Cozinhando Discografias: Elliott Smith


Da infância marcada por abusos cometidos pelo padrasto, passando pela forte depressão, uso de drogas e permanente instabilidade emocional, Elliott Smith (1969 – 2003) encontrou na própria melancolia a base para alguns dos registros mais sensíveis da cena norte-americana entre os anos 1990 e início da década de 2000. São obras como Either/Or (1997), XO (1998) e Figure 8 (2000), ou mesmo registros como integrante do Heatmiser em que o cantor e compositor nascido em Omaha, Nebraska, parte de reflexões e tormentos pessoais para dialogar de forma delicada com todo e qualquer ouvinte. Um doloroso ato de profunda entrega emocional que acompanhou o artista até os últimos instantes de vida. Dono de um limitado, porém, importante conjunto de obras, Smith teve cada um dos registros organizados do pior para o melhor lançamento em mais uma edição do Cozinhando Discografias.


#7. Roman Candle
(1994, Cavity Search)

Roman Candle é um trabalho precioso. Produzido, composto e gravado inteiramente por Elliott Smith enquanto o músico ainda fazia parte do Heatmiser, o registro concebido de forma caseira mostra o cantor e compositor norte-americano em sua forma mais pura. São nove criações autorais em que Smith, munido apenas de um violão e parcas guitarras, transforma as próprias experiências em música. “Eu quero machucá-lo / Eu quero causar-lhe dor / Eu sou uma vela romana / Minha cabeça está em chamas“, canta logo nos primeiros minutos do disco, na autointitulada faixa de abertura, um ataque direto ao próprio padrasto e perfeito indicativo da poesia lancinante que viria a orientar a experiência do ouvinte até o último instante da obra. Lançado sem grandes pretensões e recebido de forma tímida pelo público e crítica, Roman Candle seria redescoberto anos mais tarde, principalmente após a morte do cantor.

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#6. From a Basement on the Hill
(2004, ANTI- / Domino)

Desde o início, em suas primeiras sessões, From a Basement on the Hill foi encarado como um registro problemático. Concebido em um período de forte instabilidade emocional, constantes abusos com drogas e crises de depressão o trabalho reflete com naturalidade toda a inquietação e melancolia que parecia se apoderar de Elliott Smith em seus últimos momentos de vida. Inicialmente pensado como um registro duplo, efeito direto de exigências contratuais com a DreamWorks, o álbum só viria a ser finalizado meses após a morte do cantor. São retalhos instrumentais e poéticos organizados pelo produtor Rob Schnapf e a guitarrista Joanna Bolme (Stephen Malkmus and the Jicks, Quasi), antiga namorada de Smith. Entretanto, mesmo guiado pela incerteza, difícil não perceber em From a Basement on the Hill uma das obras mais sensíveis do músico. Canções como Pretty (Ugly Before), Passing Feeling e Twilight, síntese da poesia triste que vinha sendo aprimorada desde o início da carreira.

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#5. New Moon
(2007, Kill Rock Stars / Domino)

Inicialmente pensado como uma edição comemorativa dos dez anos de lançamento de Either/Or (1997), New Moon acabou se transformando em uma delicada homenagem ao curto, porém, produtivo período de Elliott Smith no selo Kill Rock Stars. São 24 composições originalmente gravadas entre 1994 e 1997, período que concentra algumas das faixas mais sensíveis do músico norte-americano. Produzido e organizado pelo engenheiro de som Larry Crane (Death Cab For Cutie, Cat Power), grande responsável pelo extenso arquivo de músicas deixadas por Smith, o trabalho concentra desde preciosidades, como Angel in the Snow e Going Nowhere, até faixas gravadas em uma sessão de rádio em 1996, caso de See You Later e Half Right. O destaque acaba ficando por conta da interpretação para Thirteen, um dos clássicos do Big Star, e a primeira versão de Miss Misery, música eternizada na trilha sonora do filme Gênio Indomável (1997).

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#4. Figure 8
(2000, DreamWorks)

Produzido e gravado em um intervalo de quase dois anos, Figure 8 talvez seja o trabalho musicalmente mais apurado de toda a discografia de Elliott Smith. Sequência ao bem-sucedido XO (1998), o registro gravado em diferentes estúdios norte-americanos e da Europa, incluindo o histórico Abbey Road, sutilmente distancia o músico do som compacto incorporado aos primeiros registros autorais. Exemplo disso está em Happiness/The Gondola Man, música concebida a partir de camadas instrumentais, vozes sobrepostas e minucioso uso das guitarras, como uma fuga do minimalismo detalhado em Either/Or. O próprio uso dos pianos, como In the Lost and Found (Honky Bach)/The Roost, reflete o completo amadurecimento artístico de Smith, inclinado a transformar a própria identidade criativa. Entretanto, interessante notar que mesmo refinado, prevalece a melancolia dos primeiros registros do músico, sensibilidade que se reflete até os últimos instantes da obra, na econômica Bye.

