Category Archives: Resenhas

Resenha: “Freetown Sound”, Blood Orange

Artista: Blood Orange
Gênero: R&B, Soul, Alternative
Acesse: http://bloodorange.nyc/

 

Inspirado pela série de acontecimentos que levaram à morte trágica da norte-americana Sandra Bland dentro de uma prisão, em outubro de 2015, Dev Hynes deu vida a uma de suas composições mais tocantes: Sandra’s Smile. “Fechamos os olhos por um tempo / mas eu ainda vejo o sorriso de Sandra”, canta o músico britânico enquanto detalha uma sequência de versos que dialogam com a temática do racismo, os abusos cometidos pela polícia estadunidense e a opressão sofrida pela população negra nos Estados Unidos. Um suspiro melancólico, talvez isolado na época em que foi lançado, mas que acaba servindo de base para o terceiro álbum de estúdio do Blood Orange, Freetown Sound (2016, Domino).

Sucessor do elogiado Cupid Deluxe (2013), trabalho em que Hynes explora o cotidiano de diferentes marginalizados da cidade de Nova York – como desabrigados e membros da comunidade LGBT –, com o presente álbum, o cantor, compositor e produtor inglês amplia ainda mais o campo de alcance da própria obra. São músicas que analisam diferentes aspectos da comunidade negra, dialogam com referências da cultura africana, resgatam conceitos do R&B dos anos 1980/1990, além de estreitar a relação com o universo feminino, efeito da ativa interferência de um time de mulheres durante a construção do álbum.

Longe de parecer o protagonista do disco, Hynes atua apenas como um condutor para que um grupo de vozes e compositoras femininas se encontrem no interior do trabalho. Responsável por uma série de canções produzidas para nomes como Solange (Losing You), Sky Ferreira (Everything Is Embarrassing) e, mais recentemente, Carly Rae Jepsen (All That), Hynes faz do presente disco um ponto de encontro para diferentes vozes, ampliando o conceito anteriormente testado em em Cupid Deluxe, trabalho em que firmou uma série de parcerias com Caroline Polachek (Chairlift) e Samantha Urbani (ex-Friends).

Do pop pegajoso de Best of You, bem-sucedida parceria com Empress Of, passando pela melancólica Hadron Collider, já conhecida colaboração com a cantora Nelly Furtado, Hynes cria pequenas brechas para que representantes de diferentes campos da música brilhem com destaque no interior da obra. Nomes como Debbie Harry (E.V.P.), Kelsey Lu (Chance) e Carly Rae Jepsen (Better Than Me). Entretanto, o destaque acaba ficando por conta da ativa interferência da novata Ava Raiin. Cantora e compositora nova-iorquina, a jovem artista se revela como uma espécie de protagonista da obra, assumindo os versos de faixas como By Ourselves, Augustine, Juicy 1-4 e Thank You. Continue reading

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Resenha: “Autodrama”, Puro Instinct

Artista: Puro Instinct
Gênero: Synthpop, Dream Pop, Alternative
Acesse: https://www.facebook.com/puroinstinct/

 

Cinco anos. Esse é o tempo que as irmãs Piper e Sky Kaplan levaram para finalizar o nostálgico Autodrama (2016, Manifesto). Segundo álbum de estúdio da dupla como Puro Instinct, o registro de apenas 10 faixas parece seguir um caminho parcialmente distinto em relação ao antecessor Headbangers In Ecstacy, de 2011. Longe dos temas psicodélicos e da explícita influência de Ariel Pink, colaborador em grande parte do trabalho, são os sintetizadores e referências dançantes que indicam a nova direção assumida pelo duo californiano.

Entregue em pequenas doses, o trabalho teve grande parte das faixas apresentadas ao público nos últimos meses. Composições como as já conhecidas Tell Me, Peccavi e What You See que serviram para indicar a base dançante que abastece o disco. Entretanto, sobrevive está audição fechada do registro, faixa após faixa, o grande charme do segundo registro de inéditas da dupla. Canções que partilham da mesma base instrumental, mergulhando em arranjos e elementos típicos da década de 1980.  

