Cozinhando Discografias: Blur

Blur

A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

Prestes a passar pelo Brasil pela segunda vez, os veteranos do Blur foram os escolhidos para a mais nova edição do nosso especial. Com mais de 20 anos de carreira e sete registros em estúdio, o grupo Londrino é responsável por algumas das composições e obras mais importantes do rock inglês na década de 1990. Ao lado de Oasis, Pulp e Suede, a banda encabeçada por Damon Albarn deu vida a obras como Parklife (1994) e 13 (1999), trabalhos que ainda hoje servem de base para boa parte dos artistas em solo britânico. Grupo responsável por álbuns de peso similar, o quarteto teve cada um dos sete registros em estúdio analisados e listados em ordem crescente, do “pior” para o melhor, como todos os outros artistas que já passaram pela nossa seção.

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Leisure

#07. Leisure

(1991, Food)

Surgido no fim da década de 1980, o Blur parecia ter nascido no meio de um inevitável furacão de transformações sonoras. Enquanto a produção britânica lentamente se desprendida da herança obscura da década de 1980, lampejos experimentais e doses imoderadas de distorção davam a entender o que viria a alimentar a música – inglesa e norte-americana – pelos próximos anos. No meio desse cenário de tranformações e obras como Nevermind, Loveless e Screamadelic nascia Leisure, tímida e quase inexpressiva estreia do grupo londrino. Com boa repercussão por parte da crítica e composições mais acessíveis, como She’s So High e There’s No Other Way, o álbum já entregava parte do que seria estruturado nos lançamentos seguintes do grupo. São passagens herdadas da década de 1960, aspectos menos sombrios do que foi acumulado entre os anos 1980 e uma natural aproximação com o pop que se estende durante todo o registro. A origem da banda estava pronta, faltava apenas saber o que fazer com isso.

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Blur

#06. Modern Life Is Rubbish

(1993, Food)

Passada a apresentação tímida, quiçá insignificante que centraliza Leisure de 1991, o Blur lentamente adquiria identidade, esforço que se faz visível em toda a construção do segundo trabalho da banda, Modern Life Is Rubbish. Lançado em um período em que o mundo voltava os olhos para Seattle e a produção musical norte-americana, o álbum acabou passando despercebido do público, o que levou ao baixo número de vendas do trabalho e um quase fim precoce nas atividades da banda. A crítica, entretanto, não poupou em elogios, o que incentivou a Food Records – braço da gigante EMI – a incentivar o grupo em mais um registro, seria o princípio para a chegada de Parklife. Ainda que destituído da mesma grandeza dos lançamentos seguintes da banda, com o segundo álbum a banda soube como dosar uma carga significativa de Hits por todo o trabalho, entre eles For Tomorrow e Sunday Sunday, faixas capazes de antecipar parte do que viria a ser desenvolvido pelo grupo futuramente.

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Blur

#05. Think Tank

(2003, Parlophone)

O Blur como o público havia conhecido pós-Parklife morreu junto com a década de 1990. Problemas  entre os integrantes, a busca de Damon Albarn por novos projetos e o alcoolismo de Graham Coxon fizeram com que ao alcançar as produções de Think Tank, em meados de 2001, os rumos da banda fossem completamente outros. Em processo de reabilitação, Coxon apareceu somente em uma rápida passagem nas gravações de Battery in Your Leg, transformando o sétimo álbum da banda inglesa em uma obra aos domínios de Albarn. Profundamente interessado no trabalho que vinha desenvolvendo com o Gorillaz, o músico usa de Think Tank como uma extensão dos próprios inventos, brindando o trabalho com acertos eletrônicos (reforçados na presença de Fatboy Slim), ruídos experimentais e toda uma tapeçaria que em nada se relaciona com os lançamentos prévios da banda. Todavia, o que poderia se transformar em uma obra excêntrica e isolada dentro da carreira da banda acabou se convertendo em um trabalho de peso similar ou até maior. Casa de faixas carregadas de intensidade (Out of Time) e canções temperadas pelo groove (Brothers and Sisters), o álbum encerra (temporariamente) a carreira da banda de forma inventiva.

