Category Archives: Resenhas

Disco: “Piacó″, Iconili

Iconili
Nacional/Afrobeat/Instrumental
http://iconili.com.br/

A pluralidade de conceitos retratados em Tupi Novo Mundo EP (2013) parece ser apenas a ponta do iceberg colorido que sustenta o trabalho da Iconili em Piacó (2015, Independente). Partindo de uma mistura frenética de ritmos e diferentes temas instrumentais, ao abrir as portas do novo registro de inéditas do grupo mineiro, o ouvinte é instantaneamente soterrado por uma avalanche de temas e essências musicais. Referências que vão da música brasileira ao jazz norte-americano, sem necessariamente abandonar os laços cada vez mais estreitos com a cultura africana.

São 11 integrantes – André Orandi (Órgão e Sax Alto), Rafael Mandacaru (Guitarra), Gustavo Cunha (Guitarra), Victor Magalhães (Trompete), João Gabriel Machala (Trombone), Henrique Staino (Sax Tenor), Lucas Freitas (Sax Barítono), Willian Rosa (Baixo), Caio Plínio (Bateria), Rafa Nunes (Percussões) e Nara Torres (Percussões) -, artistas que não apenas atuam de forma complementar, movimentando os mais de 50 minutos do registro, como assumem posições de destaque no interior da obra, interferindo diretamente no crescimento do álbum.

Em Gentil, o nítido domínio das guitarras, instrumento que cria pequenas brechas momentâneas para a completa interferência dos metais, quase carnavalescos, dançantes. As batidas ganham ainda mais destaque em faixas como Vinicius, composição que aponta os holofotes para o time de percussionistas do coletivo. Sobram ainda faixas em que o domínio dos instrumentos de sopro prevalece, caso de Odaniô, além de músicas como Preta de Tataqui, música montada em cima de pequenos solos isolados, como diálogos (ou duelos) entre os próprios integrantes.

Tamanha interferência de ritmos e essências musicais acaba dividindo o álbum em duas frentes específicas. Como explícito logo em Jorge Botafogo, canção e abertura do trabalho, a busca por um som festivo, quente e dançante. Preferência que não apenas segue a trilha do trabalho anterior do grupo, como ainda estreita a relação da banda com os paulistanos da Bixiga 70. A diferença está na forma como o grupo mineiro mantém firme a relação com os arranjos explorados em diferentes campos da música africana, escapando sutilmente do mesmo soul/funk reforçado pelo grupo de São Paulo – principalmente no último disco de inéditas, lançado há poucos meses. Continue reading

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Beach House: “Sparks”

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A busca por um som cada vez menos complexo e de essência melódica continua a servir de base para os trabalhos assinados pela dupla Beach House. Na trilha segura do transformador Teen Dream, de 2010, em Depression Cherry (2015), quinto registro de inéditas, Victoria Legrand e Alex Scally dão um passo além em relação aos últimos discos, investindo de forma explícita uso sujo das guitarras, porém, sem necessariamente escapar do som angelical, etéreo, projetado desde o homônimo debut, de 2006, base para a recém-lançada Sparks.

Sobreposições de voz e guitarras, sintetizadores ruidosos e atos tão serenos quanto explosivos. Em mais de cinco minutos de composição, difícil não perceber o continuo cruzamento de temas e referências dentro da nova criação da dupla, cada vez mais próxima do rock alternativo dos anos 1990. Difícil não lembrar de gigantes como My Bloody Valentine, Rocketship e Slowdive, referências que lentamente distanciam o Beach House do alicerce sustentado por Galaxie 500 e outros representantes do Dream Pop nos anos 1980.

Em geral, esse registro mostra um retorno à simplicidade, com canções estruturadas em torno de uma melodia e alguns instrumentos… Aqui, nós continuamos a evoluir, ignorando completamente o contexto comercial em que estamos inseridos“, disse a vocalista no texto de apresentação da obra. Previsto para estrear no dia 28 de agosto pelo selo Sub Pop, Depression Cherry é o primeiro álbum de inéditas do casal desde o grandioso Bloom, obra apresentada em 2012 e um dos projetos mais “comerciais” já apresentados pela banda.

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Beach House – Sparks

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Disco: “Euforia”, Pélico

Pélico
Nacional/Indie/Alternative
http://www.pelico.com.br/

Daryan Dornelles

Pélico respira aliviado. Quatro anos depois de juntar os cacos do próprio coração e colecionar versos entristecidos no segundo álbum de estúdio, Que Isso Fique Entre Nós (2011), o cantor e compositor paulistano finalmente parece ter encontrado um espaço (ou alguém) para sorrir. Caminho seguro para a continua exposição dos próprios sentimentos, Euforia (2015, Independente) revela um compositor que mesmo íntimo das experiências mais dolorosas, típicas de uma separação recente, acerta o passo, muda de direção e aposta no recomeço.

