Category Archives: Resenhas

Disco: “Poison Season”, Destroyer

Destroyer
Canadian/Indie Rock/Alternative
https://www.facebook.com/pages/Destroyer

Poison Season é um verdadeiro espetáculo. Atos marcados, instantes de euforia, recolhimento e explosão. Quatro anos após o lançamento do jazzístico Kaputt (2011), obra que apresentou o trabalho de Dan Bejar a uma nova parcela de ouvintes, o artista canadense encontra no décimo registro de inéditas do Destroyer um espaço para explorar conceitos adormecidos desde a estreia com We’ll Build Them a Golden Bridge, em 1996. Um acervo de faixas marcadas por referências literárias, personagens históricas e sentimentos que abraçam a mesma sonoridade arrojada e interpretação cênica dos últimos trabalhos do grupo.

Questionado sobre a estrutura e conceito que rege o novo álbum, Bejar respondeu ao The New York Times: “Eu passei a ouvir mais discos de jazz“. De fato, o Jazz ecoa em todas as canções do novo disco. Do time de instrumentistas que acompanham o cantor – Ted Bois (piano), Nicolas Bragg (guitarra), David Carswell, (guitarra), JP Carter (trompete), John Collins (baixo), Joseph Shabason (saxofone) e Josh Wells (bateria) -, o uso de arranjos sofisticados e faixas que se completam, Bejar passeia pelo disco como um verdadeiro crooner, resgatando a essência de nomes como Frank Sinatra – personagem reverenciado pelo artista em diversas entrevistas recentes.

Como explícito durante toda a construção do disco, Sinatra está longe de parecer a única referência de Poison Season. Dos musicais da Broadway – como Oliver – aos trabalhos da brasileira Clarice Lispector, de clássicos do Cinema Noir ao diálogo com a música dos anos 1970, Bejar e os parceiros de banda conseguiram criar um verdadeiro mosaico de temas e essências musicais sem necessariamente perder a própria identidade musical. Uma obra que mantém a mesma graciosidade explorada pela banda em Kaputt e, ao mesmo tempo, resgata uma série de elementos lançados no enérgico Destroyer’s Rubies, de 2006.

O que mais surpreende nisso tudo? A capacidade de Bejar em costurar todos esses elementos e ainda se manter íntimo da música pop. Dream Lover, Girl In a Sling, Midnight Meet The Rain e Times Square, poucas vezes antes o Destroyer presenteou o público com um catálogo de faixas tão acessíveis quanto em Poison Season. Mesmo nos instantes mais complexos e naturalmente intimistas da obra, caso da climática Archer On The Beach ou Bangkok, faixa que parece extraída de algum filme de investigação policial dos anos 1960, Bejar encaixa uma série de versos e arranjos capazes de fisgar o ouvinte. Continue reading

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Disco: “Beauty Behind the Madness”, The Weeknd

The Weeknd
R&B/Soul/Pop
http://www.theweeknd.com/

Seja por pressão da gravadora ou dificuldade de adaptação, uma coisa é certa, perto da sequência de obras apresentadas por Abel Tesfaye em Trilogy (2012) – House of Balloons, Thursday e Echoes of Silence -, Kiss Land (2013) é um trabalho de qualidade inferior. Boas composições e letras fortes aparecem aqui e ali – caso de Live For, Wonderlust ou da própria faixa-título -, nada que se compare ao catálogo de versos e arranjos provocantes dos primeiros registros, elementos responsáveis por catapultar a obra do The Weeknd e sustentar músicas como Wicked Games, The Morning ou mesmo a poderosa The Fall.

Com a chegada de Beauty Behind the Madness (2015, XO / Republic), quinto registro de inéditas e segundo álbum lançado por uma grande gravador, uma grata surpresa. Ao mesmo tempo em Tesfaye que mantém firme a sonoridade explorada desde a estreia, em 2011, difícil não encarar o novo registro como um típico exemplar da música pop. Da estrutura descomplicada ao time de convidados – Lana Del Rey, Ed Sheeran e Kanye West -, o canadense conseguiu transformar o novo álbum em uma verdadeira metralhadora de hits.

