Category Archives: Resenhas

Disco: “Thought Rock Fish Scale”, Nap Eyes

Nap Eyes
Canadian/Indie/Alternative
https://napeyes.bandcamp.com/

 

A voz embriagada de Nigel Chapman anuncia: estamos de volta ao mesmo ambiente apresentado pelo Nap Eyes em Whine of the Mystic. Meses após o lançamento do primeiro registro de inéditas do grupo de Halifax, Canadá, versos melancólicos e arranjos tímidos de guitarra transportam o ouvinte para um característico universo de temas intimistas (e momentaneamente raivosos) apresentado pelo quarteto em 2015. Uma delicada reciclagem de ideias que costura cada uma das canções do recém-lançado Thought Rock Fish Scale (2016, Paradise of Bachelors).

Quando eu olho para mim mesmo / Eu quero saber se estou realmente aqui”, questiona Chapman na inaugural Mixer. Síntese de todo o restante da obra, a composição de versos mezzo declamados, mezzo cantados indica que os mesmos conflitos explorados no álbum anterior continuam a perturbar a mente do artista. Uma estrutura similar ao material apresentado em faixas como Delirium and Persecution Paranoia e Make Something, ambas do disco anterior, porém, entregue ao ouvinte de forma acessível.

Acompanhado pelos parceiros Seamus Dalton, Josh Salter e Brad “Bronson” Loughead, Chapman estabelece os limites de uma obra que parece dialogar instantaneamente com o ouvinte. São faixas que detalham confissões amorosas (Lion in Chains), mergulham em conflitos pessoais (Don’t Be Right) e atravessam diferentes cenários (Alaskan Shake) de forma a contribuir para o lirismo melancólico que se espalha pela obra. Um meio termo entre o Wilco da fase Being There (1996) e a recente fase do Destroyer, porém, despida de toda a sensualidade de Dan Bejar.

Em um explícito distanciamento das nuances agressivas de Whine of the Mystic e faixas como Dark Creedance e Delirium and Persecution Paranoia, Chapman e os parceiros de banda finalizam uma obra musicalmente coesa, por vezes restrita. São raras as canções que se distanciam da mesma base redundante de guitarras sóbrias e batidas contidas. Um curioso exercício que passeia pelo Alt. Country na inaugural Mixer, explora os arranjos alcoólicos da década de 1990 em Lion In Chains e brinca com os clássicos do Indie Rock em músicas como Roll It. Continue reading

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Disco: “Pool”, Porches

Porches
Indie/Alternative/Synthpop
http://porchesmusic.bandcamp.com/

 

Aaron Maine passou os últimos cinco anos envolvido em uma série de projetos da cena nova-iorquina. Trabalhos assinados em parceria com a namorada, Greta Kline, do Frankie Cosmos, ou mesmo diferentes registros que abastecem a discografia do Porches no Bandcamp. Nada que se compare ao material apresentado em Pool (2016). Primeiro trabalho do produtor lançado por um grande selo – Domino Records, casa de bandas como Arctic Monkeys e Franz Ferdinand -, o álbum de lírica melancólica assume uma explícita curva instrumental dentro do rico catálogo de obras produzidas pelo artista desde a estreia em 2011.

Catapultado pela fluidez pop e melodias descomplicadas de Be Apart, o presente registro rompe de maneira explícita com o som testado por Maine até o antecessor Slow Dance in the Cosmos, de 2013. Livre das guitarras, são as bases movidas por sintetizadores minimalistas que prendem a atenção do ouvinte. Uma coleção de melodias, vozes e batidas tímidas que resumem todo o potencial do trabalho durante a construção da inaugural (e levemente dançante) Underwater.

Em um ambiente tão íntimo de veteranos como Arthur Russell e Suicide, quanto do Majical Cloudz na dobradinha Impersonator (2013) e Are You Alone? (2015), Maine finaliza uma sequência de composições que se amarram dentro de um cenário essencialmente pessimista. Uma visão desconstruída do mesmo ambiente festivo que posiciona famílias e jovens norte-americanos à beira de uma piscina. Sorrisos falsos, versos amargos e tormentos intimistas que se afogam lentamente.

