Category Archives: Resenhas

Disco: “Escape From Evil”, Lower Dens

Lower Dens
Indie Rock/Alternative/Post-Punk
http://lowerdens.com/

Você não precisa ir além da capa de Escape From Evil (2015, Ribbon Music) para perceber a mudança em torno da (recente) obra do grupo Lower Dens. Longe do uso limitado de preto, branco e pequenas variações de cinza, a comportada inserção de cores serve como indicativo para o som cada vez mais abrangente da banda de Baltimore. Ainda que a essência consolidada em Twin-Hand Movement (2010) e Nootropics (2012) seja a mesma do terceiro álbum de estúdio, faixa, após faixa, Jana Hunter, líder do grupo, reforça a busca por um novo mundo de possibilidades rítmicas.

Sintetizadores “alegrinhos” em To Die in L.A., guitarras (quase) dançantes em Non Grata e Company, além dos vocais grandiosos de Hunter, pela primeira vez, esquiva da frieza habitual que sustenta os dois últimos discos da banda. Em uma desconstrução lenta da sobriedade que caracteriza o Post-Punk em mais de três décadas de formação do estilo, cada música do novo álbum aproxima o coletivo de um som menos mecânico, ainda amargo e melancólico, mas não menos acessível, como se os pontos de luz bloqueados na fase inicial do projeto fossem agora desobstruídos.

Mudança brusca em relação ao som “obscuro” que encerra Nootropics – com a extensa In the End Is the Beginning -, Escape From Evil demonstra a imagem de uma banda movida pela transformação. A julgar pelo cardápio imenso de arranjos, temas e conceitos explorados, não seria um erro interpretar o presente disco do Lower Dens como a obra mais “irregular” já assinada pelo grupo. Todavia, muito se engana quem interpreta tamanha instabilidade como um problema. Ao brincar com a ruptura e constante disparidade rítmica, a banda não apenas quebra a zona de conforto consolidada há três anos, como ainda transforma cada faixa do disco em uma surpresa para o ouvinte.

Um passeio pelo Dream Pop com Your Heart Still Beating, a dose extra de aceleração em Electric Current; estrutura densa em Ondine, temas ensolarados nos arranjos de To Die In L.A. Do momento em que tem início, até a última nota, Escape From Evil se revela como uma obra que brinca com as possibilidades. É difícil saber qual a (nova) direção do grupo ao término de cada faixa. A constante ruptura, entretanto, em nenhum momento favorece a criação de uma obra esquizofrênica, insegura. Tudo é encarado de forma espontânea, como se uma linha imaginária fosse capaz de amarrar temas tão instáveis quanto os do registro. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , ,

Disco: “Carrie & Lowell”, Sufjan Stevens

Sufjan Stevens
Indie/Singer-Songwriter/Folk
http://sufjan.com/

 

Sufjan Stevens sempre me pareceu um grande contador de histórias. Por trás do inofensivo dedilhado de violão lançado pelo artista de Michigan, uma tapeçaria imensa de personagens, recortes fictícios, acontecimentos políticos que marcaram a história norte-americana ou mesmo contos transformados em música doces e envolventes. Basta voltar os ouvidos para o clássico Illinois, de 2005, onde a vida do palhaço/assassino serial John Wayne Gacy, Jr. foi explorada com sensibilidade única, constante temática na obra do músico, um habilidoso artesão no controle dos sentimentos, capaz de converter detalhes (e temas) tão particulares, em peças facilmente absorvidas por qualquer ouvinte.

Mas e as histórias do próprio Stevens, suas angústias, medos e desilusões: onde elas estão? Ainda que tenha atravessado os últimos 15 anos em meio a delicadas confissões românticas, tormentos e temas cotidianos, poucas vezes o universo particular do cantor estadunidense foi apresentado com tamanha clareza e sensibilidade quanto em Carrie & Lowell (2015, Asthmatic Kitty). Sétimo trabalho de inéditas do artista, o álbum vai além de um regresso aos planos acústicos que lançaram o instrumentista no começo dos anos 2000, revelando um mergulho soturno na conturbada estrutura familiar do cantor – a base temática que se espalha em cada faixa do registro.

