Category Archives: Resenhas

Disco: “Eclipse”, Twin Shadow

Twin Shadow
Alternative/Electronic/Electropop
http://www.twinshadow.net/

 

Poucos artistas parecem entender tão bem o som explorado na década de 1980 quanto George Lewis Jr. Aos comandos do Twin Shadow, o produtor de origem dominicana e residente em Nova York, fez do projeto de versos confessionais um passeio voluntário por diferentes campos da música lançada na época; marca explícita no pós-punk-eletrônico-e-sujo incorporado em Forget, registro de estreia apresentado em 2010, e, posteriormente, na imposição pegajosa/melancólica exaltada no synthpop de Confess, registro entregue ao público dois anos mais tarde.

Com a chegada de Eclipse (2015), terceiro e mais recente álbum solo do produtor, uma nova visita aos conceitos e temas incorporados há mais de três décadas. Diferente dos últimos registros, Lewis Jr. encontra no presente trabalho um mecanismo de transição. Longe das maquinações pop-chiclete ou mesmo ambientações densas típicas da referencial década, cada peça do trabalho encaminha o som de Twin Shadow para um novo cenário, proposta que sobrevive (e ainda tropeça) nas mesmas referências “brega” que apontaram a direção da música pós-1985.

Preferência indicado logo nos primeiros instantes do álbum, assim que os pianos e voz forte ocupam toda a extensão de Flatliners, em Eclipse, a busca de Lewis Jr. não se concentra apenas no uso de sintetizadores e temas de natureza pulsantes da New Wave, mas na melancolia (quase caricata) que sustenta o R&B há mais de duas décadas. Não por acaso o cantor parece flertar a todo o instante com a obra de veteranos como Lionel Richie, Michael Jackson e Prince, este último, referência explicita em faixas de forte apelo sentimental, caso dos singles To The Top e Turn Me Up.

A mesma aproximação com a música negra parece reforçar o inevitável florescimento de pequenos duetos e parcerias ao longo da obra, algo raro nos últimos trabalhos de Twin Shadow. Enquanto Old Love / New Love amplia a parceria de Lewis Jr. com o produtor D’Angelo Lacy – colaborador na faixa Lost You, lançada em 2014 pelo duo canadense Zeds Dead -, a delicada Alone cresce como um dos momentos mais comoventes do registro. Inicialmente inaugurada pela voz amarga do cantor, a canção que mais parece resgatada do álbum Confess logo cria espaço para a convidada Lily Elise, revelando um dos pontos de maior acerto do disco. Continue reading

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4 erros e 3 acertos do Lollapalooza Brasil 2015

Problemas no som, distância enorme entre os palcos e preços abusivos. Estes foram alguns dos problemas enfrentados pelo público do Lollapalooza Brasil 2015.

Durante os dois dias do festival, realizado entre 28 e 29 de março no Autódromo de Interlagos, a sucessão de problemas técnicos pareceu maior que os próprios acertos, tornando a quarta edição do evento no País a menos assertiva.

Mas será que foi tudo tão ruim? Em uma análise do som, atendimento ao público, estrutura e, claro, diferentes shows, listamos alguns dos erros e acertos que marcaram a edição 2015 do festival.

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ERRO: preços altíssimos.

Já pensou pagar R$ 10 em um copo de cerveja Skol ou um pastel de carne (frio)? Que tal R$ 25 em um hambúrguer? E R$ 5 em um copo d’água de 300ml? Estes foram alguns dos preços exorbitantes do Lollapalooza Brasil 2015.

O resultado? Vendas baixas. Durante os dois dias em que estive no festival, diversos vendedores relataram o baixíssimo número de vendas de comidas e bebidas. No domingo (29), último dia do evento, era possível renegociar preços, comprando cervejas, pasteis e espetinhos a um valor mais “em conta”.

O baixo interesse do público deixou a circulação pela tenda do Chef Stage tranquila durante o festival. Para atrair o público, diversas tabelas de preços foram remarcadas no domingo. “Tomei uma cerveja, mas vou dividir o preço da outra por dois copos d’água. Está muito caro comer e beber aqui”, disse o estudante de administração Rafael Borges, 20 anos.

