Cozinhando Discografias: Beck

 

A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

Instável” parece ser uma boa palavra para descrever o trabalho do californiano Beck Hansen. Dono de um dos catálogos mais voláteis de toda a cena alternativa, o músico norte-americano ocupou grande parte da década de 1990 e 2000 com um jogo de sons capazes de perverter qualquer resultado de aproximação com o óbvio. Do Hip-Hop ao Folk, do Rock ao R&B, nenhum gênero parece representado de forma comum nas mãos do cantor. Responsável por clássicos “antigos” (como Odelay e Mellow Gold) e recentes (caso de Modern Guilt e Sea Change), Beck trouxe em cada registro um percurso isolado, fazendo dessa transformação a base para uma das discografias mais ricas que já passaram em nosso especial.

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#13. Golden Feelings
(1993, Sonic Enemy)

Quem conhece apenas o trabalho de Beck pós-Mellow Gold, talvez encontre em Golden Feelings, primeiro trabalho oficial do cantor, um cenário desconcertante e naturalmente distinto. Nada das passagens pelo Hip-Hop, as experiências eletrônicas ou o Pop reformulado que ocupa a boa fase do músico, cada uma das faixas que alimentam a obra se dividem em um jogo tímido de violões e confissões abrandadas, quase um oposto do que veríamos mais tarde. Originalmente lançado em fita cassete, em meados de 1993, o disco é um mergulho no anti-folk e na música Country, preferência que ameniza a invenção do californiano e trata todas as composições como iguais. São faixas de poesia urbana, melancólicas, mas que pouco distanciam Hansen de outros artistas do gênero. Claro que músicas como a extensa Heartland Feeling fazem de tudo para romper com essa estética, antecipando alguns elementos que viriam a ocupar com significativo destaque o trabalho do músico em poucos anos.

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#12. Stereopathetic Soulmanure
(1994, Filpside)

Beck sempre pareceu inclinado ao experimento, o que em começo de carreira foi traduzido de forma “inusitada” dentro da obra do músico. Lançado no começo de 1994 e antecipando uma série de conceitos que viriam a ocupar com maior acerto Mellow Gold, Stereopathetic Soulmanure serve como um espaço ao invento e provas constantes de conceito, o que não necessariamente se traduz em acerto para a obra do cantor. Imenso – são mais de 20 faixas, boa parte delas abordadas em uma estética Lo-Fi involuntária -, o álbum flutua entre gêneros em um sentido atento de descoberta. Fortemente atrelado aos sons da Folk Music, o álbum vez ou outra escapa da calmaria original do músico, amarrando passagens pelo rock alternativo (Thunder Peel) e experimentos diversos que ocupam grande parte da segunda metade do disco. Primeiro dos três discos lançados pelo músico em 1994, o álbum é a comprovação da versatilidade de Beck, que só precisava saber como organizar as ideias para acertar de fato.

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#11. One Foot in the Grave
(1994, Geffen)

Gravado e finalizado antes da chegada de Mellow Gold, One Foot in the Grave só foi apresentado oficialmente meses após a ruptura conceitual de Beck ser anunciada. Um resultado que explica o “regresso” ao folk que acaba orientando os rumos de toda a obra. Desenvolvido ao lado de Calvin Johnson – músico, produtor e criador do selo K Records -, que inclusive figura ao lado do californiano na capa do disco, o álbum é visivelmente uma manifestação isolada dentro da carreira do artista. Longe dos experimentos que ocupariam a boa fase de Hansen, e livre da timidez confessional instalada nos primeiros registros em estúdio, o disco ecoa como um pedaço do Alt. Country sem necessariamente parecer voltado a isso. Ainda que faixas como Burnt Orange Peel reforcem a estranheza do compositor, é em uma atmosfera branda que o registro se desenvolve, trazendo em músicas como See Water e Hollow Log um lirismo particular – mesmo dentro do imenso cardápio de referências que esculpem a obra do cantor.