Da imagem desgastada que estampa a capa do álbum – o casal (real) formado por Carrie e Lowell, mãe e padrastro de Stevens – passando pelos versos, sussurros e histórias entristecidas da obra, todas as peças do projeto se juntam para contar a história e, de certa forma, homenagear a mãe do cantor, Carrie, morta em 2012 depois de passar por meses de tratamento contra um câncer no estômago. Esquizofrênica, depressiva e alcoólatra, a “protagonista” deixou o filho e o ex-marido em meados dos anos 1970, voltando a revê-los anos mais tarde, quando se casou com Lowell, acolhendo o pequeno Stevens durante cinco férias de verão. Um história simples, porém, explorada de forma atenta, a matéria-prima para o retrato sorumbático que começa (pelo fim) em Death with Dignity e se estende até Blue Bucket Of Gold.

Ainda que esteja aberta a diferentes interpretações, a história que sustenta toda a estrutura de Carrie & Lowell é apresentada de forma clara, esquiva de possíveis bloqueios líricos. Trata-se de uma jogo de versos confessionais, puramente honestos, como o diário fragmentado de um indivíduo – a criança que habita a mente de Stevens – tentando encarar o mundo conturbado dos adultos em busca da própria aceitação. Como fica explícito nos primeiros minutos do álbum, em Death With Dignity – os últimos instantes de vida de Carrol -, com a presente obra, Stevens foge de uma estrutura linear, brincando com um roteiro quase cinematográfico instável; um misto de passado e presente tão próximo do cantor, quanto do próprio ouvinte, instantaneamente confortado nos versos descritivos da obra. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Adventure”, Madeon

Madeon
Electronic/Synthpop/Pop
http://www.madeon.fr/

Não existe benefício algum em manter o preconceito musical, entretanto, deixar um pé atrás a cada novo “garoto prodígio” da música pop funciona como a garantia de uma audição minimamente atenta, talvez esquiva da inevitável euforia para onde apontam os holofotes. Com Madeon não foi diferente. Passado o lançamento de The City EP, em idos de 2012, seguido da performance forjada do produtor francês no Lollpalooza Brasil de 2013 – um DJ-Set com direito a movimentos encenados e incontáveis poses para as fotos -, pouco do trabalho assinado por Hugo Pierre Leclercq despertou minha atenção. Pelo menos até o lançamento de You’re On.

Com os vocais aos comandos do também novato Kyan Kuatois, a faixa apresentada em dezembro do último ano segue em ritmo frenético, quente. Enquanto uma enxurrada de sintetizadores invade os ouvidos do espectador, a voz plastificada de Kuatois se transforma no principal componente do trabalho de Madeon, tão próximo da eletrônica dançante de conterrâneos como Justice () e Daft Punk (Human After All), como de gigantes do Indie Pop norte-americano – principalmente o Passion Pit de Michael Angelakos e o (hoje adormecido) Discovery da dupla Rostam Batmanglij (Vampire Weekend ) e Wesley Miles (Ra Ra Riot).

Surpresa encontrar em Adventure (2015, Columbia), primeiro registro oficial de Madeon, o mesmo cuidado e precisa manipulação das melodias pop aplicadas no single de apresentação do registro. Intenso, sem tempo para descanso, Leclercq garante ao ouvinte pouco mais de 40 minutos de batidas, vozes e sintetizadores movidos pelo dinamismo dos arranjos. Uma obra capaz de dialogar com diferentes pistas e campos da eletrônica – Eletro House, Indie ou Pop -, transformando os exageros característicos da EDM em um mecanismo funcional, capaz de invadir a mente do ouvinte sem dificuldade.

Cravejado de hits, Adventure resgata a nostálgica sensação de sintonizar uma rádio FM nas noites de sábado, cercando o espectador com um jogo de canções explicitamente comerciais. Salve a introdução climática de Isometric – quase uma sobra dos primeiros discos de Neon Indian e Com Truise -, além dos versos e ritmo lento de Innocence e Pixel Empire, no fechamento do disco, o toque acelerado do trabalho prevalece de forma constante. Um acervo de experiências que tropeça na obra de deadmau5, Zedd e Calvin Harris, porém, logo se levanta, acerta o passo – e as batidas – de forma a revelar um caminho próprio de Madeon. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “To Pimp a Butterfly”, Kendrick Lamar