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ACERTO: Estrutura.

Decidiu esperar entre uma atração e outra para passear pelo Autódromo de Interlagos? No Lollapalooza 2015 não faltaram (boas) atrações – grande parte delas patrocinadas. Montanha-russa, área para compras, performances do espetáculo Fuerza Bruta, vários pontos de alimentação, atendimento médico, atrações musicais e diferentes atividades mantiveram o público ocupado.

Em busca de um espaço para descansar, longe do sol? Alguns passos entre o palco Skol e Ônix e o público teria acesso a diversos pontos de sombra que serviram de abrigo contra o calor do primeiro dia e chuva forte do segundo. Gosta de selfie? Que tal espaços projetados especialmente para tirar uma foto com o palco e público atrás de você?

Mesmo a (longa) fila para entrar no Autódromo se transformou em uma experiência agradável, com apresentações de diferentes artistas locais. A área em torno do palco Axe ainda poderia ter sido melhor aproveitada, mas já é um bom começo para o festival. Agora, que tal uma estrutura de transporte interno para a edição 2016, algo que facilite o acesso entre os palcos mais distantes?

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loll

ERRO: “Posso ajudar?”

Onde retiro meu ingresso?“, “Moço, você sabe onde é a entrada?“, “Onde fica o ‘palco de eletrônica?‘”, “Eu queria comprar o ingresso, você sabe onde fica a bilheteria?“.

Estas foram algumas das perguntas que ajudei a responder nos dois dias de Lollapalooza. O motivo? Não foram poucas as vezes em que me deparei com a equipe “treinada” com o colete do “Posso Ajudar?” se mostrando incapaz de atender ao público. Seja na entrada do Autódromo, como dentro do festival, perguntas simples sobre localização dos palcos, postos de saúde ou bilheterias não eram respondidas de forma satisfatória.

A distribuição de mapas do festival foi outro problema. “Onde você conseguiu o mapa?” foi uma das perguntas que mais precisei responder. Nos dois dias de Lollapalooza encontrei apenas dois pontos de distruibuição, um na placa em frente ao palco Skol, outro entre o Palco Axe e o Chef Stage.

Por falar em Chef Stage: não seria mais fácil listar os ingredientes na placa/cardápio e não apenas o nome do prato?

Para a edição de 2016, profissionais (realmente) treinados em estações específicas do Metrô/CPTM – como a de Pinheiros – facilitariam e muito a circulação dos usuários.

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ERRO: Headliners e nomes “comerciais”.

Quando se está fora da organização de um festival, é fácil apontar e dizer: “faltou banda ‘X’” ou “poderiam ter convidado artista ‘Y’“. Entretanto, não há como negar a falta de novidade e nomes de fato atrativos para esta edição do Lollapalooza.

Onde estão gigantes como Foo Fighters, Pearl Jam, Arcade Fire e The Killers – artistas que movimentaram as últimas edições do festival?

Em turnê, nomes como Sia, Lana del Rey e Charli XCX poderiam facilmente suprir a lacuna “pop” e atrair o mesmo público jovem de Lorde na edição 2014. Jack White como atração principal? Parece pouco, bem pouco.

“A edição foi um sucesso”, dizem os organizadores. Sério mesmo? Não houve “empurra-empurra”, shows lotados e dificuldade para acessar os palcos por um motivo simples: não havia público. Salvo pequenas instalações, lojas e atividades paralelas, a área do Autódromo de Interlagos ainda era a mesma do ano anterior, a mesma disposição. A diferença? Estava tranquilo, esvaziamento dos caixas, filas curtas, mesmo em atrações e shows ditos como “disputados”.

Onde você gostaria de “investir” seu dinheiro, nas edições de 2012, 2013 e 2014 ou na de 2015?

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billy

ACERTO: Figurinha repetida não completa álbum.

Quem deixou passar a edição 2015 do Lollapalooza Brasil pelo simples fato de “eu já vi a maioria destas bandas ao vivo”, cometeu um erro grave.

