixas corrompidas pela temática da separação (Muito Além de Nós) e ciúme  (Amor Demais). Uma delicada extensão do material produzido não apenas no primeiro álbum do cantor, mas em grande parte da discografia da Volver, antiga banda de Souto.

Menos “hermético” em relação ao som produzido pelo artista há três anos, Forte reflete o claro fascínio de Souto pela música pop. Da forma como os versos parecem projetado para grudar na cabeça do ouvinte — “É amor mas não dá mais / Não dá mais / Porque é amor demais”—, sempre pegajosos, passando pelo uso de uma estrutura melódica que envolve, seduz e provoca com leveza, difícil passear pelas canções do trabalho e não ser atraído logo em uma primeira audição.

A cada nova composição, um jogo de versos e melodias sempre envolventes. “Teu medo que se dane / No canto da tua boca escorre o meu prazer / Vem correr perigo / Sei que vale o risco de se arrepender”, canta logo nos primeiros minutos do álbum, indicando parte do charme ardiloso que alimenta grande parte das canções. Um romantismo nostálgico, empoeirado, por vezes íntimo do mesmo som produzido por Bárbara Eugênia, em Frou Frou, e Rafael Castro em Um Chopp e um Sundae, ambos de 2015.

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Artista: Quarup
Gênero: Indie Pop, Alternativo, Psicodélico
Acesse: https://www.facebook.com/bandaquarup/

Fotos: Maria Romero

Cada composição presente no primeiro álbum de estúdio da banda paulistana Quarup é um objeto de destaque, a ser observado de forma atenta pelo público. O som empoeirado que sopra das guitarras psicodélicas de O Mensageiro. A letra subjetiva, repleta de significados ocultos e melodias minimalistas em Estrela Da Manhã, parceria com a cantora Ná Ozzetti. Versos essencialmente românticos, delicados, que se prendem a cada fragmento instrumental de Lila — “Lila, cansei de desatino / Eu quero o teu destino amarrado juntinho do meu”.

Concebido de forma “artesanal”, durante o intervalo de mais de um ano, o registro de 13 faixas e exatos 50 minutos de duração reflete o esforço e clara interferência de cada integrante da banda em estúdio. Aos comandos de Guta Batalha (Vocais), Ione Aguiar (guitarras, violões e vocais), Beni Teixeira (piano, teclados e vocais), Marcelo Maia (baixo e vocais) e Lucas Cassoli (bateria, percussões e vocais), um curioso e colorido experimento que dialoga de forma explícita com a imagens que preenchem o encarte e capa do disco – trabalho de Aruana Ribeiro.

Inspirado de forma confessa no som produzido por veteranos dos anos 1960 (Os Mutantes, Caetano Veloso) e 1970 (Novos Baianos, Milton Nascimento), a estreia do quinteto de São Paulo nasce como um precioso exercício autoral de revisitar o passado. Melodias, referências nostálgicas e temas que dialogam de forma declarada com a música produzida há quatro ou cinco décadas, mas que em nenhum momento se distancia do presente, abraçando e incorporando com naturalidade as memórias e experiências pessoais cada integrante da banda.

Doce criança, quando eu te perdi o tempo era um menino”, sussurra a letra de Uma Amizade Que Veio do Mar, um dueto que coleciona fragmentos da infância e ainda dialoga com cenas e elementos da animação Ponyo (2008), de Hayao Miyazaki. Em Pedra Rara, quarta faixa do disco, uma complexa declaração de amor que se distancia do óbvio para brincar com as palavras – “Que vaidade minha te despir sem pejo / Seixos que pesquei no mar, para enfeitar teu colo / Os mais lindos martins de que se tem notícia / Não houvesse tu, meu bem / paravam de cantar, pois”.

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Artista: Danny Brown
Gênero: Hip-Hop, Rap, Alternativo
Acesse: http://xdannyxbrownx.com/

 

É difícil escapar das canções de Atrocity Exhibition (2016, Warp). Do momento em que tem início até a última rima em Hell for It, faixa de encerramento do disco, Danny Brown e um time de produtores, músicos e compositores se desdobra na construção de um trabalho essencialmente dinâmico, intenso, marcado pelo peso das rimas e uso atento de samples. Uma versão menos eufórica e naturalmente segura do mesmo material apresentado há três anos, durante o lançamento do duplo Old (2013).