De ritmo eufórico, como o próprio título indica, o novo álbum lentamente resgata a mesma combinação melódica incorporada pelo músico no primeiro trabalho de inéditas, O último dia de um homem sem juízo (2008). Uma coleção de temas apaixonados (Sobrenatural), declarações de amor (O meu amor mora no rio) e leve carga dramática (Sozinhar-me). Referências e sonoridades temporariamente extintas por conta do clima denso e ambientação cinza do disco de 2011.

Observado de forma atenta, este talvez seja o trabalho mais comercial, pop, já lançado por Pélico. Da abertura descomplicada com Sobrenatural, uma típica “música tema de novela”, passando por outras como Olha só, Overdose ou mesmo a própria faixa-título, raros são os instantes de completo isolamento do músico, acessível a cada novo acorde ou vocal apaixonado do disco. Como escapar da guitarra “sertaneja” que corta O meu amor mora no rio ou o jogo de palavras que cresce em Sozinhar-me, canção inspirada no livro Terra Sonâmbula, do escritor moçambicano Mia Couto e um diálogo breve com a música africana.

Mesmo nos momentos mais “reclusos” da obra, caso de Vaidoso e Meu Amigo Zé, há sempre um tempero lírico ou instrumental que pesca o ouvinte com naturalidade, conduzido de forma dinâmica até o último verso do registro. A seriedade de Pélico ainda é a mesma de Que Isso Fique Entre Nós, a diferença está na forma como o cantor assume uma postura ainda mais dinâmica, íntima dos mais variados públicos. Continue reading

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Disco: “O∆”, London O’Connor

London O’Connor
Hip-Hop/Psychedelic/Alternative
https://www.facebook.com/LondonOConnor

A música de London O’Connor é torta, estranha e, consequentemente, hipnótica. Personagem curioso da nova safra de representantes do Hip-Hop nova-iorquino, o artista de 24 anos encontra no primeiro álbum em carreira solo uma obra entregue ao experimento. Um passeio que começa pela mente (e versos) perturbados do compositor, segue de forma segura pelo Rap dos anos 1990 e só estaciona no final dos anos 1960, flertando com a mesma sonoridade de artista como The Velvet Undergound e outros gigantes que bagunçaram a música produzida no leste dos Estados Unidos.

Apresentado em pequenas “doses” no perfil de O’Connor no Soundcloud, O∆ (2015, Independente) é uma fuga de limites conceituais e bases previsíveis. Em um misto de canto, rima e lamentações, a formação de um registro de essência particular, isolado, como se diferentes tormentos sentimentais e existencialistas do jovem artista fossem essencialmente expostos e dissecados em cada instante sombrio que preenche o trabalho.

Interessante perceber que mesmo dentro de um cercado de versos e experiências particulares, O∆ está longe de parecer uma obra reclusa, pouco convincente. Em uma estrutura melódica, O’Connor revela ao público uma coleção de 10 faixas musicalmente atrativas, talvez não comerciais, porém, dificilmente ignoradas. Logo de cara, a dobradinha formada por OATMEAL e NATURAL, músicas que brincam com as mesmas melodias de vozes de grupos de músicas pop nos anos 1960, como das batidas minimalistas de Fever Ray e outros nomes recentes da música eletrônica.

Mesmo que o “pop” não seja a palavra certa para caracterizar o trabalho do rapper/cantor, escapar da armadilha de harmonias etéreas e versos pueris ressaltados em Nobody Hangs Out Anymore ou GUTS é uma tarefa quase impossível. São mais de cinco décadas de referências disformes, opositoras, mas que dialogam de forma segura até o encerramento da obra, sempre amarradas pela lírica sensível, pós-adolescente e particular de O’Connor. Continue reading

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Disco: “Sympathy”, GABI

GABI
Experimental/Chamber Pop/Ambient
https://www.facebook.com/officialGABI
http://www.gabi-music.com/

A voz parece ser o principal instrumento de Gabrielle Herbst. Mesmo com formação erudita em piano e clarinete, são os atentos coros de vozes, sobreposições delicadas e pequenas manipulações orquestrais que garantem vida, movimento e beleza ao ambiente criado para o primeiro disco solo da compositora nova-iorquina, Sympathy (2015, Software).