It gets so dark / Before the very powerful / Light comes down / On me”, canta Maine logo nos primeiros versos de Braid, segunda canção do disco e música que sintetiza de forma assertiva a temática sombria que invade o álbum lentamente. Salve a rápida “fuga” em Car, um declarado grito de amor que poderia ser encontrado em qualquer álbum de Ariel Pink ou do Future Islands, Pool em nenhum momento se distancia da mesma base iniciada em Underwater. Uma sequência de vozes e versos submersos que se amarram com sutileza, detalhando peças “irmãs” como Hour, Even The Shadow e Mood. Continue reading

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Disco: “We Are King”, KING

KING
R&B/Soul/Psychedelic
http://www.weareking.com/

 

Sintetizadores e batidas tímidas criam um delicado plano de fundo. O coro de vozes cresce lentamente, espalhando suspiros e vocais sobrepostos. Sentimentos se convertem em versos apaixonados e solitários de forma sempre contida, por vezes embriagada. Dentro desse ambiente de notável equilíbrio e precisa movimentação nasce o primeiro álbum de estúdio do KING, We Are King (2016, King Creative), trabalho orquestrado com acerto por Anita Bias e as irmãs Paris e Amber Strother, de Los Angeles, Califórnia.

Fruto de diferentes obras e conceitos que abasteceram o Soul/R&B dos anos 1970 e 1980, o álbum de sentimentos confessos pode até apontar para o passado, entretanto, mantém os dois pés bem firmes no presente. Extensão detalhada do material entregue há cinco anos em The Story EP (2011), o registro de 12 faixas – parte delas recicladas de outros trabalhos -, flutua em um universo de emanações cósmicas que vão da música negra ao Rock psicodélico dos anos 1960, transportando o trio californiano para um cenário de parcial ineditismo. Entre os artistas que influenciam o trabalho do grupo, nomes curiosos como Cocteau Twins, XTC e Ryuichi Sakamoto, além, claro, de gigantes da música negra, caso de Quincy Jones, Herbie Hancock e Prince.

Basta uma rápida passagem pela nova versão de Supernatural, quarta faixa do disco, para perceber a pluralidade de referências que alimentam o som do grupo. Originalmente lançada em 2011, a canção de versos apaixonados surge com uma nova roupagem, dançando com leveza por mais de seis minutos. São vozes brandas, palmas e o precioso uso de sintetizadores. Um curioso diálogo entre as melodias de Erykah Badu no clássico Baduizm (1997) e os mesmos delírios psicodélicos de nomes como Deerhunter e Ariel Pink – este último, presente em grande parte das playlists assinadas pelo trio no Spotify.

Minnie Riperton encontra Tame Impala na inaugural The Right, Washed Out e Prince dançam juntos na entusiasmada Oh, Please!, o jazz abraça a eletrônica em Love Song, composição que parece nascer do encontro entre Stereolab e Thundercat. São quase 60 minutos em que a educação musical de Paris Strother – produtora do disco e responsável pela gravação de grande parte dos instrumentos -, se projeta de forma cuidadosa, resultando em um trabalho que rompe com grande parte da atual cena norte-americana. Nada de batidas dançantes, fragmentos óbvios da EDM e versos pegajosos. A beleza de We Are King se concentra na lenta composição dos detalhes. Continue reading

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Disco: “Is the Is Are”, DIIV

DIIV
Indie Rock/Dream Pop/Alternative
https://www.facebook.com/diivnyc/

 

Ouvir Is the Is Are (2016, Captured Tracks) é como ser arrastado para dentro de um imenso turbilhão de emoções, ruídos e sentimentos confessos. Guitarras crescem e encolhem a todo o instante, sempre replicando diferentes conceitos instrumentais explorados nas décadas de 1980 e 1990. Uma colisão de fórmulas, referências e pontes atmosféricas que sustentam na voz abafada do líder Zachary Cole Smith a base para o nascimento de letras marcados por temas pessoais (Out of Mind), delírios (Take Your Time) e conflitos amorosos (Dopamine).

