Category Archives: Resenhas

Disco: “IAN”, Ian Ramil

Ian Ramil
Indie/Alternative/Experimental
www.ianramil.com

Por: Cleber Facchi

Ian Ramil

Imagine um cabo de aço esticado de um canto a outro de um cômodo. De um lado dessa linha reta, no chão, está tudo o que há de mais excêntrico e desafiador em relação aos padrões “comerciais” da música popular. Ruídos, incertezas e experimentos a serem aproveitados. No outro lado, o oposto: versos fáceis, melodias pegajosas e uma vastidão (quase) infinita de possibilidades que há décadas sustentam as faces da música pop. Sob o olhar atento do público e no meio dessa divisória está IAN (2014, Escápula), registro de estreia de Ian Ramil e uma obra que usa dos pés firmes para manter o equilíbrio ou perdê-lo de vez.

Filho do cantor/escritor Vitor Ramil, sobrinho da dupla Kleiton e Kledir e parceiro de longa data dos “garotos” da Apanhador Só, o jovem Ian está longe de desfilar pelo disco como um completo desconhecido. Mais do que um cartão de visitas – como o resgate das já conhecidas Rota e Nescafé parece anunciar -, IAN é uma obra de fechamento. Trata-se de um conjunto amarrado de todas as ideias, versos, sons e experiências conquistadas ao longo dos anos pelo artista. Um exercício que flui com jovialidade por conta do fluxo dinâmico das músicas, mas fixa maturidade em cada azulejo sombrio do álbum.

Ao mesmo tempo em que brinca com a própria herança – dos pais, tios ou amigos -, Ramil soluciona identidade ao justamente fragmentar a própria estética em diferentes rumos. Marcado do princípio ao fim pela divisão das experiências – o pop e o experimental, o acessível e o hermético -, IAN é um trabalho que usa dos pequenos contrastes com acerto e parcimônia. Ainda que o equilíbrio seja a chave para entender a funcionalidade do álbum, é ao descer (ou cair) da suposta linha divisória e escolher uma direção específica que o músico encontra movimento aos elementos que completam o trabalho.

Em se tratando do lado mais complexo da obra, Ramil segue a linha anunciada em Zero e um, faixa apresentada pelo cantor ainda em 2013. São acordes inexatos, vocais (cantados e versados) que mudam de direção sem ordem aparente, além de versos que brincam com a figura do próprio cantor/personagem. Uma mudança brusca em relação ao que o “rock americano” de Hamburger, o lado romântico de Suvenir ou a confortável (e ainda quente) Rota materializam em um exercício de puro comodismo. Passos entre o pop tradicional e algumas experiências esquecidas do rock nacional no começo da década passada. Continue reading

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Disco: “Angel”, Pure X

Pure X
Indie/Alternative/Dream Pop
http://purexmusic.com/

Por: Cleber Facchi

Pure X

Se você voltar os ouvidos para o ambiente sombrio Pleasure (2011), álbum de estreia do grupo texano Pure X, encontrará uma banda completamente distinta da que passeia pelas emanações doces de Angel (2014, Fat Possum). Em um sentido de reformulação da própria sonoridade, Nate Grace e os demais parceiros de banda deixam de lado a psicodelia suja do debut para alcançar de vez o romantismo escancarado das canções. Um exercício que quebra a essência dos primeiros álbuns, mas soluciona de vez o trabalho do grupo.

Em um sentido de reforço ao que Crawling Up The Stairs (2013), o segundo registro em estúdio da banda, trouxe há poucos meses, o novo disco concentra no uso de fórmulas melancólicas uma espécie de engrenagem para a banda. Tudo bem, até aí nada que Grace já não venha cantando desde o começo de carreira, a diferença está na forma como o grupo parece dar fim ao enclausuramento lançado desde as primeiras faixas. Uma tentativa de abraçar uma parcela maior do público, sem tropeçar em experiências há muito desgastadas por outros artistas.

Lidando com as confissões em um enquadramento que esbarra no “brega”, Angel abraça as mesmas sensações que há anos ocupam a obra do canadense Sean Nicholas Savage, ou mesmo os trabalhos de Ariel Pink depois das melodias acolhedoras de Before Today (2010). São músicas que reforçam a dependência romântica do eu lírico (Every Tomorrow), declarações escancaradas de amor (Fly Away with Me Woman) ou faixas essencialmente sorumbáticas (Make You Want Me). Um verdadeiro cardápio para o ouvinte sofredor/apaixonado.

