Artista: Thee Oh Sees
Gênero: Rock Alternativo, Garage Rock, Rock Psicodélico
Acesse: http://www.theeohsees.com/

 

Incrível é a capacidade de John Dwyer em surpreender o público a cada novo trabalho do Thee Oh Sees. Em constante produção desde o ano de 2003, o guitarrista que não consegue passar mais do que alguns meses sem um novo registro de inéditas e nos últimos cinco anos deu vida a uma verdadeira sequência de clássicos – como Putrifiers II (2012), Floating Coffin (2013) e Mutilator Defeated At Last (2015) –, apresenta ao público mais um bem-sucedido álbum de estúdio: A Weird Exits (2016, Castle Faces).

Obra mais acessível de toda a discografia da banda californiana, o registro de apenas oito faixas garante ao ouvinte uma coleção de temas sujos, vozes melódicas e ruídos psicodélicos, reforçando o peso das guitarras dentro do trabalho. Um bom exemplo disso está na faixa de abertura do disco, Dead Man’s Gun. Enquanto a voz de Dwyer flutua em meio a sussurros e vozes ásperas, guitarras velozes, íntimas do rock produzido na década de 1970, confirmam o peso do disco.

Ticklish Warrior, segunda faixa do álbum, é outra que surpreende pelo detalhismo das guitarras. Paredões imensos de ruídos que tanto apontam para o trabalho de veteranos como Dinosaur Jr. e Black Sabath, como para o som produzido por outros conterrâneos do rock californiano, caso de Ty Segall e Mikal Cronin. Um jogo de acordes rápidos, como uma escalada para o céu de reverberações psicodélicas que explode logo em seguida na cósmica Jammed Entrance.

Em Plastic Plant, quarta faixa do disco, Dwyer apresenta uma espécie de sobra do trabalho produzido no último ano, revelando uma avalanche de distorções e efeitos psicodélicos que fariam Kevin Parker, do Tame Impala, sentir inveja. A mesma ambientação caótica acaba se repetindo em Gelatinous Cube, composição que amarra toda o universo de referências exploradas pelo grupo nos últimos anos, porém, de forma acelerada, instável e louca.

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Artista: Carne Doce
Gênero: Indie, Rock Alternativo, Rock Psicodélico
Acesse: http://carnedoce.com/

Fotos: Rodrigo Gianesi

O caminho percorrido pelo Carne Doce em Princesa (2016, Independente) está longe de parecer o mesmo do trabalho que apresentou a banda em 2014. Ainda que a essência psicodélica do quinteto de Goiânia seja preservada em cada uma das canções do novo álbum, sobrevive na poesia feminista de Salma Jô, sussurros intimistas e instantes de puro experimento a base do presente trabalho. Uma colisão de fórmulas, ruídos e temas propositadamente instáveis, como se para além de um possível amadurecimento e da famigerada “prova do segundo disco”, o grupo continuasse a se reinventar.

Sem pressa, o novo álbum se espalha preguiçoso, detalhando cada fragmento de voz, batida ou acorde que escapa das guitarras de Macloys Aquino e João Victor Santana. Das 11 composições que preenchem o registro, quatro ultrapassam os seis minutos de duração, como se parte das ambientações testadas pela banda nas apresentações ao vivo fossem incorporadas em estúdio. Da abertura do disco, em Cetapensâno, passando por músicas como Carne Lab e Açaí, o grupo – completo com os músicos Ricardo Machado e Aderson Maia –, parece seguir em uma medida própria de tempo.

Esqueça o ritmo crescente de Serão Urbano e toda a aceleração que movimenta faixas como Passivo e a colorida Fruta Elétrica. Em Princesa, mesmo as canções mais “urgentes” do trabalho se perdem em meio a distorções, vozes maquiadas pelo forte uso de efeitos e instantes de completa incerteza. Uma clara mudança de direção que perturba pelo uso de músicas exageradamente extensas – vide Carne Lab, um imenso bloco com 10 minutos de duração bem no centro do álbum –, mas que acaba convencendo pela capacidade do grupo em não se repetir.

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Ponto central do disco, a poesia de Salma Jô se transforma e cresce durante toda a construção da obra. Bom exemplo disso está nos versos de Artemísia, música que discute de forma provocativa a temática do aborto, interpretando de maneira divina a responsabilidade assumida pelas mulheres. “Artemísia é a ideia de ‘meu corpo minhas regras’ levada ao máximo, ao ponto de ser assumidamente fantasioso, como se a dona do corpo fosse Deus. Quando nesta situação de decidir por um aborto, mesmo mulheres de muita fé escolhem romper com Deus por um momento, escolhem ser elas as maiores autoridades sobre as próprias vidas”, explicou em entrevista.