Comercialmente bem resolvido, Autodrama se apoia no uso de versos fáceis, guitarras e sintetizadores dançantes, além de sentimentos e confissões românticas capazes de dialogar com qualquer indivíduo. Da mesma forma que o duo nova-iorquino Chairlift em Something (2012) ou a dupla sueca Niki and the Dove no ainda recente Everybody’s Heart Is Broken Now (2016), cada faixa do presente disco se projeta de forma a emular temas e referências radiofônicas originalmente apresentadas há mais de três décadas.

Em um sentido oposto ao material letárgico apresentado há seis anos, trabalho em que as irmãs Kaplan pareciam flutuar em uma nuvem de sons enevoados, Autodrama mantém os dois pés bem fixos no chão. De fato, grande parte do registro parece pensado para funcionar em qualquer pista. Batidas e vozes que tanto dialogam com o trabalho de artistas recentes – caso de Sky Ferreira e Twin Shadow –, como resgatam a essência de veteranos do synthpop norte-americano. Continue reading

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Resenha: “Pedro”, Ombu

Artista: Ombu
Gênero: Alternative Rock, Post-Hardcore, Pós-Rock
Acesse: https://www.facebook.com/bandaombu

 

Calma“. O verso sereno e levemente melancólico que abre a quarta faixa de Pedro EP (2016, Balaclava Records) parece dizer muito sobre a presente fase da banda paulistana Ombu. Três anos após o lançamento do primeiro registro de estúdio, o artesanal Caminho Das Pedras EP, João Viegas (baixo e voz), Santiago Mazzoli (guitarra e voz) e Thiago Barros (bateria) assumem uma postura sóbria e parcialmente renovada com o presente trabalho de inéditas, revelando ao público uma sequência de composições marcadas pela complexidade dos detalhes.

Passo além em relação ao trabalho apresentado há pouco mais de um ano em Mulher EP (2016), registro de seis faixas e uma espécie de recomeço dentro da curta trajetória do grupo, o novo álbum confirma o profundo esmero na construção de cada música produzida pelo grupo. Ideias que passeiam pelo mesmo cenário urbano apresentado no primeiro EP do trio, porém, encorpadas por um conjunto de novas ambientações, ruídos e temas etéreos.

Ainda que Calma, composição escolhida para anunciar o trabalho pareça sintetizar toda a transformação do grupo paulistano, sobrevive na dolorosa Sem Mais, faixa de abertura do disco, um conjunto de novos experimentos e colagens instrumentais que confirmam a completa evolução do trio. Enquanto os versos resgatam de forma angustiada as memórias de um passado ainda recente, musicalmente a canção cresce de forma a revelar um verdadeiro labirinto instrumental, mergulhando em diferentes cenários, solos arrastados de guitarra, texturas e até vozes assumidas por um grupo de crianças.

Observado em proximidade aos dois últimos registros da banda, Pedro – o nome é um misto de homenagem e brincadeira com um fã do grupo – se revela como o trabalho mais seguro da Ombu, fruto da profunda interação entre cada integrante da banda em estúdio. “No estúdio, eu estava me sentindo em casa. É importante respeitar o tempo de gestação de casa música”, confessou Mazzoli em entrevista ao site da Noisey. Continue reading

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Resenha: “Weval”, Weval

Artista: Weval
Gênero: Electronic, Techno, Ambient
Acesse: https://soundcloud.com/weval

 

Harm Coolen e Merijn Scholte passaram os últimos seis anos em busca de um ponto de equilíbrio entre as experiências que abasteceram o trabalho de cada produtor em carreira solo. Como resultado dessa parceria, uma coleção de músicas avulsas, remixes e EPs em que o duo holandês colide ideias e experiências que tanto incorporam a House Music – base do trabalho de Coolen –, como esbarram em elementos do Trip-Hop/Ambient Music – ponto de partida da carreira solo de Scholte –, estímulo para o material seguro que cresce delicadamente no interior da homônima estreia da dupla como Weval.