Mesmo sem surpresas – artistas como Foster The People e Major Lazer já se apresentaram em outras edições do festival -, a sequência de shows “repetidos”, logo se transformou em um espaço de redenção e consagração para artistas de diferentes gêneros e cenas musicais.

De nomes de peso da EDM, como Skrillex e Calvin Harris, a gigantes do (novo) rock alternativo, caso de Interpol, a reprise em solo brasileiro para estes artistas pareceu muito mais significativa do que em performances ainda recentes.

É o caso de Billy Corgan e seu The Smashing Pumpkins. Depois de uma apresentação penosa no (extinto) Planeta Terra Festival, em 2010, o músico deixou de lado os extensos solos de guitarra e show anti-climático para investir em um espetáculo dinâmico, dosando entre composições antigas e recentes.

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ACERTO: Shows Nacionais.

Nada de “tapa-buraco” ou “aquecimento”, quem chegou no começo da tarde para o Lollapalooza 2015 foi surpreendido pela excelente performance de artistas brasileiros.

No sábado, a apresentação do trio Banda do Mar fez muita gente vir mais cedo ao evento. “Combinei com meus amigos de chegar mais cedo só para ver a banda tocar”, disse a jovem Michelle de Queiroz, acompanhada de um grupo de amigas para assistir ao show comandado pelo casal Marcelo Camelo e Mallu Magalhães.

A goiana Boogarins foi outra que chamou a atenção do público, conquistando até elogios da cantora estadunidense Annie Erin Clark, do St. Vincent.

Mesmo o veterano Marcelo D2, convidado de última hora para ocupar a lacuna dos estrangeiros SBTRKT e Kodaline, não decepcionou. A mesma sucessão de acertos foi repetida no domingo, efeito da performance coesa de artistas novatos, como O Terno e Far From Alaska, ou mesmo da experiente Pitty, de volta ao festival, dessa vez, longo do som acústico do Agridoce.

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ERRO: Som.

Não importa o preço água, distância a ser percorrida entre os palcos ou qualquer outro perrengue típico de um festival se o som e cuidado técnico das apresentações compensar. Não foi o que aconteceu nos dois dias do Lollapalooza.

No primeiro dia, Marcelo Camelo demonstrou irritação com incontáveis falhas durante o disputado show da Banda do Mar. No Palco Axe, a cantora norte-americana St. Vincent ficou com a voz baixíssima até a segunda metade do show; isso sem contar com a falha logo na primeira música, Bring Me Your Loves, com o som “audível” apenas nas caixas do lado direito do palco.

Nem o headliner Jack White foi poupado. Além da voz baixa, quem estava na parte de trás do palco Skol sofreu com o atraso na saída do som. Diversas músicas foram apresentadas com eco.

No domingo, os mesmos erros. Mesmo inspirado, a voz do cantor Paul Banks estava baixíssima durante as primeiras músicas tocadas pelo Interpol. O chiado foi outro problema da apresentação, erro seguido até o show do Foster The People , no começo da noite.

Apenas performances eletrônicas não sofreram com o problema, vide o cuidado nas apresentações de produtores como Skrillex e Calvin Harris.

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Texto originalmente publicado no Brasil Post.

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Disco: “Levon Vincent”, Levon Vincent

Levon Vincent
Electronic/Techno/Deep House
http://uzurirecordings.com/

 

Claustrofóbico e, ao mesmo tempo, libertador. Assim é o trabalho desenvolvido no homônimo álbum de estreia de Levon Vincent. Em um diálogo preciso com a eletrônica de Berlin, onde estabeleceu residência nos últimos anos, o artista original da cidade de Nova York encontra nos experimentos da Deep House e Minimal Techno um jogo de pequenas ambientações tão acolhedoras, quanto capazes de provocar a mente do ouvinte. Uma manobra sutil, entalhada em cima de loops reciclados, porém, montados de forma a hipnotizar o ouvinte, lentamente seduzido pelas colagens do produtor.

