Artista: Nego E.
Gênero: Hip-Hop, Rap, R&B
Acesse: https://www.facebook.com/negoe.sp/

 

O oceano desbravado no segundo álbum de estúdio de Nego E. é imenso, turbulento e propositadamente instável. Navegando em uma embarcação resistente, segura, projetada a partir do uso preciso das rimas, o princípio de um constante embate contra ondas de preconceito, criminalidade, racismo e perseguição policial. Uma extensão madura do mesmo conceito caótico e urbano explorado pelo rapper há dois anos, durante a produção do primeiro álbum de inéditas, o ótimo Autorretrato (2014).

Anunciado durante o lançamento de Lua Negra, primeiro single do disco, Oceano (2016, Independente) joga com as rimas e referências dentro de uma atmosfera essencialmente densa, sombria. “Cadê a lei do ventre livre quando uma preta é estuprada? / A noite vi minha mãe com insônia / Por não saber se eu ia cair numa cena forjada”, questiona o rapper, preparando o terreno para ápice dramático da canção – “Eu não consigo respirar, ainda pareço suspeito? / Para de atirar, eu parecia suspeito?” –, uma delicada ponte para o movimento Vidas Negras Importam.

Matéria-prima do registro, o preconceito racial serve de base para grande parte das canções dissolvidas pela obra. Da abertura do disco, em Homem ao Mar, passando por músicas como Insônias e Melhor de Mim, não são poucos os momentos em que as rimas de Nego E. escancaram a opressão sofrida pela comunidade negra e outros grupos marginalizados. Um bom exemplo disso está em D M P a D Q P C, parceria com Rincon Sapiência que utiliza de uma cena do Big Brother Brasil – “Meu amor, tá aqui ó, sou preta, quer afrontar?” – como ponto de partida para a construção dos versos.

Em um constante diálogo com o presente, Oceano revela ao público uma série de faixas que detalham diferentes aspectos da nossa sociedade. Segunda canção do disco, Senhor Ninguém nasce como uma crítica atenta ao consumismo e suas novas formas de escravidão – “Marionetes com correntes ou cordas / Velhos engenhos, novos senhores”. Em, Valsalva, uma reflexão sobre os relacionamentos e identidades forjadas dentro das redes sociais – “Punho cerrado aqui não é só pelo close do Snapchat”.

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Artista: Luísa Maita
Gênero: Eletrônica, Samba, Alternativa
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A imprevisibilidade talvez seja o principal traço do trabalho de Luísa Maita em Fio da Memória (2016, Cumbancha). Produzido em parceria com o músico Zé Nigro, o sucessor do elogiado Lero-Lero (2010), obra que apresentou a cantora e compositora paulistana ao grande público, reforça a essência experimental e naturalmente inventiva da artista. Uma quebra brusca em relação ao samba melódico e a voz limpa que orienta as canções do trabalho entregue há seis anos.

Com uma “gestação prolongada”, como resume o texto de apresentação do disco, o novo álbum precisou de quase meia década até ser finalizado. Em produção desde 2012, Fio da Memória nasce como uma extensão torta do material entregue por Maita no primeiro álbum de inéditas. Entre ruídos e bases eletrônicas, crônicas musicadas que dialogam com o samba, incorporam elementos tribais e diferentes gêneros musicais, como o jazz e o rock.

A julgar pelo preciosismo que orienta Ela, sétima canção do disco, é fácil perceber porquê o novo álbum de Maita levou tanto tempo até ser finalizado. Perceba como sintetizadores se espalham sem pressa ao fundo da canção, hipnóticos. Um jogo de batidas e vozes que se completam lentamente, resultando em uma canção que sussurra detalhes na cabeça do ouvinte. O mesmo cuidado acaba se refletindo em outros instantes do disco, seja na euforia de Porão ou no sopro tímido da derradeira Jump.

Composição escolhida para inaugurar o disco, a eletrônica Na Asa é apenas a ponta do imenso iceberg criativo que caracteriza o trabalho. A voz chiada, batidas cíclicas, entalhes econômicos. Longe da exposição imediata dos elementos, Maita e o parceiro de produção, Tejo Damasceno, uma das metades do Instituto, parecem jogar com o minimalismo dos arranjos. Minúcias, segredos e pequenas sobreposições que se espalham de forma a completar a voz firme da cantora.