Sem necessariamente buscar apoio em um tema ou conceito específico – marca do erótico Kiss Land -, Tesfaye encontra no presente disco um espaço para resolver os próprios conflitos. Faixas marcadas pelo completo desespero, relacionamentos fracassados, desilusões amorosas e boa dose de descrença, como se toda a base do registro fosse orquestrada pela vida amorosa e diferentes tormentos do cantor. “Quem é você para julgar, quem é você para julgar?”, questiona o Tesfaye no refrão de The Hills, uma espécie de resposta e precioso indicativo do aspecto confessional que orienta o trabalho.

De nada adiantaria uma obra tão expositiva se a base instrumental do trabalho não fosse capaz de transmitir o mesmo aspecto emocional dos versos. Não por acaso, grande parte das composições são recheadas de pianos entristecidos, guitarras íntimas do R&B dos anos 1980 e samples resgatados de diferentes campos da música negra. Exemplo do atento diálogo de Tesfaye com o passado está em The Hills. Enquanto a voz triste do canadense sufoca em meio a conflitos amorosos, ao fundo, Can’t Stop Loving You, música gravada em 1976 por Soul Dog serve de estímulo para o crescimento da faixa. Continue reading

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Disco: “M3LL155X”, FKA Twigs

FKA Twigs
R&B/Electronic/Trip-Hop
http://fkatwi.gs/

Pouco mais de dois anos, esse foi o tempo necessário para que FKA Twigs se transformasse na nova queridinha da música pop. Destaque em capas revista, publicações especializadas e até novo “ícone da moda”, a cantora, compositora e produtora britânica parece longe de alcançar uma possível zona de conforto, reformulando a própria imagem a cada trabalho em estúdio. Prova disso está no lançamento de M3LL155X (2015, Young Turks), mais recente registro de inéditas e álbum em que somos apresentados ao novo “personagem” criado pela artista: Melissa.

Alter ego feminista da cantora, a personagem parece ser a forma encontrada por Twigs para discutir diferentes aspectos (e tormentos) do universo feminino. Um catálogo curto, cinco composições que, mesmo orquestradas por arranjos e batidas íntimas do R&B/Pop, mantém firme o discurso e a sobriedade da artista britânica, tão provocativa e comercial quanto no último registro de inéditas, LP1 (2014). Canções marcadas por abusos (I’m Your Doll), sexualidade (In Time) e abandono (Glass & Patron).

Talvez efeito da “máscara” utilizada pela cantora, M3LL155X curiosamente se articula como o trabalho mais intimista, confessional e acessível da curta trajetória de FKA Twigs. A cada nova faixa, uma sequência de sussurros amargurados, versos costurados pelo romantismo e a profunda melancolia da compositora. “Olhe nos meus olhos, nos meus olhos / Completa, estou aqui / Estou aqui, estou aqui / Olhe nos meus olhos / E diga que você também está aqui”, grita a desesperada personagem em I’m Your Doll, música que sintetiza todo o sofrimento explorado no decorrer da obra.

Não são apenas os versos que refletem a completa transformação de Twigs. Com assinatura do produtor norte-americano BOOTS – mesmo responsável pelo último disco da cantora Beyoncé -, M3LL155X é o trabalho em que o som incorporado de forma experimental pela artista britânica é delicadamente derrubado. Do encaixe límpido das vozes, passando pelo uso descomplicados das batidas e bases, diversos são os momentos da obra em que Twigs parece entregue ao grande público. Continue reading

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Disco: “Depression Cherry “, Beach House

Beach House
Dream Pop/Alternative/Indie
http://www.beachhousebaltimore.com/

Victoria Legrand e o parceiro Alex Scally passaram os últimos dez anos garimpando novidades dentro do mesmo cercado criativo que apresentou o Beach House. Da sonoridade obscura explorada em Devotion (2008), passando pelo ápice melódico em Teen Dream (2010) e o flerte com o pop em Bloom (2012), vozes, versos e arranjos partilham de um mesmo catálogo de referências ancorados no Dream Pop dos anos 1980/1990. Um instável zona de conforto, sempre trêmula e prestes a se romper no interior de Depression Cherry (2015, Sub Pop).

