Category Archives: Resenhas

Disco: “Fortaleza”, Cidadão Instigado

Cidadão Instigado
Rock/Alternative/Psychedelic
http://www.cidadaoinstigado.com.br/

Climáticos, os sintetizadores crescem lentamente. Ao fundo, guitarras espalham ruídos, sem pressa ou possíveis exageros. A bateria ocupa espaço com timidez, abrindo passagem para que a voz de Fernando Catatau ecoe de forma clara, como um suspiro aliviado: “até que enfim”. Com os pés firmes no chão, passados seis anos desde o lançamento do último álbum de estúdio, Uhuuu! (2009), o grupo cearense Cidadão Instigado deixa de lado do som experimental (e lisérgico) dos primeiros trabalhos para investir em uma obra pontuada pela saudade, melancolia e completa lucidez.

Fuga dos temas e arranjos complexos testados desde a boa fase em O Ciclo da Decadência (2002) e Cidadão Instigado e o Método Túfo de Experiências (2005), com recém-lançado Fortaleza (2015, Independente) a banda – completa com Regis Damasceno, Clayton Martim, Rian Batista e Dustan Gallas – revela ao público uma sonoridade talvez “simples”, mas não convincente. Livre da estrutura torta e limitadora de faixas como O Pinto de Peitos e Deus É Uma Viagem, o canto triste de Catatau se despe do manto colorido, transporta o ouvinte para um cenário obscuro e ainda cria brechas acessíveis aos mais variados público.

Quem esperava por uma possível continuação dos temas cósmicos testados no disco de 2009 talvez se decepcione. Salve exceções, da abertura ao fechamento, guitarras, batidas e toda os arranjos que preenchem a obra são tratados com sobriedade e expressivo “controle” por parte dos integrantes. A herança da década de 1970 – principalmente Pink Floyd – ainda é a mesma, entretanto, o caminho percorrido agora é outro. Mesmo a essência regional de artistas como Fagner e Zé Ramalho parece alterada no interior das canções, como se a longa relação do grupo com a cidade de São Paulo cobrisse todas as lacunas da obra com tons de cinza.

Em se tratando dos versos, um amadurecimento. Basta um passeio pelo romantismo que cobre Besouros e Borboletas para ser atraído pela temática amarga e sempre particular de Catatau. “Me diga o que passou que eu procuro pra você /  Em cantos que eu nem vou / Só pra você perceber / Que estou mais velho”, entrega o melancólico vocalista, ainda íntimo da mesma essência confessional carimbada em clássicos como Lá Fora Têm…, O Tempo, Dói e demais exemplares do puro sofrimento que há tempos cerca os versos da banda.

Mais do que um caricato dramalhão romântico, temas sociais, urbanos e até existencialistas aos poucos se espalham pelo registro. Em Quando a Máscara Cai, por exemplo, o sempre “pacifico” Fernando Catatau assume uma postura quase raivosa, esbravejando em versos como “Vou arrancar Zé Doidim tua máscara / Só pra te ver desorientado / Como tu vais fazer para se esconder?”. A utilização de versos em inglês reflete outro aspecto curioso da obra. Tanto Green Card quando Land Of Light entregam ao público uma banda confortável, longe do idioma local. Sobram ainda faixas que traduzem a saudade em relação à cidade de origem do coletivo, Fortaleza, referência que ultrapassa a própria faixa-título do trabalho e se esconde em pontos estratégicos de toda a obra.

Misto de ruptura e transformação, Fortaleza mostra um grupo remodelado, tão curioso e atento quanto há dez anos, quando passou a receber maior atenção da imprensa especializada. Do dedilhado tímido que preenche o cancioneiro em Perto de Mim, ao som raivoso, quase “punk”, esculpido pelas guitarras de Quando a Máscara Cai, inúmeros são os caminhos (e sonoridades) incorporados pela banda, seguramente capaz de condensar maturidade e jovialidade até a derradeira Lá Lá, Lá Lá Lá Lá. Como entrega o vocalista no primeiro verso do disco: “até que enfim”.