Feito para ser ouvido sem pressa, o registro que conta com quase duas horas de duração, parece ocultar segredos de qualquer ouvinte afobado. Salve exceções, caso de For Mona, My Beloved Cat. Rest in Peace e Her Light Goes Through Everything, grande parte das canções espalhadas pelo álbum ultrapassam os seis minutos de duração, arrastando o espectador para um cenário de maquinações robóticas, bases minimalistas e beats tão flexíveis, que parece impossível fixar o trabalho de Vincent dentro de um único gênero ou cena específica.

De maneira geral, o autointitulado registro pode ser dividido em dois grupos de canções. Mesmo livre de uma separação temática calculada específica, faixas como Junkies on Hermann Street, H Woman is an Angel e Her Light Goes Through Everything utilizam da continua manipulação de ruídos como um alicerce para o campo experimental da obra. Sintetizadores sobrepostos, bases ecoadas e articulações que tropeçam de forma involuntária no mesmo Techno Dub de Andy Stott – principalmente no álbum Faith in Strangers (2014) -, além das bases densas de Darren J. Cunningham nos dois últimos discos como Actress – R.I.P. (2012) e Ghettoville (2014).

Entretanto, a beleza no trabalho de Levon se esconde nos instantes de maior “limpidez” da obra. Logo na inicial The Beginning, um resumo funcional de toda a projeção minimalista que rege parte do disco. Batidas limpas, sutis; sintetizadores aplicados de forma isolada, sem interferir no alicerce matemático das batidas; sobreposição lenta dos arranjos, como se cada elemento encaixado encontrasse um espaço para “respirar”. A mesma aplicação desse resultado se faz visível em peças como Phantom Power e Black Arm w/Wolf, músicas que crescem sem pressa, como se Vincent cercasse lentamente o ouvinte, imediatamente preso, impossibilitado de possíveis fugas. Continue reading

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Disco: “Goon”, Tobias Jesso Jr.

Tobias Jesso Jr.
Indie/Alternative/Singer-Songwriter
http://www.tobiasjessojr.com/

 

Emoção“, “tristeza“, “sofrimento“. Palavras que invadem a mente do ouvinte tão logo a enxurrada sentimental de Goon (2015, True Panther) tem início em Can’t Stop Thinking About You. Harmonias tímidas de piano, uso controlado, quase imperceptível, de temas percussivos; vocal limpo, esculpido pela angústia do cantor; conceitos, personagens e pequenas confissões redundantes, há décadas desgastadas em diferentes campos da música. Os mesmos versos tristes de amor e separação, o mesmo coração partido, porém, retratado de forma honesta e estranhamente acolhedora por Tobias Jesso Jr.

Mary Ann, eu perdi você em um sonho / Em seguida, o sonho se tornou realidade“. Os versos que inauguram o primeiro registro solo do músico canadense apontam a direção triste que define o restante da obra. São quase 50 minutos em que tormentos pessoais, personagens (femininos) e incontáveis delírios alcoólicos brincam com a percepção amargurada de Jesso Jr, em poucos minutos, uma representação compatível de qualquer ouvinte sofredor. Ainda que vocais “sorridentes” tentem sobreviver ao longo do trabalho, é a tristeza que sustenta e ocupa as brechas de cada canção.

Em um ambiente soturno, o mesmo de Randy Newman no começo da década de 1970, talvez Paul McCartney nos primeiros anos pós-Beatles, Jesso Jr. caminha pelo passado de maneira inevitável. Não se trata de um disco nostálgico, tampouco referencial ou plágio, mas uma obra que dialoga, absorve e partilha dos mesmos sentimentos de outros gigantes da melancolia. É fácil encontrar Harry Nilsson, tropeçar na angústia de Tom Waits e até mesmo artistas recentes; românticos como Cass McCombs e Kurt Ville ou, em menor escala, Phosphorescent e Justin Vernon.