Quinto registro de inéditas da banda de Baltimore, Maryland, o álbum de apenas nove faixas levanta a questão: para onde vamos agora? Fruto da explícita repetição de ideias que abastece a obra do casal, cada faixa do novo disco incorpora e adapta o mesmo catálogo de elementos explorados desde a maturidade alcançada no começo da presente década. Uma rica tapeçaria de sintetizadores, guitarras maquiadas pela distorção, bateria eletrônica e a densa voz de Legrand, da abertura ao encerramento do disco, encarada como um poderoso instrumento.

Isso faz de Depression Cherry é um trabalho “repetitivo”? Muito pelo contrário. Ainda que o casal jogue com o mesmo arsenal de temas explorados desde a estreia, em 2006, difícil encarar o presente álbum como uma obra redundante, penosa. Prova disso está nas guitarras e experimentos que crescem no interior de Sparks. Ao mesmo tempo em que a essência da banda é preservada, nítida é a passagem criada por Scally para o começo dos anos 1990, transformando a canção em um fragmento íntimo de clássicos como Heaven or Las Vegas (1990) do Cocteau Twins ou Loveless do My Bloody Valentine (1991).

A própria base lançada por Legrand nos sintetizadores transporta o ouvinte para um cenário marcado pelo ineditismo. Enquanto a primeira metade do trabalho confirma a busca do casal por um som de natureza (ainda mais) pop – vide Space Song e 10:37 -, para o eixo final do disco, novos ritmos e ambientações nostálgicas alteram os rumos da obra. Tanto Wildflower como Bluebird investem no recolhimento dos vocais e arranjos, posicionando o registro em um meio termo entre o Soft Rock de artistas como The Carpenters e as confissões melancólicas do Mazzy Star. Continue reading

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Disco: “Paraleloplasmos”, Lê Almeida

Lê Almeida
Indie Rock/Lo-Fi/Alternative
https://lealmeida.bandcamp.com/

Versos descompromissados, melodias que dialogam com a década de 1990 e ruídos, doses colossais de ruídos. Cinco anos após o último grande trabalho em estúdio, Mono Maçã (2010), o carioca Lê Almeida mantém firme o domínio das guitarras e vozes, transformando o segundo registro em carreira solo, Paraleloplasmos (2015, Transfusão Noise Records), em uma obra marcada por ensaios psicodélicos e distorções que explodem a cada nova faixa.

Na trilha do antecessor Pré Ambulatório EP, de 2012, Almeida garante a construção de uma obra que mesmo densa e repleta de canções extensas, mantém firme o caráter dinâmico até o último acorde. Um acervo curto, doze composições inéditas, metade do número de músicas que abastecem o álbum de 2010, porém, um trabalho com o dobro do tempo de duração. Longe da efemeridade testada desde a estreia com REVI EP (2009), o guitarrista encontra em canções como Fuck The New School e Câncer dos Trópicos um espaço aberto para o experimento.

Na primeira faixa, um ato extenso, mais de 11 minutos de duração, tempo suficiente para que as guitarras de Almeida passeiem pela obra de Dinosaur Jr., Sonic Youth e até nomes recentes, caso de St. Vincent, sem necessariamente perder a própria identidade. Ruídos, curvas bruscas e versos entristecidos – “Eu juro eu tentei / Não machucar” – que mantém firme o caráter jovial do trabalho. Já em Câncer dos Trópicos, uma faixa afundada em delírios instrumentais. Distorções e encaixes lisérgicos que sustentam a porção mais criativa, talvez inédita, do guitarrista.