Musicalmente amplo, livre do pós-punk hermético produzido durante o lançamento de Oshin (2012), álbum de estreia do DIIV, Is the Is Are é uma obra que lentamente brinca com as possibilidades. Ruídos ásperos que abraçam o shoegaze em Incarnate Devil, solos de guitarra essencialmente melódicos em Mire (Grant’s Song), a voz doce, por vezes pegajosa, de Smith em Dopamine e Under the Sun. Pouco mais de 60 minutos de duração em que o grupo nova-iorquino arremessa o ouvinte para todas as direções.

Verdadeiro mosaico de cores cinzentas, cada faixa do álbum parece buscar conforto em diferentes cenários, épocas e tendências instrumentais. Se em instantes o DIIV soa como o R.E.M. nos primeiros álbuns de estúdio – vide as guitarras da inaugural Out of Mind ou a crescente Yr Not Far -, em poucos segundos um novo catálogo de ideias e sonoridades parecem revisitadas. The Cure em Healthy Moon, The Raplacements nas guitarras de Under The Sun, Slowdive e Ride nos ruídos hipnóticos de Mire (Grant’s Song). Uma delicada expansão do rico acervo apresentado pelo grupo em Oshin.

Ambientado em um universo próprio de Zachary Cole Smith, Is The Is Are lentamente mergulha em um cenário marcado pela desordem, consumo excessivo de drogas e confissões alucinadas do músico. “You’re the sun and I was your cloud / Burning out, running in place / Got so high I finally felt like myself”, canta o vocalista em Dopamine, uma canção que cruza amor e lisergia de forma intensa, quente, um estímulo para o nascimento de faixas como Valentine (“Stuck inside of me / In tragedy i’m complete”) e Blue Boredom (“Thief for a chance / Kiss for a catch”), esta última, uma parceria entre Smith e a ex-namorada, a cantora Sky Ferreira. Continue reading

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Disco: “ANTI”, Rihanna

Rihanna
Pop/R&B/Hip-Hop
http://www.rihannanow.com/

 

O refrão explosivo de Bitch Better Have My Money, a melodia pop de FourFiveSeconds – parceria com Paul McCartney e Kanye West -, a base dançante de Only Girl (In The World) ou a pegajosa letra de We Found Love. Nada disso faz parte do arsenal que abastece ANTI (2016, Roc Nation / Westbury Road). De fato, é muito mais fácil montar uma lista com todas as canções, parcerias e temas que foram abandonadas por Rihanna nos últimos meses do que levantar todos os elementos que pareciam garantidos dentro do oitavo registro de inéditas da cantora – vide a série de colaborações previamente estabelecidas com Sia, Calvin Harris, Kiesza e Charli XCX.

ANTI, como o próprio título indica, é uma obra de ruptura e oposição. Da imagem de capa, um trabalho assinado pelo artista gráfico Roy Nachum, passando pela parcial ausência de hits e versos comerciais, além da fuga de temas descomplicados, típicos da EDM, Rihanna estabelece um trabalho em que busca perverter a própria imagem – mesmo que temporariamente. Nada parece acessível. Todas canções se movimentam de forma particular, como se a cantora (e o ouvinte) trocassem segredos em um cenário essencialmente restrito, intimista e sombrio.

Logo nos instantes iniciais, a batida seca, levemente distorcida de Consideration, um trampolim para um dos versos mais poderosos da obra: “Me deixe cobrir sua merda com glitter / Posso transformá-la em ouro”. Longe do catálogo de temas óbvios e bases acessíveis que abasteceram os ótimos Good Girl Gone Bad (2007) e Loud (2010), Rihanna e os parceiros de produção – entre eles, Timbaland, DJ Mustard, Hit-Boy e Travis Scott – criam uma obra tão frágil quanto complexa. Um turbilhão sentimental que arrasta o ouvinte para dentro de músicas como Desperado e a Work, esta última, parceria com o rapper Drake.