Kendrick Lamar
Hip-Hop/Rap/Funk
http://www.kendricklamar.com/

 

Kunta Kinte, Wesley Snipes, escravidão, capitalismo, apropriação de cultura, preconceito racial e morte. Antes mesmo que a quarta faixa de To Pimp a Butterfly (2015, Interscope / Aftermath / Top Dawg) chegue ao final, Kendrick Lamar assume com o novo álbum de estúdio – o segundo sob o aval de uma grande gravadora, a Interscope -, um dos retratos mais honestos sobre o conceito de “dois pesos, duas medidas” que sufoca a comunidade negra dos Estados Unidos. Uma interpretação amarga, ainda que irônica, capaz de ultrapassar o território autoral do rapper de forma a colidir com o universo de Tupac Shakur, Michael Jackson, Alex Haley e outros “personagens” negros da cultura norte-americana.

Como explícito desde o último trabalho do rapper, o bem-sucedido good kid, m.A.A.d city (2012), To Pimp a Butterfly está longe de ser absorvido de forma imediata, em uma rápida audição. Trata-se de uma obra feita para ser degustada lentamente, talvez explorada, como um imenso jogo de referências e interpretações abertas ao ouvinte. Da inicial citação ao ator Wesley Snipes – preso entre 2010 e 2013 por conta de uma denúncia de fraude fiscal -, passando por referências ao cantor Michael Jackson, Malcom X, Nelson Mandela, exaltações à comunidade negra, além de trechos da obra do escritor Alex Haley –  Negras Raízes (1976) -, cada faixa se espalha em um acervo (quase) ilimitado de pistas, costurando décadas de segregação racial dentro e fora dos Estados Unidos.

Não por acaso a “estrutura narrativa” do álbum segue de forma distinta em relação ao trabalho de 2012. Enquanto good kid, m.A.A.d city foi vendido como um “roteiro de cinema” – conceito reforçado na utilização de diálogos e pequenas “cenas” encaixadas no interlúdio de cada composição -, com o novo disco é possível observar a formação de uma pequena base episódica, como um seriado, estrutura arquitetada com naturalidade no decorrer das faixas. São recortes precisos, temas pessoais ou mesmo histórias adaptadas, como se a cada novo capítulo “da série”, Lamar e convidados (como George Clinton, Pharrell Williams e Snoop Dogg) analisassem aspectos distintos de um mesmo universo temático.

Tamanha pluralidade de referências e conceitos garante ao ouvinte o encontro com uma obra muito mais dinâmica em relação ao trabalho exposto há três anos. Na mesma medida em que derrama versos sóbrios e provocativos – vide The Blacker the Berry, Mortal Man e Institutionalized -, Lamar garante espaço para que sentimentos e confissões particulares sejam ressaltadas com o passar do disco. Expressiva porção desse resultado está na dicotomia gerada pelas faixas u e i. Enquanto a primeira, um rap-funk-melancólico, sufoca em meio a versos embriagados, arrastando Lamar (e o próprio ouvinte) para um território de lamúrias – “Bitch everything is your fault” -, a segunda cresce como uma espécie de hino. Um jogo versos entusiasmados, motivacionais – “I love myself” – e que ainda resgatam trechos da adolescência do rapper pelas ruas de Compton, Califórnia.

A mesma flexibilidade se repete na construção dos arranjos e toda a estrutura musical pensada para o registro. Oposto ao minimalismo sombrio, por vezes sufocante exposto em good kid, m.A.A.d city, To Pimp a Butterfly é uma obra de conceitos grandiosos, musicalmente ampla e inquieta. Ainda que Dr. Dre seja o produtor executivo do álbum, grande parte da estrutura (musical) do trabalho parece fruto da interferência direta de Stephen Bruner (Thundercat) e Steve Ellison (Flying Lotus), colaboradores e instrumentistas ativos em grande parte das faixas. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “A Praia”, Cícero

Cícero
Indie/Nacional/Alternative
http://www.cicero.net.br/

 

Romântico, brega, chato ou, como defende o público fiel, “um gênio incompreendido”, “um poeta”. Cícero pode ser acusado e classificado das mais variadas formas, porém, goste ou não do trabalho assinado pelo músico carioca, em nenhum momento ele pode ser encarado como previsível. Exemplo significativo desse resultado está na estrutura e (ainda falho) conceito executado em Sábado (2013), segundo álbum solo do cantor. Talvez mal interpretado, um “Araçá Azul particular“, a obra entregue há dois anos está longe de parecer o ponto central da (curta) obra do jovem compositor. Ainda atento, Cícero mantém firme a busca pela própria identidade, postura explícita no horizonte infinito que estampa a capa e sonoridade aplicada em A Praia (2015, Independente).

