Cozinhando Discografias: Aphex Twin

A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado muito mais democrático.

Três décadas de carreira, mais de 50 trabalhos lançados e um dos acervos mais influentes da história recente da música. Uma das figuras mais versáteis da cena eletrônica, Richard D. James não apenas conquistou o próprio território dentro do gênero, como também “apontou” a direção para uma série de outros artistas fora dele. De Radiohead a Boards Of Canada, de Skrillex a Calvin Harris, não foram poucos os que buscaram inspiração na obra do veterano. Mais conhecido pelo trabalho com o Aphex Twin, James também deu vida a uma série de projetos paralelos significativos – entre eles, AFX, Caustic Window e The Tuss -, obras e diferentes projetos organizadas do “pior” para o “melhor” em mais um especial da série Cozinhando Discografias.

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#10. DrukQs
(2001, Warp)

Com a virada do século e o começo da década de 2000, Richard D. James parecia em busca de uma nova sonoridade. Não por acaso, este é o período em que o produtor irlandês mais investiu em projetos paralelos e pseudônimos artísticos, transformando o extenso Drukqs, de 2001, no último grande ato como Aphex Twin. Comercialmente bem recebido, o registro duplo de 30 faixas e mais de duas horas de duração revela o interesse de James pelos instrumentos, postura que em nenhum momento distorce a trama eletrônica/ambiental montada desde o fim dos anos 1980. Casa de algumas das composições mais conhecidas do artista – como a adorável Avril 14th -, Drukqs é um trabalho que encanta na mesma medida em que parece sufocar o ouvinte. Um movimento contínuo e exaustivo de faixas jogadas aleatoriamente, fruto da constante quebra rítmica de composições marcadas ora pela euforia, ora pelo completo recolhimento. A julgar pela sequência de obras assinadas previamente pelo produtor, Aphex Twin precisava de férias.

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#09. Rushup Edge
(2007, Rephlex)

Temporariamente afastado do Aphex Twin, em 2007 Richard D. James decidiu se apresentar com um novo “personagem”. Sob o pseudônimo de Karen e Brian Tregaskin, o irlandês deu vida ao projeto The Tuss, ponto de partida para a criação de duas obras essenciais na carreira do produtor: Confederation Trough EP e Rushup Edge. Inevitável regresso ao som incorporado pelo artista na década de 1990, os dois registros funcionam como peças complementares, sustentando um acervo (curto) de canções movidas pela urgência das batidas e sintetizadores sempre eufóricos. Além do forte diálogo com as pistas – ouça Synthacon 9 e Alspacka -, instantes breves de experimento parecem reforçar a completa flexibilidade em torno do projeto, essencialmente insano em faixas como Death Fuck e Rushup i Bank 12 – uma dos melhores criações de James nos anos 2000. Quase uma resposta ao som instável que marca o duplo DrukQs, de 2001, EP e LP parecem confortados dentro de uma mesma base temática, premissa para um dos projetos mais coesos e ainda desafiadores do produtor.

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#08. Chosen Lords
(2006, Rephlex)

De todos os trabalhos que circundam o universo de Richard D. James com o Aphex Twin, AFX talvez seja o projeto (paralelo) mais bem-sucedido do artista. Em produção desde o começo da década de 1990 – dentro da série de EPs Analogue Bubblebath -, no começo dos anos 2000, passada a divulgação do álbum DrukQs (2001), James deu início à uma série de novos registros, Analord, resumindo parte dos 11 EPs relacionados ao projeto em um único trabalho, Chosen Lords (2006). Longe de parecer um mero “agregado” de canções conceitualmente isoladas, da abertura ao fechamento, cada uma das dez faixas da obra parecem partilhar de uma mesma arquitetura frenética. Salve a utilização de faixas mais “leves”, como Boxing Day e PWSteal.Ldpinch.D, todo o material do álbum/coletânea mantém a aceleração de forma constante, resgatando elementos antes apresentados em obras como Surfing On Sine Waves (1993), comoPolygon Window, além de vários singles entregues na década de 1990. Uma espécie de ensaio para o som que seria apresentado um ano mais tarde no projeto The Tuss.