Por vezes sufocado, talvez oculto sob a imensa colcha de retalhos musicais que servem de estrutura para o álbum, Jesso Jr. encontra na “simplicidade” um mecanismo de imposição da própria identidade. Hollywood, Without You, Can We Still Be Friends ou Just a Dream; não importa o pronto do disco em que você estaciona: dos arranjos tristes aos versos confessionais, possíveis bloqueios são logo derrubados. Em Goon, o diálogo com o ouvinte é imediato, natural. Uma armadilha nítida, esquiva da desgastada soma entre “amor e dor”, porém, hipnótica pelo efeito de confissões como “Eu não consigo parar de pensar em você” ou “Porque você não pode me amar?“. Continue reading

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Disco: “Um Chopp e um Sundae”, Rafael Castro

Rafael Castro
Indie/Alternative/Nacional
http://rafaelcastro.com.br/

 

Os primeiros anos de Rafael Castro como músico profissional foram marcados pelos excessos. Não falo sobre exageros lisérgicos ou noites perfumadas pelo cheiro de sexo, mas pelo excesso de composições. Em apenas três anos, entre 2006 e 2009, o cantor e compositor paulistano entregou ao público um acervo de oito registros oficiais. Obras gravadas de forma amadora, dentro de estúdios caseiros e, na maioria dos casos, desprovidas de um mínimo cuidado estético ou refinamento lírico/instrumental. Um amadorismo convincente, porém, sufocado pela quantidade de canções costuradas por temas sempre aleatórios, demasiado instáveis, talvez desorganizados.

A surpresa veio com o lançamento de Lembra?, em 2012. Embora anárquico, amarrado pela mesma pluralidade de histórias particulares do músico – capaz de colidir temas como religiosidade, vida boêmia e romantismo em um mesmo cenário – o uso de uma máscara “brega-moderna” trouxe homogeneidade ao trabalho do cantor, agora maduro e linear. Dentro de um mesmo cercado temático, porém, longe de solucionar uma obra conceitual, o paulistano encontrou o ponto de equilíbrio para a própria esquizofrenia, condensando um catálogo de Hits que pareciam ter escapado do romantismo nacional nos anos 1970 atee alcançar o presente.

De forma nostálgica, em Um Chopp e um Sundae (2015, Independente), mais recente trabalho de Castro, o passado ainda funciona como a principal fonte inspiração do compositor, porém, agora dentro de uma nova década: os anos 1980. Além do confesso grupo de artistas românticos que há tempos inspiram o trabalho do artista – caso de Roberto Carlos e Odair José -, durante todo o registro, nomes como Ritchie (Preocupado), Blitz (Vou Parar de Beber) e Léo Jaime (Aquela) surgem com naturalidade entre as canções. Referências propositais (ou involuntárias) enquadradas com propriedade dentro do jogo cômico do paulistano – tão honesto, quanto sarcástico.

Em um explícito senso de transformação, musicalmente Um Chopp e um Sundae se comportas como o trabalho mais desafiador do artista. Nada de guitarras ruidosas, sujas, típicas do último registro. Mesmo as bases acústicas, como os violões “hippie” dos primeiros trabalhos do cantor foram “abandonados”. Da abertura com a pop Ciúme, até o encerramento em Vou Parar de Beber, são os sintetizadores, efeitos eletrônicos e toda uma carga de referências empoeiradas de 1980 que ditam as regras da obra. Uma espécie de “adaptação” das mesmas melodias e arranjos lançadas pelo Cidadão Instigado em faixas como a pegajosa (e hoje clássica) Contando Estrelas. Continue reading

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Disco: “Future Brown”, Future Brown

Future Brown
Electronic/Experimental/Hip-Hop
http://futurebrown.com/

 

Uma sonoridade ampla em referências, porém, concisa. Esta talvez seja a melhor interpretação sobre o conceito que rege o homônimo álbum de estreia do Future Brown. Coletivo formado pelo produtor J-Cush – responsável pelo selo Lil City Trax -, Asma Maroof e Daniel Pineda – da dupla Nguzunguzu – e, também, pela musicista Fatima Al Qadiri, o projeto é um mosaico de ideias tão vasto, instável e experimental que, curiosamente, encontra na própria flexibilidade e pluralidade de ideias a base para um alinhamento coeso.