Uma rápida audição, e a reposta parece surgir de forma imediata: com o terceiro e mais recente trabalho de inéditas, Cícero talvez tenha encontrado um meio termo exato entre o “samba-indie-melódico” do registro de estreia, Canções de Apartamento (2011), com o “experimento caseiro” testado no interior do segundo álbum, Sábado. Um erro. Ainda que a maquiagem eletrônica de Frevo por acaso N˚2 e diferentes faixas espalhadas pelo registro sustentem a parcial novidade por parte do músico, está na composição quase sorridente dos versos o aparecimento de um novo “personagem” e poeta.

Se há poucos anos, Cícero cantava amargurado “Hoje não vai dar / Não vou estar / Te indico alguém“, em Açúcar ou Adoçante, ou tentava se manter esperançoso nos versos de Frevo Por Acaso - “E se um dia precisar de alguém pra desabar / Eu tô por aí” -, hoje ele sorri. A julgar pelos versos encaixados em O Bobo, não seria um erro afirmar que Cícero encontrou (mais uma vez) o amor. “Eu vou lá / Pra ver o meu amor chegar e toda alegria descer da varanda / Eu vou lá / Pra ver a minha dor passar longe de quando a menina balança“, confessa o apaixonado eu lírico da canção, sustentando mais do que uma curva dentro da sorumbática discografia, mas um novo caminho, talvez ensolarado.

Com a mudança expressiva nos versos, a sonoridade eletrônica que preenche o disco – marcada pela utilização de sintetizadores e batidas precisas -, soa apenas como a cereja no topo do bolo. Observada a inconsistência e amadorismo carimbado na produção de Sábado, não é difícil interpretar o presente disco como o produto final do “esboço” apresentado há dois anos. De fato, muitos dos conceitos (musicais) expostos no trabalho anterior parecem completos agora – ouça De Passagem e perceba a similaridade com antigos inventos do cantor. Mesmo os arranjos de cordas e pianos, típicos do ambiente acústico do primeiro álbum, encontram um novo detalhamento no castelo de areia sonoro que Cícero levanta até o último ato do trabalho. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , , ,

Disco: “EarthEE”, THEESatisfaction

THEESatisfaction
Soul/Electronic/R&B
http://www.theesatisfaction.com/

É difícil não interpretar o trabalho da dupla THEESatisfaction como uma “sucursal feminina” dos mesmos conceitos e experimentos testados pelo duo Shabazz Palaces. Parceiras e colaboradoras frequentes de Ishmael Butler e Tendai Maraire, Catherine Harris-White e Stasia Irons assumem desde o primeiro álbum de estúdio, awE NaturalE (2012), uma extensão do mesmo som retro-futurista dos produtores de Seattle. A diferença? Enquanto Butler e Maraire avançam em direção ao espaço, Harris-White e Irons encontram um ambiente de conforto criativo aqui mesmo, na própria Terra.

Com a chegada de EarthEE (2015, Sub Pop), segundo e mais recente trabalho de inéditas da dupla, elementos típicos da cultura africana, bases que vão do R&B/Soul dos anos 1970 ao Hip-Hop de 1990 se espalham com naturalidade em meio a versos que abraçam a marginalidade. Temas centrado no universo LGBT, preconceito racial e feminismo que dividem o mesmo espaço de versos sufocados pela saudade e melancolia; sussurros pessoais de pura sensibilidade romântica.

Menos “pessoal” em relação ao conceito intimista que abastece grande parte do álbum apresentado há três anos, EarthEE, como o título resume, é uma obra ampla – seja nos arranjos, como na própria estrutura lírica que movimenta as canções. Disfarçadas, como dois extraterrestres habitando nosso planeta, Harris-White e Irons exploram o presente registro como uma obra atual, debatendo ecologia, consumo e a interação entre os próprios humanos em composições como Planet For Sale e Universal Perspective.