Filha do musicólogo Edward Herbst, interessada em ópera, dança balinesa e  profunda conhecedora da música de câmara, Herbst, aqui apresentada pelo nome de GABI, parece brincar com a própria formação musical – familiar ou acadêmia. Em uma montagem precisa, essencialmente detalhista, cada composição assume um conceito específico, revelando desde elementos da música sacra (Hymn), como referências extraídas do trabalho de Kate Bush (Falling), Björk (Da Void) e demais representantes do Art Pop .

Mesmo dominado pelas vozes e sentimentos entristecidos da musicista, Sympathy está longe de parecer uma obra hermética, fruto do total isolamento de Herbst. Com produção de Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never) e Paul Corley (Tim Hecker, Ben Frost), o álbum lentamente se entrega ao domínio e parcial interferência do seleto time de colaboradores formado por Matthew O’Koren (percussão), Rick Quantz (viola), Josh Henderson (violino) e Aaron Roche (guitarras, trombone).

Perceba como os sintetizadores de Lopatin crescem ao fundo da obra. Um fino tecido sonoro, quase imperceptível, porém, essencial para a composição do ambiente sombrio que define Sympathy. Aaron Roche é outro que interfere ativamente na formação do disco. Para ocupar as pequenas lacunas de voz deixadas pela cantora, o guitarrista espalha imensos blocos de ruídos, pilares para o fortalecimento de faixas extensas como Home. Continue reading

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Disco: “Get To Heaven”, Everything Everything

Everything Everything
Art Rock/Electronic/Alternative
http://www.everything-everything.co.uk/

Alguns trabalhos começam pela primeira faixa, outros, como Get To Heaven (2015, Sony RCA), pela capa. “Queríamos uma imagem impossível de ignorar, mesmo que ela fosse tão feia quanto o inferno“, disse o vocalista do Everything Everything, Jonathan Higgs, em entrevista ao site Creative Review. Produzida pelo artista gráfico neozelandês Andrew Archer, a colorida ilustração – bem como toda a identidade visual do álbum – cumpre com naturalidade sua função, atraindo de forma quase hipnótica a atenção do espectador desapercebido.

Muito além do atento jogo de cores fortes, psicodélicas, a imagem de um homem sendo atacado funciona como síntese do invasivo domínio político, religioso e até sentimental que define grande parte dos versos na presente obra. Mesmo que dialogue com essência “pop” dos antecessores Man Alive (2010) e Arc (2012), ao alcançar o terceiro álbum de inéditas, a amadurecimento explícito do quarteto de Manchester revela ao público todo um novo universo – sonoro e conceitual – a ser explorado.

Dramática, por vezes exagerada, a voz de Higgs serve de estímulo para o ambiente sombrio, caótico e essencialmente pessimista que se espalha ao longo das canções. Em um misto de passado e presente, faixas como Regret (“Alguma vez você viu sua vida escorrer pelas mãos?”) e Distant Past (“Leve-me para um passado distante / Eu quero voltar”) ironizam a suposta “evolução” do ser humano, discutem o crescente atuação de extremistas religiosos em toda a Europa e ainda apontam o completo isolamento dos indivíduos, cada vez mais frios, mecânicos, como robôs.

Tamanha seriedade das canções em nenhum momento distorce o caráter comercial do disco. Com produção assinada por Stuart Price – produtor que já trabalhou com Kylie Minogue, The Killers e Scissor Sisters -, Get To Heaven é uma obra marcada pelo rico acervo de faixas dançantes e acessíveis, como uma natural extensão da linguagem melódica alcançada no álbum de 2012. Nada de pausas ou mesmo espaço para o fortalecimento de composições “menores”. O esforço do quarteto prevalece mesmo na segunda metade do trabalho, postura evidente em músicas como Blast Doors e Zero Pharaoh.   Continue reading

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Disco: “Ratchet”, Shamir

Shamir
Electronic/Hip-Hop/Indie
https://www.facebook.com/Shamir

Shamir Bailey ainda não havia nascido quando a Disco Music ganhou nova roupagem no final dos anos 1980 com a explosão da Italo Disco e a House Music no começo da década seguinte. Nascido em 1994, o artista original da cidade de Las Vegas era apenas uma criança quando o “movimento” Nu-Disco tomou conta da cidade de Nova York no início dos anos 2000, sendo apresentado ao trabalho de artistas como Hercules and Love Afair, Scissor Sisters e Azari & III somente na adolescência.