Fortaleza (2015, Independente)

Nota: 8.6
Para quem gosta de: Siba, Céu e Pélico
Ouça: Besouros e Borboletas, Perto de Mim e Até Que enfim

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Disco: “Platform”, Holly Herndon

Holly Herndon
Experimental/Avant-Garde/Electronic
http://www.hollyherndon.com/

Vozes recortadas de forma abstrata e encaixadas sem ordem aparente; sintetizadores ambientais, ruídos eletrônicos e batidas movidos pelo etéreo; gritos, sussurros e provocações. Quem acompanha o trabalho de Holly Herndon sabe que o “óbvio” passa longe dos arranjos assinados pela artista. Misto de personagem e matéria-prima da própria obra, ao alcançar o recente Platform (2015, 4AD), segundo trabalho em carreira solo, a compositora norte-americana dá um passo além em relação aos últimos lançamentos de estúdio, colidindo melodias, conceitos e até imagens dentro de um cenário que parece modificado a todo o instante.

Primeiro registro de Herndon lançado por um selo de médio porte – 4AD Records, casa de Grimes, St. Vincent e Ariel Pink -, Platform pode até seguir a trilha do álbum antecessor Movement, de 2012, entretanto, aos poucos revela evidências sobre os novos interesses da artista. Ainda que a voz seja o principal ingrediente da obra, refletindo a mesma temática orgânica do disco passado, cada ato, canto ou melodia torta de Herndon encontra no uso de temas eletrônicos um sustento renovado. Ruídos, manipulações e até batidas eletrônicas que apontam a lenta “digitalização” da artista – preferência que se estende da faixa de abertura ao visual futurístico que aparece na capa do álbum.

Sem começo, meio ou final, Platform parece brincar com a linearidade de um registro comum. De fato, grande parte das faixas crescem substancialmente quando observadas além dos limites das melodias, invadindo o campo das imagens. Música (ou clipes) como Chorus, Home e Interference; pequenos ambientes criativos onde Herndon se transforma em instrumento para o trabalho de diferentes diretores. Diálogos com diferentes mídias, porém, incapazes de prejudicar a autonomia musical do trabalho – uma interpretação particular da artista em relação a elementos da música pop ou mesmo da cultura de internet.

Mais do que um experimento particular, Herndon autoriza a interferência de diversos colaboradores. Conterrâneos da música californiana – caso de Spencer Longo em Locker Leak -, representantes da cena nova-iorquina – como Colin Self em Unequal -, ou mesmo nomes que ultrapassam os limites da música, posto reforçado pela presença de Akihiko Taniguchi, responsável pela criação do software utilizado pela musicista em boa parte trabalho. Até a identidade visual que ocupa o encarte do álbum – projeto assinado pela agência Metahaven – pode ser encarada como um instrumento complementar para o registro. Continue reading

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Disco: “Why Make Sense?”, Hot Chip

Hot Chip
Electronic/Dance/Synthpop
http://www.hotchip.co.uk/

Depois de cinco álbuns de estúdio – Coming on Strong (2004), The Warning (2006), Made in the Dark (2008), One Life Stand (2010), In Our Heads (2012) -, apresentações agendadas pelos quatro cantos do planeta e um dos acervos mais criativos da música atual – Over and Over, Boy From School, Ready for the Floor, Take It In -, seria natural que o Hot Chip sufocasse pelo peso da própria obra. Entretanto, em um sentido oposto ao de grande parte da nova safra de artistas – músicos e produtores incapazes de mantar a coerência depois do segundo ou terceiro disco -, o coletivo britânico não apenas confirma a boa forma, como parece longe de errar o passo dentro ou mesmo fora das pistas de dança.