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Artista: A Tribe Called Quest
Gênero: Hip-Hop, Rap, Alternative
Acesse: http://www.atribecalledquest.com/

 

Em um intervalo de apenas três anos, os integrantes do coletivo A Tribe Called Quest mudaram para sempre a história do Hip-Hop norte-americano. Nas batidas e rimas de Q-Tip, Ali Shaheed Muhammad, Phife Dawg e Jarobi White, obras fundamentais como People’s Instinctive Travels and the Paths of Rhythm (1990), The Low End Theory (1991) e Midnight Marauders (1993). Ponto de partida para uma nova fase do gênero e o estímulo criativo para toda uma sequência de produtores e obras pelas próximas duas décadas.

De gigantes da indústria, como The Black Eyed Peas e Kanye West, passando por nomes como Nas, DJ Shadow e Kendrick Lamar, difícil não encontrar alguém que não tenha se inspirado no som produzido pelo quarteto nova-iorquino. Tamanha influência e fascínio do público acabou servindo de estímulo para um retorno do grupo aos palcos depois de um hiato de oito anos, além, claro, da construção do recém-lançado We Got It from Here… Thank You 4 Your Service (2016, Epic / SME).

Sexto e último registro de inéditas do quarteto, o trabalho dividido em duas metades segue exatamente de onde o coletivo parou há quase duas décadas, durante o lançamento do álbum  The Love Movement (1998). Samples, ritmos e melodias que se entrelaçam de forma a servir de base para as rimas lançadas por cada integrante do projeto. O último suspiro poético do rapper Phife Dawg, morto em março deste ano, devido a complicações relacionadas com a diabetes.

Alimentado pelo uso de temas recentes, We Got It from Here… detalha o racismo sofrido pela comunidade negra, perseguição a grupos marginalizados, empoderamento feminino, conflitos religiosos e todo um universo de elementos que servem de estímulo para a construção de um recente panorama político/social dos Estados Unidos. Um chamado para a mudança que tem início na dobradinha formada por The Space Program e We the People…, mas que acaba se espalhando durante toda a construção do registro.

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Artista: Filipe Alvim
Gênero: Indie, Lo-Fi, Alternativo
Acesse: https://filipealvim.bandcamp.com/

Foto: Tamires Orlando

Romântico, cafona, sensível. Em Beijos (2016, Pug Records), primeiro álbum de inéditas em três anos, o cantor e compositor mineiro Filipe Alvim faz de cada composição ao longo do registro um fragmento marcado pela confissão. Entre sussurros melancólicos (“Você pensa que está bom / Mas podia estar melhor”) e versos essencialmente intimistas (“Você tem / O poder / Sobre mim”), a construção de um trabalho que parece feito para grudar na cabeça do ouvinte.

Inaugurado pelos dramas e versos atormentados de Vida Sem Sentido, faixa de abertura do disco, o sucessor de Zero EP (2013) mais uma vez posiciona Alvim como personagem central de uma obra marcada pela desilusão. Enquanto os arranjos de guitarra se desmancham lentamente, revelando um som empoeirado, íntimo dos trabalhos de Mac DeMarco e outros românticos do rock atual, uma solução de versos amargos aponta a direção seguida em grande parte do trabalho.

Dividido entre músicas rápidas e versos arrastados, sempre dolorosos, Alvim joga com os sentimentos – dele e do próprio ouvinte. São versos curtos, sequências de duas ou três palavras, como se o cantor brincasse com o significado oculto em cada uma das canções. Declarações de amor, medos e delírios que se entrelaçam em meio ao movimento rápido das guitarras, tão íntimas do pop rock dos anos 1980, quanto de novatos como Connan Mockasin e Séculos Apaixonados.

Ela é poderosa / Me fascina / Ela é poderosa / Me deixa ficar”, desaba em Poderosa, música que flutua entre a submissão e a libertação do eu lírico. Em Jaula, sexta faixa do disco, retalhos poéticos e pequenas indecisões – “Não perde / Não volta / Não cola / Amassa / Abafa / Sufoca”. Na rápida Cama Redonda, uma letra que se divide entre o tédio (“Nesse bode de hoje eu fiquei”) e a melancolia (“Perdi o gosto das coisas”). Diferentes conflitos de um mesmo personagem.