Inspirado em diferentes obras produzidas por veteranos do Pós-Punk, como Talking Heads, Sonic Youth e, principalmente, Joy Division — o próprio título do trabalho vem da faixa de abertura do segundo álbum em estúdio da banda inglesa, Closer (1980) —, Atrocity Exhibition talvez seja o registro em que o rapper de Detroit mais se aproxima do grande público. Um verdadeiro jogo entre as rimas de Brown e a produção polida do britânico Paul White, parceiro do rapper durante toda a construção da obra.

Mais conhecido pelo trabalho em parceria com Charli XCX, White transporta para dentro do disco a mesma atmosfera do ótimo True Romance (2013). Um álbum que prova de diferentes estilos e sonoridades, porém, em nenhum momento se distancia de um conjunto de regras pré-estabelecido. Uma constante sensação de que Brown conseguiu extrair o melhor dos três últimos álbuns de estúdio – The Hybrid (2010), XXX (2011) e Old (2013) – para dentro do presente registro.

Em Atrocity Exhibition, cada composição se destaca com naturalidade. O sample empoeirado de Lost, no melhor estilo Madlib; o ritmo acelerado de Ain’t It Funny, faixa que explora diferentes conflitos na vida de Brown – “Engraçado como isso acontece / Quem poderia imaginar / Que a piada é você / Mas Satanás é o único que ri”–; as guitarras de Golddust, faixa trabalhada em cima de um sample de People From Out the Space, música composta pelo grupo de rock progressivo alemão Embryo.

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Artista: Vitor Araújo
Gênero: Experimental, Alternativa, Instrumental
Acesse: http://vitoraraujo.com.br/

 

Os experimentos testados por Vitor Araújo no complexo A/B — 15º  lugar na nossa lista dos 50 melhores discos de 2012 —, estão longe de chegar ao fim. Em Levaguiã Terê (2016, Natura Musical), segundo álbum de estúdio do compositor pernambucano e primeiro registro montado apenas com composições próprias, vozes em coro, arranjos de corda e delicadas melodias tortas servem de estímulo para a construção de um trabalho que ganha novo significado a cada movimento orquestral ou mínima alteração no canto melancólico de seu idealizador.

Inspirado de forma confessa pelo trabalho de artistas como Björk, The Knife, Animal Collective e, principalmente, os britânicos do Radiohead, grande influência de Araújo, o registro de 14 faixas e pouco mais de 70 minutos de duração mostra a busca do multi-instrumentista por um novo mundo de possibilidades, texturas, fórmulas e sonoridades. Batidas e temas eletrônicos que correm em paralelo ao uso de ambientações orquestrais e conceitos íntimos da música de vanguarda.

Conceitualmente dividido de em duas metades, durante todo o primeiro ato, Levaguiã Terê — o nome vem de um pássaro mitológico do folclore indígena —, reserva ao público uma coleção de temas orquestrais, sempre provocativos, intensos. Inaugurado pela crescente Rando Fálcigo: Toque Nº 1, um verdadeiro turbilhão instrumental com mais de nove minutos de duração, o trabalho reflete a todo instante o completo esmero do artista durante a construção e polimento do registro. Fragmentos instrumentais que se destacam com naturalidade mesmo dentro da épica arquitetura da faixa.

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Do uso pontual de elementos percussivos à profunda interferência de metais e instrumentos de sopro, todas as nuances, encaixes e arranjos minimalistas são percebidos com nitidez ao longo do disco. Seja na construção de músicas mais curtas, como Fraxitera: Toque Nº 2, ou na montagem de faixas extensas,  caso de Turvalema: Toque Nº 3, com mais de oito minutos de duração, Araújo e o parceiro de produção, Bruno Giorgi, fazem de cada canção do registro a passagem para mundo de pequenos detalhes.

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