Cozinhando Discografias: Belle and Sebastian

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A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

Responsáveis por uma das discografias mais dolorosas e influentes da música alternativa, os escoceses do Belle and Sebastian são os escolhidos da nossa  seção. Formado em meados da década de 1990 como um projeto de faculdade do vocalista e líder Stuart Murdoch, o coletivo é o berço de algumas das obras mais significativas das últimas duas décadas. Álbuns como If You’re Feeling Sinister e The Life Pursuit que ainda hoje ecoa no trabalho de bandas como The Shins, Camera Obscura e outros tantos grupos que se alimentam das mesmas referências geradas pelos britânicos.

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Storytelling

#09. Storyteling
(2002, Jeepster)

Capaz de brincar com aspectos amargos da sociedade norte-americana em seus filmes, o diretor Todd Solondz convidou o coletivo escocês para que fossem responsáveis pela trilha sonora de Storytelling, película de 2001. Composto de treze faixas inéditas, o registro dança em cima de composições que mesmo próximas do que a banda havia lançado previamente, preza por um novo encaminhamento instrumental. São faixas construídas quase inteiramente em cima de pianos delicados e elementos diminutos em relação ao que o grupo havia alcançado previamente. Músicas alimentadas por uma timidez ambiental e pequenos realces sonoros que lembravam vagamente o que fora encontrado em Tigermilk (1996). Nitidamente inspirados pelo trabalho de Simon & Garfunkel no álbum Sounds of Silence (1966), o grupo deixa os vocais em segundo plano (como em Black And White Unite), conduzindo o ouvinte por entre os pequenos atos que orientam o filme.

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Belle and Sebastian

#08. Fold Your Hands Child, You Walk Like a Peasant
(2000, Jeepster)

Depois da sequência de três obras fundamentais que fizeram do Belle and Sebastian um dos grupos mais influentes da década de 1990, o coletivo parecia chegar aos anos 2000 com o pé esquerdo. Redundante e naturalmente instável, Fold Your Hands Child, You Walk Like a Peasant, quarto registro em estúdio da banda pouco se aproxima do mesmo desempenho dos registros iniciais. Trata-se de uma obra recheada por composições que mais parecem sobras dos trabalhos anteriores, feito que o grupo conduz com um álbum arrastado e que desperdiça boas composições em um oceano de faixas mornas ou pouco cativantes. Último projeto da banda em parceria com o baixista Stuart David, o álbum serviu para revelar o desgaste entre os próprios integrantes, efeito que levaria Isobel Campbell a deixar a banda em 2002. Problemas com a gravadora e um série de outras adversidades internas pareciam circundar o cotidiano do grupo, o que não impediu o nascimento de boas canções como Waiting For The Moon To Rise e Women’s Realm, aperitivos para os lançamentos seguintes.

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#07. Girls in Peacetime Want to Dance
(2014, Matador)

A capacidade de contar boas histórias talvez seja o principal instrumento de trabalho a cada novo álbum do Belle and Sebastian. Personagens fictícios esbarram nas histórias reais de Stuart Murdoch, dramas corriqueiros se escondem em meio a confissões intimistas e versos irônicos passeiam em meio a bases sutis, como se histórias tipicamente adultas fossem acomodadas em uma estrutura de composição pueril. Com o nono álbum de estúdio, Girls in Peacetime Want to Dance, a essência da banda permanece a mesma, entretanto, a estrutura musical agora é outra, íntima das pistas de dança. Longe de escapar do mesmo ambiente confortável (e pop) reforçado desde Dear Catastrophe Waitress (2003), cada instante do sucessor de Write About Love (2010) parece articulado em meio a tímidos passos de dança. Poderia ser um material perdido do ABBA – na fase Arrival (1976) – ou mesmo uma versão menos frenética do Cut Copy em In Ghost Colours (2008), mas é apenas um curioso exercício de criação, a tentativa de Murdoch em encaixar seus tradicionais temas humanos em cima de descompassadas coreografias.

