Artista: Grandaddy
Gênero: Indie, Alternativo, Experimental
Acesse: http://www.grandaddymusic.com/

 

“Hiato” é uma palavra que não se aplica ao longo período de silenciamento do Grandaddy. Mesmo que o grupo de Modesto, Califórnia, não tenha lançado nenhum novo disco desde Just Like the Fambly Cat, em 2006, não é difícil perceber a essência da banda dissolvida em diversas obras recentes. Seja em trabalhos produzidos pelo vocalista e líder Jason Lytle, como Why Are You OK (2016), do Band of Horses, ou mesmo na construção de diferentes projetos paralelos, caso do Modest Mouse, banda que conta com a colaboração do guitarrista Jim Fairchild.

Primeiro registro de inéditas do grupo em mais de uma década, Last Place (2017, 30th Century) traz de volta o mesmo cuidado na composição dos arranjos e vozes que apresentaram o Grandaddy em Under the Western Freeway (1997). Dos sintetizadores melódicos de Way We Won’t, passando pelas guitarras de Brush with the Wild ao fino experimento de A Lost Machine, o quinteto segue exatamente de onde parou no lançamento do último trabalho de estúdio.

Inspirado pelas desilusões e pequenos conflitos da vida adulta, Lytle faz de cada composição ao longo do trabalho uma amarga reflexão. Versos que se dividem entre a ironia e o profundo descontentamento do compositor, ponto de partida para faixas como I Don’t Wanna Live Here Anymore (“E eu não quero mais viver aqui … Tudo está fora do lugar e agora tenho problemas para lidar”) e Evermore (“Nada dura para sempre … Dias solitários, sem amor em suas folhas”).

Deslocado, o eu lírico de Lytle parece observar o mundo de forma desinteressante, fria, conceito anteriormente explorado em The Sophtware Slump (2000), obra que prenunciava os problemas causados pela internet e novas tecnologias. “Cada mulher, criança e homem na terra / Em um transe, vagando pela desfiladeiro … Tudo sobre nós é um sonho esquecido / Tudo sobre nós é uma máquina perdida”, canta na amarga Lost Machine, canção síntese do disco.

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Artista: Luneta Mágica
Gênero: Psicodélico, Indie Pop, Alternativo
Acesse: https://lunetamagica.bandcamp.com/

 

Com o lançamento de No Meu Peito, em maio em 2015, os integrantes da banda amazonense Luneta Mágica encontraram um claro ponto de equilíbrio. De um lado, a psicodelia nostálgica inspirada pelo trabalho de veteranos como The Beach Boys e The Beatles, no outro oposto, a busca por um material essencialmente acessível, como um precioso diálogo com a música produzida por artistas como Skank, Los Hermanos e outros representantes de peso do pop-rock nacional.

Interessante perceber em NMP (2017, Independente), coleção de remixes e músicas adaptadas do trabalho entregue há dois anos, uma lenta desconstrução de todo esse som particular, pop, assumido pela banda. Ruídos eletrônicos, vozes ecoadas, efeitos e distorções que delicadamente conduzem o ouvinte para dentro do mesmo ambiente conceitual explorado no experimental Amanhã Vai Ser o Melhor Dia da Sua Vida (2012), álbum de estreia do grupo de Manaus.

Para a produção do disco, a banda – hoje formada por Pablo Araújo, Erick Omena, Eron Oliveira e Daniel Freire –, decidiu se cercar de amigos e demais representantes da presente safra do rock brasileira. No time de convidados, nomes como Benke Ferraz (Boogarins), Bonifrate (ex-Supercordas), Bike, os conterrâneos da Supercolisor e o músico carioca Jonas Sá. Nas mãos de cada artista, a possibilidade de desmontar e brincar com faixas como Tua Presença, Mantra, Rita e Acima Das Nuvens.

Sem ordem aparente, NMP faz de cada composição um ato isolado, curioso. Logo na abertura do disco, a introdutória No Meu Peito se converte em uma típica canção do Supercordas, esbarrando na mesma experimentação testada em Teceira Terra (2015), último álbum de estúdio da banda carioca. O mesmo som delirante se repete na construção de Preciso, 11ª faixa do disco e uma cósmica adaptação produzida pela banda paulista Bike.