Interessante perceber em Ratchet (2015, XL), primeiro registro em estúdio do cantor, uma espécie de síntese involuntária de todas essas cenas, reformulações e novos rumos que marcam diferentes fases da música eletrônica. Personagem central da própria obra, Shamir destila sentimentos (In For The Kill), estreita a relação com as pistas (Call it Off) e cria na estrutura flexível dos arranjos (On The Regular) uma obra tão vasta que é difícil encaixar o álbum em um cercado específico.

De vocal andrógino, ao finalizar o primeiro álbum de inéditas, o jovem de apenas 20 anos parece ir ainda mais longe em relação ao material e sonoridade curiosa explorada no single On the Regular. Primeiro grande sucesso de Shamir, a canção apresentada em 2014 parece servir de estímulo para todo o restante do álbum, fragmentando as (novas) composições entre o canto, a rima e o natural compromisso com as pistas. Recortes, colagens e pequenas apropriações conceituais que aos poucos revelam a identidade colorida do artista.

Em uma contínua mudança de direção, por vezes brusca, cada faixa de Ratchet se transforma em um plano isolado dentro da obra. Seguindo a mesma trilha de Azealia Banks em Broke With Expensive Taste (2014), Shamir parece testar os próprios limites, brincando com faixas de essência eletrônica, como Hot Mess e Make a Scene, até composições reclusas, de natureza romântica, caso de Demon e Darker, essa última um fino retrato da aproximação do jovem músico em relação ao R&B dos anos 1990. Até violões aparecem na derradeira KC, música exclusiva da edição virtual do disco. Continue reading

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Disco: “Coming Home”, Leon Bridges

Leon Bridges
Soul/R&B/Singer-Songwriter
http://www.leonbridges.com/

Leon Bridges é um nostálgico. Nascido em julho de 1989 na cidade de Atlanta, Georgia, o cantor e compositor norte-americano parece viver em um mundo em preto e branco, vozes captadas em baixa fidelidade e temas que instantaneamente remetem ao som projetado na década de 1960. Orientado por Otis Redding, Al Green, Sam Cooke e outros gigantes do Soul e R&B do mesmo período, o novato (finalmente) abre as portas do primeiro disco solo: Coming Home (2015, Columbia).

Catálogo empoeirado de canções românticas, entristecidas e até mesmo dançantes, o registro segue um caminho isolado em relação a diferentes conterrâneos da música negra recente. Oposto ao trabalho de Janelle Monáe, Adele, Raphael Saadiq e tantos outros artistas interessados em brincar com referências lançadas há mais de quatro décadas, ao mergulhar no primeiro álbum solo de Bridges, a proposta assumida pelo cantor é clara e imutável. Trata-se de uma visita breve ao passado, como uma tentativa de replicar sons, temas e conceitos sem necessariamente investir na transformação.

Coeso, por vezes demasiado contido, Coming Home sustenta na forte aproximação entre as faixas outro importante acerto. Diferente de tantos outros registros que tentam amarrar um universo imenso de referências e movimentos musicais em um mesmo período de tempo, da abertura, com a faixa-título, ao fechamento em River, Leon Bridges em nenhum momento ultrapassa o cercado temático que se estende até o meio dos anos 1960. Nada de Dance Music, Funk e outras variações que invadiram a década seguinte. O controle é uma constante.

Como efeito dessa escolha, posicionado em um curto espaço de tempo, Bridges parece extrair o máximo de cada variação da música (não apenas negra) do período. Enquanto Smooth Sailin’ reverbera diversos elementos típicos da Surf-Music, composições como Better Man e Shine suspiram romantismo e arranjos nitidamente apaixonados, como canções de rádio há muito esquecidas. Como não se deliciar com os coros de vozes em Brown Skin Girl e Lisa Sawyer, faixas que espalham lentamente o pano de fundo nostálgico que cobre toda a obra. Continue reading

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Disco: “How Big, How Blue, How Beautiful”, Florence and The Machine

Florence and The Machine
Indie Pop/Alternative/British
http://florenceandthemachine.net/

As guitarras “falam” mais alto em How Big, How Blue, How Beautiful (2015, Island). Terceiro registro de inéditas do Florence and The Machine, o novo álbum pode até seguir a trilha dos antecessores Lungs (2009) e Cerimonials (2011), entretanto, indica uma direção totalmente nova dentro da curta obra da artista britânica. Em um diálogo preciso com a música pop e o rock dos anos 1980, Florence Welch se despe de possíveis conceitos e temas complexos de forma a revelar um trabalho marcado pela coerência, rico acervo de composições melódicas e sentimentos nunca antes tão detalhadamente expostos.