Bastam os cinco minutos de Huarache Lights, faixa de abertura do sexto e mais recente trabalho do grupo para que o ouvinte seja “seduzido”. Em Why Make Sense? (2015, Domino), obra lançado depois de um hiato de três anos desde o último disco – período mais longo até então -, Alexis Taylor, Joe Goddard e demais parceiros de banda ultrapassam os limites da própria maturidade, aproximando o Hot Chip de todo um novo mundo de possibilidades, ritmos e referências musicais.

Um pouco mais “lento” em relação ao som eufórico do antecessor In Our Heads, de 2012, Why Make Sense? assume de forma transformada boa parte da sonoridade incorporada no álbum de 2010, One Life Stand, encaminhando o ouvinte para o começo dos anos 1990. Ainda que a eletrônica pareça servir de alicerce para a obra, está no diálogo com o R&B, pop e Hip-Hop (do mesmo período) o real sustento das canções. Uma verdadeira coleção de temas adaptados, porém, incapazes de distorcer as habituais melodias e versos sempre limpos do grupo.

Longe de parecer novidade, mesmo a expressiva relação do Hot Chip com a música dos anos 1970 – principalmente o Funk e a Disco Music – aos poucos assume novo enquadramento dentro de Why Make Sense?. Do arranjo de cordas (sampleado) em Dark Night, passando pelo coro de vozes em Easy To Get, ao uso de guitarras comportadas em Started Right, toda a base dançante dos últimos registros desacelera, muda de direção e ainda serve como estímulo para os versos tristes que se estendem até o registro complementar Separate EP. Continue reading

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Disco: “Ivy Tripp”, Waxahatchee

Waxahatchee
Indie/Singer-Songwriter/Alternative
http://www.waxahatcheemusic.com/

No universo criado por Katie Crutchfield não existem brechas para a construção de personagens, atos fantasiosos ou distorções poéticas capazes de ocultar a presença da cantora, guitarrista e personagem central da obra. Tudo gira em torno da mente perturbada e memórias nostálgicas da musicista, autora e protagonista de uma obra ampla, em pleno processo de montagem, mas que encontra em Ivy Tripp (2015, Wichita Recordings / Merge Records) um respiro leve, como um novo ponto de partida.

Para aqueles que acompanham o trabalho do Waxahatchee desde a estreia com American Weekend, em 2012, basta um passeio rápido pelo disco para perceber Ivy Tripp como um diálogo ainda mais expressivo com os sons, temas e referências explorados na década de 1990. Salve o reforço na utilização de arranjos mais “lentos”, quebrando a base enérgica do disco anterior, Cerulean Salt (2013), Crutchfield continua a brincar com a essência de Liz Phair, Kim Deal e outras veteranas de forma criativa, utilizando dessa temporária “desaceleração” como um estímulo para expandir ainda mais os próprios conceitos.

Dos versos iniciais, em Breathless – “Você olha para mim como se eu fosse uma rosa / Cantando uma canção que você não conhece” -, ao último suspiro da obra, com Bonfire – “Ele disse vá em frente / Eu digo vá em frente” -, Crutchfield não apenas reforça o papel de protagonista do trabalho, como ainda utiliza de cada canção espalhada como uma perturbadora ferramenta de confissão e exposição sentimental, detalhando desilusões amorosas, medos e tormentos recentes.

A julgar pela expressiva ausência de “linearidade” do disco, não seria um erro interpretar o presente álbum de Waxahatchee como uma coletânea de faixas ancoradas em toda uma variedade de pesadelos típicos de jovens adultos. Assim como em Cerulean Salt, obra também marcado pelo relato pessoal de Crutchfield, nada que ecoe de forma dramática. Mesmo nos instantes mais confusos e densos da obra, o apelo melódico das guitarras mantém a atenção do ouvinte em alta, sempre preso aos versos e arranjos acessíveis de cada canção. Continue reading

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Disco: “The Epic”, Kamasi Washington