No restante da obra, um jogo de faixas cruas, estimuladas pelas guitarras de Almeida. Logo na abertura do disco, um eficiente resumo de todo o registro na curta duração de Desampar. Pouco mais de um minuto em que arranjos raivosos e a voz característica do músico carioca apontam a direção para o restante da obra. Versos e melodias rápidas, pro vezes nonsenses, como se Almeida, talvez inspirado pelas imagens de capa do próprios trabalho, colasse fragmentos extraídos de diferentes poemas em um mesmo bloco de ruídos. Continue reading

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Disco: “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa…”, Emicida

Emicida
Nacional/Hip-Hop/Rap
https://www.facebook.com/EmicidaOficial

Nunca antes Emicida pareceu tão esperançoso e ainda sóbrio quanto nas canções de Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa… (2015). Segundo trabalho em estúdio do paulistano, o registro de melodias descomplicadas e rimas “fáceis” é, como indicado pelo próprio rapper, um verdadeiro “Cavalo de Tróia”. Uma obra de sonoridade acessível, convidativa aos mais variados públicos, porém, ainda forte, agressiva, dona do mesmo discurso conciso que define a obra do artista desde a estreia com a mixtape Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe… (2009).

De forte apelo emocional, vide a abertura com a melancólica Mãe – “Uma vida de mal me quer, não vi fé / Profundo ver o peso do mundo nas costa de uma mulher” -, o presente disco, assim como o antecessor O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2013), nasce como um trabalho em que Emicida ultrapassa os limites da periferia de São Paulo para dialogar com os mais variados grupos de marginalizados. Mulheres, homossexuais, trabalhadores, dependentes químicos e, principalmente, os negros.

Cês diz que nosso pau é grande / Espera até ver nosso ódio”, aponta o rapper na pesada Boa Esperança, décima canção do disco e um eficiente resumo de toda a obra. Análise amarga sobre a situação dos negros no Brasil, a música, uma parceira com J. Ghetto, estreita a relação entre o período de escravidão e o presente cenário nacional. Fragmentos marcados por perseguições (“Por mais que você corra, irmão / Pra sua guerra vão nem se lixar”), desrespeito (“Médico salva? Não! / Por quê? Cor de ladrão”) e morte (“Meu sangue na mão dos radical cristão”).

Ainda assim, Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa… é uma obra marcada pelo forte aspecto “positivo” das rimas. Bom exemplo disso está nos versos doces, pueris, que definem a curtinha Amoras. “Entre amoras e a pequenina eu digo: As pretinhas são o melhor que há”, declama Emicida na metafórica composição escrita para a filha. Quase uma continuação da adorável Sol de Giz de Cera, faixa dividida com Tulipa Ruiz no último disco, a música de versos curtos e sorridentes serve de complemento ao coro de vozes apresentado em Casa – “O céu é meu pai / A terra, mamãe / E o mundo inteiro é tipo a minha casa”, possivelmente a faixa mais acessível (e comercial) do presente disco. Continue reading

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Disco: “Thiago França”, Passo Torto & Ná Ozzetti

Passo Torto & Ná Ozzetti
Nacional/Experimental/Rock
http://www.passotorto.com.br/

A banda paulistana Passo Torto parece maior a cada novo álbum de estúdio. Guitarras, linhas de baixo, vozes e versos cada vez mais sujos, imponentes e invasivos. No caso de Thiago França (2015, YB), terceiro registro de inéditas do coletivo, um projeto que cresce não apenas em sensações, novos conceitos e cruzamentos de ritmos, mas também em relação ao número de integrantes. Além do time formado por Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Romulo Fróes e Marcelo Cabral, a interferência direta da voz (e sentimentos) da “convidada” Ná Ozzetti.