Com distribuição pelo selo alemão Kompakt – casa de artistas como The Field e Gui Boratto –, o registro de 12 faixas e pouco mais de 50 minutos de duração parece seguir um caminho isolado em relação a outros trabalhos relacionados ao selo. Trata-se de uma obra que não apenas incorpora uma série de elementos típicos de diferentes produtores do mesmo grupo, como fragmenta cada batida e base de forma a reproduzir um material essencialmente climático, sutil.

Em I Don’t Need It, terceira faixa do disco, um resumo preciso de grande parte das canções produzidas pela dupla. Enquanto o verso central da composição flutua livremente – “I Don’t Need It / I Don’t Need It”–, funcionando como um instrumento complementar, batidas e pequenos ruídos eletrônicos crescem lentamente, sempre pontuais, criando uma espécie de alicerce para o delicada base de sintetizadores produzida pelos holandeses.

De fato, sobrevive no delicado uso dos sintetizadores o principal componente da obra. Da abertura do disco, em Intro, passando por músicas como The Battle, Just In Case e Years To Build, Coolen e Scholte apresentam um mundo de pequenas ambientações instrumentais, não economizando nos detalhes e no uso de pequenas manobras eletrônicas que distanciam o registro de uma possível repetição, fazendo do disco um trabalho sempre mutável, rica em detalhes. Continue reading

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Resenha: “Case/Lang/Veirs”, Case/Lang/Veirs

Artista: Case/Lang/Veirs
Gênero: FolK, Indie, Alt. Country
Acesse: http://caselangveirs.com/

 

O que acontece quando você junta um time de grandes vozes femininas e uma sequência de composições marcadas pela completa melancolia dos versos? A resposta para essa pergunta pode ser encontrada com naturalidade no interior de Case/Lang/Veirs (2016, ANTI-), primeiro registro em estúdio da parceria entre as cantoras Neko Case, k.d. lang e Laura Veirs e um dos trabalhos mais dolorosos que floresceram na recente safra do cancioneiro norte-americano.

Movido pelos sentimentos e pequenas exposições intimistas de cada colaboradora, o álbum encanta justamente pela pluralidade de ideias que abastecem cada uma das 14 composições do registros. Uma obra que se divide claramente entre as melodias primorosas de Veirs, esbarra nos versos alcoolizados de Case – ainda íntima do material entregue em The Worse Things Get (2013) –, e cresce íntima do grande público, efeito das vocalizações dramáticas, sempre acessíveis da veterana lang.

No decorrer da obra, um catálogo versátil de versos e temas confessionais. Músicas sufocadas pela separação, como em Song for Judee; fragmentos que indicam pequenos sorrisos depois de um longo inverno sentimental, caso de Best Kept Secret, além de composições que mergulham em um oceano de versos angustiados, marca da densa Honey and Smoke. Uma obra que se distancia de possíveis protagonistas, fragmentando as canções em diferentes épocas e histórias isoladas.

Mesmo os arranjos do disco se partem de forma a incorporar diversas fases e tendências musicais. Enquanto Honey and Smoke soa como uma típica canção do começo dos anos 1960, esbarrando no romantismo de Roy Orbinson e outros veteranos da época, em Greens of June, sexta faixa do disco, o trio busca por um som essencialmente delicado, bucólico, bastante similar ao trabalho produzido pela cantora britânica Vashti Bunyan em Lookaftering, de 2005. Continue reading

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Resenha: “The Glowing Man”, Swans

Artista: Swans
Gênero: Experimental, Pós-Rock, Pós-Punk
Acesse: https://www.facebook.com/SwansOfficial/

 

Seis anos após o lançamento de My Father Will Guide Me up a Rope to the Sky (2010), obra que deu fim ao longo hiato que silenciou o Swans na segunda metade dos anos 1990, Michael Gira e o imenso time de colaboradores continuam a surpreender o público em estúdio. Com a chegada de The Glowing Man (2016, Young God / Mute), 14º álbum de inéditas da banda estadunidense, Gira finaliza uma coleção de faixas que delicadamente transportam o ouvinte para dentro de um universo marcado pela violência, isolamento, amor e completa angústia.