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Artista: Sammliz
Gênero: Rock, Rock Alternativo, Stoner Rock
Acesse: https://www.facebook.com/SammSammliz/

 

Fotos: Julia Rodrigues

Como vocalista do Madame Saatan, Sammliz e os parceiros de banda passaram grande parte da última década brincando com as possibilidades. Versos cantados em português, diálogos com a música regional produzida no Norte do país, e todo um conjunto de experimentos que bagunçaram o ambiente restritivo e, muitas vezes preconceituoso, do metal brasileiro. Um verdadeiro ensaio para o som que cresce livre no interior de Mamba (2016, Natura Musical), primeiro registro da cantora em carreira solo.

Denso do primeiro ao último acorde, o álbum de 10 faixas — primeiro registro da artista desde Peixe Homem (2011), ainda como integrante da Madame Saatan —, mostra Sammliz em um ambiente dominado pelas guitarras e versos obscuros. Personagem central da própria obra, a cantora sussurra, grita, encolhe e cresce a todo instante, mergulhando em uma série de ambientações que atravessam o rock da década de 1970 e rivalizam com o som de bandas como Queens of The Stone Age.

De fato, a relação com o material produzido por Josh Homme ecoa em diversos momentos da obra. Um bom exemplo disso está na segunda faixa do disco, Oya. Enquanto a letra da canção mergulha uma letra marcada pela subjetividade — “Sem trovões iguais em mim / Enquanto eu estou aqui / Sem trovões iguais em mim / Enquanto eu” —, guitarras robóticas, batidas e ruídos eletrônicos indicam a construção de um som urgente, íntimo de obras como Songs for the Deaf (2002) e …Like Clockwork (2013).

Ainda assim, está na música produzida há mais de quatro décadas a base para grande parte do trabalho apresentado pela cantora. Logo na homônima faixa de abertura, Sammliz mergulha em um oceano de temas psicodélicos, empoeirados e nostálgicos, detalhando de forma metafórica a transformação do próprio corpo em diferentes elementos da natureza e formas animalescas. Um verdadeiro delírio poético, estímulo para todo o catálogo de composições que surgem logo em sequência.

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Artista: Kyle Dixon & Michael Stein
Gênero: Synthpop, Ambient, Eletrônica
Acesse: http://survive.bandcamp.com/

 

O Senhor dos Anéis, referências aos filmes de Steven Spielberg, The Smiths, o terror de John Carpenter e Wes Craven, Star Wars, RPG, Goosebumps, os livros de Stephen King, The Clash, Alien: O Oitavo Passageiro, John Hughes, Os Goonies e toda uma coleção de referências nostálgicas. Se você cresceu nas décadas de 1980 ou 1990, talvez seja difícil não ser seduzido pela trama, doses concentradas de mistério e personagens que surgem em Stranger Things, série produzida pelos irmãos Matt e Ross Duffer – “Duffer Brothers” – para a Netflix.

Entretanto, para além dos limites do seriado, teorias, metáforas e personagens cativantes, sobrevive na trilha sonora da produção uma delicada homenagem à música produzida no mesmo período em que se passa a série. Em Stranger Things, Vol. 1 e Vol. 2 (2016, Lakeshore), os integrantes do S U R V I V E, Kyle Dixon e Michael Stein, se concentram na construção de um som não apenas climático e restritivo, mas que dialoga de forma natural com os instantes de tensão da obra, movimentando parte expressiva das cenas, diálogos e acontecimentos da trama.

Da homônima faixa de abertura da série – um jogo de texturas eletrônicas com pouco mais de um minuto de duração –, passando pelo clima aventureiro de Kids, o minimalismo sombrio de Eleven e Crying, até alcançar o suspense de músicas como The Upside Down, I Know What I Saw e Photos in the Woods, difícil ouvir a trilha sonora da série e não ser imediatamente transportado para o cenário de Hawkins, Indiana, onde se passa toda a ação de Stranger Things. Ruídos sintéticos, detalhes e batidas pontuais que cercam o ouvinte a todo o instante.

