Cozinhando Discografias: Cocteau Twins

 

Sigur Rós, Beach House, Björk, Portishead, Deftones e The Weeknd, esses são alguns dos artistas que encontraram na obra do Cocteau Twins uma forte inspiração e base para a construção dos próprios trabalhos. Formado em 1979 na cidade de Grangemouth, Escócia, o grupo que traz em sua formação clássica os músicos Elizabeth Fraser, Robin Guthrie e Simon Raymonde talvez seja um dos maiores símbolos do Dream Pop/Pós-Punk nos anos 1980. Um dos grandes nomes relacionados ao selo 4AD, a banda que teve o fim de suas atividades anunciado em 1997 acaba de ter cada um dos nove álbuns de estúdio organizados do pior para o melhor lançamento em mais uma edição da seção Cozinhando Discografias.

 

#09. The Moon and the Melodies
(1986, 4AD)

Um trabalho a ser desvendado. Assim pode ser traduzido o curioso experimento montado pelo Cocteau Twins em The Moon and the Melodies. Entregue ao público poucos meses após o lançamento do climático Victorialand (1986), o registro assinado em parceria com o compositor norte-americano Harold Budd mostra o claro desejo do grupo escocês em se reinventar dentro de estúdio. Marcado pela forte composição etérea dos arranjos, o trabalho cresce em meio a pinceladas de distorções, vozes “instrumentais” e pianos cuidadosamente encaixados pelo veterano da música de vanguarda estadunidense. Uma clara sensação de que grande parte do material anteriormente testado em Victorialand começa a se espalhar na cabeça do ouvinte, reforçando a utilização de temas sublimes testados desde a estreia com Garlands (1982). Labirinto de sensações, The Moon and the Melodies nasce como um convite hipnótico em Sea, Swallow Me, cresce na completa melancolia de Why Do You Love Me? e segue até o cuidadoso desfecho em Ooze Out and Away, Onehow. Junto de álbum entregue meses antes e do EP Love’s Easy Tears, um fino exemplar da profunda transformação e esforço do grupo escocês em um curto espaço de tempo.

 

#08. Milk & Kisses
(1996, Fontana)

Depois de dois ótimos EPs apresentados ao público em 1995 – Twinlights e Otherness –, Elizabeth Fraser, Robin Guthrie e Simon Raymonde entraram em estúdio para a gravação de um novo registro de inéditas da banda. Acessível, como tudo aquilo que o Cocteu Twins vinha produzindo desde Heaven or Las Vegas (1990), Milk & Kisses passeia por entre melodias etéreas, o canto operístico de Fraser e guitarras marcadas pelo uso de texturas trabalhadas com extrema delicadeza. São dez faixas, parte delas já conhecidas pela série de EPs e singles produzidos pela banda desde o antecessor Four-Calendar Café (1993), porém, agrupadas de forma homogênea. Da abertura do disco em Violaine, passando por músicas como Tisbite, o minimalismo de Half-Gifts e o som psicodélico de Rilkean Heart, sobram instantes em que o trio escocês confirma a boa forma dos primeiros anos, transformando conflitos pessoais e tormentos no principal componente para a formação dos versos. Um suspiro breve que antecede e desfecho problemático da banda, reflexo de uma série de conflitos que os integrantes do grupo vinham acumulando desde o começo da carreira.

 

#07. Four-Calendar Café
(1993, Fontana / Capitol)

In Utero do Nirvana, The Smashing Pumpkins e o intenso Siamese Dream, a força feminina de Björk com Debut e a crueza de PJ Harvey em Rid Of Me. Em um ano de grandes lançamentos, Four-Calendar Café, sétimo registro de estúdio do Cocteau Twins acaba passando quase despercebido. Todavia, longe de parecer um tropeço dentro da discografia do trio escocês, o álbum entregue em outubro de 1993 encanta pela leveza dos arranjos e vozes etéreas de Elizabeth Fraser. Trata-se de uma clara continuação do material apresentado três anos antes com Heaven or Las Vegas (1990), percepção reforçada pelo diálogo da banda com o pop e nítido detalhamento das guitarras exploradas por Robin Guthrie. Primeiro trabalho do grupo não lançado pelo selo 4AD, o registro de apenas dez faixas segue de forma vagarosa até o último acorde da derradeira Pur. Curioso perceber nas letras de músicas como Bluebeard (“Você vai trair minha confiança?“) e My Truth (“A verdade não é perfeita“) um completo distanciamento desse universo de ambientações serenas. São versos angustiados, por vezes raivosos, como um reflexo da relação desgastada entre os integrantes e seus conflitos pessoais. O princípio de todos os desajustes que levariam ao encerramento do projeto anos mais tarde.

