Cozinhando Discografias: Animal Collective

Por: Cleber Facchi

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A sessão Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

Para reinaugurar a sessão em 2013, mergulhamos fundo na psicodelia, cores e nos experimentos que marcam a trajetória de uma das maiores e mais inovadoras bandas da atual geração: o Animal Collective. Sempre marcado pela transformação constante de suas obras, o grupo vindo de Baltimore, Estados Unidos soma alguns dos registros mais influentes da década passada e é analisando cada um deles que entregamos mais uma mostra do nosso especial.

Aviso: Não concordou com a ordem dos discos? Simples, mantenha a calma e use os comentários. Aproveite para indicar qual banda você gostaria que estivesse na próxima sessão.

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Animal Collective
#10. Danse Manatee
(2001, FatCat)

Entre 2000 e 2004 o Animal Collective parecia em busca de um som próprio, aportando de maneira livre em uma variedade de propostas aleatórias e por vezes incompatíveis. É justamente dentro desse cenário de desencontros e buscas constantes que cresce Danse Manatee. Segundo registro em estúdio da banda, o álbum mais parece uma Jam Session do que uma obra bem planejada em si. Agrupado de sons, vozes, ritmos e texturas que parecem feitas para desorientar o público, o álbum perverte os rumos a cada nova composição, o que talvez contribua para um completo desconhecimento (ou desprezo) do público que se acostumou com a banda a partir de Merriweather Post Pavilion. De difícil acesso, o disco ecoa como uma passagem lisérgica pela mente de seus realizadores, que em nenhum momento buscam se aproximar do público, pelo contrário, parecem habitar um ambiente próprio e protegido por uma imensa barreira.

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Animal Collective

#09. ODDSAC
(2010)

Produzido entre Strawberry Jam e Merriweather Post Pavilion, ODDSAC é a consolidação de um projeto que a banda vinha desenvolvendo há bastante tempo. Trabalhado em conjunto entre imagem e som, o registro é a primeira obra visual assinada pela banda em parceria com o diretor Danny Perez. De resoluções confusas, o álbum parece correr em um universo paralelo ao que a banda desenvolvia naquele instante, afinal, longe das melodias tanto caracterizavam a proposta do grupo pós-Sung Tongs, o álbum parece regressar aos primórdios do quarteto, resultado facilmente percebido pela solução obscura incorporada na sonoridade, como pelas letras abstratas que recheiam a obra. Mesmo com a ideia de uma composição única (cada música se encaixa diretamente na canção seguinte), o disco se perde em redundâncias e pequenos desajustes que em encontro com as imagens transformaram ODDSAC em um trabalho deveras confuso e por vezes até descartável dentro da produção do Animal Collective.
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Animal Collective

#08. Campfire Songs
(2003, Paw Tracks)

Ainda que insignificante perto da grandeza que preenche a fase mais inventiva do AC, Campfire Songs é uma obra de referências e acertos únicos dentro da carreira da banda. Tomado por composições de grandeza climática, o álbum mergulha o ouvinte em instantes de calmaria e êxtase controlado, como se o grupo pintasse ao longo do trabalho imensas paisagens sonoras que servem de abrigo para o ouvinte. Recheado por faixas que ultrapassam os dez minutos de duração com facilidade, o álbum soa como um preparativo para o que o grupo viria a desenvolver logo no ano seguinte, aperfeiçoando as experiências acústicas que mais tarde resultariam no inventivo Sung Tong. Como se fosse uma única composição, o álbum segue até os últimos instantes em um regime de imensa proximidade, o que por vezes banaliza a atuação do grupo e faz do álbum um exercício de repetições desgastantes. Envolvido por uma temática caseira, no decorrer do disco a banda evita a todo custo manifestar composições que apareçam cercadas pelo exagero, transformando o disco em um projeto de limites artesanais, quase um B-Side de alguma obra maior.