Donos de uma rica seleção de obras catalogadas no Bandcamp – como discos, singles e versões digitais de registros lançados em fita cassete –, Dixon e Stein incorporam parte do material produzido nos últimos anos para dentro da trilha de Stranger Things. Seja na produção de faixas mais curtas, caso de Fresh Blood e A Kiss, como na construção de peças extensas, vide Hawkins e No Weapons, durante toda a formação do álbum, pequena pontes atmosféricas incorporam a mesma ambientação detalhista explorada em obras como LLR002 (2010) e TLLT21 (2012).

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Artista: Of Montreal
Gênero: Indie, Eletrônica, Pop Psicodélico
Acesse: http://www.ofmontreal.net/

 

Em mais de duas décadas à frente do Of Montreal, Kevin Barnes não passou mais do que dois anos sem apresentar ao público um novo registro de inéditas. O resultado dessa produção constante está na composição de uma discografia marcada pela irregularidade. Obras que transbordam a criatividade do músico – vide o clássico Hissing Fauna, Are You the Destroyer? (2007) – e trabalhos que sufocam pela redundância – caso do recente Aureate Gloom (2015).

Novo álbum de inéditas do coletivo de Atlanta, Innocence Reaches (Polyvinyl), claramente se aproxima desse primeiro agrupamento de obras capazes de confirmar a força criativa de Barnes. Ancorado de forma explícita no mesmo pop psicodélico que a banda vem promovendo desde o final dos anos 1990, o trabalho de 12 faixas encanta não apenas pela essência nostálgica dos arranjos, mas pelos instantes em que a banda flerta com a música eletrônica.

Composição escolhida para inaugurar o disco, Let’s Relate sintetiza parte dos “experimentos” assumidos pelo grupo. Enquanto a voz robótica de Barnes explora a temática dos novos relacionamentos de forma cômica, sintetizadores e batidas dançantes aproximam a canção de um terreno essencialmente dançante, conceito também explorado em A Sport and Pastime, sexta música do disco. Difícil não lembrar de MGMT, Foster The People e outros nomes de peso da cena alternativa. Poucas vezes o Of Montreal pareceu tão pop, pegajoso.

O mesmo som grudento acaba se refletindo em It’s Different for Girls. Uma das melhores composições do músico norte-americano em tempos, a faixa que discute libertação sexual, machismo e a opressão sofrida diariamente pelas mulheres, transporte a temática do empoderamento para um ambiente que mesmo provocativo, mantém firme a mesma estrutura dançante e acessível que abre o trabalho. Impossível não ser arrastado pelas guitarras suingadas que costuram a canção do início ao fim.

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Artista: Aíla
Gênero: Rock, Alternativa, MPB
Acesse: http://www.ailamusic.com/

Foto: Julia Rodrigues

Rápido / Tá tudo rápido / Acelerado / Demasiado / O tempo, o vento, o oi, o tchau / Tchau”. A aceleração que marca os versos de Rápido, canção escolhida para apresentar o inédito Em cada verso um contra-ataque (2016, Independente), segundo registro em estúdio de Aíla, diz muito sobre o som explorado pela artista. Quatro anos após o colorido Trelelê (2012), obra que apresentou o trabalho da paraense, sobrevive na poesia política e progressista das canções a base do novo álbum.

Urgente e enxuto — são apenas nove faixas dissolvidas em pouco mais de 30 minutos de duração —, o trabalho que conta com produção assinada por Lucas Santtana apresenta ao público uma cantora parcialmente transformada, intensa. Logo na abertura do disco, a “punk” Clã da Pá Virada, música que dialoga com a essência raivosa de veteranos como As Mercenárias e acaba apontando a direção seguida pela artista durante parte expressiva da obra.

Em Lesbigay, segunda faixa do disco e músico composta em parceria com Dona Onete, um respiro leve. Entre ruídos eletrônicos e batidas capazes de arrastar o ouvinte para as pistas, Aíla explora a temática da libertação sexual, estreitando (musicalmente) a relação com o trabalho apresentado há quatro anos. Logo em seguida, passada a aceleração de Rápido, Será, quarta faixa do disco, traz de volta o trabalho para o conceito político/social alavancado pela cantora.

A mesma proposta acaba servindo de base para a amarga Tijolo, música que discute a corrupção dos próprios indivíduos, mergulha no cenário político do Brasil e sintetiza parte da angústia presente no álbum. Não por acaso a leve Melanina, faixa composta pelo paraibano Chico César, chega logo em sequência. Um descomplicado jogo de vozes, guitarras e batidas quentes que trata da temática racial de forma acessível, bem-humorada – “Você precisa urgentemente amor / De um amiguinho de cor”.