Por conta da fluidez sentimental do álbum, cada composição do disco autoriza o reverberar de melodias vocais antes raras dentro da condução do Pure X. São enquadramentos nostálgicos, como em Valley of Tears e Livin’ the Dream, faixas que parecem saídas de algum registro esquecido da década de 1980. Já outras como Fly Away with Me Woman revelam um aspecto curioso dentro do projeto: a aproximação com o soul. Uma tendência que atravessa os domínios atmosféricos do Dream Pop – base instrumental do grupo – para desaguar em um lago quase pacato de essências. Continue reading

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Disco: “With Light And With Love”, Woods

Woods
Folk/Psychedelic/Indie
http://www.woodsist.com/woods/

Por: Cleber Facchi

Woods

Desde a estreia, há quase uma década, cada trabalho lançado pelo quarteto nova-iorquino Woods funciona dentro de uma atmosfera de conforto e emanações típicas de uma fórmula própria. Seja na estrutura irregular de At Rear House (2007), um belo exemplar do movimento Freak Folk, ou dentro das emanações litorâneas de Bend Beyond, lançado em 2012, os inventos assinados pelo grupo norte-americano jamais rompem com um proposital limite estético. Um efeito que reverbera de forma continuada no recente With Light And With Love (2014, Woodsist), mas que curiosamente ecoa como novidade a cada doce melodia.

Ainda apontado para as décadas de 1960 e 1970, o oitavo registro em estúdio de Jeremy Earl, Jarvis Taveniere, Aaron Neveu e John Andrews usa da limpidez das formas instrumentais como um ponto de novidade. Rompendo com a produção continua do grupo, que desde 2009 vem lançando um novo álbum por ano, o registro de 10 faixas usa dos dois anos de produção como uma ferramenta transformadora. Sim, temos em mãos as mesmas experiências sonoras retratadas desde How to Survive In (2006), estreia do grupo, porém, a ausência de ruídos e a quebra das emanações caseiras entregam ao ouvinte um projeto renovado.

Na trilha de novatos, como o duo Foxygen, a banda nova-iorquina abraça a psicodelia sem romper os laços com o pop. Seja em canções efêmeras, caso de New Light, ou atos extensos como o da faixa título – com mais de nove minutos de duração -, cada composição explorada pela obra dança em um habitat sereno, a ser desvendado com parcimônia. De caráter homogêneo, o disco se movimenta em um senso de completude, como se a chave para cada canção fosse explorada na faixa que a antecede, e assim por diante. Trata-se de uma obra marcada pelas melodias – uma experiência que aprimora toda a essência da banda.

Como Size Meets the Sound, Cali In a Cup e demais faixas comerciais do trabalho passado já haviam anunciado, a busca do Woods em conquistar uma parcela ainda maior de ouvintes se revela de forma natural e cada vez mais frequente. Se em começo de carreira o interesse dos integrantes era o de “parecer estranho”, hoje pouco disso parece ter sobrevivido. Basta observar músicas como Full Moon e Moving to the Left, faixas que se adornam de pequenos clichês do folk/rock clássico em um linguagem hipnótica, quase fabricada para as massas. Uma exposição que mesmo evidente não distorce o tecido cuidadoso que se esparrama pelo álbum. Continue reading

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Disco: “Heathen”, Thou

Thou
Sludge Metal/Doom Metal/Alternative
https://www.facebook.com/pages/Thou/

Por: Cleber Facchi

Thou

Atos lentos de guitarras, vozes absorvidas como instrumentos e um curioso senso de ordem em um cenário guiado pela destruição. Assim é a composição de Heathen (2014, Gilead Media) mais recente projeto do grupo norte-americano Thou. Centrada em New Orleans, Luisiana, a banda deixa de lado as experiências jazzísticas/boêmias, típicas da da produção local, para se envolver com um som tão pantanoso e denso quanto o próprio ambiente de origem. Um panorama sufocante em essência e curiosamente capaz de arrastar o ouvinte por quase 70 minutos de arranjos instáveis, mas ainda assim desafiadores.