Tamanha imposição “política” por parte da dupla, não apenas afasta o antigo diálogo “etéreo” com o Shabazz Places – ainda parceiros na faixa-título do disco -, como revela um acervo de novas (ou velhas) referências incorporadas pelas duas cantoras/rappers. A julgar pelo cruzamento continuo entre rima e canto, romantismo e temas urbanos, o álbum segue em divisão exata entre Erykah Badu (da série New Amerykah) e Missy Elliot (no clássico Supa Dupa Fly, de 1997). Sobram diálogos com a obra de Lauryn Hill, além de outras veteranas do Hip-Hop “feminino”. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Another Eternity”, Purity Ring

Purity Ring
Pop/Electronic/Indie Pop
http://purityringthing.com/

 

Uma medida exata, dividida de forma (quase) matemática entre vocalizações e versos grudentos, típicos do pop, sobreposto pelas batidas, experimentos e arranjos focados no Hip-Hop “alternativo”. Esta parece ser a fórmula do trabalho assinado pela dupla Corin Roddick e Megan James, do Purity Ring. Uma divisão precisa, 50% para cada lado, a base para o acervo de canções complexas, porém, ainda melódicas apresentadas em Shrines (2012), primeiro álbum de estúdio do casal. Mas e como seria o resultado final de qualquer projeto do duo canadense se alguém modificasse essa “ordem”?

A resposta está no interior de Another Eternity (2015, 4AD), segundo e mais recente álbum de inéditas da dupla. Em uma alteração na medida temática proposta pelo casal, o pop passa a ser componente de maior grandeza dentro da obra, ainda íntima do registro entregue em 2012, porém, reformulado, próximo de uma parcela ainda maior do público. Um caminho livre, limpo, como se a curva iniciada em faixas como Obedear e Fineshrine, ainda no trabalho anterior, fosse agora ampliada.

Assim como no último discos, as funções do casal parecem bem divididas em cada faixa. Enquanto versos e vozes espalhados pela obra permanecem sob o comando de James, cada vez mais próxima de nomes de peso da música pop, como Taylor Swift e Rihanna, toda a base musical do disco continua nas mãos do parceiro. A diferença em relação ao trabalho anterior está na forma como Roddick segue de perto a companheira, montando uma estrutura essencialmente melódica, base para a formação de hits como Push Pull, Repetition e Begin Again.

Do momento em que Heartsigh tem início, todos os holofotes apontam a vocalista, o rosto por trás dos catálogo de versos tristes e sentimentos exageradamente detalhados no interior das canções. Como um instrumento, a voz de James se transforma na matéria-prima de todo o disco, preenchendo as lacunas e bases frias, inicialmente testadas em Shrines. Como complemento, a utilização constante de sintetizadores, colagens eletrônicas e ruídos – pequenos acréscimos harmônicos, presentes até o encerramento do trabalho. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , ,

Disco: “Spectrum Vol. 1″, Diogo Strausz

Diogo Strausz
Alternative/Indie/Nacional
http://diogostrausz.com/

 

Basta uma visita ao site de Diogo Strausz para perceber a versatilidade em torno da obra do músico carioca. Como produtor, registros assinados em parceria com Alice Caymmi, Castello Branco e outros nomes de peso da cena alternativa, principalmente a carioca. Em projetos individuais, esporádicos, obras marcados pela colagem de referências – caso do EP/clipe de Garoto Nacional -, remixes desenvolvidos a convite de conterrâneos como Kassin e Léo Justi, além de colaborações com Jaloo, Gang do Eletro e até marcas como Coca-Cola.

O mesmo mosaico de ideias, sons e referências parece servir de inspiração para o primeiro registro solo do produtor: Spectrum Vol. 1 (2015, Independente). Em uma colagem de tendências e pequenos experimentos com a música pop, Strausz articula uma obra tão vasta quanto o próprio acervo de inventos compartilhados na última meia década. Um passeio temático e instrumental que começa ainda na capa – uma homenagem à Jovem Guarda do próprio pai, Leno, músico e uma das metades da dupla Leno & Lilian entre 1960/1970 -, mergulha na música negra, na eletrônica dos anos 1990, até se estabelecer no presente, caminhando ao lado de uma série de colaboradores recentes.