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Artista: Temples
Gênero: Rock Psicodélico, Alternativo, Indie
Acesse: http://www.templestheband.com/

 

O Temples está longe de ser a banda mais original da presente safra do rock psicodélico. Pelo contrário, sobrevive na declarada reciclagem de ideias um poderoso estímulo para grande parte do material produzido pelo quarteto inglês. Um misto de passado (The Beatles, Love) e presente (Tame Impala, MGMT) que se apropria de diversos conceitos anteriormente testados por diferentes artistas, ponto de partida para o segundo álbum de estúdio do grupo: Volcano (2017, Heavenly / Fat Possum).

Sucessor do pop Sun Structures (2014), o trabalho de 12 faixas traz de volta o que há de mais interessante (e pegajoso) no som produzido pela banda inglesa. O coro de vozes e sintetizadores dançantes em Born into the Sunset, a força das guitarras e ambientações eletrônicas em Certainty, pequenos experimentos com a música pop na curiosa Celebration. Um verdadeiro caleidoscópio de cores e possibilidades que cresce durante toda a formação do álbum.

A principal diferença em relação ao trabalho lançado há dois anos está no explícito senso de renovação que marca o presente disco. Longe do som psicodélico dos anos 1960 e 1970, James Edward Bagshaw e os parceiros de banda Adam Thomas Smith, Thomas Edward James Walmsley e Samuel Toms buscam manter os dois pés firmes no presente, dialogando com a mesma sonoridade “eletrônica” que escapa de álbuns como Currents e Multi-Love, ambos de 2015.

Segunda faixa do disco, All Join In resume com naturalidade o interesse do grupo em provar de novas sonoridades. Entre beats, samples e sintetizadores, a composição se espalha lentamente, abrindo passagem para a formação de um som que mesmo “orgânico” encanta pela colagem de referências. O mesmo conceito acaba se repetindo em músicas como Roman God-Like Man e I Wanna Be Your Mirror, porém, de forma controlada, criando uma espécie de ponte para o disco lançado em 2014.

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Artista: Molly Burch
Gênero: Indie, Folk, Alternativo
Acesse: http://www.mollyburchmusic.com/

 

Em meados do último ano, a cantora e compositora californiana Molly Burch presenteou o público com duas canções inéditas. De um lado, o romantismo de Downhearted, música que parece saída de algum clássico da década de 1950/1960. No outro oposto, o tempero litorâneo de Try, faixa ancorada em diversas referências do passado, mas que dialoga de forma natural com toda uma sequência de novos representantes da música norte-americana.

Essa mesma dualidade acaba decidindo o rumo das canções apresentadas em Please Be Mine (2017, Captured Tracks), primeiro álbum de estúdio de estúdio produzido por Burch. Acúmulo de ideias e referências que passeia por diferentes décadas e tendências, o registro de apenas dez faixas faz de conflitos da própria cantora um instrumento de comunicação com o público. Confissões amorosas, medos e tormentos que se espalham em meio a guitarras e vozes enevoadas.

Próxima de Angel Olsen, Sharon Van Etten e outras românticas do rock estadunidense, Burch faz de cada composição ao longo do disco um doloroso fragmento intimista. Da melancólica faixa-título, passando por músicas como Please Be Mine, Fool e I Love You Still, cada canção de Please Be Mine se espalha em meio a versos essencialmente românticos, fazendo do álbum uma espécie de diário musicado. Canções que se apoiam em diferentes fases da própria artista.

A principal diferença em relação diferença em relação a outros nomes de destaque da música alternativa está na forma como Burch conceitualmente amarra grande parte das canções. Entre guitarras ensolaradas, órgãos climáticos e batidas pontuais, cada faixa do registro parece apontar para algum ponto específico da década de 1960. O mesmo pop radiofônico (e nostálgico) explorado pelo She & Him em toda a sequência de obras produzidas pela dupla na última década.

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Artista: Peter Silberman
Gênero: Indie, Slowcore, Alternativo
Acesse: https://www.facebook.com/psilb/

 

Entre confissões românticas, medos e desilusões, Peter Silberman passou grande parte da última década transformando os próprios tormentos na matéria-prima para cada nova composição. Mais conhecido pelo trabalho como vocalista e líder do grupo nova-iorquino The Antlers, Silberman chega ao primeiro álbum em carreira solo brincando com a mesma composição amarga dos arranjos e versos, base de cada uma das seis faixas de Impermanence (2017, ANTI-).

