Cozinhando Discografias: Björk

Björk

A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

Facilmente uma das mais queridas artista do público que acompanha o Blog, chega a hora da islandesa Björk ter suas obras listadas do pior para o melhor em nosso especial. Na ativa desde o fim dos anos 1970 e inclinada ao invento como parte constante da própria obra, Björk fez da rica discografia um conjunto de experimentos constantes, exercício que já passou pelo pop, eletrônica, jazz e rock em um sentido natural de renovação. Ex-integrante da banda punk KUKL e do grupo de rock alternativo The Sugarcubes, a cantora e compositora segue desde o começo da década de 1990 em um catálogo de obras temáticas, exercícios musicais que servem como base para um centena de artistas recentes e foram cuidadosamente analisados para nosso especial.

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#12. Björk
Björk (1977, Fálkinn)

Gracioso, não há melhor definição para o primeiro disco de Björk do que esta. Gravado em 1977, quando a cantora tinha apenas 12 anos de idade, o trabalho é a soma de uma sequência de referências pop da época dentro do universo naturalmente excêntrico da jovem artista. Produzido pelo padrasto da então garota e com a arte da capa assinada por Hildur Hauksdóttir, mãe de Björk, o disco deixa claro o fascínio da islandesa pela música e também a capacidade natural da criança prodígio em brincar com os sons desde nova. Enquanto Arabadrengurinn e Jóhannes Kjarval deixam claro o esforço vocal da jovem artista, outras como Álfur Út Úr Hól (versão para The Fool on the Hill, dos Beatles) se sustentam como agradáveis passagens pela música pop. Com Björk arriscando a composição de alguns versos espalhados pelo disco, mesmo hoje o trabalho está longe de parecer um erro, sendo um reduto natural de boas faixas. Originalmente lançado em vinil e cassete, o disco conquistou boas vendas em solo islandês, sendo um trabalho de alto valor para colecionadores e fãs da artista.

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#11. Gling-Gló
(1990, One Little Indian)

Inquieta, Björk nunca se contentou em explorar apenas um grupo específico de sons, tanto que no começo da década de 1990 resolveu passear de forma descompromissada pelo Jazz. Sob o título de Björk Guðmundsdóttir & tríó Guðmundar Ingólfssonar, a artista e um trio de músicos islandeses apresentaram ao público quase desconhecido, porém divertido, Gling-Gló. Lançado em um intervalo das atividades com The Sugarcubes, o trabalho amarra uma seleção de 16 músicas atenciosamente voltadas aos clichês e acertos do gênero. Gravado ao vivo em três dias de apresentação, o trabalho aponta para um interesse visível e assumido em todo o trabalho da cantora, mas aproveitado sob controle. Livre, Björk passeia de forma bem humorada pelo conjunto bem planejado de canções, esbanjando vocais fragmentados pelo idioma islandês e versões para músicas norte-americanas. Com direito a passagens pela bossa nova e uma seleção radiante de faixas, o disco acabou lançado pelo selo One Little Indian, casa de grande parte dos registros da cantora.

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Björk

#10. Drawing Restraint 9
(2005, One Little Indian)

Ainda que tenha prometido nunca mais atuar em qualquer filme – resultado de uma série de desentendimentos com Lars Von Trier durante as gravações de Dancer In The Dark -, em 2005 Björk voltou às telas com Drawing Restraint 9. Projeto experimental assinado pelo marido Matthew Barney, o trabalho encontra em elementos da cultura oriental uma premissa para as imagens e os sons que o abastecem. Responsável pela trilha sonora do registro e todos os experimentos musicais que orientam conceitualmente a obra, Björk, Mark Bell e Valgeir Sigurðsson fazem das 11 faixas do trabalho um princípio constante de invenção. Fruto de uma temporada de residência no Japão, onde se concentrou nas gravações da película e em estudos sobre a musica oriental, Björk trouxe parte expressiva dos mesmos elementos para a composição musical da obra. Entre ambientações etéreas construídas em cima de referências, sons e tendências locais, a cantora e os parceiros de produção fazem do disco um ambiente fechado dentro da trajetória da artista.

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Björk

#09. Volta
(2007, One Little Indian)

O exagero toma conta da composição instrumental e dos sons que orientam o trabalho de Björk em Volta. Desenvolvido de forma opositiva ao sintoma de calmaria exposto abertamente em Medulla, o sétimo álbum de estúdio da cantora é ao mesmo tempo um regresso à eletrônica instável dos primeiros discos, e um reforço pela sonoridade da World Music. Tribal, o disco encontra na relação com a música africana e outros gêneros ao redor do mundo um componente fundamental para a arquitetura das canções, em geral, faixas de resumo épico, vozes descomunais e uma coleção de sons que fogem do comum dentro da estética mutável da cantora. Livre das exigências experimentais testadas previamente, o disco ecoa aproximações óbvias com o grande público, marca expressa nas parcerias com Toumani Diabaté, Antony Hegarty e também da banda congolesa Konono Nº1, responsáveis pelo posicionamento grandioso da faixa de abertura Earth Intruders.