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Blur

#04. The Great Escape

(1995, Food/Virgin)

Continuação natural daquilo que a banda havia iniciado um ano antes em Parklife, The Great Escape se aproveita dos mesmos elementos testados no terceiro álbum da banda, porém, acrescentando uma dose extra de guitarras e peso às canções. Ainda assim, basta a faixa de abertura, a instável Stereotypes, para perceber que a essência do grupo ainda era a mesma. Flutuando entre sintetizadores atentos aos sons da década de 1960, vozes moldadas para a música pop e guitarras que reforçavam o peso da música inglesa, com o quarto disco o grupo britânico parecia alcançar um registro de grandiosidade até maior. Imenso catálogo de hits, o álbum cresce entre faixas como Country House, The Universal, Charmless Man e Best Days, canções bem diluídas que parecem dançar entre instantes de plena melodia e agitação instrumental. Elo entre o trabalho de grupos como The Beatles e The Kinks com a música recente, The Great Escape assume no propósito nostálgico a principal orientação. Lançado no mesmo ano em que The Bends (Radiohead), Different Class (Pulp) e Mellon Collie And The Infinite Sadness (The Smashing Pumpkins), o disco não custou a atrair público e crítica, ainda que por vezes passe despercebido no imenso catálogo da década de 1990.

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Blur

#03. Blur

(1997, Food)

Em 1997, enquanto o Oasis lançava o vergonhoso Be Here Now, dando início a um irrecuperável declínio, Damon Albarn e seus parceiros saíam como vitoriosos guerreiros da suposta batalha musical lançada em território britânico desde os primórdios da década. Com o homônimo e quinto álbum da carreira, o grupo inglês se afastava da sonoridade conceitual lançada pelo memorável Parklife, em 1994, partindo em busca de um som mais pop e comercial, mas ainda assim de efeito surpreendente e singular. Seja pelo verdadeiros arrasa-quarteirões do rock alternativo, como Song 2 e M.O.R., ou por composições tomadas de excentricidade, à exemplo de On Your On, por todos os lados a banda se sustenta de forma inventiva, uma medida criativa entre a agressividade das guitarras e a melodia dos vocais. O produtor Stephen Street, que já havia trabalho com o grupo no álbuns anteriores, parece funcionar como um mecanismo de controle durante toda a extensão do disco, evitando que ele se torne excessivamente radiofônico ou demasiado em suas experimentações, mantendo um constante e agradável meio termo.

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Blur

#02. 13

(1999, Food/Parlophone)

Depois de ter levado um belo pé na bunda de Justine Frischmann, vocalista do Elastica e sua parceira desde 1992, Damon Albarn não tardou e deu vida a um dos discos mais dolorosos da recente história da música. Lançado em março de 1999, 13 é de longe o registro mais sofredor e distinto da carreira do Blur. Começa pelo coro gospel e emocionado de Tender, passa pela sujeira incontrolável de Bugman (lembrando de alguma forma o Pavement do disco Slanted and Enchanted), passa pela radiofônica (e também dolorosa) Coffee & TV, até se assentar na sobriedade lo-fi de Optigan 1. Tão amado quanto odiado, o disco traz uma profunda mudança no trabalho do grupo britânico, que segue por uma sonoridade completamente distante daquela apresentada em seu homônimo e anterior trabalho lançado em 1997. Na mesma época, problemas internos davam a entender um possivel término da banda, com Albarn investindo em um novo projeto paralelo, o Gorillaz, e os demais integrantes partindo em busca de novos projetos musicais.

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#01. Parklife

(1994, Food)

Diferente de outros discos lançados durante a explosão do britpop na década de 1990, Parklife, terceiro registro em estúdio do Blur, ainda hoje se mantém como um disco atual, sendo capaz de gerar o mesmo impacto que o causado na época de seu lançamento. Passado a repercussão não positiva e o baixo número de vendas em relação ao segundo álbum do grupo, Modern Life Is Rubbish (1993), Damon Albarn e seus parceiros viram que era hora de mudar. Brincando com as tendências lançadas na década de 1960, entretanto, não fazendo disso uma cópia como fez o rival Oasis, a banda londrina transformaria Parklife em um registro melódico, cravejado de boas sequências instrumentais e letras memoráveis. Estão lá clássicos recentes como Girls & Boys, Tracy Jacks e End of a Century, faixas que ainda hoje ecoam com invenção na música inglesa recente. Flertando de maneira bem decidida com elementos da música clássica e com as experiências harmônicas lançadas por grupos como The Zombies, este seria o disco que abriria as portas para o embate contra os irmãos Gallagher e todas as transformações que ocupariam a música britânica naquele instante. Base para os lançamentos seguintes da banda (pelo menos até o disco homônimo de 1997), Parklife é um reflexo da sociedade inglesa, um misto de decadência e celebração que flutua pelo tempo.

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+ Cozinhando Discografias no Miojo Indie


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