Da colaboração entre Maroof e Pineda – como Nguzunguzu -, é montado todo o esqueleto da obra. Um alicerce de encaixes minimalistas, fruto da utilização de batidas secas, típicas do Grime e UK Garage, além costuras eletrônicas que flertam (sem pudor) com a música negra do final dos anos 1980. Do trabalho (recente) de Al Qadiri em Asiatisch, de 2014, nascem as bases delicadas e toda a ambientação movida por sintetizadores etéreos, estrutura reforçada pelo colaborador J-Cush, possivelmente, o principal responsável pelo convite e distribuição do time de artistas que ocupam o restante da obra.

Com estrutura típica de mixtape, o registro se esquiva da apropriação de um único gênero ou fórmula. Trata-se de uma coleção de fragmentos pinçados de diferentes décadas, cenas e experimentos. Um passeio que começa pelos ensaios climáticos da Ambient Music, ainda nos anos 1970, flerta com o Lado B do Synthpop/Eletrônica na década seguinte, até mergulhar no Hip-Hop, R&B, IDM e toda uma variedade de essências que detalharam os últimos anos da década de 1990. Ao final, uma amarra complexa, moderna e íntima de cada colaborador – seja ele parte do coletivo, ou músico convidado.

Ora detalhado com suavidade, ora intenso, como uma extensão dos temas dançantes do Nguzunguzu, Future Brown é um registro que utiliza da própria esquizofrenia como uma ferramenta de sedução e constante diálogo com o ouvinte. Na primeira metade do disco, uma escadaria marcada por pequenas subidas e quedas rítmicas. Ferramenta ativa para o reforça no diálogo do quarteto com a parceira de longa data Tink, logo na inaugural Room 302 e, ainda, base para as rimas lançadas por nomes como Sicko Mobb, Shawanna e Timberlee, esta última, responsável pelo acerto no dancehall de No Apology. Continue reading

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Disco: “I Love You, Honeybear”, Father John Misty

Father John Misty
Indie/Folk/Alternative
http://www.fatherjohnmisty.com/

Não existe espaço para o amor no mundo da música. Exagero? Faça o teste: quantos discos clássicos ou álbuns recentes, de nítida exaltação ao amor, você consegue listar? Projetos radiantes, marcados pelo mesmo sentimento de plenitude que domina um indivíduo apaixonado. Pronto. Agora, pense apenas em discos marcados pela dor. Álbuns inspirados pela separação, mágoas e relacionamentos fracassados. Não vá muito longe: apenas discos lançados nos últimos meses, há poucas semanas ou do acervo “proibido” que você visitou há poucas horas. Notou alguma diferença entre as listas?

Contrário ao ensinamento de filmes e séries românticas, em se tratando da música, a dor convence, marca e até “canta” mais alto do que o amor. O que explica essa (sádica) preferência? Um elemento bastante simples: a honestidade. De Adele a Bob Dylan, Sharon Van Etten a Lionel Richie, não existem segredos e relatos intimistas que permaneçam ocultos ao final de um relacionamento. Traições, brigas ou antigos sussurros românticos: tudo acaba exposto.

Joshua Tillman parece entender bem isso. Ao assumir o papel de Father John Misty – “personagem” e projeto autoral criado logo após o rompimento com o Fleet Foxes, onde atuou até o lançamento de Helplessness Blues (2011) -, o músico não poupa na exposição da própria intimidade. Mesmo fazendo uso de um pseudônimo, protegido em manto de sarcasmo, canções sobre sobre sexo, uso de drogas ou relatos de sedução barata refletem apenas a imagem do cantor. Temas retratados com humor e honestidade, componentes também fundamentais para a interpretação de Tillman sobre o amor e a vida conjugal em I Love You, Honeybear (2015, Sub Pop).