Principal componente do trabalho, a voz limpa da cantora parece apontar a direção melancólica seguida até a chegada da derradeira Close To You. Livre do som robótico e vozes carregadas de auto-tune que tanto marcam os antecessores Talk That Talk (2011) e Unapologetic (2012), Rihanna ocupa cada espaço da obra com extrema delicadeza. Ainda que faltem “hits”, sobram peças sensíveis como a psicodélica Same Ol’ Mistakes, uma adaptação de New Person, Same Old Mistakes do grupo australiano Tame Impala, ou mesmo a acústica Never Ending. Nada que se compare ao evidente cuidado da cantora em Higher. Continue reading

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Disco: “Hymns”, Bloc Party

Bloc Party
British/Alternative/Rock
http://blocparty.com/

 

Há tempos o Bloc Party deixou de ser um projeto colaborativo para se transformar em uma extensão da carreira solo de Kele Okereke. Um meio termo entre o som incorporado pela banda nos ótimos Silent Alarm (2005) e A Weekend in the City (2007), mas que também passeia pela dobradinha autoral do vocalista em The Boxer (2010) e Trick (2014). Guitarras climáticas, versos cíclicos e temas eletrônicos que se movimentam de forma curiosa dentro do recém-lançado Hymns (2016, Vagrant / BMG / Infectious), quinto registro de inéditas do grupo britânico.

Entregue ao público dez anos após o lançamento do primeiro álbum do Bloc Party, Hymns inicialmente se projeta como uma obra de limites bem definidos. Longe dos experimentos que marcam as canções apresentadas em Intimacy (2008), ou mesmo da aceleração que movimenta o antecessor Four (2012), cada uma das 11 faixas do presente disco refletem o permanente controle da banda, hoje reformulada, com Justin Harris e Louise Bartle ocupando o lugar dos ex-integrantes Gordon Moakes e Matt Tong.

Ainda que carregue parte da essência eletrônica dos trabalhos de Okereke, vide a inaugural e dançante The Love Within, Hymns talvez seja o registro que melhor explora a essência do Bloc Party em tempos. São composições marcadas pela sensibilidade (Only He Can Heal Me) e conflitos pessoais de Okereke (So Real). Difícil ouvir a extensa Different Drugs e não ser arrastado pelo turbilhão emocional que sustenta a faixa. “Toda vez que eu volto para casa / Alguma coisa está errada, falta algo / Você está girando para longe de mim”, canta o vocalista naquela que é uma das melhores faixas já compostas pela banda.

Ao mesmo tempo em que encanta pela sutileza de determinadas músicas, não são poucos os momentos em que o Bloc Party tropeça em uma sequência de canções descartáveis. É o caso da balada Into The Earth e da “roqueira” The Good News. Enquanto a primeira apela para o mesmo sentimentalismo barato de grande parte dos grupos de pop-rock dos anos 1990 e 2000, com a segunda, Okereke e os parceiros de banda brincam de Arctic Monkeys, flertando com o mesmo som explorado pelo grupo inglês no álbum AM, de 2013. Continue reading

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Disco: “Assume Que Gosta”, Matheus Brant

Matheus Brant
Nacional/Indie/Alternative
http://matheusbrant.com.br/

 

Assume que gosta de mim assim / Assim como gosta de um pagodinho / Me beija / Me deita, me cheira, me olha assim / Assim como se fosse até o fim me leva”. É impossível ouvir as canções de Assume Que Gosta (2016, Independente) e não sentir vontade de dançar. Segundo registro de inéditas do cantor e compositor mineiro Matheus Brant, o trabalho que conta com produção assinada por Fábio Pinczowski e Mauro Motoki – também integrantes da Ludov -, cresce, dança e provoca, como um convite para o ambiente de versos sedutores, batidas e arranjos quentes que delicadamente cercam o ouvinte.