Em atuação desde o meio da década passada, direcionamento que sustenta uma produção de quase 30 registros em estúdio – entre singles, EPs, split albums e registros completos -, o coletivo firma na presente obra um projeto de evidente apresentação aos novos ouvintes, feito que não exclui a explícita maturidade do grupo. Mas qual a grande diferença entre as faixas inéditas que alimentam o novo registro e todo o arsenal revelado previamente pela banda? A resposta para isso parece fluir em uma única palavra: imersão.

Como um ato único a ser explorado pelo ouvinte, cada arranjo, voz ou mínima emanação instrumental que cresce pelo disco arrasta o espectador para um ambiente hipnótico até o último acorde. Na contramão de outras obras entregues aos ruídos fixos do Doom Metal, Heathen é uma obra alimentada pela comunhão dos sons, efeito que dança pelas guitarras de Andy Gibbs e Matthew Thudium, cresce nas batidas pontuais Josh Nee e sobrevive com excelência na voz sombria de Bryan Funck. O típico caso de um disco que se mantém por conta própria e continua a crescer mesmo passada a execução da última faixa.

Ainda que esbarre em uma série de conceitos favorecidos por outros veteranos do gênero, Heathen borbulha em um cenário em que todas as regras são reforçadas por um toque particular. O alinhamento “punk” do grupo, adepto da “filosofia” DIY, esquiva o registro de uma solução impulsionada por atos cênicos, fantasias soturnas e outras emanações típicas do estilo. Pelo contrário, cada segundo do registro sobrevive de forma natural pela formação dos arranjos sujos e somente eles. Apenas “garotos” mergulhando em um oceano obscuro de distorções e letras abastecidas pela dor, morte e descrença. Continue reading

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Disco: “Z”, SZA

SZA
R&B/Alternative/Female Vocalists
https://www.facebook.com/justsza

Por: Cleber Facchi

SZA

Solana Rowe é um típico exemplar da recente safra de cantores do R&B estadunidense. Apaixonada pelas emanações densas que esculpiram o gênero na década de 1990, a artista dança pelo passado sem necessariamente abandonar aspectos específicos da produção recente – referência que escapa das fórmulas musicais e se aproxima de um conceito cultural abrangente, dissolvido em traços líricos, visuais e temáticos. Em Z (2013, Top Dawg Entertainment), estreia oficial da cantora, todas as experiências tratadas ao longo de décadas são aglutinadas em um só ponto, um meio termo entre as imposições empoeiradas da estética hipster e a tentativa em sustentar um ambiente próprio.

Letárgico, o disco segue o caminho enevoado dos últimos EPs da artista, See.SZA.Run (2012) e S (2013), trabalhos que são pontualmente continuados em se tratando das climatizações do disco. Cada batida, voz ou pequeno azulejo instrumental da obra parece encaixado de forma precisa, como se Rowe buscasse estabelecer conforto ao ouvinte. Dos versos românticos ao manuseio das bases eletrônicas, cada segundo do registro alcança uma capa conceitual específica, como se uma linha fosse proposta e nada fosse tratado além desse “limite”.

A segurança/limite dado ao trabalho potencializa a voz e a presença de SZA, que diferente dos outros registros deixa de ser uma “matéria-prima”  nas mãos dos produtores, para nascer como uma “cantora de verdade”, autêntica. Da melancolia explícita em UR, música de abertura, aos arranjos derradeiros de Omega, essencial canção de encerramento, cada música evoca um aspecto de grandeza, o insuficiente para transformar Rowe uma “nova” Beyoncé, mas o suficiente para que o ouvinte desenvolva um forte interesse pelo trabalho.