Kamasi Washington
Jazz/Experimental/Funk
http://kamasiwashington.com/

Imenso. Não existe palavra que melhor sintetize o trabalho de Kamasi Washington em The Epic (2015, Brainfeeder) do que esta. Em um longo exercício orquestral que se estende por três discos, 17 faixas e quase três horas de duração, o saxofonista californiano não apenas se mostra capaz de prender a atenção do ouvinte, como ainda transporta a mente (e alma) do espectador para diferentes décadas, campos e experiências sustentadas pelo Jazz. Um caminho – ou mundo? – de possibilidades irrestritas, crescendo desde a raiz plantada no campo fértil de Herbie Hancock, John Coltrane e Miles Davis, até alcançar a copa da árvore compartilhada com diferentes membros do selo Brainfeeder – caso de Steve Ellison (Flying Lotus), Stephen Bruner (Thundercat).

Convidado a integrar o time de instrumentistas que deram vida ao último álbum de Kendrick Lamar, o clássico imediato To Pimp a Butterfly (2015), Washington, músico profissional desde a década de 1990, brinca de forma curiosa com os mesmos temas políticos, culturais e sociais ressaltados pelo conterrâneo no presente disco. A diferença? Enquanto o rapper sustenta nas rimas e pequenos recortes sampleados um acervo de referências extraídas em mais de cinco décadas de transformações dentro da cultura afro-americana, Kamasi vai ainda mais longe, brincando com arranjos e adaptações instrumentais que costuram diferentes campos da música estadunidense – principalmente o Funk e o Jazz -, abraçam a essência da cultura africana e borbulham como novidade em cada ato isolado do trabalho.

Como o autor de um típico clássico do jazz nos últimos anos 1950 e começo da década seguinte, Kamasi Washington está longe de parecer o personagem central da obra. Pelo contrário, do corpo de vozes que sustentam a faixa de abertura (Change of The Guard), passando pelo canto sublime em (The Rythm Changes) até o trompete em Miss Understanding ou pianos de The Magnificent 7, cada faixa do álbum abre passagem para um time de colaboradores vindos de diferentes campos da música brinquem com o disco. Nomes como Miguel Atwood-Ferguson (cordas), Ronald Bruner (bateria) e Stephen Bruner (baixo) que não apenas servem de apoio para a condução de The Epic, como ainda apontam a direção que o álbum deve seguir.

Embora dividido em três atos/discos específicos, The Epic está longe de parecer um trabalho linear, apoiado em uma cena ou conceito imutável. Tão logo a seleção de metais invade de forma calorosa o eixo inicial da obra, difícil encontrar sustento em um ponto único e (talvez) limitador. De fato, o mesmo som funkeado que aparece em Askim, segunda faixa do primeiro álbum ainda é o mesmo em Re Run Home, canção de abertura do terceiro bloco da obra; uma preferência que em nenhum momento interfere no continuo ziguezaguear de referências que costuram a obra. R&B, Jazz Clássico, Free Jazz, Funk ou Soul: abandone os rótulos, deixe apenas que Washington e o time de convidados brinquem com sua mente em cada curva rítmica do disco. Continue reading

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Disco: “No Meu Peito”, Luneta Mágica

Luneta Mágica
Indie/Alternative/Indie Pop
https://www.facebook.com/bandalunetamagica

“Experimental”, “Alternativo”, “Eletrônico”, “Indie” e “Folk”. Esses são alguns dos rótulos escolhidos pelos integrantes da Luneta Mágica para definir a sonoridade produzida pela banda. Curioso perceber no segundo registro de inéditas do coletivo amazonense, No Meu Peito (2015, Invern Records), uma obra esquiva de toda essa pluralidade “restritiva” de conceitos. Como uma fuga de possíveis experimentos e bloqueios estéticos lançados no inicial Amanhã vai ser o melhor dia da sua vida (2012), um caminho marcado pela leveza orienta de forma positiva os passos e referências do hoje renovado quarteto de Manaus.