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Artista: Catavento
Gênero: Psicodélico, Garage Rock, Experimental
Acesse: http://www.honeybombrecords.com.br/catavento/ 

 

Ruídos, distorções e vozes maquiadas pelo uso de efeitos. Dois anos após o lançamento do primeiro álbum de estúdio, Lost Youth Against The Rush (2014), o coletivo gaúcho Catavento está de volta com um novo (e barulhento) registro de inéditas. Entre versos cantados em inglês e português, CHA (2016, Honey Bomb Records) indica a direção experimental assumida pela banda — hoje formada por Leo Rech (guitarra/vocal) Leo Lucena (guitarra/baixo/vocal), Du Panozzo (baixo/guitarra/vocal), Johnny Boaventura (teclados/vocal), Lucas Bustince (bateria) e Francisco Maffei (efeitos/teclados/vocal).

Por vezes íntimo da mesma psicodelia explorada nos últimos trabalhos de bandas como Boogarins e Bike, pouco a pouco, o presente álbum se distancia de outros exemplares da cena nacional por conta da forte carga de ruídos e ambientações etéreas que se espalham no interior da obra. Da abertura do disco, em Little Fishes, passando pelas melodias tortas de faixas como City’s Angels e The Sky, um turbilhão de cores e distorções sujas se chocam de forma a bagunçar a mente do ouvinte.

Claramente inspirado pelo trabalho de artistas como Ty Segall, Sonic Youth e Tame Impala, CHA é um registro em que as ideias convergem a todo instante. São apenas nove faixas, pouco menos de 40 minutos de duração, entretanto, parece difícil prever qualquer movimento da banda. Guitarras e vozes duelam a todo instante, paredões imensos de ruídos são levantados e destruídos sem ordem aparente, fazendo desse constante choque criativo a base de cada composição do registro.

Ainda que a poesia do disco esteja ancorados nas “dores e as delícias de entrar no mundo adulto”, como aponta o texto de apresentação do trabalho, mais do que um alicerce, as letras do álbum se revelam como um poderoso complemento musical. Ruídos abafados e cantos ecoados que atravessam os acordes sujos da obra, transportando o ouvinte para um cenário essencialmente onírico, subjetivo, conceito explícito no canto irregular de faixas como Red Lagoa e Thanks a Lot.

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Artista: Barro
Gênero: Alternativa, Indie, Pop
Acesse: http://barromusic.com/

 

Versos cantados em português, inglês, espanhol, francês e até em italiano. Arranjos que flertam com o pop nostálgico dos anos 1960, esbarram na música eletrônica, incorporam temas regionais e ainda encontram no rock um curioso alicerce. Versátil, assim pode ser encarado o som que abastece cada uma das canções de Miocárdio (2016, Independente), primeiro registro em carreira solo do músico Filipe Barros e uma das peças mas delicadas da recente safra da música pernambucana.

Mais conhecido pelo trabalho como integrante do Bande Dessinée, Barros, que aqui se apresenta como Barro, sem o “s”, parece costurar grande parte das experiências acumuladas em mais de uma década de atuação dentro da cena de Recife. Em cada uma das doze faixas do registro, fragmentos poéticos e instrumentais que mergulham em diferentes épocas, estilos e tendências musicais específicas. Um imenso jogo de experiências que dialoga diretamente com a colorida imagem de capa do álbum.

Acompanhado de perto pelo produtor Gui Amabis – artista que já trabalhou com nomes como Céu e Lucas Santtana –, Barro finaliza uma obra marcada em essência pelos detalhes. O arranjo de cordas em Despetalada e instrumentos de sopro na pegajosa Ficamos Assim. Sintetizadores e guitarras coerentemente encaixadas em Mata o Nego, a coleção de temas eletrônicos de Piso Em Chão de Estrelas. Da abertura ao fechamento do disco, um rico catálogo de texturas e colagens musicais.

Parte expressiva desse resultado vem da ativa interferência de um coletivo de artistas durante toda a formação da obra. Junto do músico, nomes como o baixista Dengue (Nação Zumbi), William Paiva, Rodrigo Samico, Jam da Silva, Gilú, Maurício Fleury e Ed Staudinger, este último, parceiro de Barros desde a Bande Dessinée e responsável pelos teclados que preenchem o disco. O resultado está na construção de um trabalho musicalmente diverso, inédito a cada nova composição.