Imensa colcha de retalhos costurados por uma mesma experiência lírica/musical, Z encontra na interferência de cada colaborador um autêntico mecanismo de atrito criativo pra a obra. Por mais que as vozes de Chance The Rapper (Childs Play), Isaiah Rashad (Warm Winds) e Kendrick Lamar (Babylon) reverberem de forma explícita, são as bases lançadas pelas composições que escondem o verdadeiro tesouro do álbum. De Chaz Bundick (Toro Y Moi) em HiiiJack, ao velho colaborador Felix Snow em Julia, cada convidado funciona de maneira a testar as vozes e experiências de SZA – autêntica e concisa dentro de cada criação. Continue reading

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Disco: “Hue EP”, Desampa

Desampa
Brazilian/Singer-Songwriter/Electronic
https://soundcloud.com/desampa

Por: Cleber Facchi

Desampa

Há pouco mais de um ano, quando Err EP apresentou o trabalho do misterioso Desampa, cada canção traçada no decorrer do pequeno álbum parecia fluir como uma representação das experiências musicais/sentimentais de seu criador. Doses controladas de R&B, um passeio  pela eletrônica recente e pianos enquadrados em um formato propositalmente melancólico. Fragmentos que ao serem encaixados conseguiam revelar (em partes) a figura humana por trás da máscara sombria do cantor, algo que Hue EP (2014, Independente) amplia de forma quase inevitável, fixando com incontestável identidade no decorrer das canções.

Menos hermético, o trabalho de “apenas” três faixas abraça as confissões como um propósito melódico e (quase) comercial. Tendo em Foregone, canção de abertura, um estímulo para o restante da obra, o artista paulistano reforça todas as tendências que gerenciam a construção do EP. São atos inicialmente tímidos, mas que aos poucos se acrescem com firmeza, algo que a inaugural criação ameniza entre vocais em falsete, beats capazes de dialogar com a cena britânica e uma interpretação sorumbática que parece própria do músico. Hue é uma obra sobre seu criador, mas usa de diversas ferramentas para estreitar os laços com o público – alternativo, médio ou grande.

Enquanto Err EP nasce e cresce como um trabalho de limites bem definidos, efeito retratado na aproximação que vai de Streets Of Soul aos verso/arranjos pontuais de Love?, Hue é uma obra de possibilidades. Por mais que a canção de abertura reforce essa transformação com a colagem de samples e pequenos efeitos eletrônicos renovados, é na chegada de Not Afraid To Fail, segunda música do trabalho, que a obra de Desampa se revela em totalidade. Até o último ato a canção demonstra a força e a presença do paulistano, que continua a interpretar o amor em uma medida própria – mesmo que alguns aspectos da canção reverberem como The Weeknd e Autre Ne Veut de forma involuntária. Continue reading

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Disco: “The Future’s Void”, EMA

EMA
Experimental/Indie/Female Vocalists
http://www.thefuturesvoid.net/

Por: Cleber Facchi

EMA

A música assinada por Erika M. Anderson está longe de ser absorvida de forma imediata. Na contramão de grande parte das cantoras que definem a presente cena norte-americana, o projeto defendido por EMA encontra no enclausuramento um efeito de grandeza, preferência que pode causar desconforto em uma primeira audição, mas continua a martelar a cabeça do ouvinte mesmo meses após uma rápida prova desse som. Em um sentido de continuidade natural ao debut Past Life Martyed Saints (2011), The Future’s Void (2014, Matador) entende o pop de forma particular, transportando a obra da cantora para um ambiente ainda mais denso e perturbador.

Em um esforço explícito de transformação, EMA deixa as histórias construídas em frente a tela de um computador – marca do álbum passado – para desvendar um novo universo. Como o próprio título logo entrega, The Future’s Void é uma obra que olha para frente, manipulando experiências futurísticas dentro do exagero particular da cantora. Não por acaso parte das composições carregam esse efeito conceitual nos versos e até arranjos, algo que Neuromancer – faixa inspirada no livro clássico de William Gibson, de 1984 – revela de maneira curiosa e ao mesmo tempo referencial.

Em se tratando dos versos, EMA lentamente apaga o cenário urbano e descritivo percorrido no trabalho de 2011, tudo para transformar o novo disco em um conjunto de experiências quase universais. O que antes era encarado por meio do lirismo particular da cantora, agora desemboca em uma série de conceitos literários e propositalmente sentimentais, o que faz do disco um imenso bloco de melancolia – experiência sempre próxima do ouvinte. Ainda que o esforço da cantora seja o de favorecer um ambiente de desordem logo nos primeiros acordes, a precisão de músicas como 3Jane e When She Comes logo rompe com esse efeito.

