Cozinhando Discografias: Devendra Banhart

 

Nascido no Texas, porém, criado na Venezuela, Devendra Banhart passou grande parte da infância e adolescência viajando pelo mundo. De volta aos Estados Unidos no final dos anos 1990, quando começou a estudar no Instituto de Arte de São Francisco, na Califórnia, o jovem músico encontrou na própria pluralidade de referências o ponto de partida para os primeiros trabalhos em carreira solo. O resultado dessa constante evolução musical está na produção de uma discografia diversa, ora íntima do Freak Folk dos anos 1990/2000, ora ancorada na Tropicália e outros temas psicodélicos que abasteceram a música entre o final dos anos 1960 e início da década de 1970.

De volta ao Brasil para uma série de apresentações pelo Popload Gig, Banhart foi escolhido para mais uma edição da seção Cozinhando Discografias. Em um passeio por toda a carreira do músico norte-americano, organizamos cada um dos trabalhos de estúdio do pior para o melhor lançamento. Nos comentários, conta pra gente: qual é o seu disco favorito do Devendra Banhart?

 

#09. The Charles C. Leary
(2002, Hinah)

Depois de viver a infância e parte da adolescência na Venezuela, em meados dos anos 1990, Devendra Banhart e sua mãe acabaram se mudando para a Califórnia. Em 1998, com o início das aulas no Instituto de Arte de São Francisco, Banhart acabou descobrindo um maior interesse pelas artes, abandonando a faculdade para seguir em uma série de apresentações pela região de Los Angeles e São Francisco. Dessas andanças e gravações caseiras veio a base para o primeiro álbum de estúdio do cantor: o caseiro The Charles C. Leary. Produzido de forma semi-artesanal, o trabalho mostra a tentativa do jovem músico em construir uma identidade musical. São 24 composições inéditas, pouco mais de 50 minutos de duração em que Banhart faz valer o rótulo de Freak Folk conquistado em diversas publicações da época. Melodias tímidas, sussurros e experimentos que seriam explorados com maior naturalidade na reedição do trabalho, o sucessor Oh Me Oh My.

 

#08. What Will We Be
(2009, Reprise)

Se você observar toda a discografia de Devendra Banhart, não é difícil perceber como os trabalhos do cantor e compositor norte-americano se completam. Registros que servem de passagem para um novo álbum de inéditas. Rejoicing in the Hands (2004) nasce como ponte para Nino Rojo (2004). Cripple Crow (2005) ganha uma “continuação” no colaborativo Smokey Rolls Down Thunder Canyon (2007). Sétimo álbum de estúdio do músico norte-americano, What Will We Be pode até revelar boas composições, como Baby e a sorridente Angelika, entretanto, segue deslocado, confuso, quando observamos a trajetória de Banhart. Do hard rock à la Led Zeppelin em Rats, passando pelo pop-folk de Goin’ Back, tudo soa como uma reciclagem preguiçosa de tudo aquilo que o músico vinha experimentando nos primeiros discos. Entregue ao público um ano repleto de grandes lançamentos, como Veckatimest do Grizzly Bear e Bitte Orca do Dirty Projectors, What Will We Be se perde a cada nova audição.

 

#07. Ape in Pink Marble
(2016, Nonesuch)

Você não precisa ir além da inaugural Middle Names para perceber como a música de Devendra Banhart parece flutar em Ape in Pink Marble. Desenvolvido em parceria com os mesmos produtores de Mala, Noah Georgeson e Josiah Steinbrick, o trabalho de 13 faixas se espalha vagaroso, replicando grande parte dos conceitos originalmente testados no disco de 2013. São melodias enevoadas, eletrônicas, efeito da forte interferência dos sintetizadores e samples durante toda a construção da obra. Marcado pelo romantismo de faixas como Jon Lends a Hand e a bossa nova de Theme for a Taiwanese Woman in Lime Green, Ape in Pink Marble faz de cada composição um experimento isolado, minucioso, sempre delicado. Atos contidos que parecem apontar para a década de 1980, vide a dolorosa Saturday Night, porém, sem necessariamente desprezar a essência acústica que acompanha Banhart desde o primeiro álbum de estúdio, marca de faixas como Linda.

 

#06. Oh Me Oh My
(2002, Young God)

É impressionante como Oh Me Oh My consegue ser um trabalho grandioso mesmo no reducionismo das vozes e arranjos que o definem. Segundo álbum de estúdio de Devendra Banhart e primeiro registro com distribuição pelo selo Young God, de Michael Gira (Swans), o sucessor do debut The Charles C. Leary (2002) traz de volta a mesma experimentação caseira testada pelo músico no primeiro álbum de estúdio. Ora sereno (Cosmos and Demos), ora caótico (Lend Me Your Teeth), o trabalho de 22 faixas mostra o esforço de Banhart, responsável pela gravação de cada instrumento e voz ao longo do disco. Das guitarras à bateria, um perfeito exercício da capacidade do músico em se reinventar a cada nova composição, mesmo na desconstrução de fragmentos originalmente apresentados no disco anterior. Mais do que uma continuação do som apresentado em The Charles C. Leary, um indicativo de todo o universo posteriormente explorado pelo músico ao longo de toda a carreira.