Como indicado logo nos primeiros instantes do disco, a estreia de Strausz parece esquiva de qualquer “linearidade”. Surf rock, guitarras típicas das trilhas de Quentin Tarantino, um sample de Bob Esponja, arranjos orquestrais, pitadas de Disco Music e coros de vozes. Antes mesmo que Narcisus chegue ao fim, faixa em parceria com os irmãos Keops e Raony, do Medulla, é possível se perder em meio ao ziguezaguear de experiências. A dica? Deixe que as canções conduzam. Não tente tatear as paredes ou se concentrar em um ponto específico. Com inspirações como “Castlevania, Final Fantasy, Justice, Donkey Kong, Chemical Brothers, Ennio Morricone, Queens of Stone Age e Daft Punk“, seria um erro estabelecer limites.

Tamanha flexibilidade no uso dos arranjos e temas em nenhum momento faz com que Strausz (e o ouvinte) tropece em uma obra de formação esquizofrênica. Mesmo amplo em conceitos, gêneros e tendências musicais, é possível perceber a coluna vertebral que se forma ao longo do registro. Uma obra concisa, capaz de posicionar o Soul-Pop-Eletrônico de FCK – parceria com o cantor Apollo – no mesmo palco de emoções confessionais, densas e amarguradas de Diamante, faixa de encerramento do álbum e mais recente colaboração com a cantora e amiga Alice Caymmi. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Eclipse”, Twin Shadow

Twin Shadow
Alternative/Electronic/Electropop
http://www.twinshadow.net/

 

Poucos artistas parecem entender tão bem o som explorado na década de 1980 quanto George Lewis Jr. Aos comandos do Twin Shadow, o produtor de origem dominicana e residente em Nova York, fez do projeto de versos confessionais um passeio voluntário por diferentes campos da música lançada na época; marca explícita no pós-punk-eletrônico-e-sujo incorporado em Forget, registro de estreia apresentado em 2010, e, posteriormente, na imposição pegajosa/melancólica exaltada no synthpop de Confess, registro entregue ao público dois anos mais tarde.

Com a chegada de Eclipse (2015), terceiro e mais recente álbum solo do produtor, uma nova visita aos conceitos e temas incorporados há mais de três décadas. Diferente dos últimos registros, Lewis Jr. encontra no presente trabalho um mecanismo de transição. Longe das maquinações pop-chiclete ou mesmo ambientações densas típicas da referencial década, cada peça do trabalho encaminha o som de Twin Shadow para um novo cenário, proposta que sobrevive (e ainda tropeça) nas mesmas referências “brega” que apontaram a direção da música pós-1985.

Preferência indicado logo nos primeiros instantes do álbum, assim que os pianos e voz forte ocupam toda a extensão de Flatliners, em Eclipse, a busca de Lewis Jr. não se concentra apenas no uso de sintetizadores e temas de natureza pulsantes da New Wave, mas na melancolia (quase caricata) que sustenta o R&B há mais de duas décadas. Não por acaso o cantor parece flertar a todo o instante com a obra de veteranos como Lionel Richie, Michael Jackson e Prince, este último, referência explicita em faixas de forte apelo sentimental, caso dos singles To The Top e Turn Me Up.

A mesma aproximação com a música negra parece reforçar o inevitável florescimento de pequenos duetos e parcerias ao longo da obra, algo raro nos últimos trabalhos de Twin Shadow. Enquanto Old Love / New Love amplia a parceria de Lewis Jr. com o produtor D’Angelo Lacy – colaborador na faixa Lost You, lançada em 2014 pelo duo canadense Zeds Dead -, a delicada Alone cresce como um dos momentos mais comoventes do registro. Inicialmente inaugurada pela voz amarga do cantor, a canção que mais parece resgatada do álbum Confess logo cria espaço para a convidada Lily Elise, revelando um dos pontos de maior acerto do disco. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

4 erros e 3 acertos do Lollapalooza Brasil 2015

Problemas no som, distância enorme entre os palcos e preços abusivos. Estes foram alguns dos problemas enfrentados pelo público do Lollapalooza Brasil 2015.