Musicalmente, o bloco de dez criações inéditas que recheiam o disco é uma evolução em se tratando do trabalho passado. Ao apostar em uma sonoridade menos caseira e próximas de melodias convencionais, EMA brinca com a mente do espectador de forma atrativa, sobriedade que faz crescer tanto as guitarras e vozes da faixa de abertura, Satellites, como as interferências eletrônicas das batidas aos moldes de Neuromancer. Mais do que uma continuação dos engenhos lançados há três anos, com o novo disco a cantora encara um típico exemplar de recomeço. Continue reading

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Disco: “Tremors”, SOHN

SOHN
R&B/Electronic/Alternative
http://sohnmusic.com/

Por: Cleber Facchi

SOHN

Christopher Taylor é um artista em evidente crescimento. Desde que surgiu em meados de 2012, com os singles The Wheel e Red Lines, o produtor britânico responsável pelo SOHN parece ter expandido os próprios limites estéticos, ao mesmo tempo em que mantém firme a sonoridade reforçada desde o primeiro ruído sintetizado. Em um sentido de (re)aproveitamento da nova safra do R&B, o músico usa da tonalidade eletrônica como um palco criativo para as próprias confissões, proposta que invade a arquitetura de Tremors (2014, 4AD) e gerencia com evidente acerto a estreia do produtor.

Seguindo a trilha conceitual dos arranjos que orquestram a obra de How To Dress Well e Autre Ne Veut, Taylor ameniza bases nostálgicas e arranjos atuais em um trabalho marcado pelas confissões. Melancólico em um tratamento proposital, o disco caminha com firmeza em direção ao grande público, efeito que mesmo comercial não tinge com redundância os ainda inéditos inventos proclamados pelo produtor. Tremors é a materialização do que há de mais obscuro nos sentimentos recentes do britânico e, por consequência, a ferramenta mais correta para hipnotizar o ouvinte.

De onde havia parado no último ano, com os singles Bloodflows e Lessons, Tylor parece apenas projetar uma sequência. Batidas eletrônicas absorvidas de forma instável, samples fragmentados de vozes e uma base nunca orgânica de sintetizadores servem de abrigo para os versos lacrimosos do artista. Cópia? Não, apenas um evidente aprimoramento do que havia testado há poucos meses. Tremors, diferente dos projetos anteriores lançados pelo músico, é uma obra marcada pela completude. Faixas que abrem passagem para a canção seguinte e uma série de pequenos detalhes que mergulham o ouvinte em um só ambiente.

Ao partir o próprio coração e entregar ao ouvinte fragmentos de tais experiências, SOHN fixa o nascimento de uma obra que cresce como um convite inevitável. Por mais doloroso que seja o exercício abordado logo na inaugural Tempest, mergulhar (cada vez mais) nos versos amargos do compositor se revela uma necessidade. Enquanto as batidas tecem uma fina camada protetora, as bases funcionam como pequenos alicerces, transformando músicas como Fool e Lights em exemplares autênticos de pura confissão/confusão sentimental. Sim, Tremors é um disco de desamor, mas está longe de tropeçar em possíveis clichês. Continue reading

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Disco: “Enter The Slasher House”, Avey Tare’s Slasher Flicks

Avey Tare’s Slasher Flicks
Experimental/Psychedelic/Electronic
http://entertheslasherhouse.com/

Por: Cleber Facchi

Avey Tare

Os excessos assumidos por Dave Portner (Avey Tare) dentro de Centipede Hz (2012), último registro em estúdio do Animal Collective, estão longe de chegar ao fim. Mesmo distante do coletivo animal, o músico norte-americano (hoje) centrado em Los Angeles, Califórnia opta pela continua desconstrução dos arranjos, vozes e ritmos. Sonoridade instável incorporado com firmeza e certa dose de liberdade no interior de Enter The Slasher House (2014, Domino), obra que afasta o músico da “carreira solo” para apresentá-lo em uma nova banda.