Fuga dos atos cênicos e extensa duração do operístico álbum de 2011, com o novo disco, Welch e os parceiros de produção, Markus Dravs e Paul Epworth, trazem de volta o mesmo ritmo “acelerado” do inaugural Lungs. Enquanto Dravs – produtor responsável pelos últimos discos do Arcade Fire -, garante dinamismo ao trabalho, é responsabilidade de Epworth – com quem Florence vem colaborando desde o primeiro registro -, além de nomes como James Ford (Simian Mobile Disco), garantir maior polimento e delicada reprodução ao acervo de músicas comerciais que preenchem toda a obra.

Logo de cara, uma sequência de tirar o fôlego do ouvinte. Dosando entre a sonoridade grandiosa de Shake It Out e a urgência de Kiss With a Fist, a trinca composta por Ship To Wreck, What Kind Of Man e a própria faixa-título não apenas captura a atenção do ouvinte, como ainda serve de estímulo para a série de músicas que sustentam o eixo final do trabalho. Difícil não perceber a interferência de Dravs, aproximando o trabalho de Welch do mesmo universo de referências (nostálgicas) exaltadas pelo Arcade Fire desde o álbum The Suburbs, de 2010. A própria utilização de guitarras sombrias e arranjos orquestrais parece extraída da obra do coletivo canadense, referência presente em cada movimento de How Big, How Blue, How Beautiful.

Ao mesmo tempo em que abraça um catálogo de novas tendências musicais, curioso perceber como elementos reforçados desde o primeiro trabalho da cantora são enquadrados em uma estrutura jovial. Dos experimentos e conceitos “florestais” de Kate Bush, pouco parece ter sobrevivido; mesmo Siouxsie Sioux, confessa influência de Welch parece explorada de forma distinta, longe do som empoeirado que ecoa de forma explícita no disco anterior. PJ Harvey, Patti Smith e até mesmo Régine Chassagne (Arcade Fire) ecoam com naturalidade com o passar do álbum. Nada que interfira de fato na essência e, cada vez mais presente, sonoridade autoral da britânica. Continue reading

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Disco: “De Baile Solto”, Siba

Siba
Nacional/Alternative/Rock
http://www.mundosiba.com.br/

Conhecida como a “capital estadual do Maracatu”, em 2014, Nazaré da Mata, município localizado na região da Mata Norte, em Pernambuco, se dividiu. De um lado, músicos, foliões e representantes da cultura local, coletivos que se uniram para defender as tradições (musicais) da região, mantendo as apresentações de Maracatu de Baque Solto até o amanhecer. No outro lado, a Polícia Militar e membros do governo municipal, oposição de defendia o encerramento precoce dos festejos e apresentações do gênero, forçadas a acabar no começo da madrugada.

Um dos defensores do primeiro grupo – frente que conquistou na justiça o direito de manter as tradições, estendendo os festejos até as 5:00 da manhã -, Siba transporta para o interior do segundo álbum solo parte desse conflito e desrespeito pelas tradições locais. Misto de regresso aos sons regionais explorados desde os primeiros trabalhos com a extinta Mestre Ambrósio, em De Baile Solto (2015, YB), mais do que um retrato isolado da cena nordestina, o compositor pernambucano entrega ao público uma síntese do instável panorama político e social de todo o Brasil.

Conceitualmente amplo, com versos entregues à interpretação do ouvinte, músicas como Gavião, Três Carmelitas e O Inimigo Dorme, se acomodam em meio a temas políticos, discussões sobre abuso de poder, embates e a continua relação entre governantes e a população. Referências e relatos metafóricos que tanto se encaixam no contexto bucólico de Nazaré da Mata, como em qualquer grande cidade. Debates que escapam das redes sociais e cercam o congresso nacional. Da ironia fina que cresce nos versos Marcha Macia ao grito final em Meu Balão Vai Voar, diferentes histórias, temas e cenários sustentam o universo cada vez menos particular criado por Siba.

Em se tratando da estrutura musical montada para o disco, uma obra que busca apoio em duas bases distintas. De um lado, a continua interferência das guitarras, instrumento que não apenas reforça o diálogo de Siba com a própria obra, resgatando temas e arranjos explorados no antecessor Avante, de 2012, com garante novo encaminhamento ao mesmo som enquadrado em obras de apelo “regional”, caso de Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar (2008). No outro oposto, o inevitável passeio pela música pernambucana, tema explorado de forma cênica na curiosa faixa-título, uma cômica interpretação das típicas performances típicas da região a mata, mas que mantém firme o contexto político do disco. Continue reading

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