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Artista: Psilosamples
Gênero: Electronic, Techno, IDM
Acesse: https://psilosamples.bandcamp.com/

 

A mudança para a cidade de São Paulo parece ter impactado diretamente nas composições assinadas pelo produtor Zé Rolê em Biohack Banana (2016, UIVO Records). Original da cidade de Pouso Alegre, interior de Minas Gerais, o artista responsável pelos experimentos e sobreposições delicadas do Psilosamples revela uma nova postura em relação ao trabalho apresentado há quatro anos. Um pequeno acervo de faixas que evidenciam a fuga do som colorido que se espalha entre as canções do antecessor Mental Surf (2012).

Primeiro grande trabalho do produtor mineiro desde o EP Cobra Coral, de 2015, o novo álbum sustenta nas batidas o grande destaque da obra de Rolê. São mosaicos eletrônicos construídos a partir de fragmentos minimalistas, quebras, costuras e pequenas alterações rítmicas. A curiosa sensação de adentrar um imenso labirinto eletrônico, onde cada curva do registro apresenta ao ouvinte um espaço completamente novo, reformulado, conceito explícito logo na inaugural faixa-título.

Parcialmente distante do rico catálogo de samples e ritmos regionais que abasteceram o disco entregue há quatro anos – vide músicas como Ovelha Negra e Bom Dia Menina Pelada –, Rolê encara Biohack Banana como uma obra fechada, como se cada canção fizesse parte de um mesmo conjunto de ideias. “Começo a compor como uma história. As músicas vão fluindo como mantra e muitas vezes interagindo com diversos tipos de sonoridades, da música popular à eletroacústica”, explicou em entrevista ao site Music Non Stop.

O resultado dessa transformação está na produção de um registro homogêneo, por vezes contido, mas não menos inventivo. Um bom exemplo disso está na montagem de Copo de Leite Hortelã Pimenta, terceira música do disco. Entre sintetizadores tortos e melodias abstratas, a contida adaptação de diferentes ritmos tipicamente brasileiros, como se Zé Rolê provasse dos mesmos experimentos testados por artistas como Hrvatski, Four Tet e outros nomes de peso da eletrônica estrangeira.

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Artista: Terno Rei
Gênero: Dream Pop, Indie, Alternativo
Acesse: http://ternorei.com.br/

 

Um sussurro angustiado entre os versos de Criança – “As coisas que eu perdi / Nunca voltam” –, e a essência melancólica da Terno Rei se revela por completo em Essa Noite Bateu Com Um Sonho (2016, Balaclava Records). Sucessor do delicado Vigília (2014), o segundo álbum de estúdio do quinteto paulistano nasce como uma extensão madura do som intimista que há tempos orienta a obra de Ale Sater (voz e baixo), Bruno Paschoal (guitarra), Greg Vinha (guitarra), Luis Cardoso (bateria) e Victor Souza (percussão).

Produzido em um intervalo de quase dois anos, o registro que conta com produção assumida pelo músico Guilherme Chiappetta, parceiro do grupo desde o primeiro álbum de estúdio, mostra a busca do quinteto pela construção de um material cada vez mais complexo, soturno e alimentado de forma explícita pelos detalhes. Memórias de um passado ainda recente, confissões e delírios psicodélicos. Composições em que a poesia sorumbática do grupo dialoga diretamente com o ouvinte.

A letra cíclica em Sinais (“Sina, sina, sina, sina / Espero te encontrar”), um labirinto de guitarras e cores em Circulares, a poesia descomplicada que se espalha entre os ruídos de Para o Centro. São versos, melodias e estilhaços instrumentais que servem de estímulo para atrair a atenção do público, convidado a provar de cada momento, detalhe ou verso subjetivo que se espalha ao fundo do disco. Uma clara evolução quando observamos a ambientação tímida do antecessor Vigília.

Entre versos marcados pela saudade (“Solidão se põe / no fundo da janela”), temas existencialistas (“Eu era ele / Ou era eu mesmo / Desde o começo”) ou mesmo reflexões típicas de jovens adultos (“Conheço bem a madrugada / Ela é minha sina”), a nítida interferência de cada integrante da banda. São melodias encorpadas por arranjos minuciosos, sempre nostálgicos e empoeiradas. Ruídos e distorções climáticas dançam pelo tempo, incorporando diferentes aspectos do Dream Pop e até instantes em que o grupo flerta com a psicodelia.