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#07. Surfing On Sine Waves
(1993, Warp)

Antes da consolidação em Richard D. James Album (1996), a obra do produtor irlandês parecia seguir dois caminhos distintos. Sob o nome de Aphex Twin, um diálogo sublime com a Ambient Music, marca detalhada na série Selected Ambient Works e, também, no registro …I Care Because You D, de 1995. No outro lado, disfarçado em meio a projetos paralelos e pseudônimos, a busca por uma sonoridade eufórica, nada sutil e pronta para as pistas, ponto de partida para o álbum Surfing On Sine Waves, de 1993. Apresentado pelo nome de Polygon Window – um dos vários personagens de James -, a obra flui como um diálogo com a cena eletrônica que ocupava parte da Europa e Estados Unidos durante o período. Costurado pelo uso de samples, uso preciso de sintetizadores e bases projetadas por sequenciadores, este talvez seja o álbum em que James mais se aproxima da Acid Techno. Basta se concentrar nas texturas letárgicas de UT1-Dot e Supremacy II, dois exemplares da assertiva estrutura cósmico-dançante que se espalha por toda a obra. Muito do que viria a inspirar o trabalho com o Aphex Twin em SYRO nasceu dentro deste álbum.

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#06. Caustic Window
(2014, Rephlex)

Produzido entre 1992 e 1994, porém, descartado por Richard D. James, Caustic Windows levou mais de 20 anos até ser oficialmente entregue ao público. Em 2014, depois que uma das cinco cópias físicas do registro foi posta à venda, uma parceria entre a Rephlex Records e membros do fórum We Are the Music Makers tornou possível o lançamento (digital) do trabalho via financiamento coletivo no site Kickstarter. Uma das últimas obras analógicas de James, Caustic Window funciona como um natural regresso ao período mais inventivo do produtor. Passo além em relação ao material lançado em Selected Ambient Works, o trabalho assume um caminho particular mesmo em relação a outros projetos do artista lançados no mesmo período – como …I Care Because You D (1995) e Richard D. James Album (1996). A julgar pela estrutura das faixas, o álbum cresce como uma versão “simplificada” do mesmo diálogo com a Ambient Techno da fase inicial de James. Dividida de forma não intencional em dois blocos de canções – um atmosférico e outro dançante -, o disco revela desde faixas montadas em uma estrutura branda – caso de Flutey e Airflow -, até experimentos inusitados, como Mumbly, faixa que utiliza de samples do personagem animado Muttley.

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#05. SYRO
(2014, Warp)

Poucas interpretações sobre o lançamento de SYRO (2014, Warp), sexto álbum do Aphex Twin, são tão contraditórias quanto encarar o novo disco como o simples “fim de um hiato” de Richard David James. Observado de forma atenta, poucos artistas estiveram tão presentes nos últimos 13 anos – período em que se manteve “recluso” – quanto o produtor escocês. Das melodias letárgicas da Chillwave, aos beats assíncronos de Four Tet, Burial e outros gigantes da cena britânica, cada registro lançado na última década trouxe um pouco da essência do veterano; interpretação que faz de Drukqs (2001) apenas a abertura da maior obra do produtor. Movido pelos conceitos da Deep Web – espaço (virtual) encontrado pelo produtor para anunciar as primeiras informações sobre o trabalho -, SYRO é uma obra de nítida comunicação com o presente. Se por um lado a construção sintética dos arranjos imediatamente transporta o ouvinte para a década de 1990, por outro lado, a estrutura hiperativa de cada música extermina qualquer traço de aproximação com os primeiros lançamentos do produtor. Recheado por vozes robóticas (de James e dos próprios filhos), ruídos ambientais, além, claro, da constante mudança de direção, o presente álbum de Aphex Twin se espalha como um imenso labirinto, propositadamente feito para que o ouvinte possa se perder dentro dele.

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#04. …I Care Because You Do
(1995, Warp)

Espécie de intervalo criativo entre os experimentos analógicos da série Selected Ambient Works e a expansão “digital” iniciada com Richard D. James Album (1996), …I Care Because You Do revela um artista em busca de equilíbrio e direção. De um lado, composições serenas, extensas e climáticas, como Acrid Avid Jam Shred e Icct Hedral, natural continuação dos ensaios lançados por James desde o meio dos anos 1980; no outro oposto, a completa esquizofrenia de Ventolin e Start As You Mean To Go On, músicas que antecipam parte da aceleração imposta pelo produtor até o ápice criativo no single Windowlicker, lançado ao final dos anos 1999. Tão detalhista quanto qualquer outro álbum assinado pelo produtor no mesmo período, …ICBYD se acomoda em uma nuvem de sintetizadores, arranjos de cordas e outros instrumentos maquiados pelos efeitos eletrônicos de James, adaptando uma série de faixas compiladas de outros EPs do produtor. Um conjunto de músicas que caminham pela música techno de forma particular (The Waxen Pith), refletem o bom humor do artista (Cow Cud Is A Twin) e ainda flertam com algumas de suas maiores influências – vide os arranjos orquestrais de Philip Glass na música Icct Hedral.