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Bjork

#08. Selmasong
(2000, One Little Indian)

Sob os olhos atentos do público devoto e da uma imprensa totalmente favorável, em 2000, quando foi convidada para estrear Dancer in the Dark de Lars Von Trier, Björk vivia uma boa fase conquistada por poucos. Mais do que assumir a personagem marcante de Selma – que lhe concedeu uma série de prêmios, como o de melhor atriz em Cannes e indicações em diversos outros -, a artista foi convidada a assumir a trilha sonora e toda a sonoridade que define os rumos visuais da película. Mark Bell, com quem havia trabalhado nos registros anteriores, surge com firmeza pelo registro, adaptando o universo musical da cantora aos enquadramentos e temas aplicados com amargura pelo filme. Instrumentalmente bem delineado, o registro de sete faixas encontra em parceiras com Thom Yorke (I’ve Seen It All) e com as atrizes Catherine Deneuve e Siobhan Fallon uma continuação natural de tudo o que a cantora havia alcançado em Homogenic, sendo um princípio dos inventos que ocupariam o trabalho de Björk no restante da década.

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Biophilia

#07. Biophilia
(2011, One Little Indian/Polydor)

Passado e presente se encontram na composição final de Biophilia. Oitavo registro em estúdio da cantora, o álbum se sustenta não apenas nos experimentos que o apresentam musicalmente, mas no conceito e na estrutura encontrada pela artista para o lançamento do trabalho. Apresentado como o primeiro “App Album” da história, o registro, parcialmente gravado em um iPad, trouxe uma aproximação de Björk com a composição musical, o que não exclui a natural aproximação da artista com outros produtores e músicos. Trabalhado em cima de temáticas sustentadas por fenômenos físicos e manifestações instrumentais específicas, o álbum faz de cada música um princípio de descoberta e arranjos adequados. Enquanto Mutual Core expande o uso das batidas, Crystalline encontra na mesma percussão um esforço ambiental, sereno. Surgem ainda associações com o Drone (Dark Matter), dedilhados tímidos (Moon) e uma valorização dos vocais, “ferramenta” que serve para amarrar todas as faixas do álbum.

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#06. Debut
Debut (One Little Indian)

Ao lado do coletivo Sugarcubs, Björk havia atravessado a década de 1980 em meio a inventos claros de uma artista que buscava se encontrar. Ainda que de forma tímida, talvez essa resposta ou possível identidade tenha surgido em Debut, estreia solo da cantora islandesa e uma base nítida para os inventos que viriam a conduzir a obra da artista durante todo o restante da década. Brincando com elementos do Jazz, Trip-Hop e Eletrônica, a cantora usa do primeiro disco como uma completa perversão do pop tradicional. São músicas como Venus as a Boy, Like Someone in Love e Human Behaviour, que mesmo encapadas por uma sonoridade essencialmente experimental, não se distanciam de uma solução de vozes e sons conduzidos pela natureza acessível dos elementos. Um caminho provocativo, mas que se mantém comercial durante todo o tempo. Versátil sem deixar de ser encantadora, Björk transforma referências literárias, passagens cotidianas e efeitos tomados de excentricidade em um material de beleza particular, uma medida menos épica do que viria a conduzir a trilogia Post (1995), Homogenic (1997) e Vespertine (2001), mas um trabalho de significado talvez maior.

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#05. Medúlla
(2004, One Little Indian)

A voz sempre foi o ponto central na carreira de Björk, porém, nunca de forma tão inventiva e cuidadosamente aproveitada quanto em Medúlla. Trabalhado da primeira à última música em cima de montagens vocais precisas, o disco (quase) exclui a presença de instrumentos e outros componentes musicais, ampliando o caráter intimista da obra e garantindo um sentido de novidade ao universo da cantora. Das batidas sóbrias ao bem delineado jogo de bases musicais, cada etapa do álbum é desenvolvida em cima de harmonias à capela, uso constante de beat box e coros de vozes que preenchem todos os espaços do trabalho em um sentido de perfeição. O detalhamento garantido ao disco é tamanho, que em músicas como Where Is the Line e Oceania, mesmo as linhas de baixo, ou as batidas “eletrônicas” parecem excluir o caráter ogânico da obra. Com gravações espalhadas ao redor do globo, Medúlla reforça nos versos o lado político da cantora, que distante das letras existencialistas e carregadas de romantismo de outrora, discute racismo, morte e até o atentado terrorista de 11 de Setembro ao longo do disco.