Inspirado pelo clima do Carnaval, Brant, um dos criadores do popular bloco mineiro Me Beija que Eu Sou Pagodeiro, assume um caminho completamente distinto em relação ao som promovido no álbum anterior, A Semana (2011). Trata-se de um registro de versos e fórmulas descomplicadas. Uma coleção de faixas marcadas pelo romantismo (Me Namorar), instantes de confissões dramáticas (Abandonado) e versos que nascem a partir de diálogos típicos qualquer casal (Do Prazer).

Círculo sem parar no giro do pedal / Pela perna é ela a tração tropical / Minha cabeça girando seguindo a dela / A bicicleta me leva pra ela afinal”, canta Brant na delicada #Magrela, um afoxé repleto de metáforas que resume com naturalidade a lírica versátil do disco. Do Prazer, música em parceria com a paraense Luê, é outra que explora a mesma temática. “Ah, meu amor, você me deu muita vontade de fazer / Será que você fala fala e não me pega pra valer”, duela o casal no interior da faixa. Uma típica canção de novela, grudenta e radiofônica na medida exata.

Apreciador confesso da obra dos Novos Baianos, Brant, que em 2011 regravou o clássico Mistério do Planeta, aos poucos estabeleces pequenas pontes criativas para o trabalho do coletivo baiano. Basta uma rápida passagem pela enérgica Me Namorar, composição que brinca com a mesma sonoridade montada por Pepeu Gomes no clássico Acabou Chorare (1972). Um assertivo encontro entre o samba e o rock que se repete na dobradinha Carnaval e Sereia, esta última, parceria com a cantora mineira Juliana Perdigão. Continue reading

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Disco: “New View”, Eleanor Friedberger

Eleanor Friedberger
Indie/Alternative/Female Vocalists
http://www.eleanorfriedberger.com/

A cada novo trabalho em carreira solo, Eleanor Friedberger reforça o distanciamento em relação ao som produzido com o irmão Matthew Friedberger, do The Fiery Furnaces. Livre dos experimentos, curvas bruscas e temas psicodélicos que abasteceram obras como Gallowsbird’s Bark (2003) e Blueberry Boat (2004), são os arranjos e versos delicados, quase sempre confessionais, que caracterizam a curta discografia particular da cantora.

Com o recém-lançadp New View (2016, Frenchkiss Records) não poderia ser diferente. Terceiro registro em estúdio de Friedberger, o álbum de 11 composições inéditas parece seguir exatamente de onde a cantora parou há três anos, durante o lançamento do bem-sucedido Personal Record (2013). Trata-se de uma obra que detalha o cotidiano da artista de forma bem-humorada (He Didn’t Mention His Mother), explora conflitos pessoais (Never Is a Long Time) e lentamente mergulha em elementos sentimentais íntimos de qualquer ouvinte (A Long Walk).

A diferença em relação aos dois últimos trabalhos da cantora está na forma como Friedberger parece manter o completo domínio sobre a obra. Seja na montagem dos versos ou na estrutura musical tecida para o álbum, New View, diferente dos antecessores Last Summer e Personal Record, nasce como uma registro em que cada composição serve de estímulo para a canção seguinte. Uma lenta sobreposição de ideias e temas instrumentais que acompanha o ouvinte até os últimos instantes da obra.

Musicalmente, New View se projeta como o trabalho em que Friedberger mais investe em novas possibilidades, arranjos e instrumentos, escapando do som “contido” que marca dos primeiros discos. São pianos elétricos no interior da psicodélica Cathy With the Curly Hair, guitarras carregadas de efeito em Two Versions of Tomorrow e até arranjos que flertam com elementos típicos da música country, marca de composições como Open Season e Your Word. Continue reading

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Disco: “Moth”, Chairlift

Chairlift
Synthpop/Pop/R&B
http://chairlifted.com/

 

O pop se comporta de forma inusitada a cada novo álbum do Chairlift. Se em 2008, com o lançamento de Does You Inspire You, Caroline Polachek, Patrick Wimberly e o ex-integrante Aaron Pfenning seguiam a trilha de outros nomes do indie pop norte-americano, com a chegada de Something, em 2012, uma clara evolução tomou conta do trabalho assinado pela banda. Livre do som “inofensivo” do primeiro registro em estúdio, faixas como I Belong In Your Arms, Cool as a Fire e Amanaemonesia pareciam indicar um mundo de novas possibilidades – mesmo ancoradas em temas vindos da década de 1980.