Último registro da presente “encarnação” da banda, o álbum que conta com oito canções inéditas e quase duas horas de duração assume um caminho parcialmente distinto em relação aos antecessores The Seer (2012) e To Be Kind (2014). Livre do experimentalismo ruidoso que marca o trabalho lançado há dois anos, ou mesmo das ambientações góticas do álbum de 2012, Gira se concentra na produção de um som essencialmente arrastado, climático e visivelmente apoiado na repetição das vozes e arranjos. Um turbilhão de experiências que inicia de forma acolhedora em Cloud of Forgetting, porém, se encerra de maneira completamente instável na derradeira Finally, Peace.

De essência épica, The Glowing Man trata cada composição como uma espécie de obra completa. Um jogo de vozes e arranjos instrumentais marcados, por vezes cênicos, como se cada ruído tivesse um objetivo específico no interior do disco. “O equivalente musical de Ben-Hur juntamente com Ran, de [Akira] Kurosawa”, comparou Gira em entrevista à Mojo. Ainda que pareça desproporcional a colocação do músico, sobrevive no interior de cada faixa um mundo de histórias, personagens e sentimentos conflitantes que facilmente servem de ponte para a imediata aproximação do ouvinte.

São referências religiosas, como na jazzística The World Looks Red/The World Looks Black – “Follow the Sleeper Man / Follow the Maker Man / Follow the Keeper Man / Follow the Leaver Man” –; canções centradas em personagens, caso da perturbadora Frankie M.; além de composições marcadas pelo uso de referências marcadas pelo ocultismo, drogas e paisagens pós-apocalípticas. Interessante notar como todos esses elementos – referências literárias, poéticas e até versos confessionais – se amarram de forma coesa no interior da obra. Uma versão controlada do mesmo som caótico apresentado em To Be Kind. Continue reading

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Resenha: “Muzik”, Delorean

Artista: Delorean
Gênero: Electronic, Alternative, Dance
Acesse: https://www.facebook.com/dlrean

 

Com o lançamento de Apar, em 2013, os integrantes do Delorean pareciam decididos a explorar um som cada vez mais pop, comercial, como uma nova interpretação da mesma eletrônica autoral explorada nos essenciais Ayrton Senna EP (2009) e Subiza (2010). Entretanto, interessante encontrar no recém-lançado Muzik (2016, Phlex), sexto álbum de estúdio do quarteto espanhol, uma espécie de regresso ao mesmo universo de temas e referências incorporadas há meia década.

Livre de canções pegajosas e possíveis participações – como Caroline Polachek, vocalista do Chairlift e colaboradora de duas composições no álbum entregue há três anos –, Muzik se concentra na ativa relação entre os integrante da banda. Trata-se de uma obra coesa, como se cada faixa servisse de base para a canção seguinte, proposta que se reforça na forte similaridade dos sintetizadores e vozes que flutuam da abertura do disco, em Epic, até a chegada derradeira Parrhesia.

Faixa-título do disco e canção escolhida para anunciar o trabalho há poucos meses, Muzik inicialmente dança em meio a sintetizadores contidos e batidas limpas, porém, cresce lentamente, revelando ao público um segundo ato marcado pelo uso dançante dos arranjos. A mesma estrutura acaba servindo de base para outras canções ao longo da obra. Músicas como a inaugural Epic e Closer que preparam o caminho para uma explosão de sons e cores.