Em uma explícita curva conceitual, dentro até da própria carreira, Tillman assina um trabalho muito maior do que a previsível seleção de ” contos” imaginada desde último álbum do músico, o debut Fear Fun (2012). Mesmo sob o título de Father John Misty, cada verso deriva de fragmentos pinçados do cotidiano do cantor. Uma obra ainda irônica e carregada humor – vide o relato em I Went to the Store One Day ou o anti-hino de Bored in the USA -, mas ao mesmo tempo sensível, centrada no convívio, amor e conflitos ao lado da esposa do cantor, a diretora Emma Elizabeth Tillman. Continue reading

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Disco: “Trovões a Me Atingir”, Jair Naves

Jair Naves
Indie/Alternative/Brazilian
http://www.jairnaves.com.br/

Descrença, solidão, medo e morte; temas corriqueiros dentro do acervo poético de Jair Naves enquanto vocalista da extinta Ludovic, porém, um catálogo de experiências cada vez menos significativas no universo autoral que define a carreira solo do cantor. Se em 2006, quando apresentou o derradeiro Idioma Morto, Naves gritava a plenos pulmões, exaltando sentimentos e toda sua raiva em relação ao mês de janeiro – “o pior dos meses” -, curioso perceber no mesmo mês, data escolhida para o lançamento do segundo disco solo do músico, Trovões a Me Atingir (2015, Independente), uma completa oposição desse resultado.

Da capa iluminada aos arranjos suavizados, dos versos marcados pela esperança ao refrão vívido da faixa-título – “meu corpo volta a ter pulsação” -, difícil ignorar a transformação que define a presente obra do paulistano. Ainda que a melancolia tome conta de boa parte do trabalho, marca explícita nos instantes finais e respiros breves do registro, seria um erro não observar o conceito “sorridente” que sustenta a atual fase de Naves. As angústias e trovões – como indicado no título da obra -, ainda atingem o compositor, por todos os lados, entretanto o nítido senso de superação parece maior, raro quando voltamos os ouvidos para o contexto macambúzio do ainda recente E Você Se Sente Numa Cela Escura… (2012).

Diferente de outros registros individuais, ou mesmo da postura melancólica assumida desde a estreia com Servil (2004), quando atuava como vocalista/líder da Ludovic, durante todo o percurso, Naves se concentra na exaltação ao amor, crença e aspectos positivos da vida adulta. Doses amargas de sobriedade ainda são evidentes, contudo, ao buscar apoio em versos como “Minha solidão tem fim para mim, isso basta” e “Desejo assim eu nunca, nunca vi“, logo no começo do álbum, a direção assumida pelo artista passa a ser outra. Não seria um erro interpretar o novo trabalho de Naves como a obra mais esperançosa e feliz do cantor.

Tamanha alteração – lírica e principalmente instrumental – reforça um natural aspecto de renovação (ou ineditismo) quando comparado ao curto acervo do paulistano. Se em 2012 parecia fácil encaixar o primeiro registro solo de Naves em uma estrutura próxima ao trabalho de Joni Mitchell, The Walkmen e The Smiths, hoje, o senso de identidade e reforço criativo preenche toda a obra do músico. Ao lado de Renato Ribeiro (violão e guitarra), Thiago Babalu (bateria), Felipe Faraco (teclados) e Rafael Findans (baixo), Naves brinca com as possibilidades, conquistando um território musicalmente amplo, passagem livre para a interferência de convidados como Beto Mejía (Móveis Coloniais de Acaju), Camila Zamith (Sexy Fi) e Guizado. Continue reading

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Disco: “Viet Cong”, Viet Cong

Viet Cong
Post-Punk/Art Rock/Indie Rock
http://vietcong.bandcamp.com/

Vozes parcialmente ocultas pela ambientação caseira das gravações; guitarras sujas, talvez extraídas de algum registro esquecido do pós-punk nova-iorquino. No interior das canções, o aproveitamento “matemático” das palavras, como se a sobreposição cacofônica dos versos servisse de estímulo para a tsunami de distorções que chega em ondas, corroendo a mente do ouvinte ao longo do registro. Descrição de alguma obra (clássica) do Swans, Suicide ou mesmo Sonic Youth no início de 1980? Não, apenas a estrutura caótica que alimenta o primeiro álbum de estúdio da banda canadense Viet Cong.