Durante os dois dias do festival, realizado entre 28 e 29 de março no Autódromo de Interlagos, a sucessão de problemas técnicos pareceu maior que os próprios acertos, tornando a quarta edição do evento no País a menos assertiva.

Mas será que foi tudo tão ruim? Em uma análise do som, atendimento ao público, estrutura e, claro, diferentes shows, listamos alguns dos erros e acertos que marcaram a edição 2015 do festival.

.

ERRO: preços altíssimos.

Já pensou pagar R$ 10 em um copo de cerveja Skol ou um pastel de carne (frio)? Que tal R$ 25 em um hambúrguer? E R$ 5 em um copo d’água de 300ml? Estes foram alguns dos preços exorbitantes do Lollapalooza Brasil 2015.

O resultado? Vendas baixas. Durante os dois dias em que estive no festival, diversos vendedores relataram o baixíssimo número de vendas de comidas e bebidas. No domingo (29), último dia do evento, era possível renegociar preços, comprando cervejas, pasteis e espetinhos a um valor mais “em conta”.

O baixo interesse do público deixou a circulação pela tenda do Chef Stage tranquila durante o festival. Para atrair o público, diversas tabelas de preços foram remarcadas no domingo. “Tomei uma cerveja, mas vou dividir o preço da outra por dois copos d’água. Está muito caro comer e beber aqui”, disse o estudante de administração Rafael Borges, 20 anos.

.

ACERTO: Estrutura.

Decidiu esperar entre uma atração e outra para passear pelo Autódromo de Interlagos? No Lollapalooza 2015 não faltaram (boas) atrações – grande parte delas patrocinadas. Montanha-russa, área para compras, performances do espetáculo Fuerza Bruta, vários pontos de alimentação, atendimento médico, atrações musicais e diferentes atividades mantiveram o público ocupado.

Em busca de um espaço para descansar, longe do sol? Alguns passos entre o palco Skol e Ônix e o público teria acesso a diversos pontos de sombra que serviram de abrigo contra o calor do primeiro dia e chuva forte do segundo. Gosta de selfie? Que tal espaços projetados especialmente para tirar uma foto com o palco e público atrás de você?

Mesmo a (longa) fila para entrar no Autódromo se transformou em uma experiência agradável, com apresentações de diferentes artistas locais. A área em torno do palco Axe ainda poderia ter sido melhor aproveitada, mas já é um bom começo para o festival. Agora, que tal uma estrutura de transporte interno para a edição 2016, algo que facilite o acesso entre os palcos mais distantes?

.

loll

ERRO: “Posso ajudar?”

Onde retiro meu ingresso?“, “Moço, você sabe onde é a entrada?“, “Onde fica o ‘palco de eletrônica?‘”, “Eu queria comprar o ingresso, você sabe onde fica a bilheteria?“.

Estas foram algumas das perguntas que ajudei a responder nos dois dias de Lollapalooza. O motivo? Não foram poucas as vezes em que me deparei com a equipe “treinada” com o colete do “Posso Ajudar?” se mostrando incapaz de atender ao público. Seja na entrada do Autódromo, como dentro do festival, perguntas simples sobre localização dos palcos, postos de saúde ou bilheterias não eram respondidas de forma satisfatória.

A distribuição de mapas do festival foi outro problema. “Onde você conseguiu o mapa?” foi uma das perguntas que mais precisei responder. Nos dois dias de Lollapalooza encontrei apenas dois pontos de distruibuição, um na placa em frente ao palco Skol, outro entre o Palco Axe e o Chef Stage.

Por falar em Chef Stage: não seria mais fácil listar os ingredientes na placa/cardápio e não apenas o nome do prato?

Para a edição de 2016, profissionais (realmente) treinados em estações específicas do Metrô/CPTM – como a de Pinheiros – facilitariam e muito a circulação dos usuários.

.

ERRO: Headliners e nomes “comerciais”.

Quando se está fora da organização de um festival, é fácil apontar e dizer: “faltou banda ‘X’” ou “poderiam ter convidado artista ‘Y’“. Entretanto, não há como negar a falta de novidade e nomes de fato atrativos para esta edição do Lollapalooza.

Onde estão gigantes como Foo Fighters, Pearl Jam, Arcade Fire e The Killers – artistas que movimentaram as últimas edições do festival?

