Cozinhando Discografias: Arcade Fire

Arcade Fire

A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

Bastaria ao Arcade Fire apenas o primeiro trabalho em estúdio, Funeral (2004), para firmar de vez o nome da banda na história recente da música. O cruzamento inteligente entre o rock de arena e o Baroque Pop da década de 1960 deu ao grupo canadense um campo ilimitado de possibilidades, exercício seguido de forma satisfatória no catálogo de registros seguintes do grupo. Mesmo com poucos trabalhos em estúdio, a banda mantém uma evidente posição de destaque na cena atual, acabamento que se reverte na orquestração firme do casal Win Butler e Régine Chassagne. Próximo de se apresentar no Lollapalooza Brasil – a última passagem da banda foi há quase uma década -, o grupo é o mais novo selecionado a integrar a seção Cozinhando Discografias, tendo todos os discos de estúdio organizados do “pior” para o “melhor” álbum.

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Arcade Fire

#04. Neon Bible
(2007, Merge)

Contrariando a leveza mórbida que habita os versos e arranjos de Funeral (2004), com o segundo trabalho em estúdio, o Arcade Fire buscou ser (ainda) maior. Impulsionado pelos arranjos ascendentes de Black Mirror, faixa de abertura do álbum, o trabalho se acomoda em um oceano de maquinações sombrias e a capacidade cada vez mais sofisticada de Win Butler em brincar com estes elementos. Com uma relação ainda maior com o rock de arena dos anos 1980, o disco aos poucos silencia o Baroque Pop do primeiro álbum, abraçando uma imposição rígida – premissa evidente em faixas como Keep The Car Running e No Cars Go. Claro que a sobriedade imediata do álbum não exclui o esforço de canções mais brandas, caso de Windowsill e Intervention, composições que visitam diversos aspectos abordados no primeiro disco. Bem recebido pelo público e crítica, Neon Bible romperia sem dificuldades com os limites típicos de uma “banda independente”, posto assegurado nas altas vendas do trabalho e no completo fascínio do público durante os sempre lotados espetáculos da banda.

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Reflektor

#03. Reflektor
(2013, Merge)

Quem prestou atenção aos detalhes de Sprawl II (Mountains Beyond Mountains), faixa de encerramento de The Suburbs (2010), encontrou nos sintetizadores e batidas nostálgicas uma passagem direta para Reflektor. Quarto registro em estúdio do Arcade Fire, o álbum assume no flerte com a eletrônica e a viagem aos anos 1980 um completo desligamento do teor épico-orquestral retratado desde o debut, Funeral (2004). Um esforço que serviu para apresentar de vez a banda canadense ao grande público. Dividido em dois atos, o álbum carrega na primeira metade um compendio totalmente íntimo do synthpop/pós-punk firmado há três décadas. Aos comandos (essenciais) de James Murphy (LCD Soundsystem), músicas como Normal Person, Here Comes the Night Time e a própria faixa-título brincam com a obra de Talking Heads, David Bowie e U2 sem perder a relação com o presente. Já para a segunda metade, decidida pelo velho colaborador Markus Dravs, todas referências assumidas desde o começo da carreira voltam a se repetir, porém, de forma atualizada, incorporando toques de música latina. O conjunto imenso de temáticas e específicas referências fazem nascer uma obra extensa, mas que parece se extinguir em segundos tamanha a versatilidade que a define. Who The Fuck Is Arcade Fire? Basta ouvir Reflektor e você encontrará todas as respostas.

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Arcade Fire

#02. The Suburbs
(2010, Merge)

Bastava ao Arcade Fire apenas um trabalho para cruzar os limites da cena alternativa e alcançar de vez o Mainstream. Com a chegada de The Suburbs, terceiro álbum de estúdio, esse resultado não apenas foi superado, como posicionou o coletivo canadense no topo das grandes bandas dos anos 2000. Ainda que Funeral (2004) tivesse arrancado o louvor da crítica e Neon Bible abrisse passagem para o grupo, é nos acordes plásticos e versos prontos do álbum de 2010 que o coletivo se mostra em essência. Conceitual, o disco passeia pelos subúrbios norte-americanos de forma nostálgica, se alimentando de histórias de amor, temas cotidianos e uma série de referências simples, porém, grandiosas quando enquadradas dentro da lógica épica da banda. Costurado como um bloco único de sons e versos, o álbum usa da autointitulada faixa-título como uma premissa para as canções seguintes, fazendo da aceleração de Ready To Start ou da leveza da City With No Children retalhos de um mesmo ambiente temático. Seja ao antecipar futuras referências – como nos sintetizadores de Sprawl II (Mountains Beyond Mountains) -, ou resgatando antigas essências – vide Half Light I -, cada passo dado em The Suburbs é assumido com firmeza e forte comunicação com o grande público. No fim das contas, o Grammy de melhor álbum do ano em 2011 é apenas a cereja do bolo.

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Arcade Fire

#01. Funeral
(2004, Merge)

Ainda que a anunciação mórbida do título defina Funeral como uma obra marcada pela morte, bastam os instantes iniciais de Neighborhood #1 (Tunnels), para perceber como a vida cresce na estreia do Arcade Fire. Nascido de uma sequência natural do despretensioso EP de 2003, o debut do coletivo canadense encontra nas histórias de amor, tramas cotidianas e canções de rico acervo melódico um curioso cenário para a apresentação e plena sustentação do grupo. Embalado por referências que vão do Chamber Pop da década de 1960 aos experimentos de David Bowie nos anos 1970, o casal Win Butler e Régine Chassagne usa das próprias confissões como a matéria-prima para o crescimento do registro. São músicas como Neighborhood #2 (Laika) e Crown of Love que resgatam o que há de mais sublime e doloroso na alma de qualquer ser humano, tratamento arquitetado até o último ato do disco.

A construção orquestral, que funde arranjos de cordas, guitarras e sintetizadores em um mesmo cenário, cresce e diminui sem ordem aparente, impulsionando um disco musicalmente amplo, capaz de ir de um cenário épico ao acolhedor em poucos instantes. A sobriedade que embala o álbum – expressa com notoriedade em In the Back Seat -, de forma alguma distancia os canadenses de um possível tratado radiofônico, frente que Wake Up e Rebellion (Lies) assumem com um brilho pop peculiar. Sublime e ainda assim imenso, o melhor disco dos anos 2000.

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