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#10. Colors
(2017, Capitol)

Sucessor do elogiado Morning Phase (2014) – vencedor do Grammy 2015 na categoria Álbum do Ano –, Coloros talvez seja o trabalho em que Beck Hansen se despe inteiramente de possíveis experimentações. Trata-se de uma obra direta, rápida, por vezes rasa, como se cada composição encaixada no interior do álbum fosse tratada como um hit em potencial, acertando em cheio o ouvinte médio. Ainda que composições como Wow sejam capazes de dialogar com a boa fase do músico norte-americano, lembrando em alguns aspectos a atmosfera de trabalhos como Odelay (1996), sobrevive no restante da obra um esforço de Beck em abraçar o grande público. Canções montadas a partir do jogo simples dos arranjos e vozes, vide o pop rock melódico que invade o disco em Dreams, perfeita síntese do material produzido para o álbum. São faixas como Dear Life, Up All Night e I’m So Free, composições que invadem o mesmo território autoral de outros nomes recentes do pop rock estadunidense, caso de Foster The People, Portugal. The Man e Imagine Dragons, efeito da poesia descompromissada, coros de vozes e toda a atmosfera festiva que cresce de forma desmedida. Um som colorido, pop e fácil, mas que em nenhum momento oculta o cuidado de Hansen na construção de cada fragmento instrumental.

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#09. Morning Phase
(2014, Capitol)

Mudança, sem necessariamente sair do mesmo lugar. Este parece ser o propósito de Beck em Morning Phase. Reciclagem de temas e arranjos originalmente concebidos para o disco Sea Change, o 12º álbum de estúdio do cantor se revela como um assumido olhar para o passado. Da mesma forma que o registro de 2002, o californiano usa do trabalho como uma terapia compartilhada com os ouvintes, assumindo desilusões amorosas e uma variedade de tropeços sentimentais a cada nova música. Da abertura ao fechamento, músicas como Unforgiven e Don’t Let It Go se convertem em exposições amargas do próprio artista, o que não exclui o natural diálogo com o espectador. Primeiro trabalho de inéditas depois um hiato de seis anos – focado em parcerias com Stephen Malkmus e Thurston Moore -, Morning Phase é uma obra que mesmo triste, emana sobriedade e reforça a maturidade de Beck.

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Beck

#08. The Information
(2006, Interscope)

Desenvolvido em pequenas doses, The Information levou mais de três anos para ser finalizado. Com produção assinada Nigel Godrich – que na época se revezava entre os álbuns de Air, Paul McCartney e Thom Yorke -, o disco ecoa como uma coletânea de trabalhos colaborativos entre o produtor britânico e o músico californiano, aspecto que explica a pluralidade da obra. Valorizando os instrumentos, o trabalho antecipa uma série de marcas que seriam melhor aproveitadas em Modern Guilt, rompendo com a zona de conforto do músico, sem necessariamente manifestar isso de forma brusca. O Rap parece sobreposto ao rock, que por sua vez valoriza efeitos alcançados no Krautrock de bandas como Neu! e até atmosferas específicas da obra de David Bowie – na fase Berlin, como representam os sintetizadores. Embora impulsionado por boas faixas, como Cellphone’s Dead e Nausea, o disco trouxe na capa customizável um diferencial. Acompanhado de um kit de adesivos na edição física, o trabalho autorizava o ouvinte a criar sua própria estética do registro.

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Guero

#07. Guero
(2005, Interscope)

Enquanto o rock alternativo tomava conta da década de 1990, Beck resolveu seguir por um caminho contrário, “redescobrindo” parcialmente a vertente anos mais tarde, em Guero. Oitavo registro em estúdio do cantor, o disco é uma verdadeira passagem pelo rock firmado anos antes, efeito exposto nas guitarras, vozes e sons bem posicionados com as referências da época – que não excluem a tradicional instabilidade que impulsiona a obra do artista. Mais uma vez acompanhado pela dupla de produtores The Dust Brothers – responsáveis pela composição de Odelay, Paul’s Boutique do Beastie Boys, além do “clássico” MMMbop dos Hansons – e de um instável Jack White (Go It Alone), Hansen trilha uma sequência de faixas tão acessíveis que praticamente rompem com qualquer invento prévio. Estão lá músicas como E-Pro, Girl e todo um cardápio de versos fáceis, abertos ao público. Sobram ainda referências à música brasileira (Missing), Hip-Hop (Hell Eyes) e os mesmos dramas épicos (Broken Drum) testados em Sea Change. O mesmo velho Beck, porém, entregue ao grande público.