Por vezes íntimo do pop “clássico”, o novo trabalho de Pablo Araújo (vocal e guitarra), Erick Omena (guitarra), Eron Oliveira (bateria) e Diego Souza (baixo e teclado) borbulha em meio a bases melódicas, vocais tratados de forma polida e versos que se espalham descomplicados, ocupando sem esforços a mente do ouvinte. Em um explícito exercício de maturidade, toda a soma de argumentos complexos lançados no álbum de 2012 é logo derrubada na primeira composição, resultando em uma corredeira de emanações acolhedoras, acessíveis aos mais variados públicos. Beatles e The Beach Boys surgem de forma quase instintiva, como pilares, entretanto, é na formação de som próprio da Luneta Mágica que reside o grande acerto da obra.

Inaugurado pela timidez da reclusa faixa-título, No Meu Peito logo explode em cores, acordes e vozes marcadas pela euforia. Basta um passeio pela efetiva trinca de abertura da obra – Lulu, Acima das Nuvens e Mônica – para imediatamente cair na arapuca melódica que o quarteto reforça até o último ato do trabalho. Canções capazes de resgatar o hoje esquecido conceito de “música radiofônica”, preferência que involuntariamente mergulha no mesmo ambiente acessível de gigantes como Skank – em Maquinarama (2000) e (2001) Cosmotron (2003) – e Los Hermanos – Ventura (2003) -, mas sem necessariamente interferir na construção de uma sonoridade autoral.

Rico catálogo de hits, mesmo abastecida pelo pop e melodias radiantes, No Meu Peito é uma obra que assume dois caminhos distintos. Na primeira metade do registro, uma coleção de versos sentimentais e arranjos ensolarados, como um diálogo leve da banda com toda uma nova frente de ouvintes. A partir de Preciso, sexta composição da obra, um completo deslocamento desse mesmo propósito. A julgar pelo uso de vocais e bases “sujas”, uma extensão simplificada do arsenal temático lançado no disco anterior. Conceitos que mergulham na psicodelia (Mantra), remontam velhas bases eletrônicas (Sem Perceber) e, pela primeira vez, refletem de forma provocativa o rótulo de obra “experimental” que a banda defende. Continue reading

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Disco: “1977”, Wado

Wado
Alternative/Indie/Nacional
http://wado.com.br/

Fotos: Pedro Ivo Euzébio

Desde os iniciais Manifesto da Arte Periférica (2001) e Cinema Auditivo (2002) que as guitarras não recebiam tanto destaque dentro de um trabalho de Wado como em 1977 (2015, Independente). Registro que carrega no título o ano de nascimento do artista catarinense/alagoano, o oitavo álbum de inéditas de Wado está longe de parecer uma obra nostálgica. Pelo menos dentro do universo particular do cantor. Em um diálogo rápido com o (punk) rock e todo o cenário montado no mesmo período, o músico sustenta em cada faixa do disco sua obra mais dinâmica e “raivosa”.

Fuga da atmosfera eletrônica reforçada entre Terceiro Mundo Festivo (2008) e Samba 808 (2011), além de um completo desligamento do som acústico de Vazio Tropical (2013), então último álbum de Wado, o presente disco mostra um artista (mais uma vez) reformulado, capaz de brincar com a própria essência de forma curiosa. Como define o próprio texto de apresentação do trabalho: “o norte sem norte: o não se repetir”. Mas será que tudo em 1977 é tão novo assim?

Mesmo que a parte inicial da obra autorize a entrada de guitarras sujas e distorcidas, raras dentro da (extensa) discografia do músico, durante todo o desenvolvimento do trabalho, resgates e pequenas adaptações dos últimos discos de Wado são reforçados de forma evidente. Dos pianos melancólicas em Menino Velho ao toque doce de Palavra Escondida – talvez sobras do último disco -, tudo se dissolve em uma ambientação acolhedora, como uma nova curva dentro da quebra brusca que abre o disco.