Primeiro registro de inéditas do músico desde o denso Familiars (2014), último álbum do The Antlers, o trabalho de quase 40 minutos de duração parece dançar em meio a temas e reflexões particulares do próprio artista. Canções que passeiam pelo centro da cidade de Nova York e chegam até a mente conturbada do artista, física e emocionalmente debilitado durante o processo de composição do álbum, ponto de partida para a melancólica atmosfera do disco.

Estou desmontando, peça por peça / Deteriorando, decadente, diminuído / Se você está aqui, me recupere / Me pegue”, canta na inaugural Karuna, música inspirada na súbita perda de audição que Silberman enfrentou durante um show do The Antlers. Semanas em que o músico teve de lidar com um chiado perturbador, o mesmo ruído cinza que se espalha durante toda a construção da faixa, ocupando as pequenas brechas deixadas pela guitarra cuidadosamente explorada pelo artista.

Em Gone Beyond, a mesma angústia, porém, maquiada pela forma como os sentimentos abraçam o ouvinte. “Estou ouvindo o seu silêncio, mas Deus, há tanto barulho / E agora sinto que te encontrei / Você está parcialmente destruída”, canta enquanto a percussão minimalista, quase inexistente, dialoga com o triste movimento das guitarras. Pouco mais de oito minutos em que Silberman invade o mesmo território de artistas como Grizzly Bear, explorando melodias e versos e forma sempre dolorosa.

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Artista: Vagabon
Gênero: Indie Rock, Alternativo, Indie Pop
Acesse: https://vagabon.bandcamp.com/

 

 

Torres com o experimental Sprinter (2015), Sadie Dupuis e os parceiros do Speedy Ortiz na dobradinha Major Arcana (2013) e Foil Deer (2015), Waxahatchee e as canções do referencial Cerulean Salt (2013), Frankie Cosmos no ainda recente Next Thing (2016). Basta uma rápida pesquisa para perceber como a mesma sonoridade explorada há mais de duas décadas na cena alternativa dos Estados Unidos continua a reverberar de forma explícita no trabalho de diferentes artistas.

Uma reciclagem sonora e estética que se revela de forma parcialmente renovada dentro do primeiro trabalho da cantora e multi-instrumentista Lætitia Tamko. Mesmo inspirada pelo som produzido por veteranos como Modest Mouse, Liz Phair e Built To Spill, a artista original de Nova York faz do recém-lançado Infinite Worlds (2017, Father/Daughter), álbum de estreia como Vagabon, um experimento controlado, curioso. Uma obra que muda de direção a todo instante.

Embora cercada por um time de instrumentistas, é Tamko que produz e grava grande parte do material. Do som climático que escapa das guitarras em Cold Apartment, ao ritmo eufórico da bateria em Minneapolis, cada fragmento do presente registro se projeta de acordo com as orientações da musicista. Vem daí a necessidade de transformar cada faixa em um objeto isolado, como um registro independente, ora íntimo do R&B de Erykah Badu, vide Fear & Force, ora consumido pelos ruídos, caso de 100 Years.

Interessante perceber na composição sensível dos versos uma forte aproximação entre grande parte das faixas. “Eu me sinto tão pequena / Meus pés mal tocam o chão / No ônibus, onde todo mundo é alto … Corra e diga a todos que Lætitia é / É apenas um pequeno peixe”, canta em The Embers, música de abertura do disco e um perfeito indicativo da poesia particular, sempre intimista, que se espalha com naturalidade ao longo da obra.

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Artista: Stormzy
Gênero: Hip-Hop, Grime, Rap
Acesse: https://www.facebook.com/stormzyofficial/

 

Um dia após o lançamento de Gang Signs & Prayer (2017, Merky), em 25 de fevereiro, Austin Darbo, editor sênior do Spotify, fez uma inusitada publicação em sua conta Twitter: “Eu nunca vi nada assim. Todas as músicas do [primeiro] álbum de Stormy estão no Top 50 do Spotify. Estou sem palavras”. E não poderia ser diferente. Da abertura do disco, na minimalista First Things First, passando pela coleção de rimas e beats que se espalham ao longo da obra, cada fragmento do trabalho parece pensado de forma a atrair a atenção do público.