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#3. Elliott Smith
(1995, Kill Rock Stars)

Impressionada pelo talento de Elliott Smith, a cantora e compositora Mary Lou Lord decidiu convidar o músico a excursionar em uma série de apresentações pelos Estados Unidos. Foi a própria artista que apresentou o músico ao produtor Slim Moon, grande responsável pelo selo Kill Rock Stars, preparando o terreno para o primeiro álbum de estúdio de Smith pela gravadora. Toda essa movimentação resultou no homônimo registro de 12 faixas entregue em julho de 1995. Produzido e gravado inteiramente pelo cantor, o trabalho reflete um claro amadurecimento em relação ao material entregue um ano antes, no antecessor Roman Candle. Do momento em que tem início, em Needle in the Hay, uma das principais canções do músico na década de 1990, passando pela força de Christian Brothers, o minimalismo de Single File e outras preciosidades, como The Biggest Lie e Coming Up Roses, evidente é o comprometimento do artista em revelar ao público não apenas uma obra marcada pela força dos sentimentos, mas, principalmente, pelo refinamento melódico que viria a embalar as canções do álbum seguinte, Either/Or (1997).

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Menção Honrosa | Heatmiser
Mic City Sons (1996, Caroline)

Em 1991, depois de se graduar em filosofia e ciência política, Elliot Smith convidou o colega de classe, Neil Gust, para formar uma nova banda. Dessa parceria nasceu o Heatmiser, projeto de rock alternativo inspirado pela efervescente cena da Costa Oeste dos Estados Unidos. Completo pela presença dos músicos Tony Lash, Sam Coomes e Brandt Peterson, o grupo lançaria dois ótimos registros caseiros, Dead Air (1993) e Cop and Speeder (1994), até ser convidado a produzir o primeiro álbum de estúdio em um selo de grande porte, a Virgin Records. Concebido e gravado em um intervalo de poucas semanas Mic City Sons não apenas preserva a essência dos primeiros trabalhos da banda, como antecipa uma série de conceitos melódicos que viriam a ser explorados com maior naturalidade por Smith em carreira solo. Entre músicas como Plainclothes Man, Half Right, Rest My Head Against the Wall e a enérgica Get Lucky, a força dos sentimentos e o profundo amadurecimento do grupo, direcionamento que se reflete até o último instante da obra. Mesmo bem-recebido, o trabalho seria o último registro de inéditas da banda que encerraria suas atividades no mesmo ano.

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#2. XO
(1998, DreamWorks)

Quem esperava que a mudança de Elliott Smith para uma grande gravadora pudesse prejudicar o trabalho do músico norte-americano encontrou em XO uma delicada surpresa. Sequência ao material apresentado um ano antes, em Either/Or (1997), o registro que conta com distribuição pelo selo DreamWorks mostra a capacidade do músico em explorar a própria obra com ainda mais sensibilidade. Um trabalho minucioso, reflexo da produção atenta de Rob Schnapf (Beck, The Vines) e Tom Rothrock (Stevie Nicks, Foo Fighters). Entregue ao público meses após a participação de Smith na trilha sonora do filme Gênio Indomável (1997), XO nasce como uma confirmação criativa do artista. Do momento em que tem início, em Sweet Adeline, passando por músicas como Waltz #2 (XO), Baby Britain, Independence Day e Everybody Cares, Everybody Understands, cada composição detalhada no interior do disco mostra a capacidade do cantor em traduzir sentimentos tão pessoais de forma a dialogar com as mais variadas faixas de público. Um turbilhão poético que emociona mesmo nos instantes mais sorridentes.

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#1. Either/Or
(1997, Kill Rock Stars)

Com o fim das atividades no Heatmiser, Elliott Smith poderia se dedicar integralmente ao trabalho em carreira solo. O resultado desse maior comprometimento do músico se reflete nas canções de Either/Or. Concebido em diferentes estúdios caseiros espalhados pela cidade de Portland, o registro que conta com co-produção de Tom Rothrock e Rob Schnapf amplia a forte a carga emocional imposta por Smith no álbum anterior. Prova disso está na melancolia dilacerante que cresce em Ballad of Big Nothing e, principalmente, Between Bars, composição embriagada pelos excessos e o evidente desespero do eu lírico. O mesmo caráter sorumbático acaba se refletindo mesmo nos momentos de maior romantismo da obra, como na derradeira Say Yes. São composições montadas a partir de memórias recentes, traumas da infância e experiências particulares do artista, proposta que rapidamente serviria para aproximar o trabalho de Smith de uma parcela maior do público, como o diretor Gus Van Sant, que decidiu utilizar parte do material na trilha sonora do premiado Gênio Indomável (1997), catapultando Smith de forma definitiva ao estrelato. Um retrato da alma atormentada de seu realizador e, ainda hoje, uma das obras mais sensíveis de toda a produção norte-americana.


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