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Animal Collective

#07. Here Comes the Indian
(2003, Paw Tracks)

Um ponto de transição, assim é Here Comes the Indian. Uma das primeiras obra da banda não assinada individualmente por David Portner (Avey Tare) e Noah Lennox (Panda Bear), mas sim como Animal Collective, o álbum funciona como um ponto de concisão para o que a banda viria a desenvolver posteriormente. Com uma maior colaboração de Josh Dibb (Deakin) e sendo o primeiro álbum com a colaboração ativa de Brian Weitz (Geologist), o álbum se divide do princípio ao fim entre experimentos calcados no Noise Pop (Infant Dressing Table) e faixas em que a psicodelia se encontra com a eletrônica de forma assertiva (Panic). Longe das melodias que logo no ano seguinte fariam de Sung Tongs uma das maiores obras da discografia da banda, o disco parece enclausurado em um cenário ora aterrorizante, ora mergulhado em inventos que abrem espaço para pequenos pontos luminosos. Mesmo que o disco dê indícios de que algo maior estava por vir, difícil não afastar o álbum das mesmas experiências musicais que naquele instante caracterizavam a obra solo de Panda Bear.

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Animal Collective

#06. Centipede Hz
(2012, Domino)

Merriweather Post Pavilion é e por enquanto será a maior obra já lançada pelo Animal Collective, entretanto, desconsiderar a grandeza de Centipede Hz, sucessor do clássico registro é um erro de imensa grandeza. Embora se valha de uma série de referências conquistadas há três anos, com o nono registro em estúdio o grupo de Baltimore mais uma vez se transformou. Grandioso, esquizofrênico e tão colorido musicalmente quanto o álbum passado, o disco soa como se todas as faixas fossem BrotherSport, tamanha a intensidade e a natureza descomunal das canções. Dividido em momentos de extrema explosão (Today’s Supernatural) e instantes em que a suavidade ganha um caráter grandioso (Applesauce), o álbum brinca com todas as referências conquistadas pelo grupo há mais de uma década, comprovando (mais uma vez), a relevância e capacidade da banda em se reinventar. O Animal Collective não estacionou nos inventos, está só começando.

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Animal Collective#05. Spirit They’re Gone, Spirit They’ve Vanished
(2000, Animal/FatCat)

Ainda que seja o primeiro exemplar do Animal Collective – na época assinado individualmente por Panda Bear e Avey Tare -, o registro de estreia da banda de Baltimore traz muito do que caracterizaria a atuação do grupo atualmente. Tão logo inicia, uma sequência de sintetizadores bizarros e vozes remodeladas se entrelaçam em uma frequência que tende ao Drone como à psicodelia. Por vezes descartado da discografia da banda, o disco conta com instantes tão ricos e inventivos, quanto em qualquer outra obra assinada pelo grupo. De fato, muito do que seria trabalhado posteriormente, como os sintetizadores explosivos de Strawberry Jam, a instabilidade de Centipede Hz ou mesmo nas próprias melodias comerciais que plastificam Merriweather Post Pavilion se encontram com o passar da obra. Enquanto faixas como April and the Phantom antecipam as emanações de Sung Tong (inclusive valorizando o uso dos elementos orgânicos), La Rapet cai nas mesmas calmarias ambientais que amortecem o espectador em Feels, prova de que todos os elementos que fazem do Animal Collective um dos maiores grupos dessa geração estiveram arquitetados desde o princípio.

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#04. Strawberry Jam
(2007, Domino)

Dois anos antes de alcançar o ápice inventivo, o Animal Collective dava pistas do que estava por vir com o lançamento de Strawberry Jam. Registro mais eletrônico de toda a trajetória da banda, o álbum lida com os sintetizadores, samples e programações eletrônicas de forma curiosa. Espécie de overdose musical, o álbum soterra o ouvinte em uma avalanche de experimentos desajeitados que pouco a pouco se confortam em um espaço musical intencionalmente esquizofrênico. Carregado pelo excesso (das vozes, sons e principalmente das batidas), o disco se ergue como um verdadeiro labirinto de incertezas, afinal, a cada nova faixa apresentada pela banda mergulhamos em um colosso de texturas incompatíveis, proposta que estranhamente aparece bem amarrada ao final da obra. Como a própria capa já aponta, a suposta geleia de morangos fabricada pela banda se resume em um agregado de distintas experiências, que ao final resultam em um trabalho de texturas e sabores que se transformam de forma mágica na boca (e nos ouvidos) do espectador.