Autointitulado “uma criança do grime”, como resumiu em entrevista, Michael Omari, verdadeiro nome do rapper, passou os últimos anos se revezando em uma série de registros independentes e trabalhos assinados em parceria com diferentes representantes do Hip-Hop, pop e R&B. Composições como Shape of You, parceria recente com o conterrâneo Ed Sheeran, Ambition, da cantora Raye, além de uma série de remixes e rimas espalhadas em uma variedade de obras recentes.

Toda essa pluralidade de ideias, personagens e referências acaba se refletindo na forma como Stormzy e o produtor Fraser T Smith (Adele, Katy B) detalham cada uma das 16 composições de Gang Signs & Prayer. Recortes instrumentais, poéticos e visuais que começam na capa do álbum, uma interpretação sombria da Santa Ceia, de Leonardo da Vinci, passa pela rica tapeçaria orquestral e cresce em cada sample dissolvido pela obra. Retalhos, como Intro (Like Velvet), parte do primeiro álbum da cantora NAO, For All We Know (2016), ou mesmo versos que se conectam diretamente ao trabalho de outros artistas.

Claramente influenciado pelo trabalho de Kanye West, artista que convidou o rapper a participar da intensa performance de All Day, durante o BRIT Awards 2015, Stormzy se transforma no grande protagonista da própria obra. Canções marcadas por relacionamentos conturbados, caso de Cigarettes & Cush, parceria com Kehlani, ou mesmo versos centrados no crescimento do próprio artista, vide Big for Your Boots, música que catapultou o rapper para o topo das principais paradas de sucesso.

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Artista: Jens Lekman
Gênero: Indie Pop, Alternativo,
Acesse: http://jenslekman.com/index2.htm

 

Jens Lekman passou os últimos cinco anos pulando de um trabalho para outro. Logo após o lançamento de I Know What Love Isn’t (2012), terceiro álbum de estúdio, o cantor e compositor sueco deu início a uma série de singles – intitulada Postcard –, produziu uma divertida mixtape recheada com músicas de David Byrne, Jhene Aiko e diferentes clássicos do Soft Rock – WWJD MIXTAPE –, além de compor uma faixa especialmente para duas garotas – Olivia & Maddy –, fãs salvaram o músico de ficar ilhado na cidade de Nova York durante a passagem do furacão Sandy, em outubro de 2012.

Interessante perceber em Life Will See You Now (2017, Secretly Canadian), quarto e mais recente álbum de estúdio de Lekman, grande parte dos “experimentos” testados pelo músico sueco nos últimos anos. Em um intervalo de 40 minutos, diferentes personagens, histórias marcadas pelo bom humor, arranjos ensolaradas, batidas e vozes em coro dançam pelo interior do trabalho, resultando na construção de uma obra íntima do mesmo som melódico explorado no clássico Night Falls Over Kortedala (2007).

Apresentado ao público durante o lançamento da romântica What’s That Perfume That You Wear?, em janeiro deste ano, o novo álbum delicadamente encaminha Lekman em direção ao passado. São batidas e arranjos tropicais que flutuam entre a boa fase da Disco Music e o som colorido da Balearic Beat. “Eu queria que fosse um disco pop”, explicou em entrevista ao site da Entertainment Weekly, reforçando o conceito acessível que se espalha ao longo da obra e cresce em cada fragmento instrumental do disco.

Quinta faixa do álbum, Our First Fight reflete com naturalidade essa mesma proposta. Arranjos ensolarados que servem de pano de fundo para uma letra essencialmente descritiva. Em Hotwire the Ferris Wheel, parceria com a britânica Tracey Thorn, um som eletro-acústico, pontuado pelo uso de samples e batidas eletrônicas, conceito que se repete de forma dançante em How We Met, The Long Version, porém, assume novo (e melancólico) enquadramento em Postcard #17.