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#04. Vulnicura
(2014, One Little Indian)

O sofrimento sempre esteve diluído em cada novo registro de Björk. Seja de forma maquiada, dentro dos limites anárquicos do KUKL, ou de maneira explícita, na melancolia confessional de Unravel e All Is Full Of Love, mergulhar nos trabalhos da artista islandesa é o mesmo que sufocar em meio a tormentos sentimentais tão centrados na vida da compositora, como íntimos do próprio ouvinte. Todavia, mesmo a completa previsibilidade dos atos e emoções parece corrompida ao esbarrar nos versos amargos de Vulnicura. Uma peça ainda marcada pelo mesmo caráter conceitual/temático dos grandes álbuns de Björk, porém, tão honesta e liricamente explícita, que mais parece uma curva isolada dentro da trajetória da cantora. Como um espinho doloroso, incômodo e que precisa ser arrancado, o nono álbum de estúdio de Björk foi posto para fora em pouquíssimos meses. Do anúncio (não oficial), em setembro de 2014, até o lançamento da obra, em janeiro de 2015 – forçado pelo vazamento precoce do trabalho na internet -, foram pouco mais de quatro meses, um prazo curto dentro dos padrões da cantora – em extensa turnê desde o álbum Biophilia, em 2011. O motivo de tamanha urgência? A separação de Björk e Matthew Barney, parceiro da cantora na última década e o principal tempero para a matéria-prima que explode em soluços angustiados por todo o registro.

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Vespertine

#03. Vespertine
(2001, One Little Indian)

Ponto final da sequência de inventos e conceitos iniciados em Post (1995), Vespertine amarra os experimentos instituídos por Björk em uma massa delicada de vozes, sons e batidas incertas. Com uma maior valorização de arranjos orquestrais e um esforço tímido em relação ao agregado épico que movimenta Homogenic (1997), o disco traz nos versos de acerto sublime o principal exercício da cantora. De orientação intimista e apelo erótico, o álbum usa da temática envolvente como um alimento natural para a composição musical do disco. Cercada por um novo grupo de produtores e músicos, Björk dança em uma divisão suave entre a cena Downtempo (em alta naquele momento), e aspectos particulares do Trip Hop conquistado no começo da década de 1990, um alinhamento musical que parece próximo de se fragmentar a todo o instante. Com vocais que se permitem entrelaçar aos sons, o álbum antecipa conceitos que viriam a ser aprofundados nos trabalhos seguintes da cantora, que mesmo em sentido de descoberta, cresce com notoriedade em músicas como Pagan Poetry, Aurora e Cocoon. Vespertine marca a entrada de Björk no novo século, tão autêntica e inventiva quanto em começo de carreira.

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#02. Post
(1995, One Little Indian)

Tudo aquilo que Björk havia apresentado com Debut, em 1993, cresce em uma medida elétrica e inventiva na composição final de Post. Trabalhado em cima de uma frequência complexa de sons dominados pelas batidas e ruídos, o álbum cria o cenário perfeito para que a voz da cantora surja imponente em todos os espaços, resultado impresso na construção veloz de Hyper-Ballad como na delicadeza crescente de Cover Me. Base para a sequência bem sucedida de obras que resultariam em Homogenic (1997), Vespertine (2001) e Medulla (2004), o trabalho incorpora na coleção de gêneros um princípio de transformação natural para a artista. Sustentado em cima de batidas típicas do Trip Hop, viagens jazzísticas de natureza experimental e um intencionado senso de perversão da música pop, o disco foge a todo o instante do óbvio – exercício que viria a definir a atuação da islandesa. Contando com o apoio de colaboradores como Graham Massey, Tricky e Howie B, além de uma presença maior na produção, Björk estabeleceu em Post não apenas as bases para o próprio trabalho, mas o princípio para uma centena de outros artistas – da música pop ou da cena alternativa – que viriam buscar sustento no trabalho da cantora.

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#01. Homogenic
(1997, One Little Indian)

Enquanto Post lançou as regras, Homogenic autorizou Björk a ir ainda mais longe dentro do próprio universo. Apostando na mesma soma de colaboradores do trabalho anterior, porém, cercada de uma orquestra imensa de músicos e produtores, a cantora islandesa faz de cada música no interior da obra um trabalho isolado e de grandeza intencional. Ainda que a eletrônica seja o estímulo para o disco, é no manuseio preciso dos instrumentos e das vozes rasgadas que o trabalho realmente engrena – vide a melancolia em Jóga ou os ruídos em 5 Years. Ambientando a compreensão anfetaminada do trabalho anterior em uma medida próxima do etéreo, Björk se transforma no principal instrumento da obra. Enquanto as letras afogam em um contexto particular de memórias e textos sorumbáticos, os vocais se alinham de forma a criar a base para a tapeçaria musical do disco, fragmentando a cantora e posteriormente agrupando tudo em uma composição homogênea. Gravado em grande parte na Espanha, o disco cresce pela frente diversificada de colaboradores, incluindo velhos parceiros, como Mark Bell, e até o brasileiro Eumir Deodato. Lançado sob olhares atentos do público e da imprensa após o incidente suicida de Ricardo López, Homogenic foi o primeiro grande trabalho da artista além dos limites da cena alternativa. Da arte assinada por Alexander McQueen, aos sons tratadas em uma medida de extrema aproximação, poucas vezes um exemplar da música pop causou tanta comoção.

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