Não é preciso muito esforço para interpretar o novo álbum de Wado como um obra de dois lados bem definidos. Na primeira metade: a crueza. São faixas como Deita, Lar e Cadafalso – está última, faixa-título do último álbum de Momo. Instantes em que a “raiva”, esquiva no último disco do cantor, cresce com acerto e movimento para os versos. Na segunda parte: a leveza. Difícil não se emocionar com composições como Um Dia Lindo de Sol e Mundo Hostil, faixas que dosam descrença e esperança com uma naturalidade rara dentro do rico acervo do compositor. Continue reading

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Disco: “Dancê”, Tulipa Ruiz

Tulipa Ruiz
Pop/Female Vocalists/Alternative
www.tuliparuiz.com.br/

Aos gritos de “Começou! Começou!”, Tulipa Ruiz anuncia: o acesso à pista de dança foi liberado. Fuga evidente do “pop florestal” que apresentou a cantora paulistana em Efêmera, de 2010, Dancê (2015, Natura Musical) não apenas reforça o caráter urbano que orienta o trabalho da artista desde o último álbum de estúdio, Tudo Tanto (2012), como entrega ao público uma cantora renovada, mais uma vez atenta ao som pop dos primeiros registros, porém, descomplicada e, claro, dançante.

Quem esperava pela produção de um som “regional” por parte de Ruiz, marca explícita no ritmo carnavalesco de Megalomania ou na recente colaboração com o paraense Felipe Cordeiro, em Virou, encontrará o oposto. Da flexibilidade das guitarras ao posicionamento enérgico dos vocais, dos versos que discutem temas cotidiano ao transparente véu eletrônico que cobra parte do trabalho, Ruiz caminha pelas pistas da capital paulista de forma a produzir um som homogêneo, quase acizentado, como uma fuga da atmosfera “hippie” lançada em faixas como A ordem das árvores ou Efêmera. Curioso pensar que parte expressiva do recente trabalho foi concebido no isolamento de uma casa de campo, no interior de São Paulo.

Contrário ao efeito causado pelo próprio título, Dancê está longe de parecer um arrasa-quarteirões das pistas de dança, pronto para ser tocado em qualquer balada. Ainda que músicas como inaugural Prumo e Físico praticamente obriguem o ouvinte a balançar o esqueleto, do primeiro ao último ato, o terceiro álbum de Tulipa parece feito para dançar com calma, livre de excessos ou diálogos exagerados com a eletrônica. Trata-se de um passeio por diferentes décadas e campos da música “dançante”; uma extensão controlada (e nada caricata) do mesmo som pop produzido pelo amigo Rafael Castro em Um Chopp e um Sundae, obra também apresentada em 2015.

Longe de parecer um trabalho de ruptura, ineditismo e profunda transformação dentro da carreira da cantora, Dancê soa muito mais como uma reciclagem de conceitos. A julgar pela estrutura montada (principalmente) para os vocais e versos rápidos do disco, muito do que sustenta a obra descende de faixas como Às Vezes, do primeiro álbum, além de Quando Eu Achar e É, do segundo disco. Músicas regidas pelo espírito das apresentações ao vivo da cantora, preferência que alimenta mesmo as canções mais tímidas do novo disco, caso da jazzística Tafetá ou mesmo a macambúzia Oldboy, penúltima faixa do registro. Continue reading

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Disco: “Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit”, Courtney Barnett

Courtney Barnett
Indie Rock/Alternative/Singer-Songriter
http://courtneybarnett.com.au/

O ano é 1995. No campo da música, o grunge dá seus últimos suspiros, deixando o caminho livre para o duelo “pomposo” do Britpop entre Blur e Oasis. Depois de meia década de “domínio masculino” dentro das rádios, programação da MTV e revistas de música, um time de vozes femininas – inspiradas por PJ Harvey, Kim Deal e Liz Phair – começaram a ocupar território. De Alanis Morissette ao trabalho da islandesa (e já veterana) Björk, dos gritos de Gwen Stefani no No Doubt aos berros de Shirley Manson na estreia do Garbage, há 20 anos, todos os holofotes se voltaram para elas.