 

#06. Garlands
(1982, 4AD)

Em 1981, quando Elizabeth Fraser (voz), Robin Guthrie (guitarra, drum machine) e Will Heggie (baixo) entraram em estúdio para a gravação do primeiro álbum de estúdio, Garlands, o Cocteau Twins estava longe de parecer uma banda iniciante. Em atuação desde 1979, quando formada na cidade de Grangemouth, Escócia, o trio parecia saber exatamente como atuar e o que explorar dentro de estúdio, maturidade evidente em cada uma das oito faixas que abastecem a versão original do trabalho. Produzido em parceria com Ivo Watts-Russell, co-fundador do selo independente 4AD, o álbum de emanações soturnas e guitarras marcadas pelo uso de texturas instrumentais pinta um provocativo (e obscuro) quadro da música produzida em território europeu no mesmo período. Da climática abertura em Blood Bitch, passando pelas guitarras de Wax and Wane ao canto forte de Fraser em But I’m Not, The Hallow Men e Blind Dumb Deaf, cada fragmento do disco confirma o pleno domínio dos integrantes sobre a própria obra. Fortemente acolhido pela imprensa, principalmente o radialista britânico John Peel, Garlands seria apenas a fagulha criativa de toda a sequência de obras produzidas pela banda no decorrer da década.

 

#05. Victorialand
(1986, 4AD)

Ao transbordar maturidade em Treasure (1984), os integrantes do Cocteau Twins alcançaram um novo estágio dentro da própria discografia. Resultado essa constante necessidade de transformação, Victorialand, trabalho finalizado dois anos mais tarde, mostra o esforço de Elizabeth Fraser e Robin Guthrie em se reinventar ainda mais dentro de estúdio. Com Simon Raymonde temporariamente afastado da banda — o músico foi convidado a participar das gravações do segundo álbum do This Mortal Coil, Filigree & Shadow (1986) —, Fraser e Guthrie acabaram se concentrando na formação de um material sereno, mágico. Da abertura climática em Lazy Calm, com quase sete minutos de duração, passando pelo toque “medieval” da semi-acústica Throughout the Dark Months of April and May, o som psicodélico e minimalista de Whales Tails, até alcançar a lenta sobreposição instrumental de How to Bring a Blush to the Snow, vozes e melodias detalhistas flutuam a todo instante no interior do disco. Entre flertes com a música ambiente, arranjos que esbarram na obra de Kate Bush e versos marcados pela força dos sentimentos, Victorialand — o nome é inspirado em uma região da Antártida —, delicadamente amplia os domínios desbravados pela dupla escocesa durante a formação do álbum que o antecede.

 

#04. Head Over Heels
(1983, 4AD)

Mesmo com a saída do baixista Will Heggie — o músico deixou a banda poucos meses após o lançamento do debute Garlands (1982) —, Elizabeth Fraser e Robin Guthrie decidiram não atrasar as gravações do segundo registro em estúdio do Cocteau Twins, Head Over Heels (1983). Produzido em parceria com o britânico John Fryer (This Mortal Coil), o trabalho marcado pelo uso de ambientações soturnas, texturas eletrônicas e vozes submersas revela um profundo amadurecimento por parte da dupla escocesa. Enquanto a poesia de Fraser transborda lirismo e versos confessionais a cada nova curva do disco, em estúdio, Guthrie parece testar os próprios limites, provando de novas sonoridades, melodias etéreas e pequenos experimentos instrumentais. Da psicodelia enevoada que abastece Sugar Hiccup, principal composição do disco, passando pelo curioso flerte com o R&B em My Love Paramour, ao rock gótico (e sufocante) que cresce em Musette and Drums, cada canção de Head Over Heels parece transportar o ouvinte novo cenário. Um poderoso indicativo da maturidade e força dos arranjos que viria a orientar o trabalho da banda durante a produção do terceiro álbum de inéditas, o clássico Treasure (1984), finalizado um ano mais tarde.