Em Moth (2016, Columbia), terceiro álbum de inéditas da dupla nova-iorquina, cada faixa parece crescer dentro de um instável ambiente criativo. Um vasto catálogo de ideias, letras, sons e referências que passeiam por diferentes campos da música pop, ampliando o terreno explorado pela dupla em Something. Da abertura, com Look Up, ao fechamento, em No Such Thing as Illusion, fragmentos que utilizam dos sentimentos de Polachek como um instrumento para a formação de versos sempre confessionais e sensíveis.

Me desculpe por chorar em público deste jeito / Eu estou apaixonada por você / Me desculpe por fazer uma cena no trem / Eu estou apaixonada por você, eu estou apaixonada por você”, canta Polachek na melancólica Crying In Public, uma síntese da lírica conturbada que abastece grande parte do registro. Obra de exposições intimistas, Moth amplia a forte carga emocional reforçada pela dupla em trechos do álbum anterior, transformando composições como Polymorphing e Unfinished Business em músicas que dialogam diretamente com o ouvinte.

Co-autora de No Angel, uma das canções que abastecem o último álbum de Beyoncé, Polachek transporta para o interior de Moth uma série de referências que incorporam a música negra de diferentes épocas e tendências. São passagens bem-sucedidas pelo R&B/Hip-Hop dos anos 1980, manipulações vocais e batidas que distanciam a dupla do synthpop aplicado em Something. Um nostálgico jogo de possibilidades que visita a obra de Michael Jackson com Ch-Ching, passa pela música disco em Moth to the Flame e ainda dialoga com o presente cenário na comercial Show U Off, faixa que poderia facilmente ser encontrada nos últimos discos de Janelle Monáe. Continue reading

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Disco: “The Catastrophist”, Tortoise

Tortoise
Experimental/Alternative/Electronic
http://www.trts.com/

São mais de duas décadas de carreira e um bem-sucedido catálogo de obras que passeia pelo jazz (T.N.T.), pós-rock (Millions Now Living Will Never Die) e música eletrônica (Beacons of Ancestorship) de forma sempre provocativa, curiosa. Um constante ziguezaguear de referências que faz de The Catastrophist (2016, Thrill Jockey), primeiro álbum do Tortoise depois de um intervalo de sete anos, a base para um possível novo universo de descobertas instrumentais.

Trabalho de “reencontro”, o disco de 11 composições inéditas, sétimo na discografia da banda, parece pensado como um resumo torto de todo o vasto acervo de canções produzidas nos últimos 20 anos. Uma propositada ausência de linearidade que faz com que o ouvinte se pergunte em diversos momentos: “O que está acontecendo? O que o Tortoise está tentando me mostrar?”.

Salve a linha de sintetizadores que amarra músicas como Gopher Island, Gesceap e a própria faixa-título, durante toda a audição, The Catastrophist reforça a sensação de que o grupo – hoje formado por Dan Bitney, Doug McCombs, Jeff Parker, John Herndon e John McEntire – aponta para todas as direções. Em faixas como a climática Shake Hands With Danger, um acerto, resgatando parte da essência musical da banda. Já outras como Rock On, a permanente sensação de desconforto, como se o grupo emulasse o trabalho de outros artistas.

Mesmo que toda a discografia da banda seja planejada em cima de ondulações instrumentais propositadamente instáveis, em The Catastrophist o grupo parece simplesmente perdido, sem saber exatamente que direção seguir. Isoladas, cada canção parece seguir um caminho próprio. Não existem amarras ou estímulos que orientem com segurança o ouvinte até os instantes finais do disco. Todos os elementos se perdem em diversas curvas bruscas que o quinteto assume ao longo do caminho. Continue reading

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