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Beck

#06. Mutations
(1998, Geffen)

Misture psicodelia, Bossa Nova, Hip-Hop e boas doses de Folk. Acrescente uma camada extra de experimentos eletrônicos, a produção límpida de Nigel Godrich e um time de instrumentistas bem posicionados. Desse jogo de colagens e referências você extrai Mutations, mais um exemplar criativo dos rumos assumidos por Beck na década de 1990. Obra essencial para o que seria explorado com maior destaque em Sea Change (2002), o registro mostra a opção do músico pela desaceleração, uma sentido oposto ao que Beck havia testado dois anos antes, em Odelay (1996). Fortemente influenciado pela música brasileira – vide o catálogo de sons que alimentam Tropicalia -, o álbum amadurece a relação confessa do cantor com a obra d’Os Mutantes, Caetano Veloso e Tom Jobim, acrescentando uma carga extra ao tempero variado que naturalmente define a obra do músico. Com um espaço maior para as guitarras, Beck e o produtor parecem encontrar uma tonalidade homogênea em relação aos sons propostos anteriormente, sendo um princípio para o que explodiria em pouco tempo com Midnite Vultures (1999).

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Beck

#05. Modern Guilt
(2008, DGC)

O passado sempre ocupou os trabalhos de Beck, porém, nunca de forma tão expressiva quanto em Modern Guilt. Temperado pela essência da década de 1970, o disco dança entre referências ao Soul, Funk, rock clássico, além de uma sequência de bases que refletem o principio do Hip-Hop. Com produção dividida com Danger Mouse (Gnarls Barkley), e uma sequência de faixas assinadas em parceria com Chan Marshall (Cat Power), o disco cresce em uma atmosfera nostálgico-futurista, acrescentando um visível teor de novidade ao cenário autoral do músico. Recheado de forma expressiva por boas guitarras – vide o loop crescente de Gamma Ray -, e uma interpretação curiosa das batidas e bases – como as instaladas em Replica e Walls -, o trabalho soa como uma obra retrô do próprio Beck, algo que o músico seria capaz de lançar se estivesse na ativa em 1975. Com um perfume visível de David Bowie e naturalmente distante das tradicionais referências latinas, Modern Guilt ecoa como uma fuga involuntária do próprio universo de Beck. Um novo Midnite Vultures, porém, sombrio.

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Mellow Gold

#04. Mellow Gold
(1994, DGC)

Um disco de Anti-Folk, carregado de rimas típicas do Hip-Hop e uma instrumentação tão instável quanto as referências temáticas que o compõem, Mellow Gold, estreia de Beck em estúdio tinha tudo para se transformar em um fracasso. Ainda bem que isso não aconteceu. Curioso sucesso de vendas na época de seu lançamento, o disco quebra de forma definitiva a amenidade que ocupava os iniciais (e caseiros) registros do californiano, exercício exposto na sonoridade cuidadosa, vocais polidos e um verdadeiro catálogo de sons marcados pela versatilidade. Repleto de “hits” – caso de Loser, Beercan e Fuckin With My -, o trabalho altera os rumos a todo o instante, antecipando uma série de elementos que seriam melhor aproveitados nos futuros lançamentos do artista. Com produção assumida pelo próprio músico e um time pequeno de convidados, o álbum assume em cada faixa um ambiente isolado, indo do Experimental Folk (Pay No Mind) ao Rap-Punk (Soul Suckin Jerk) em poucos segundos. Um verdadeiro convite ao estranho universo de Beck.