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Artista: M O O N S
Gênero: Indie, Folk, Alternativa
Acesse: https://listentomoons.bandcamp.com/

 

Songs of Wood & Fire (2016, La Femme Qui Roule) é um disco que se revela em essência antes mesmo que a primeira música, a instrumental Hunting You, tenha início. Do título bucólico – “canções de madeira e fogo”, em português –, passando pelo trabalho do artista gráfico Jade Marra para a capa do álbum – um momento de afeto e proximidade de um casal –, cada fragmento da obra serve de indicativo para a poesia doce e arranjos sempre delicados de André Travassos na estreia como M O O N S.

Mais conhecido pelo trabalho com o temporariamente extinto grupo Câmera, coletivo responsável por registros como o ótimo Mountain Tops (2014), Travassos faz de cada uma das canções dentro do presente álbum um registro de pura intimidade, leveza e melancolia. Composições marcadas pela dor, saudade ou mesmo ensolarados sussurros românticos, como se o cantor e compositor mineiro fosse capaz de interpretar diferentes personagens e suas histórias ao longo da obra.

“Estávamos frente a frente, tentamos dizer ‘oi’ / Foram os minutos mais longos da minha vida / O silêncio se manteve, mesmo ensurdecedor / Todo o local parecia vazio”, canta na descritiva The Best Thoughts About You, faixa que detalha o reencontro de um casal de forma leve, como se Travassos convidasse o público a provar de diferentes histórias, tormentos e casos de amor. Uma poesia quase narrativa, completa pelo minimalismo dos instrumentos que se espalham ao fundo do álbum.

O dedilhado limpo e os arranjos de cordas em Golden Sun, no melhor estilo Mutual Benefit, guitarras e texturas acústicas em Good Luck Baby, o violão solitário que se espalha e cresce dentro da faixa título do disco, uma atmosfera típica dos trabalhos de Elliott Smith. São pouco mais de 40 minutos em que Travassos e um time de instrumentistas da cena mineira, entre eles Jennifer Souza e o produtor Leonardo Marques, integrantes da Transmissor, ocupam todos as brechas do trabalho.

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Artista: Sabotage
Gênero: Hip-Hop, Rap

 

Treze anos separam a morte de Mauro Mateus dos Santos, o Sabotage, do homônimo e recém-lançado álbum póstumo em homenagem ao rapper. Construído em um intervalo de mais de uma década, o sucessor do elogiado Rap É Compromisso! (2000) — 3º lugar na nossa lista dos 100 Melhores Discos Nacionais dos anos 2000 —, mostra o que teria acontecido se o artista, morto em janeiro de 2003, aos 29 anos de idade, ainda estivesse na ativa. Um time de produtores, músicos e velhos colaboradores que se reveza para garantir continuidade ao trabalho do paulistano.

Com direção musical assumida por Tejo Damasceno e Rica Amabis, do Instituto, e Daniel Ganjaman, parceiro de longa data do rapper, o registro de 11 faixas nasce como um resgate de diferentes projetos iniciados logo após o lançamento da trilha sonora de O Invasor (2002), filme de Beto Brant que conta com o próprio Sabotage no elenco. Trechos gravadas nos estúdios da gravadora YB ou mesmo esboços que acabaram encostados após o assassinato de rapper.

Durante o processo de produção e explícito refinamento do disco, um convite reservado apenas a velhos parceiros e artistas com quem o Sabotage já havia trabalhado em estúdio. “A dinâmica foi só trabalhar com quem trabalhava com ele, já que ele não está aqui para dar opinião. São pessoas das quais ele respeitava as qualidades musicais. Amigos ele tinha milhares, mas me refiro a gente que trabalhou com ele mesmo”, explicou Damasceno em entrevista à Rolling Stone.

Entre os colaboradores do álbum, nomes como Sandrão (Míssel), Negra Li (Canão foi Tão Bom), DJ Cia, responsável pela produção de três composições do disco (País da Fome: Homens Animais, Quem Viver Verá e Míssel) e Rappin’ Hood (Maloca é Maré) – todos integrantes do RZO, grupo apresentou Sabotage em meados dos anos 1990. Sobram ainda nomes Fernandinho Beat Box (Levada Segura), Dexter (Quem Viver Verá), a cantora Céu (O Gatilho), além de diversas faixas em que Damasceno e Amabis assumem de vez o manto do Instituto.

