Cozinhando Discografias: Coldplay

Coldplay

A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado muito mais democrático.

Com uma discografia sustentada pela dor, além de versos que se relacionam com o sofrimento de qualquer ouvinte, não é difícil entender como o Coldplay se transformou em um projeto musical bem sucedido. Formado na segunda metade dos anos 1990 e hoje completo com Chris Martin, Jonny Buckland, Guy Berryman e Will Champion, a banda londrina é uma coesa representação dos efeitos que abasteceram o Britpop nos anos 2000. Com seis trabalhos em estúdio e algumas das faixas mais tristes (The Scientist), românticas (Yellow) e pegajosas já feitas (In My Place), o Coldplay é a escolhida da vez em mais um especial.

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#06. Ghost Stories
(2014, Capito/Parlophone)

O relacionamento conturbado, seguido da separação de Chris Martin e a atriz Gwyneth Paltrow, pareciam garantir ao Coldplay os ingredientes necessários para um novo e naturalmente triste trabalho de estúdio. Todavia, ao mergulhar no ambiente compacto de Ghost Stories, apenas redundância e autoplágio sustentam a atuação do quarteto. Livre das cores e arranjos festivos testados em Mylo Xyloto (2011), o sexto álbum reverbera arranjos tímidos e frieza, trazendo de volta uma série de elementos antes apresentados no morno X&Y. Além da reciclagem dos próprios conceitos, em Ghost Stories o Coldplay deixa de criar para sobreviver de elementos típicos da produção de outros artistas. Enquanto a obra de Brian Eno e David Bowie (no final dos anos 1970) funciona como a espinha dorsal do álbum, arranjos climáticos, feito os de Bon Iver (Midnight) e Thom Yorke (Ink), se espalham pelo restante do trabalho. Na dúvida, volte para a tristeza honesta dos primeiros discos, ou tente isolar cada uma das “referências” coladas ao longo do registro.

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#05. X&Y
(2005, Capitol/Parlophone)

A boa execução em torno de A Rush Of Blood To The Head (2002) obrigou o Coldplay a seguir em um mesmo ambiente conceitual dentro de X&Y. Natural sequência ao segundo registro em estúdio, o álbum lançado em 2005 brinca com os falsetes (Fix You), canções musicalmente melódicas (Speed Of Sound) e a melancolia compartilhada de Chris Martin (The Hardest Part) sem necessariamente fugir de uma possível zona de conforto por parte de seus integrantes. Ainda que a inspiração seja proclamada por cada um dos músicos – sugando de forma confessional elementos de Brian Eno, Kate Bush e David Bowie -, por todos os instantes da obra, Martin e os parceiros parecem inclinados a ressuscitar elementos de base para o próprio Coldplay, manipulação explícita em músicas como Talk (com riffs de Computer Love do Kraftwerk) ou mesmo What If, fina extensões do universo conceitual lançado no disco Parachutes (2000). Comercialmente bem recebido, X&Y conseguiu ampliar os domínios do grupo britânico, que conquistaria um lugar de destaque ainda maior dentro da cena da época.

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#04. Mylo Xyloto
(2011, Parlophone/Capitol)

Qual direção seguir depois da mudança grandiosa assumida em Viva la Vida or Death and All His Friends? Ora, que tal a mesma, porém, acrescentando um toque mínimo de renovação. Esta parece ser a base de Mylo Xyloto, quinto álbum de estúdio do Coldplay e a primeira Opera Rock assinada pelo quarteto britânico. Centrado na batalha entre cores e sons, além de referenciar uma série de elementos urbanos, como grafite e criminalidade, o conceitual registro deixa de lado o detalhamento melancólico de Martin para derramar canções recheadas pelo amor e doses consideráveis de esperança. Investindo ainda no uso de programações eletrônicas – típicas do minimalismo de Brian Eno -, o álbum ainda assume grandeza por conta da série de arranjos de cordas, equilibrando o caráter sintético da obra. Partindo dessa temática, o quarteto faz crescer faixas como Paradise, Charlie Brown e Princess Of China, esta última, parceria com Rihanna e canção talvez impensável nos primeiros anos do grupo. Longe das trevas, o álbum mais “ensolarado” do Coldplay.