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Belle and sebastian

#06. Belle and Sebastian Write About Love
(2010, Rough Trade)

The Life Pursuit veio como um sopro criativo de extrema necessidade para abastecer os trabalhos da banda. Ainda íntimos dos mesmos sintetizadores versáteis e arranjos ensolarados que deram vida ao sétimo disco, o coletivo voltou em 2010 com mais uma obra de puro acerto e beleza. Com o encantador título de Belle and Sebastian Write About Love, o oitavo registro em estúdio do grupo parece seguir por um rumo completamente distinto em relação a tudo o que orientou a produção inicial da banda, abraçando de vez o Folk Pop incorporado em 2006. Nada tímidas, as canções se acomodam em arranjos comerciais, vozes distantes do propósito intimista e uma transformação instrumental que movimenta cada faixa do disco em uma direção específica. Ainda assim, a uniformidade entre as músicas é constante, efeito que conduz o trabalho de I Didn’t See It Coming até o fechamento com Sunday’s Pretty Icons em uma medida de forte similaridade. Vindo de um hiato de quatro anos, o disco foi lançado sob forte expectativa, resultado que o grupo assume com um imenso catálogo de hits populares e ainda assim tão tocantes quanto na produção da década de 1990.

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Belle

#05. Dear Catastrophe Waitress
(2003, Rough Trade)

A saída de alguns dos integrantes, troca de gravadora e a incapacidade de alcançar um registro tão criativo quanto em começo de carreira, todos estes elementos pareciam mergulhar o Belle and Sebastian em uma fase tão ruim que o fim do grupo parecia inevitável. Parecia se não fosse o exercício de superação que conduz com maestria o sexto registro em estúdio da banda, Dear Catastrophe Waitress (2003). Acompanhado pelo experiente produtor Trevor Horn, o grupo dá início ao que seria concluído em poucos anos com The Life Pursuit (2006), tratando vozes e instrumentos com uma movimentação despretensiosa que parecia inclinada ao pop. Ao mesmo tempo em que as canções pareciam íntimas de tudo o que o grupo conquistou em começo de carreira, o brilho comercial e as melodias vendáveis aproximavam o coletivo de um novo cenário. Um trabalho que se sustenta inteiramente em cima de faixas coloridas por guitarras leves (I’m A Cuckoo), vocais alimentados pelas referências da década de 1960 (Roy Walker) e todo um mosaico de sons que puseram o grupo de volta aos eixos.

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Belle and Sebastian

#04. The Boy with the Arab Strap
(1998, Matador)
Passada a boa repercussão em torno de If You’re Feeling Sinister (1996), Stuart Murdoch e os parceiros tiveram de se decidir: Ou seguiam em frente com os mesmos sons alcançados no trabalho anterior ou buscavam pela novidade. Com a chegada de The Boy with the Arab Strap, em 1998, a resposta estava clara. Enquanto os versos lidavam abertamente com a mesma soma irônica de elementos pessoais, os instrumentos puxavam o grupo para uma variedade de caminhos ainda mais ricos do que nos registros passados. As bases compactas encontrados nos primeiros trabalhos dos Smiths ainda abasteciam boa parte do que definia o trabalho do grupo, a diferença estava no uso coerente de novos instrumentos e referências. São sintetizadores amenos em contato com acordes suavizados de violão, uma divisão quase confessa entre a Bossa Nova e o Folk doloroso da década de 1970.