 

#03. Blue Bell Knoll
(1988, 4AD)

Não seria uma surpresa se em 1988 os integrantes do Cocteau Twins apresentassem uma obra menor. Em atuação desde o final da década de 1970, a banda de Grangemouth, Escócia conseguiu ultrapassar os próprios limites com a sequência de obras lançadas dois anos antes, em 1986 – Victorialand, The Moon and the Melodies e o EP Love’s Easy Tears –, tornando o futuro do projeto claramente incerto. Satisfatório perceber em Blue Bell Knoll, quinto registro de inéditas da banda escocesa, um novo e precioso exercício criativo. Reflexo do profundo isolamento do trio formado por Elizabeth Fraser, Robin Guthrie e Simon Raymonde em um estúdio particular na cidade de Londres, o trabalho lançado em setembro de 1988 mostra o esforço do grupo em produzir um registro que mesmo acessível, encantando pelos detalhes e complexo refinamento na composição dos arranjos. Casa de algumas das principais canções da banda, como Carolyn’s Fingers, Cico Buff, Athol-Brose e a própria faixa-título, Blue Bell Knoll cresce em um intervalo de 35 minutos livre de possíveis erros e tropeços, hipnotizando o público pela forte interferências das guitarras coloridas de Guthrie, como um complemento à voz de Fraser.

 

#02. Treasure
(1984, 4AD)

Treasure marca o início de uma profunda transformação na carreira do Cocteau Twins. Primeiro álbum de estúdio com a presença do baixista Simon Raymonde, o sucessor de Head over Heels (1983) sufoca parcialmente o pós-punk ruidoso dos primeiro trabalhos do grupo para provar de novas sonoridades. São melodias etéreas tratadas com extrema delicadeza (Lorelei), composições marcadas pela complexidade dos arranjos (Persephone) e instantes em que o trio explora a dramaticidade da música gótica com maior naturalidade (Amelia). Concebido durante as sessões que deram origem ao também clássico It’ll End in Tears (1984), trabalho que conta com a forte interferência de Elizabeth Fraser e Robin Guthrie e primeiro álbum do This Mortal Coil – projeto comandado pelos criadores do selo 4AD, John Fryer e Ivo Watts-Russell –, Treasure parece explorar o mesmo detalhismo, sustentando na voz operística de Fraser um poderoso traço de identidade. São pouco mais de 40 minutos de duração em que o trio escocês passeia por diferentes décadas e referências, fazendo de cada composição ao longo do disco, caso de Cicely e Beatrix, uma criativa colisão de ideias e fórmulas instrumentais. Precioso capítulo da música pop dos anos 1980, o terceiro álbum do Cocteau Twins viria a influenciar o trabalho de uma dezena de artistas, entre eles, nomes como Beach House, My Bloody Valentine e Björk.

 

#01. Heaven or Las Vegas
(1990, 4AD)

A colorida imagem de capa em Heaven or Las Vegas funciona como um poderoso indicativo da profunda transformação que marca o som produzido pelo Cocteau Twins no sexto registro de inéditas da banda. Inaugurado pela força instrumental e poesia subjetiva de Cherry-coloured Funk, o sucessor do maduro Blue Bell Knoll (1988) parte exatamente de onde o trio escocês havia estacionado dois anos antes, sustentando na clareza dos versos e arranjos um novo capítulo dentro da rica discografia do grupo. Fortemente influenciada pelo nascimento da primeira filha, Lucy Belle, Fraser transporta para dentro do disco parte dessas novas experiências. O resultado está na construção de um trabalho marcado pela particularidade e fino toque de esperança dos versos, como um convite a desvendar o ambiente familiar da cantora. Na composição dos arranjos, uma interpretação musical da paranoia e constantes delírios de Robin Guthrie, na época sufocado pelo vício em drogas, garantindo ao baixista Simon Raymonde maior autonomia no processo de construção do trabalho. Colorido quando próximo da atmosfera soturna que marca os primeiros discos da banda, o trabalho faz de cada composição um registro precioso. Além da já citada faixa de abertura, uma das canções mais executadas na história da banda, sobram clássicos como Pitch The Baby, Iceblink Luck e a climática I Wear You Ring, estímulo para o nascimento de diferentes projetos e artistas pelas próximas décadas. Recebido de forma positiva pelo público — o álbum alcançou a sétima posição nas paradas inglesas —, Heaven or Las Vegas seria o último capítulo do grupo dentro do selo 4AD, servindo de base para a sequência de obras produzidas pelo trio até o meio dos anos 1990.

Veja também:


Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Send this to friend