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Feels
#03. Feels
(2005, FatCat)

Dentro da vasta e sempre inventiva discografia do Animal Collective, Feels talvez seja o trabalho que mais se distancia do que parece fluir como um “padrão” relacionado aos experimentos da banda norte-americana. Delicado, repleto de passagens pela música ambient e perfumado pelo uso constante de samples bucólicos, o disco de nove faixas é o exemplar mais suave da longa trajetória de composições da banda. Da abertura épica (e quase tribal) de Did You See The Words, passando pela psicodelia acústica de Grass até a calmaria de Daffy Duck e Bees, tudo se desenvolve com parcimônia e beleza, como se a banda se ocupasse de explorar ao máximo cada mínima particularidade que caracteriza o álbum. Utilizando dos vocais como uma espécie de instrumento extra, o disco definiria o que seria utilizado exaustivamente pela banda nos próximos trabalhos, resultado bem manifesto nas vozes sutis que praticamente se escondem na calmaria instrumental de Loch Raven. Sem dúvidas a melhor escolha para quem pretende caminhar sozinho em uma manhã ensolarada ou um dia levemente nebuloso.

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Sung Tongs

#02. Sung Tongs
(2004, FatCat)

Sempre cobertos pelas experimentações eletrônicas e o uso etéreo das guitarras, com o lançamento de Sung Tongs em 2004 o grupo foi em busca de um novo território instrumental. Trabalhado de forma a ampliar as relações com os violões e valorizando as experiências musicais orgânicas (como vozes, palmas e elementos distintos da natureza), o disco possibilita que a banda se aproxime de uma temática voltada ao folk, ou nesse caso, o famigerado Freak Folk. Da mágica canção de abertura, Leaf House, passando por Who Could Win a Rabbit, The Softest Voice e demais composições do álbum, tudo se orienta em uma soma de experimentos acústicos delicadamente encaixados, proposta que cobre o álbum com completude. Graças ao uso adequado dos samples (posteriormente aprimorados dentro da obra solo de Panda Bear), cada espaço no decorrer do registro é ocupado por sutilezas instrumentais que mais tarde dariam lugar a camadas gelatinosas de sons sintéticos. Bucólico e voltado de maneira involuntária aos sons da década de 1960, o disco é um ponto de reclusão dentro da obra dos norte-americanos, uma espécie de paraíso natural dentro de uma coleção de sons habitados por sintetizadores e encaixes eletrônicos.

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Animal Collective

#01. Merriweather Post Pavilion
(2009, Domino)

Quem acompanhava a carreira do Animal Collective desde o começo da década de 2000 sabia que cedo ou tarde o quarteto de Baltimore surpreenderia com um registro de proporções épicas. O que talvez ninguém tenha previsto é que a surpresa viria de maneira tão intensa e inventiva quanto em Merriweather Post Pavilion. Obra-prima do grupo norte-americano, o álbum é uma verdadeira sucessão de acertos que se relacionam diretamente com tudo que a banda vinha produzindo até aquele instante. Do álbum Feels de 2005 vinham as suaves melodias etéreas; os teclados e a profusão de cores instrumentais pareciam surgir como uma versão aperfeiçoada do que fora encontrado dois anos antes em Strawberry Jam; De Sung Tong vinham os percursos musicais não óbvios, além, claro, dos ruídos sintéticos complementares que escapavam dos primeiros lançamentos do grupo. Junte isso a uma necessidade maior em soar pop, referências que escapavam da década de 1970, samples extraídos de sons de outros planetas (como na abertura de My Girls) e você tem a maior obra psicodélica do começo do século XXI. Diferente dos trabalhos anteriores, MPP acerta por justamente lidar com composições de fácil assimilação, resultado que cresce na faixa de abertura In the Flowers, hipnotiza na chuva piscodélica de Summertime Clothes até encerrar de maneira festiva no pop-épico de Brothersport. Colorido da capa icônica aos versos, o disco suga o ouvinte para um buraco negro de experimentações infinitas, se transformando em uma obra de peso tão grande (ou até maior) do que outros registros do gênero lançado anos antes. Uma viagem multidimensional sem sair de casa.

 


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