Levemente nostálgico, o registro de nove faixas talvez seja a trabalho em que a herança musical do grupo espanhol se revela com maior naturalidade. Difícil não lembrar da boa fase do New Order em faixas como Both e Push, composições que dialogam diretamente com a música produzida na segunda metade dos anos 1980. Um jogo de sintetizadores pulsantes, levemente embriagado pelas emanações da cena Balearic, outra grande influência dentro dos trabalhos do Delorean. Continue reading

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Resenha: “Puberty 2”, Mitski

Artista: Mitski
Gênero: Indie Rock, Alternative, Rock
Acesse: http://mitski.com/

Em um intervalo de apenas três anos, Mitski Miyawaki deu vida a três registros completamente distintos. O inaugural Lush, em 2012, Retired from Sad. New Career in Business, de 2013 e Bury Me At Makeout Creek, entregue ao público em 2014. Uma coleção de faixas repletas de temas confessionais, discussões sobre a vida sentimental da cantora e tormentos existencialistas que se revelam de forma ainda mais complexa com a chegada de Puberty 2 (2016, Dead Oceans), quarto e mais recente álbum de inéditas da cantora.

Trabalho mais complexo de toda a discografia de Mitski, o registro de 11 faixas e pouco mais de 30 minutos de duração nasce como uma extensão madura do som desenvolvido em Bury Me at Makeout Creek. Guitarras que flertam com a produção ruidosa de diferentes álbuns produzidos no começo da década de 1990 – como Dry (1992) e Rid of Me (1993) da britânica PJ Harvey –, mas que a todo momento incorporam pequenos experimentos e colagens eletrônicas que afastam a artista de uma possível zona de conforto.

Um bom exemplo disso está na inaugural Happy. Enquanto os versos exploram o peso da felicidade na vida de qualquer indivíduo – “A alegria veio me visitar, ela comprou biscoitos no caminho / Eu lhe servi chá e ela me disse que tudo vai ficar bem”–, musicalmente, Mitski dá um salto. Da bateria eletrônica que abre e finaliza a canção, passando pelo jogo de guitarras dançantes, até alcançar o saxofone que orienta os instantes finais da música, uma chuva de pequenos detalhes delicadamente cobre toda a extensão da faixa, grandiosa a cada novo ruído ou encaixe eletrônico.

Movida pela mesma herança musical de artistas como Waxahatchee, Sharon Van Etten e Torres, a cantora acerta ao fazer de cada composição um ato isolado. Enquanto músicas como My Body’s Made of Crushed Little Stars e A Loving Feeling exploram o mesmo conceito “caseiro” dos dois primeiros álbuns da cantora, faixas como Crack Baby e Happy indicam um maior refinamento, flertando com novos estilos, como se mesmo segura da própria sonoridade, Mitski buscasse por novas sonoridades. Continue reading

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Resenha: “Love You to Death”, Tegan and Sara

Artista: Tegan and Sara
Gênero: Indie Pop, Synthpop, Pop
Acesse: http://teganandsara.com/

 

Em 2013, com o lançamento de Heartthrob, as irmãs Tegan e Sara Quin assumiram de vez a busca por um som cada vez mais pop, dançante e íntimo das experiências musicais testadas ao longo de toda a década de 1980. Entre faixas como Closer e I Was a Fool, a explícita desconstrução do material intimista incorporado nos iniciais If It Was You (2002) e So Jealous (2004), conceito que se repete em cada uma das canções do recente Love You to Death (2016, Vapor / Warner Bros).

Oitavo álbum de estúdio da dupla canadense, o registro que conta com produção assinada pelo veterano Greg Kurstin (Lily Allen, Kelly Clarkson) faz de cada fragmento musical um componente pegajoso, acessível aos mais variados públicos. Da abertura do disco, em That Girl, passando por músicas como Stop Desire e Boyfriend – dois dos melhores exemplares da música pop em 2016 –, uma coleção de faixas capazes de “seduzir” em poucos instantes.