Em turnê, nomes como Sia, Lana del Rey e Charli XCX poderiam facilmente suprir a lacuna “pop” e atrair o mesmo público jovem de Lorde na edição 2014. Jack White como atração principal? Parece pouco, bem pouco.

“A edição foi um sucesso”, dizem os organizadores. Sério mesmo? Não houve “empurra-empurra”, shows lotados e dificuldade para acessar os palcos por um motivo simples: não havia público. Salvo pequenas instalações, lojas e atividades paralelas, a área do Autódromo de Interlagos ainda era a mesma do ano anterior, a mesma disposição. A diferença? Estava tranquilo, esvaziamento dos caixas, filas curtas, mesmo em atrações e shows ditos como “disputados”.

Onde você gostaria de “investir” seu dinheiro, nas edições de 2012, 2013 e 2014 ou na de 2015?

.

billy

ACERTO: Figurinha repetida não completa álbum.

Quem deixou passar a edição 2015 do Lollapalooza Brasil pelo simples fato de “eu já vi a maioria destas bandas ao vivo”, cometeu um erro grave.

Mesmo sem surpresas – artistas como Foster The People e Major Lazer já se apresentaram em outras edições do festival -, a sequência de shows “repetidos”, logo se transformou em um espaço de redenção e consagração para artistas de diferentes gêneros e cenas musicais.

De nomes de peso da EDM, como Skrillex e Calvin Harris, a gigantes do (novo) rock alternativo, caso de Interpol, a reprise em solo brasileiro para estes artistas pareceu muito mais significativa do que em performances ainda recentes.

É o caso de Billy Corgan e seu The Smashing Pumpkins. Depois de uma apresentação penosa no (extinto) Planeta Terra Festival, em 2010, o músico deixou de lado os extensos solos de guitarra e show anti-climático para investir em um espetáculo dinâmico, dosando entre composições antigas e recentes.

.

ACERTO: Shows Nacionais.

Nada de “tapa-buraco” ou “aquecimento”, quem chegou no começo da tarde para o Lollapalooza 2015 foi surpreendido pela excelente performance de artistas brasileiros.

No sábado, a apresentação do trio Banda do Mar fez muita gente vir mais cedo ao evento. “Combinei com meus amigos de chegar mais cedo só para ver a banda tocar”, disse a jovem Michelle de Queiroz, acompanhada de um grupo de amigas para assistir ao show comandado pelo casal Marcelo Camelo e Mallu Magalhães.

A goiana Boogarins foi outra que chamou a atenção do público, conquistando até elogios da cantora estadunidense Annie Erin Clark, do St. Vincent.

Mesmo o veterano Marcelo D2, convidado de última hora para ocupar a lacuna dos estrangeiros SBTRKT e Kodaline, não decepcionou. A mesma sucessão de acertos foi repetida no domingo, efeito da performance coesa de artistas novatos, como O Terno e Far From Alaska, ou mesmo da experiente Pitty, de volta ao festival, dessa vez, longo do som acústico do Agridoce.

.

ERRO: Som.

Não importa o preço água, distância a ser percorrida entre os palcos ou qualquer outro perrengue típico de um festival se o som e cuidado técnico das apresentações compensar. Não foi o que aconteceu nos dois dias do Lollapalooza.

No primeiro dia, Marcelo Camelo demonstrou irritação com incontáveis falhas durante o disputado show da Banda do Mar. No Palco Axe, a cantora norte-americana St. Vincent ficou com a voz baixíssima até a segunda metade do show; isso sem contar com a falha logo na primeira música, Bring Me Your Loves, com o som “audível” apenas nas caixas do lado direito do palco.

Nem o headliner Jack White foi poupado. Além da voz baixa, quem estava na parte de trás do palco Skol sofreu com o atraso na saída do som. Diversas músicas foram apresentadas com eco.

No domingo, os mesmos erros. Mesmo inspirado, a voz do cantor Paul Banks estava baixíssima durante as primeiras músicas tocadas pelo Interpol. O chiado foi outro problema da apresentação, erro seguido até o show do Foster The People , no começo da noite.

Apenas performances eletrônicas não sofreram com o problema, vide o cuidado nas apresentações de produtores como Skrillex e Calvin Harris.

.

Texto originalmente publicado no Brasil Post.

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,