Nascido da separação do Women, em 2012, de onde vieram Matt Flegel (vocal/guitarra) e Mike Wallace (baterista), a banda completa por Soctt Munro (guitarra) e Daniel Christiansen (baixo) ecoa como natural surpresa mesmo para aqueles que acompanharam o trabalho do extinto coletivo de Calgary. Acomodado em um território (musical) amplo, tão íntimo da presente cena norte-americana como do rock sujo do final dos anos 1970, o quarteto brinca com as possibilidades em cada peça do autointitulado debut, transformando arranjos tão autorais em criações íntimas de gigantes do Art Rock.

Da estrutura lançada pelo grupo em “Cassette” EP, de 2014, todo um novo universo parece adaptado no decorrer do presente álbum. Se há um ano a fórmula “guitarra+baixo+bateria” parecia trabalhada em uma métrica simples, crua, como um passeio rápido pela cena punk de 1977, basta um mergulho na base “avant-garde” de Newspapper Spoons, faixa de abertura do disco, para perceber a ruptura e completa exposição de maturidade do quarteto canadense. Não apenas os instrumentos assumem um enquadramento reformulado, “adulto”, como vocais, versos e fórmulas instrumentais refletem maior refinamento.

Dentro desse jogo de pequenas adaptações e novos direcionamentos estéticos, Viet Cong (o disco) logo revela dois caminhos bem definidos. O primeiro se concentra no natural experimento da banda, uma possível continuação do mesmo ambiente desbravado por Flegel e Wallace nos anos finais do Women. Dos ruídos drone que imperam em March Of Progress ao detalhismo rústico da própria faixa de abertura, tudo flui como uma interpretação particular da obra de veteranos como This Heat, The Pop Group e outros nomes (quase) esquecidos do pós-punk inglês. Referências (ou adaptações) que em nada ocultam o caráter autoral do grupo. Continue reading

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Disco: “Natalie Prass”, Natalie Prass

Natalie Prass
Indie/Alt. Country/Chamber Pop
http://natalieprassmusic.com/

Do momento em que tem início My Baby Don’t Understand Me, até o movimento final de It Is You, a sensação de fragilidade que preenche a obra de Natalie Prass é clara, perturbadora e ainda capaz de acolher o ouvinte. Protagonista da própria obra, a cantora e compositora estadunidense transforma o autointitulado primeiro registro de estúdio em um mundo aberto para confissões amarguradas e lamentos tão íntimos, que até parecem moldados para o ouvinte.

Ativa em diferentes núcleos da cena norte-americana, Prass atravessou a última década em meio a parcerias com notáveis da produção alternativa, caso de Jenny Lewis e Matthew E. White, posteriormente fixando residência na cidade de Nashville – o epicentro da música country. Com naturalidade, todo esse catálogo de “referências” se faz visível em cada ato do recente trabalho da cantora, tão próxima dos primeiros registros da “ex-Rilo Kiley” – principalmente no debut Rabbit Fur Coat (2006) -, como do recente trabalho de White – Big Inner (2012) -, parceiro desde a adolescência e produtor do álbum ao lado de Trey Pollard.

De natureza melancólica, como um sussurro alcoólico em uma noite de abandono, cada uma das nove composições do disco borbulham os sentimentos mais dolorosos (e confessionais) de Prass. Recortes essencialmente sensíveis, como os de My Baby Don’t Understand Me (“Nosso amor é como um longo adeus“) ou mesmo raivosos, caso de Your Fool (“Todas as promessas que eu fiz / E você me abandonou“), em que a cantora imediatamente conversa com gigantes da música Country – talvez Dolly Parton e Dusty Springfield -, além de artistas recentes do mesmo cenário, vide a herança explícita de Neko Case e Gilian Welch durante todo o trabalho.

Mais do que uma peça referencial, centrada no diálogo com diferentes fases (e nomes) do cancioneiro norte-americano, a homônima obra de Prass aos poucos sustenta o próprio cenário conceitual. Longe da redundância de bases acústicas e versos penosos – arrastados em excesso -, durante toda a obra os produtores White e Pollard encaixam arranjos de cordas bem resolvidos, estruturas melódicas de composição minimalista e acordes suavizados que se relacionam de forma inteligente com a voz compacta da cantora. Continue reading

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