Dona da voz que invade e sustenta grande parte do trabalho, Ozzetti está longe de parecer uma estranha quando próxima dos demais integrantes da banda. De fato, boa parte dos conceitos e temas explorados no presente disco sobrevivem como uma espécie de sequência em relação ao material apresentado no álbum Embalar (2014), último trabalho solo da cantora e registro que conta com a presença de Kiko Dinucci – além da parceira Juçara Marçal – em determinadas composições.

A relação da cantora com o extinto Grupo Rumo – projeto em que atuou como vocalista desde o meio da década de 1970 -, também é outro importante fator para o novo trabalho ao lado da Passo Torto. Quem acompanha o projeto da Passo Torto desde a estreia em 2011 sabe do confesso interesse de Fróes, Dinucci e demais integrantes pelo acervo de obras que definiram a Vanguarda Paulista no começo dos anos 1980. Com a chegada de Ozzetti, o nascimento de um trabalho que não apenas presta homenagem ao período, como estreita ainda mais a relação da Passo Torto com o movimento.

Ambientado no mesmo universo urbano que apresentou o grupo há quatro anos, Thiago França – o nome do disco é uma brincadeira com o saxofonista de mesmo nome, parceiro do grupo e integrante de projetos como Metá Metá e Sambanzo – é a obra em que o coletivo paulistano mais expande o próprio domínio lírico e musical. Um exercício criativo de “experimentar o experimental” sem necessariamente desconstruir a base criada nos últimos registros de estúdio. Continue reading

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Disco: “Abyss”, Chelsea Wolfe

Chelsea Wolfe
Experimental/Gothic/Alternative Rock
http://www.chelseawolfe.net/

Clima denso, doses exageradas de distorção, gritos, uivos e desespero. Bastam os minutos iniciais de Carrion Flowers para perceber que o som explorado por Chelsea Wolfe em Abyss (2015, Sargent House) é ainda mais perturbador do que qualquer outro registro entregue pela musicista. Uma obra controlada por pesadelos, guitarras sujas e a sempre voz melancólica da cantora, ainda íntima do mesmo catálogo de referências líricas que a apresentaram no final dos anos 2000, porém, dona de um material cada vez mais adulto, desafiador.

Longe de parecer uma extensão do último álbum da cantora, o também sombrio Pain Is Beauty (2013), cada faixa do presente disco soa como uma precisa desconstrução da curta trajetória de Wolfe. Nos versos, o mesmo caráter intimista e confessional originalmente exposto em The Grime and the Glow (2010). Entretanto, em se tratando dos arranjos e vozes, uma verdadeira explosão. Sentimentos e ruídos que arrastam o ouvinte até o último grito do trabalho.

Agressivo, Abyss potencializa uma série de conceitos e referências antes restritas dentro do trabalho de Wolfe. Da abertura com Carrion Flowers, passando por faixas como Iron Moon, Dragged Out e Survive, nítido é o interesse da cantora em brincar com diferentes aspectos do Rock Alternativo dos anos 1990 – principalmente Nirvana e PJ Harvey – sem necessariamente abandonar os tradicionais toques de música eletrônica incorporados no disco anterior.

Parte expressiva desse acerto está na escolha de John Congleton como produtor do disco. Mais conhecido pelo trabalho com a banda The Paper Chase, Congleton que já trabalhou com diferentes artistas como Swans, Nelly Furtado, St. Vincent e Sigur Rós assume a responsabilidade por manter a coerência dentro do álbum, amarrando todas as pontas soltas deixadas por Wolfe. Como resultado, o nascimento de uma obra tão íntima dos arranjos sombrios do Sun O))), quanto da eletrônica provocativa de Fever Ray. Continue reading

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Disco: “St. Catherine”, Ducktails

Ducktails
Indie/Lo-Fi/Psychedelic
https://www.facebook.com/Ducktails/

É difícil estabelecer com exatidão onde começa o trabalho de Matt Mondanile no Real Estate e tem início a relação com o Ducktails. Vozes letárgicas, captações Lo-Fi e toques precisos de música psicodélica, elementos partilhados com naturalidade entre o coletivo de New Jersey e o projeto solo do guitarrista norte-americano. Uma suposta divisão cada vez mais imperceptível, talvez desconstruída com a chegada de St. Catherine (2015, Domino).