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Artista: Thundercat
Gênero: Neo-Soul, Funk, R&B
Acesse: http://www.brainfeedersite.com/

 

De To Pimp a Butterfly (2015) e Untitled Unmastered (2016) do rapper Kendrick Lamar, passando pelo experimentalismo de The Epic (2015), álbum de estreia do saxofonista Kamasi Washington, até alcançar o trabalho de artistas como Ty Dolla $ign, Kirk Knight e Mac Miller, não são poucos os registros que contaram com a presença e interferência do versátil Stephen Bruner. Uma coleção de faixas que atravessa a obra de Erykah Badu, Vic Mensa, Childish Gambino, Flying Lotus e outros nomes de peso da música negra dos Estados Unidos.

Dono de uma bem-sucedida sequência de obras lançadas sob o título de Thundercat – The Golden Age of Apocalypse (2011), Apocalypse (2013) e The Beyond / Where the Giants Roam (2015) –, o músico californiano chega ao quarto álbum de estúdio brincando com a capacidade de dialogar com diferentes estilos e técnicas. Em Drunk (2017, Brainfeeder), cada uma das 23 faixas do disco se transforma em um objeto de destaque, conduzindo a música de Bruner para dentro de um terreno nunca antes explorado.

Melodias eletrônicas que parecem resgatadas de algum jogo de videogame em Tokyo, o R&B sombrio da psicodélica Inferno ou mesmo o som descompromissado que escapa de Bus In These Streets, música que parece pensada como a abertura de alguma série cômica dos anos 1980. Em um intervalo de 50 minutos, tempo de duração da obra, Bruner e um time seleto de colaboradores passeia pelo álbum de forma sempre curiosa, atenta, resgatando diferentes conceitos e possibilidades sem necessariamente fazer disso o estímulo para um trabalho instável.

Mesmo na estranheza de Drunk e todo o universo de possibilidades que cresce dentro de cada composição, Bruner mantém firme a proximidade entre as faixas. São variações entre o R&B/Soul da década de 1960 e o pop eletrônico que começou a crescer no final dos anos 1970. Uma mistura de ritmos temperada pelo jazz fusion, trilhas sonoras de videogame, viagens de LSD e antigos programas de TV, como se memórias da adolescência do músico servissem de base para a formação do trabalho.

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Artista: Dirty Projectors
Gênero: Experimental, Indie, Alternativo
Acesse: http://dirtyprojectors.net/

 

Entre samples de Sheathed Wings, do produtor canadense Dan Deacon, e fragmentos da romântica Impregnable Question, parte do álbum Swing Lo Magellan, de 2012, variações claustrofóbicas na voz de David Longstreth detalham uma poesia angustiada, triste: “Eu não sei porque você me abandonou / Você era minha alma e minha parceira”. Ponto de partida para o sétimo álbum de estúdio do Dirty Projectors, a inaugural Keep Your Name indica o percurso amargo assumido pelo músico nova-iorquino durante toda a formação do melancólico registro.

Claramente influenciado pelo rompimento com a cantora, guitarrista e ex-integrante do Dirty Projectors Amber Coffman – embora Longstreth tenha reforçado em entrevistas que está “tudo bem” entre eles –, o registro flutua em meio a versos dolorosamente apaixonados e tentativas de reconciliação. Dono de grande parte dos instrumentos e responsável pela produção do disco, Longstreth se revela em sua forma honesta, fazendo de cada música ao longo da obra um fragmento essencialmente intimista.

Nosso amor está em uma espiral / Morte / Nosso amor é / Morte”, canta com frieza em Death Spiral, composição que utiliza de samples de Scene D’Amour, música composta por Bernard Hermann para o filme Um Corpo que Cai (1958), de Alfred Hitchcock, e um fino reflexo de qualquer relacionamento em decomposição. O mesmo aspecto se reflete ainda na saudosista Little Bubble, música que se espalha em meio a delírios românticos, memórias e cenas extraídas de um passado recente – “Nós tivemos nossa própria pequena bolha / Por um tempo”.

Tamanha melancolia na construção dos versos se reflete na forma como Longstreth detalha toda a base instrumental do disco. São batidas eletrônicas, ambientações densas e pequenos diálogos com o R&B. Um reflexo da própria colaboração do músico com o trabalho de artistas como Rihanna e Solange, essa última co-autora de Cool Your Heart, bem-sucedida parceria com Dawn Richard. A própria voz, maquiada pelo auto-tune, surge como um elemento fundamental para o crescimento da obra. Uma representação dos pequenos fluxos de pensamento na mente atormentada de Longstreth.

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