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Artista: Weyes Blood
Gênero: Chamber Pop, Indie, Folk
Acesse: https://weyesblood.bandcamp.com/

 

Natalie Mering passou por um lento processo de amadurecimento nos últimos cinco anos. Do lançamento do primeiro disco como Weyes Blood, o obscuro The Outside Room (2011), passando pela produção de obras como The Innocents (2014) e até o EP Cardamom Times (2015), cada trabalho apresentado pela cantora e compositora nova-iorquina parece aproximar o público de um novo universo de possibilidades e temas instrumentais, proposta que se reforça com a chegada do doloroso Front Row Seat to Earth (2016, Mexican Summer).

Movida pela solidão, medos e saudade, Mering faz de cada composição ao longo do registro um claro exercício de exposição do próprio sofrimento. “Você precisa de mim do jeito que eu preciso de você? / Vamos ser sinceros para uma mudança / Você precisa de alguém? / Você precisa do meu amor?”, questiona em Do You Need My Love, um atormentado delírio confessional que resume com naturalidade a dor que abastece grande parte das canções do trabalho.

Em Seven Words, sétima faixa do disco, confissões românticas e versos marcados pelo sofrimento do eu lírico dançam sem pressa no interior da canção. “Com o tempo, ambos estaremos livres dessa bola com correntes … Quando a poeira baixar / E você esquecer que eu estava aqui / Esperando / Pendurada”, canta enquanto uma delicada cortina instrumental desce e cobre toda a base da canção, reforçando a temática dolorosa que Mering usa para dialogar com o ouvinte.

Nos poucos instantes em que a poesia romântica do trabalho deixa de ser um objeto de destaque, a cantora se concentra na produção de faixas que dialogam com o presente. É o caso de Generation Why, música que a artista discute a artificialidade da vida digital e os excessos da geração Y – os Millennials. “Leve-me através das ondas de mudança / Eu sei o meu lugar / É uma coisa bonita / Y-O-L-O, por quê? / Y-O-L-O, por quê? / Y-O-L-O, por quê?”, entrega a letra da canção.

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Artista: Leonard Cohen
Gênero: Folk, Singer-Songwriter, Blues,
Acesse: https://www.leonardcohen.com/

 

A voz talhada pelo tempo, arranjos e batidas sempre contidas, por vezes minimalistas, reforçando a atmosfera soturna e o tom confessional que sustenta de cada fragmento poético. Em You Want It Darker (2016, Columbia), 14º álbum de estúdio do cantor e compositor canadense Leonard Cohen, referências religiosas, a relação com a morte, medos e reflexões existencialistas se espalham ao fundo do trabalho, resultando em um novo e bem-sucedido capítulo dentro da extensa discografia do veterano.

Estou pronto para morrer. Espero que não seja desconfortável”, disse Cohen em um recente artigo escrito pelo jornalista David Remnick para a revista The New Yorker. Em You Want It Darker, o diálogo com a morte se estende do primeiro ao último instante da obra. São versos maquiados pelo uso de metáforas e referências particulares, mas que acabam funcionando como um aceno melancólico, referência explícita na dolorosa Traveling Light – “Boa noite, minha estrela cadente / Outrora tão brilhante, minha estrela cadente”.

Íntimo da morte, porém, nunca pessimista, apenas sereno, o registro de apenas nove faixas segue exatamente de onde Cohen parou nos dois últimos álbuns de estúdio, Old Ideas (2012) e Popular Problems (2014). São versos declamados, sempre densos, como devaneios e pequenas interpretações sobre a própria vida. Um ato sorumbático, por vezes fúnebre, proposta que acaba aproximando o trabalho do mesmo universo de temas incorporados por David Bowie no derradeiro Blackstar (2016).

Em Treaty, segunda faixa do disco, versos que brincam com a interpretação do ouvinte. Referências, adaptações e símbolos ocultos que tanto fazem da composição uma triste confissão romântica, como um diálogo do eu lírico com Deus – “Eu gostaria que houvesse um tratado / Entre o seu amor e o meu”. O mesmo conceito religioso acaba se repetindo em outros instantes do disco, como na homônima canção de abertura do álbum, música marcada pelo explícito uso de citações bíblicas.

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