Quinto registro autoral de Mondanile, o trabalho de 11 composições inéditas revela a busca do músico por um som cada vez menos experimental, distante do conceito sujo testado nos iniciais Ducktails e Landscapes, ambos de 2009. Arranjos, versos e até mesmo sentimentos que dialogam com o mesmo universo de harmonias doces inauguradas pelo Real Estate no álbum Days, de 2011. Um tema reforçado com a entrega Atlas, em 2014 e delicadamente reciclado dentro do universo torto que ocupa a mente do cantor no novo disco.

De natureza intimista, sereno, St. Catherine oculta nas guitarras a ponte para o álbum mais sofredor de toda a carreira de Mondanile. Ainda que o registro cresça livre de exageros, confortando o ouvinte em um cenário de fim de tarde, faixa após faixa, a melancolia corrói a essência do disco. Basta a instrumental canção de abertura, The Disney Afternoon, para perceber como a atmosfera ensolarada dos últimos trabalhos parece momentaneamente esquecida.

Dos versos que inauguram a obra, em Headbanging In The Mirror, passando por Into The Sky, Church e Reprise, tudo gira em torno da infância, adolescência e maturidade do artista. Canções que refletem a alma de um indivíduo adormentado, sempre solitário. Versos levemente embriagados, como se a sonoridade lisérgica que cresce ao fundo de cada canção lentamente fosse capaz de interferir na lírica sóbria do disco anterior, The Flower Lane (2013). Continue reading

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Disco: “Pangea I Palace II”, Lemoskine

Lemoskine
Nacional/Indie/Alternative
http://www.lemoskine.com/

Mais conhecido pelo trabalho ao lado da Banda Mais Bonita da Cidade, além de integrante do grupos como Naked Girls & Aeroplanes e ex-vocalista da extinta Poléxia, o cantor e produtor Rodrigo Lemos – “um artista” como resume no próprio site -, parece ter encontrado no Lemoskine um projeto marcado pela criação. Um espaço criativo pensado para armazenar e reformular grande parte das composições dissolvidas dentro dos diferentes projetos assinados pelo músico.

A cada novo disco, uma espécie de recomeço. Longe da ambientação serena, quase “Folk”, explorada no disco anterior, Toda a Casa Crua, de 2012, Lemos encontra no recém-lançado Pangea I Palace II (2015, Independente) um trabalho em que parece brincar com as possibilidades. Uma obra de dois lados, “parte delas contempla um passado longínquo… Outra parcela trata de forma mais dura a condição humana”, disse em entrevista ao site da Billboard.

Sem necessariamente se valer de uma divisão forçada, como dois caminhos propositadamente distintos, Lemos encontra na constante sobreposição e mescla de arranjos a base para uma obra de possibilidades (quase) ilimitadas. Um verdadeiro acervo de composições existencialistas e urbanas, peças tão íntimas do personagem contestador interpretado pelo músico (Nesse Lugar), como atentas ao presente cenário nacional (Plantado em Fel).

Em um explícito sentido de renovação, Lemos ultrapassa o preciso cercado de arranjos e temas testados até o último disco para provar de novas essências musicais. Ainda que o reggae seja explorado com maior nitidez e destaque, vide o manuseio das guitarras e bases densas que movem o single Pedra Furada, durante toda a obra, diferentes colagens e adaptações instrumentais jogam com a interpretação do ouvinte. Continue reading

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