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Beck

#03. Midnite Vultures
(1999, DGC)

Se Odelay estabeleceu as regras ao trabalho de Beck, então em Midnite Vultures o músico resolveu perverter esse resultado com uma medida frenética de sons, vozes e arranjos. De orientação dançante e carregado de referências implantadas na década de 1970 – principalmente o R&B e o Funk -, o sexto registro em estúdio de Beck é uma explosão, como se todos os efeitos acumulados ao longo dos anos 1990 intencionalmente fugissem ao controle do músico. Brincando com uma espécie de Krautrock suingado, Beck choca Kraftwerk com Prince, David Bowie com Bestie Boys e toda uma soma de referências instáveis que parecem cuidadosamente ordenados por ele e pela dupla de produtores The Dust Brothers. Com faixas como Hollywood Freaks, Nicotine & Gravy e Sexx Laws, o músico deu um passo seguro em relação ao grande público, o que não exclui a visão da obra como um catálogo excêntrico de sons e experimentos variados. Como se assumisse um personagem diferente a cada música, Beck entrega ao ouvinte um cenário de cores e quebras constantes, sendo um ponto final na pequena saga de obras apresentadas durante a década. Beck havia descoberto a maturidade, e da melhor forma possível.

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Sea Change

#02. Sea Change
(2002, Geffen)

Um fim de relacionamento e Beck teria em mãos a matéria-prima para o confessional Sea Change. Exemplar mais denso de toda a discografia do cantor, o álbum caminha em um sentido oposto ao que havia guiado o trabalho do californiano até Midnite Vultures (1999), substituindo o clima festivo de outrora por um resultado de estrutura introspectiva. Amargo em essência, o registro possibilita ao músico navegar em um oceano de sensações obscuras, caso de Guess I’m Doing Fine, The Golden Age, Lonesome Tears e demais composições entregues de forma sorumbática por todo o registro. Livre da exaltação, o músico e o produtor Nigel Godrich optam pelo detalhamento dos arranjos, exercício que impulsiona a presença funcional de arranjos de cordas e teclados climáticos, bases para o que Beck sustenta com versos pontuados pela saudade e desilusão. Sem a preocupação em parecer acessível, o músico se acomoda de forma assertiva em um cenário de composição hermética, uma espécie de fuga ao que havia sido proposto anteriormente, ou mesmo em relação aos sons restabelecidos em poucos anos. Sofrer pode ter sido uma maldição para Beck, mas veio como uma benção para os ouvintes.

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#01. Odelay
(1996, DGC)

A julgar pela composição assumida em Mellow Gold (1994), era apenas questão de tempo até que Beck surgisse com algum registro de grandeza maior e invento ainda mais expressivo. Percurso de incertezas e aprimoramentos constantes, Odelay veio como um concentrado maduro dos inventos prévios do músico, reforçando na instabilidade dos versos e sons a base para cada excêntrica canção instalada na obra. Metade Beastie Boys (do álbum Paul’s Boutique), metade Talking Heads (no clássico Remain in Light), o quarto registro em estúdio de californiano é de forma bastante clara uma compilação de ideias, tendências e transformações, exercício que segue da faixa de abertura, Devils Haircut, até o último segundo do álbum.

Desenvolvido em cima de rimas, cantos e até neologismos poéticos, o álbum parece mudar de direção a todo o instante. Basta observar Hotwax, faixa que assume musicalmente uma reformulação do Folk-Country implantado em começo de carreira, rimas que tendem ao Hip-Hop, e toda a base conceitual que alimenta músicas como Novacane, Jack-Ass e demais canções espalhadas pelo disco. Sobram passagens pelo Krautrock (Where It’s At), pop (Sissyneck) e qualquer outro gênero que Beck interprete dentro de uma medida lírica e sonora particular, sempre excêntrica. Acompanhado de um time de produtores – que incluem The Dust Brothers, Mario Caldato, Jr, Brian Paulson, Tom Rothrock e Rob Schnapf -, Hansen fez do álbum um mergulho nas referências musicais conquistadas desde os anos 1960, o que faz da incerteza nos sons um princípio natural para toda a invenção que acompanha a obra. Um exemplar típico dos anos 1990, mas que ao ser observado atentamente exibe recortes sonoros específicos de diferentes épocas.


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