 

#05. Smokey Rolls Down Thunder Canyon
(2007, XL)

Com o lançamento de Cripple Crow, em setembro de 2005, Devendra Banhart foi oficialmente apresentado a uma parcela ainda maior do público. Personagem frequente em diferentes festivais da Europa e Estados Unidos, o músico norte-americano decidiu aproveita a boa fase para dar início a um novo álbum de inéditas. Dedicado à Alice Coltrane, Malachi Ritscher e Elliott Smith, Smokey Rolls Down Thunder Canyon nasce como uma obra colaborativa. Das 16 composições que preenchem o disco, pelo menos sete delas contam com a presença de um convidado. São nomes como a velha colaboradora Vashti Bunyan (My Dearest Friend), a atriz Natalie Portman (no vídeo de Carmensita), o guitarrista dos Strokes, Nick Valensi (Shabop Shalom), e até o brasileiro Rodrigo Amarante (Rosa), músico convidado a integrar a série de apresentações ao vivo do músico em futuros projetos. Um precioso exercício criativo que expande o universo desbravado por Banhart no disco anterior.

 

#04. Mala
(2013, Nonesuch)

Depois de um hiato de quatro anos, Devendra Banhart estava pronto para um novo álbum de inéditas. Em Mala, oitavo álbum de estúdio do músico norte-americano e primeiro trabalho pelo selo Nonesuch, Banhart traz de volta a mesma leveza e minimalismo incorporado aos iniciais Rejoicing in the Hands e Nino Rojo, ambos de 2004. A diferença está na forma como melodias eletrônicas e experimentos atmosféricos envolvem grande parte do trabalho, preferência reforçada em músicas como Für Hildegard von Bingen e a psicodélica Never Seen Such Good Things. Doce, Mala se espalha em meio a versos carregados de romantismo e confissões apaixonadas, marca de faixas como Mi Negrita, música em que Banhart soa como Caetano Veloso em sua melhor forma, ou mesmo em canções como Won’t You Come Home e Your Find Petting Duck. Tamanho cuidado na construção dos arranjos e versos acabaria se repetindo no trabalho seguinte de Banhart, o experimental Ape in Pink Marble.

 

#03. Nino Rojo
(2004, Young God)

Entregue ao público poucos meses após o lançamento de Rejoicing in the Hands, Nino Rojo reforça o cuidado de Devendra Banhart na composição dos arranjos e versos. Também produzido em parceria com Michael Gira, vocalista e líder do Swans, o registro dominado por faixas doces como Little Yellow Spider, Be Kind, At the Hop e Wake Up, Little Sparrow indica um claro amadurecimento de Banhart dentro de estúdio. Mesmo intimista, o trabalho indica um maior refinamento na captação das vozes e arranjos, transformação que viria a orientar toda a sequência de obras produzidas pelo músico nos próximos anos. Marcado pelas possibilidades, Nino Rojo distancia Banhart da música psicodélica, abrindo espaço para que novas sonoridades invadam o registro. É o caso do blues em My Ships e até da música country que cresce na delicada Noah, faixa alimentada por um precioso coro de vozes, pianos e guitarras sensíveis. Uma verdadeira coleção de pequenos acertos.

 

#02. Cripple Crow
(2005, XL)

Da imagem de capa inspirada em Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967), passando pelo flerte com a música tropicalista, Cripple Crow é um trabalho em que Devendra Banhart se liberta e cresce dentro de estúdio. Produzido em parceria com um time de produtores que inclui Andy Cabic (Vetiver), Noah Georgeson (Os Mutantes, Joanna Newsom) e Thom Monahan (Little Joy, J Mascis), o sucessor dos ótimos Rejoicing in the Hands e Niño Rojo, ambos de 2004, mostra a cuidadosa relação de Banhart com o rock psicodélico produzido entre o final dos anos 1960 e início da década seguinte. Entre versos cantados em espanhol (Quédate Luna, Santa Maria da Feira), e canções assinadas em inglês (I Feel Just Like a Child, Heard Somebody Say), Banhart faz do registro uma obra essencialmente versátil. Composições que ultrapassam o universo acústico dos primeiros discos e transportam para dentro de estúdio a mesma energia das apresentações ao vivo do cantor.

 

#01. Rejoicing in the Hands
(2004, Young God)

A ambientação caseira e o som minimalista que escapa dos violões lentamente conforta o ouvinte dentro cenário montado para Rejoicing in the Hands. Terceiro álbum de estúdio de Devendra Banhart e segundo trabalho com distribuição pelo selo Young God, o sucessor de Oh Me Oh My (2002) mostra a perfeita interação entre o músico Texano e o veterano Michael Gira (Swans), artista responsável pela produção do disco. De essência intimista, o trabalho de 16 faixas curtas detalha o esforço de Banhart em ocupar todas as brechas do disco com pinceladas melódicas e instantes de fácil aproximação para o grande público. Um som doce, propositadamente acolhedor, postura reforçada nas inaugurais A Sight to Behold e Poughkeepsie, porém, ampliada à medida que Banhart cria pequenas brechas para a chegada de artistas como o violinista Paul Cantelon, o percussionista Thor Harris e a cantora britânica Vashti Bunyan, uma das principais influências do músico norte-americano. O princípio de todo o amadurecimento poético e instrumental do artista pelos próximos anos.

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