Cozinhando Discografias: Crystal Castles

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A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado muito mais democrático.

Uma obra marcada pelos ruídos. Da estreia com o single Alice Pratice, em 2006, ao lançamento do perturbado terceiro álbum de estúdio, em 2012, toda a produção de Crystal Castles foi marcada pela construção suja das vozes, arranjos e efeitos eletrônicos. Com um nome inspirado no castelo homônimo da animação She-Ra, o projeto formado em 2003 na cidade de Toronto, Canadá, trouxe na voz instável de Alice Glass e produção versátil de Ethan Kath os principais elementos para a concepção de cada faixa e registro. Todavia, anunciada a saída de Glass e prováveis adaptações em relação ao projeto, nada mais justo do que resgatar o curto acervo da banda o organizar cada um dos trabalhos do pior para o melhor lançamento.

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#03. Crystal Castles (III)
(2012, Fiction/Last Gang)

Quando o single Plague foi apresentado em julho de 2012, parecia claro que o som orquestrado pela dupla Crystal Castles já não era o mesmo do álbum anterior. Longe dos encaixes minimalistas e vozes fúnebres testadas no segundo registro de estúdio, de 2010, Ethan Kath e Alice Glass pareciam explorar um som cada vez mais denso, homogêneo, mas ainda assim melódico e íntimo do espectador. É justamente dentro dessa estrutura que nasce o terceiro álbum de estúdio da dupla canadense – talvez, a obra mais sensível e “humana” sustentada pelo casal até aqui. Além da voz sorumbática de Glass, destacando versos de amor, separação e medo, o explícito diálogo com o R&B arrasta o ouvinte para dentro de um ambiente ocupado em essência pela melancolia, exercício que em nenhum momento afasta o público do território ruidoso/dançante dos dois primeiros álbuns. Como se tudo não passasse de um derivado musical único, cada peça do disco serve de movimento para a canção seguinte; uma espécie de linha imaginária que amarra Wrath Of God, Sad Eyes e Affection em um mesmo bloco de experiências. Tendo como tema a “opressão”, III carrega na própria capa uma imagem do fotógrafo Samuel Aranda com uma mãe protegendo o filho exposto ao gás lacrimogêneo durante uma manifestação no Iêmen.

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#02. Crystal Castles
(2008, Last Gang/Lies)

A estreia de Ethan Kath e Alice Glass pelo Crystal Castles não poderia ter acontecido em hora mais propícia. Resumo não intencional de tudo o que abasteceu a cena independente na segunda metade dos anos 2000, o debut entregue em março de 2008 fragmenta a eletrônica, pop, revival pós-punk, além da famigerada New Rave em um material essencialmente caótico, mas não menos acessível ao ouvinte médio. Uma versão desconstruída daquilo que Klaxons, Shitdisco, Hadouken! e toda uma variedade de artistas pré-fabricados vinham desenvolvendo previamente. Síntese conceitual e ao mesmo tempo pequeno catálogo de inéditas, o álbum concentra desde faixas já desvendadas pelo público – como Alice Pratice, Air War e Crimewave -, até composições pensadas exclusivamente para o disco, caso de Vanished e toda a segunda metade do álbum. Com um pé no Noise – explícito no diálogo com a banda california HEALTH – e outro no Synthpop/Chiptune, o autointitulado registro cresce como uma imensa obra de ideias. Colagens e fragmentos tão mecânicos quanto a voz robótica de Glass. Em estúdio, uma obra ponderada, quase doce e sensível; ao vivo, a passagem para um território perturbador.

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#01. Crystal Castles (II)
(2010, Fiction/Last Gang)

Da capa sombria – um garoto em frente ao túmulo da própria mãe – ao sample desconstruído de Inní mér syngur vitleysingur do Sigur Rós, em Year Of Silence, cada fragmento do segundo álbum de estúdio do Crystal Castles parece desenvolvido de forma a provocar o ouvinte. Tecido ao longo da turnê de divulgação do primeiro álbum, II é um autêntico exercício de criação por parte de Ethan Kath. Arranjos e instrumentos captados em diferentes estúdios e locações – como uma igreja abandonada na Islândia -, faixas em parceria com diferentes produtores de peso – como Jacknife Lee e Paul Epworth – e a necessidade em escapar da zona de conforto testada no primeiro registro da carreira. Um conjunto de peças lentamente encaixadas no ambiente de ideias soturnas pensadas para o trabalho.

Em dezembro de 2009, quando recebeu o primeiro material do disco, Glass se deparou com um CD-R recheado por mais de 70 bases instrumentais. Esboços de Suffocation e Celestica que aos poucos foram preenchidos com versos ainda mais extensos, delicados e confessionais em relação ao que fora apresentado debut de 2008. Curioso perceber que mesmo versátil e fragmentado, II em nenhum momento ultrapassa os limites impostos ainda na inaugural Fainting Spells. Faixas que vão do Dream Pop (Violent Dream) ao Noise (Baptism) em um exercício coeso de distorção das melodias. Ruídos, loops cacofônicos e lapidações rústicas, como os aprazíveis blocos sujos de Vietnam, Not In Love ou qualquer outra peça harmônica do trabalho. Um universo gigantesco de referências e recortes conceituais, mas que em nenhum momento ocultam o brilho fosco e a assinatura própria da dupla.

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Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

One thought on “Cozinhando Discografias: Crystal Castles

  1. Que mágico!!! Pude compreender melhor essa dupla MARAVILHOSA e até entender o que significa aquelas capas sensacionais. Como eu amo Crystal Castles. Parabéns pelo post. <3

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