A principal diferença em relação ao material entregue há três anos está no completo refinamento dos versos e melodias que preenchem o disco. Ao mesmo tempo em que cada canção se projeta como um típico exemplar da música pop, arrastando o ouvinte para as pistas, Tegan e Sara Quin detalham um mundo de desilusões, medos e confissões sentimentais. Histórias que ultrapassam os limites da vida particular da dupla e acabam dialogando com os mais variados indivíduos.

Você me trata como seu namorado / E confiem em mim como seu melhor amigo / Mas eu não quero mais ser o seu segredo”, desabafa o eu lírico da grudenta Boyfriend, música que explora a tumultuada história de amor de um casal que se relaciona em segredo. Já em Dying To Know, quarta faixa do disco, a dolorosa reflexão de uma personagem que acaba iludida em meio a diversas tentativas de reatar com a ex – “Eu deixei um pouco de luz na escuridão / Causar um apagão dentro do meu coração”. Continue reading

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Resenha: “Arco & Flecha”, Iara Rennó

Artista: Iara Rennó
Gênero: Rock, Alternative, Experimental
Acesse: http://iararenno.com/

 

Três anos após o lançamento de Iara (2013), obra que cobriu com guitarras o trabalho de Iara Rennó, a cantora e compositora paulistana está de volta não com um, mas dois álbuns repletos de composições inéditas. De um lado, a crueza e feminilidade do elétrico Arco, obra de nove canções assumidas em parceria com um time de mulheres que ocupam os versos e instrumentos do trabalho. No outro oposto, o complementar Flecha, disco que abraça a MPB e mostra a colaboração entre Rennó e um grupo de cantores, músicos e compositores em uma sequência de outras nove músicas.

Com Mama-me como faixa de abertura do primeiro disco, Rennó indica a forte sexualidade e temática do empoderamento feminino que ocupa grande parte das composições em Arco. “Sonha que me despe / E a festa acontece / Sem roupa nem confete / Só carne“, canta enquanto as guitarras e um jogo sujo de sintetizadores crescem ao fundo da canção. Uma espécie de preparativo para o agressivo jogo de palavras que abastece músicas como Corpo Selvagem e Vulva Viva, fragmentos extraídos do livro de poemas eróticos Língua Brasa Carne Flor, estreia literária de Rennó, além músicas que dialogam de forma explícita com a sonoridade crua, essencialmente caótica, que abastece o último álbum da cantora.

De fato, a semelhança com o som produzido em Iara é enorme. Do uso pulsante da voz em Instante ao completo descontrole das guitarras em Meus Vãos, instrumento que passeia livremente durante toda a obra, Rennó faz de Arco uma madura continuação do trabalho entregue há três anos. São quase 30 minutos em que a cantora se desdobra na construção dos arranjos e vozes, abrindo espaço para a precisa interferência da dupla Mariá Portugal (bateria/mpc) e Maria Beraldo Bastos (clarone), principais colaboradoras do trabalho e personagens fundamentais para a produção de um som essencialmente cru, urgente, completo oposto do material que detalha as canções do complementar Flecha.

Livre do minimalismo que orienta as canções de Arco, Rennó faz da segunda metade do trabalho – o lado “masculino” -, uma obra marcada pelas texturas e ritmos. Em parceria com a cantora, um time formado por Curumin (bateria, teclado, mpc e produção), Maurício Badé (percussão), Lucas Martins (baixo e violão), Gustavo Cabelo (guitarra), Maurício Fleury (teclados), Daniel Gralha (trompete e fluguelhorn) e Cuca Ferreira (sax barítono). O resultado não poderia ser outro: uma explosão de cores, vozes, texturas e instrumentos. De forma autoral, um curioso regresso ao mesmo universo de referências exploradas nas canções do DonaZica, antigo projeto de Rennó em parceria com Anelis Assumpção e Andréia Dias. Continue reading

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