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#03. Richard D. James Album
(1996, Warp)

Complexo e, ao mesmo tempo, acessível. De todos os registros apresentados por Aphex Twin em mais de três décadas de carreira, Richard D. James Album, lançado em 1996, talvez seja a obra que melhor representa o caráter versátil do produtor. Em um ambiente marcado pela constante quebra de ritmos, o irlandês encontra na pluralidade de temas o principal componente para o equilíbrio dos arranjos e sustento de cada canção. Livre do som “comportado” que rege a série Selected Ambient Works, todas as peças do álbum reforçam a necessidade do artista em projetar um som enérgico, quase dançante, preferência que em nenhum momento distorce a delicadeza dos primeiros discos ou mesmo tropeça no som “obscuro” do antecessor, …I Care Because You Do (1995). A julgar pela manipulação branda dos sintetizadores e até mesmo dos vocais – mesmo encoberta por efeitos, é a voz de James em Milkman -, este talvez seja o trabalho em que o produtor mais se relaciona com a “música pop”, postura nítida no jogo pueril dos sintetizadores de Fingerbib e Girl/Boy Song, ou mesmo na eletrônica “fácil” que abre o disco com 4 e Cornish Acid. Caso nunca tenha ouvido Aphex Twin na vida, não tenha dúvidas, comece por este disco.

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#02. Selected Ambient Works Volume II
(1994, Wire)

O “personagem” e a imagem perturbadora criada por Aphex Twin em Richard D. James Album (1996), posteriormente reforçada na identidade visual de Windowlicker (1999), muitas vezes parece ocultar a delicadeza exposta nos iniciais registros do produtor. Sequência ao primeiro álbum “de estúdio” de James, Selected Ambient Works Volume II (1994) talvez seja a obra mais sensível e isolada de toda a carreira do artista. Extenso, são 25 faixas e mais de 150 minutos de duração, o registro duplo parece confortar o ouvinte em um mundo de sonhos, melancolia e construções instrumentais delicadamente esculpidas por sintetizadores. Utilizando imagens para representar o nome de cada canção – exceto Blue Calx, a única música com título em toda a obra -, James converte as mais de duas horas de duração do disco em uma verdadeira experiência. Fazendo valer o título de “Ambient Works” estampado na capa do álbum, o irlandês se aproxima de uma série de elementos típicos da obra de Brian Eno, detalhando verdadeiros “cenários musicais”, transformando duas dezenas de músicas em lugares – campos, florestas, montanhas e construções, como as imagens indicam -, a serem visitados pelo ouvinte.

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#01. Selected Ambient Works 85–92
(1992, Apollo)

Você já teve a sensação de descobrir uma discografia inteira dentro de um único álbum? Assim é Selected Ambient Works 85–92, registro de estreia de Richard D. James com o Aphex Twin e a base para toda a carreira do produtor. Catálogo de composições acumuladas em mais de meia década de produção – entre 1985 e 1992, como explícito no título do álbum -, o debut/coletânea funciona como um passeio rápido pelas principais referências do produtor – caso de Brian Eno, 808 Estate e Philip Glass -, ao mesmo tempo em que estabelece uma série de regras próprias, passagem para a série de registros apresentados por James no restante da década.

Dissolvidas em uma mesma base instrumental branda, por vezes dançante, todas as canções do disco parecem se encaixar de forma a conduzir um mesmo bloco de experiências. Com leveza, uma obra que abraça o som atmosférico explorado por diferentes artistas na década de 1970, ao passo em que perverte grande parte da aceleração da música Techno – em plena expansão durante o período de lançamento do disco. Contando com a criação faixas produzidas quando James tinha apenas 14 anos de idade, SAW reforça coerência e maturidade, apresentando ao ouvinte um jogo cuidadoso de texturas, sintetizadores hipnóticos e sons tão curiosos, que parecem até vindos de outro planeta. Longe da euforia exposta no single Digeridoo – música que apresentou o trabalho produtor – a passagem direta para um novo universo de possibilidades.


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