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Coldplay

#03. Parachutes
(2000, Capitol/Parlophone)

Enquanto a crueza tomou conta do rock norte-americano no final da década de 1990, em se tratando da cena britânica, artistas e gravadoras apostaram em uma sonoridade completamente oposta. Travis, Snow Patrol e toda uma centena de grupos inclinados ao teor melancólico das composições; faixas sempre introspectivas e sombrias, mas, ainda assim, íntimas do grande público. Dentro desse catálogo de novos coletivos, poucos se saíram tão bem quanto o Coldplay com o confessional Parachutes. Fruto de uma série de desilusões amorosas do vocalista/compositor Chris Martin, o debut do quarteto inglês é uma obra costurada pela dor. Da abertura com Don’t Panic, passando por Shiver e Spies, até alcançar a belíssima Yellow, cada minuto do álbum transmite o sofrimento de seu criador. Mesmo pouco inovador – trata-se de uma interpretação acessível do Radiohead em The Bends (1995) e Ok Computer (1997), além de um passeio por outros exemplares (melancólicos) do rock inglês -, Parachutes acerta pela honestidade exposta nos versos de cada canção.

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#02. A Rush of Blood to the Head
(2002, Capitol/Parlophone)

Saudade (In My Place), distanciamento (The Scientist) e confissão (Green Eyes), do momento em que tem início ao último verso, A Rush of Blood to the Head sufoca em melancolia. Ainda mais intimista e doloroso do que o antecessor, Parachutes (2000), o segundo álbum da carreira do Coldplay deixa de lado o hermetismo radioheadniano de faixas como Sparks e Trouble para abraçar o lado mais “pop” da banda – já evidente em Yellow. Nada econômico, Chris Martin investe de forma assertiva em vocalizações típicas de Jeff Buckley e Thom Yorke, dividindo o álbum entre falsetes e vozes fortes, perfeitas para as canções sentimentalmente instáveis que recheiam o disco. Alimentado por faixas de constante sofrimento e versos acessíveis, o álbum sobrevive em totalidade dos detalhes. Seja o Riff triste de In My Place, ou os pianos atenciosos em Clock, cada elemento do álbum parece encaixado para hipnotizar o ouvinte, sugado para dentro do vórtice sorumbático que Martin e os parceiros deixam crescer tão logo os pianos de Politik explodem na abertura do trabalho.

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Coldplay

#01. Viva la Vida or Death and All His Friends
(2008, Capitol/Parlophone)

Enquanto A Rush of Blood to the Head (2002) e X&Y (2005) pareciam acomodar o Coldplay em uma nítida zona de conforto, Viva la Vida or Death and All His Friends veio para romper com qualquer traço de estabilidade. Abrangente, o quarto álbum de estúdio do quarteto é mais do que uma curva rápida dentro da trajetória monotemática da banda, mas um ponto de transformação instrumental, lírica e principalmente estética para o grupo. Das roupas esfarrapadas criadas pelos próprios integrantes aos arranjos instrumentais renovados, Viva La Vida… deixa de lado o caráter contido dos primeiros álbuns para explodir. Tal orientação resulta na formação de canções ascendentes, como Lovers In Japan ou a própria faixa-título, exaltando o lado mais comercial do grupo, sem perder a leveza dos versos. Se antes o Coldplay era uma banda comportada – tanto em estúdio como nos palcos -, aqui ela abraçou a grandeza, aproximando o rock de arena de melodias essencialmente detalhistas de outrora.

Por mais que a maior comunicação entre os integrantes seja o principal fator para o bom andamento das faixas, muito do que sustenta o álbum vem do esforço de seus produtores. Enquanto Mark Dravs (Arcade Fire, Björk) organiza o aspecto orquestral do disco, diluindo cordas, pianos e outros elementos acústicos, Brian Eno (talvez a maior influência da banda) e o pupilo Jon Hopkins acomodam texturas sintéticas, condensando todas as faixas do registro em um mesmo universo estrutural. Dessa forma, tanto Life in Technicolor, na abertura do álbum, como Death and All His Friends, no encerramento do trabalho, partilham dos mesmo fluxo harmônico, trazendo nos versos (agora épicos) de Chris Martin a ferramenta de movimento para a obra. U2, Revolução Francesa, O Guia do Mochileiro das Galáxias, The Beatles e toda uma série de referências ainda passeiam livremente pelo disco, contudo, pela primeira vez Martin e os parceiros vão além de um mero álbum-pastiche, revelando uma verdadeira obra de criação.


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