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Artista: Toro Y Moi
Gênero: Alternative, Electronic, Psychedelic
Acesse: http://toroymoi.com/  

 

Poucos artistas tiveram um amadurecimento tão grande nos últimos anos quanto Chazwick Bundick. Oficialmente apresentado ao público durante o lançamento de Causers of This (2010), primeiro registro do Toro Y Moi em um selo de médio porte, o cantor, produtor e multi-instrumentista norte-americano fez de obras como Underneath the Pine (2011) e Anything in Return (2013) dois importantes registros para a nova geração do Funk/R&B estadunidense, abocanhando uma parcela ainda maior do público com a chegada do comercial What For?, trabalho apresentado ao público em abril do último ano.

Depois de uma sequência de grandes obras — incluindo as compilações June 2009 (2012) e Samantha (2015), além da série de EPs e do trabalho como Les Sins, Michael (2014) —, Bundick organiza a própria discografia e sintetiza parte das canções produzidas nesse intervalo dentro do especial Live From Trona (2016, Carpark records). Um registro ao vivo, gravado durante uma apresentação do músico nos Pináculos De Trona, no meio do deserto californiano.

Claramente inspirado no clássico Pink Floyd: Live at Pompeii, de 1973, e até em projetos recentes, como o especial Forever Still, do Beach House, gravado em um ambiente similar, o trabalho que contou com a direção Harry Israelson mostra a relação de proximidade entre Bundick e os companheiros de banda. Livre da presença do público, o coletivo se concentra na coesa execução dos arranjos e vozes, deixando para as imagens de Israelson a ativa interferência da própria equipe de filmagem, visível durante toda a execução da performance.

Por conta da ausência do público e da explícita limpidez das captações, Live From Trona é um trabalho que se distancia de outros registros gravados ao vivo, dependendo (e muito) do apoio das imagens. Qual o sentido de apreciar a obra e não observar o duelo entre os integrantes da banda e o cenário desértico que os cerca? Durante toda a apresentação, Israelson se concentra em mostrar a passagem do tempo, revelando a atuação do grupo em um cenário que vai do ensolarado início de tarde ao anoitecer.

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Artista: Haicu
Gênero: Indie, Alternative, Experimental
Acesse: https://soundcloud.com/haicuduo

 

Vozes delicadas, arranjos contidos e versos marcados em essência pela angústia. Assim pode ser resumido o trabalho produzido pela dupla Pedrinhu Junqueira e Júlia Shimura dentro do primeiro álbum de estúdio como Haicu. Fruto de uma coleção de versos e experimentos musicais desenvolvidos pelo casal durante o intervalo de um ano, o registro de 13 composições inéditas parece crescer sem pressa, orgânico, detalhando cenas, desejos e acontecimentos corrompidos pelos sentimentos.

Inspirado pela poesia japonesa — os “haikais” como são conhecidos no Brasil —, o trabalho de rimas simples se projeta em meio a vozes cíclicas, ora intimistas, ora desorientadas, como fragmentos espalhados de forma propositadamente inexata pelo interior do disco. Sussurros românticos (“Não sei mais dizer se é fio do meu / se é fio do seu cabelo grudado no azuleio”) e melancólicos (“nada vai ser igual sem o seu Carnaval”) que cercam, provocam e acolhem o ouvinte.

Entre poemas que amarram versos em português, inglês e japonês, Junqueira e Shimura acabam detalhando a construção de um cenário urbano, atual. São histórias de amor (Never Die), relatos de abandono (Fall) e até confissões que parecem surgir do cotidiano do próprio casal (Amor). Da abertura ao fechamento do disco, um delicado ziguezaguear de inspirações que dialoga de forma natural com a sonoridade versátil do disco, curiosa e parcialmente inédita a cada nova composição.

Ainda que as inaugurais Leve e Nada Vai indiquem a predileção da dupla pela Bossa Nova, conceito explícito no movimento tímido dos arranjos e vozes, à medida que o disco se expande, crescem as possibilidades e sons incorporados pelo casal. Composições que flertam com a Tropicália – principalmente os trabalhos em parceria entre Caetano Veloso e Gal Costa –, atravessam a década de 1970 e alcançam o presente cenário corroídas por instantes breves de experimento.

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