Incorporando um sentido de proposital afastamento aos sons conquistados em Down There (2011), estreia solo do músico, o novo álbum deixa o terreno pantanoso para abraçar a esquizofrenia das formas eletrônicas. São 11 composições que equilibram a psicodelia, eletrônica rock e diferentes outros aspectos da musicalidade exposta por Tare para brincar com a mente do espectador. Se há três anos tudo o que o músico buscava pela formação de um som homogêneo, por vezes excessivamente sombrio, ao alcançar o novo projeto tudo parece fugir ao controle.

Mesmo que a “culpa” do som esquizofrênico dado ao registro seja apenas do músico, a presença de Angel Deradoorian (ex-Dirty Projectors) e Jeremy Hyman (ex-Ponytail) potencializa em excesso esse resultado. São acordes tortos de guitarra, sintetizadores que vão da década de 1970 ao presente, e toda uma série de atributos por vezes íntimos dos arranjos exaltados no álbum Strawberry Jam (2007), do próprio Animal Collective. Uma imensa geleia musical que busca tanto por condensar um som particular, como desestabilizar qualquer senso de ordem. Tare gosta mesmo é de provocar.

Longe de carregar o título e créditos da obra de forma solitária, Avey parece durante todo o tempo cutucado pelos novos parceiros de banda. Se por um lado as harmonias de Deradoorian alicerçam a base vocal e melodias lançadas pelo músico, em se tratando de Hyman, o uso quebrado da bateria força o álbum a mudar de direção. Se em instantes a calmaria desaba no mesmo som gelatinoso de Down There, logo em sequência o duo acerta um empurrão, fazendo do disco um catálogo de sons que crescem, diminuem, se arrastam e ecoam de forma dinâmica sem qualquer toque de previsibilidade. Continue reading

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Disco: “It’s Album Time”, Todd Terje

Todd Terje
Space Disco/Electronic/Nu Disco
http://toddterje.com/

Por: Cleber Facchi

Todd Terje

Mulheres, drinks e Space Disco. Há mais de uma década o norueguês Todd Terje passeia pela cena eletrônica como um boêmio, se esquivando das palavras e investindo nos arranjos sintéticos para retratar de forma autoral a vida noturna. Mergulhado nas experiências que ocuparam a década de 1970, o produtor original de Mjøndalen, parece amarrar as pontas soltas entre a música que ocupou as pistas há quase quatro décadas e as emanações que detalham os excessos no presente. Entre lá e aqui, Terje abre as portas do primeiro álbum de estúdio, o aguardado It’s Album Time (2014, Olsen), um registro tão nostálgico e empoeirado, quanto voluptuoso e atual.

Descompromissado, mas não menos detalhista que os últimos inventos em estúdio do artista, o disco vai além de dançar pelas harmonias hipnóticas lançadas por Terje desde o começo dos anos 2000. Enquanto os primeiros singles ou mesmo o último EP do produtor, It’s the Arps (2012), pareciam reforçar experimentos musicais fragmentados, cada instante do presente álbum evoca uma tonalidade sequencial. É como se o norueguês contasse uma história, um tipo de desaventura romântica em um paraíso tropical que cresce ao som  dos sintetizadores.

Ao mesmo tempo em que caminha pela areia quente da história oculta ao fundo das harmonias, Terje fixa no registro uma forma de comunicação com a obra que já vinha desenvolvendo. Bastam as transições suingadas de Preben Goes to Acapulco ou a fluidez direta de Delorean Dynamite (faixa manipulada pela matemática das programações) para ver a relação do artista com velhos parceiros como Prins Thomas e Lindstrøm. De fato, parte dos arranjos encontrados por Todd crescem como uma sequência ao bem sucedido Smalhans (2012), em que foi colaborador, ao mesmo tempo em que parte dos tropeços dados por Lindstrøm em Six Cups of Rebel são pontualmente solucionados.

Se não fosse pelo histórico amigável de Terje com os outros nomes da cena norueguesa, não seira estranho suspeitar que It’s Album Time fosse lançado como uma autêntica provocação. Da música latina em Svensk Sås, ao toque litorâneo de Alfonso Muskedunder, cada música enquadrada no disco parece fugir do hermetismo típico da eletrônica que ocupa parte da produção europeia. Uma constante sensação de que o produtor busca abraçar o grande público por meio dos arranjos versáteis, abertura que em nenhum momento foge do cuidado técnico explícito desde os primeiros segundos. Continue reading

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