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The Life Pursuit

#03. The Life Pursuit
(2006, Rough Trade)

Em um ano de grandes lançamentos como Return to Cookie Mountain do TV On The Radio, Silent Shout do The Kinfe ou ainda o surgimento de novatos como Peter Bjorn & John e Lily Allen, o regresso do Belle and Sebastian com The Life Pursuit veio como um ponto de significativa importância para a cena musical. Melhor registro em estúdio do grupo desde a boa fase na década de 1990, o álbum flutua constantemente entre as heranças da banda e a busca assumida pela novidade. Acomodado em canções que aproveitam de forma abusiva o uso de guitarras e sintetizadores  o registro trata as canções de Murdoch com uma energia diferente do que desmotivou o grupo no começo dos anos 2000, engrenando na mesma pluralidade instrumental testada em Dear Catastrophe Waitress. Tony Hoffer, que já havia trabalhado com Beck e Phoenix é responsável pela carga jovial que se espalha pela obra, efeito que garantiu ao coletivo o trabalho com o maior lançamento de singles desde a estreia do segundo disco. Maior ponto de ruptura e transformação dentro da carreira da banda, o disco serviria como sustento para os álbuns seguintes, inclusive àqueles relacionados aos projetos solos de cada integrante.

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Tigermilk

#02. Tigermilk
(1996, Electric Honey)

Nascido do encontro entre Stuart Murdoch e o baixista Stuart David, Tigermilk foi incialmente planejado como um projeto de Conclusão de Curso para a escola de música Stow College, em Glasgow. Lançado pelo selo Electric Honey, da própria instituição, o registro viria a se transformar em uma raridade para fanáticos pela banda, colecionadores que não se recusariam a pagar algumas centenas de libras por uma das 1000 cópias originais da obra em vinil. Ainda que se sustente em torno da própria origem, a estreia do Belle and Sebastian vai além de um projeto marcado pelo misticismo, afinal, trata-se de um exemplar cuidadoso de músicas apoiadas na vida de jovens adultos. Enquanto as melodias suavizadas resgatam marcas específicas da obra de Nick Drake os versos irônicos de Murdoch criam um laço visível com tudo o que Bob Dylan e The Smiths conquistaram ao longo da carreira. Passagens sombrias sobre a necessidade de crescer, o medo de se apaixonar e pequenas colagens cotidianas que se acomodam comportadas até o encerramento do disco. Sutil e ainda assim doloroso, o disco abriria caminho para o que a banda viria a desenvolver em poucos meses com o lançamento de If You’re Feeling Sinister.

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#01. If You’re Feeling Sinister
(1996, Jeepster)

Se levarmos em conta tudo o que foi produzido na segunda metade da década de 1990, If You’re Feeling Sinister talvez fosse o registro mais improvável a surgir naquele momento. Enquanto ecos da cena Grunge seguiam para além da extinção do Nirvana, o Britpop crescia em meio ao duelo entre Oasis e Blur, um contraponto à expansão do Hip-Hop e outros pequenos gêneros que só seriam compreendidos ao final da década. Stuart Murdoch, entretanto, parecia trilhar um caminho próprio e naturalmente bem decidido. Apoiado de forma segura em uma instrumentação muito mais rica e diversificada do que a encontrada em Tigermilk, meses antes, o segundo registro em estúdio do grupo de Glasgow, Escócia é uma ode à melancolia de jovens adultos. São faixas delineadas pelo contraste, afinal, enquanto a sonoridade acolhedora parecia apresentar um mundo idílico, os versos agridoces do vocalista refletiam o oposto.

Suicídio, depressão, término de relacionamento, religião, família e medo, estes são alguns dos elementos que se esparramam desmedidos pela obra. Um exercício intimista de Murdoch em assumir as próprias dores, mas ao mesmo tempo um tratado de identificação, como se tudo o que o cantor expressasse sobre si próprio fosse na verdade uma manifestação lírica de toda uma geração. Pequenos conflitos entre casais, como em Seeing Other People, desgastes tediosos como os que motivam Get Me Away From Here I’m Dying ou os próprios versos da faixa-título, uma das composições mais sombrias e ainda assim acolhedoras de toda a década de 1990, tudo flui como combustível para o ambiente descritivo e nada metafórico que o grupo constrói.

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