Curioso perceber que mesmo passadas duas décadas desde a explosão de novos representantes do “rock feminino”, Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit, estreia solo da australiana Courtney Barnett, ainda preserva parte da mesma essência de músicas lançadas durante o período. Versos temperados com sarcasmo, guitarras tratadas com euforia, além de um universo de temas tão joviais e descomplicados, que Barnett parece até cantar sobre o cotidiano do espectador.

Passo além em relação ao material apresentado em The Double EP: A Sea of Split Peas, de 2013, a estreia solo de Courtney Barnett se liberta de possíveis amarras para flutuar em um plano leve, como uma transcrição de pensamentos recentes da artista. Em se tratando dos arranjos, a maior liberdade na construção das bases, com guitarras potencialmente dinâmicas, quase dançantes, além da exposição de vocais limpos, como se a cantora buscasse se aproximar de toda uma nova parcela do público. Não por acaso o ambiente “Lo-Fi” de músicas já conhecidas como Out of the Woodwork e Avant Gardener parece esquecido, aproximando o disco de todo um novo jogo de essências.

Habitante do mesmo ambiente temático de Katie Crutchfield (Waxahatchee), Sadie Dupuis (Speedy Ortiz), Mackenzie Scott (Torres) e diferentes “herdeiras” da música lançada no meio dos anos 1990, Barnett, está longe de produzir um som referencial e copioso. Musicalmente, a semelhança com a obra de Liz Phair, Pavement e outros gigantes do rock alternativo é inevitável, entretanto, basta se concentrar nos versos da cantora, capaz de brincar com a própria timidez (Nobody Really Cares If You Don’t Go to the Party) e metáforas sobre a morte (Dead Fox), para perceber que ela não depende de nenhum nome ou ponto específico de referência. Continue reading

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Disco: “PC Music, Vol. 1″, Vários Artistas

PC Music
Pop/Electronic/Experimental
http://pcmusic.info/

Quais são os limites do pop? Essa é a pergunta que o coletivo londrino PC Music busca responder no decorrer da primeira coletânea oficial, PC Music, Vol 1. Jogo de texturas, vozes e arranjos lançados de forma sempre esquizofrênica, o curto acervo – são apenas dez faixas – mais parece um reflexo da presente transformação dentro da música pop britânica. Um espaço conceitual em que referências de um passado recente se encontram com experimentos futurísticos, provocando a interpretação do ouvinte sem escapar de um típico produtor comercial, naturalmente pronto para as pistas.

Síntese de todo o material lançado pelo selo desde o começo do último ano, o álbum de apenas 30 minutos pode não parecer uma novidade aos velhos seguidores do coletivo, entretanto, soa como eficiente cartão de visitas para quem desconhece o colorido universo do grupo de produtores. Every Night, Wannabe, In My Dreams ou Keri Bronze, não importa qual a faixa escolhida, como a bebida plástica “lançada” em Hey QT–  projeto dissidente formado por A. G. Cook e SOPHIE -, cada “dose” da enérgica coletânea soa como incentivo para explorar ainda mais os conceitos de cada colaborador.

Longe de parecer um mero livro de recortes, com artistas encaixados de forma aleatória, da abertura ao fechamento, nítido é o esforço do grupo – encabeçado por A. G. Cook – em selecionar composições musicalmente aproximadas. Além da euforia pop que abre e finaliza o disco, elementos resgatados do R&B e todo o cenário musical lançado nos anos 1990 servem de cola temática para o material homogêneo do trabalho. Não por acaso, Spinee, Dux Content e demais artistas que “escapam” desse mesmo universo foram deixados de fora da primeira edição da série.

Em se tratando da estrutura “montada” para o álbum, dois elementos bem específicos. De um lado, a utilização versátil dos sintetizadores e batidas eletrônicas, tendência que “flerta” de forma acessível em cima de uma interpretação “pegajosa” da IDM. No outro oposto, a manipulação dos vocais, referência que transforma o time de “vocalistas” da coletânea em um mesmo “personagem” robótico, andrógino e íntimo do resultado provocativo que o coletivo britânico busca alcançar sonora e visualmente. Continue reading

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