Cozinhando Discografias: Hot Chip

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A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em analisar todos os álbuns de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado muito mais democrático. No cardápio de hoje: Hot Chip.

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#07. DJ-Kicks: Hot Chip
(2007, !K7)

Quer entender melhor a essência musical do Hot Chip? Então saiba que não existe caminho mais fácil (e seguro) do que a passagem do coletivo pela série DJ-Kicks em 2007. Entregue ao público um ano após o lançamento da da obra-prima The Warning (2006), a coletânea, mais do que orientar a sequência de obras apresentadas pela banda, revela com naturalidade todo o catálogo de referências que funcionam como alicerce para o trabalho do grupo. Grovesnor (Notemoves), Black Devil Disco Club (On Just Foot), New Order (Bizarre Love Triangle), Ray Charles (Mess Around) e até mesmo o brasileiro Tom Zé (Cademar) são alguns dos artistas que surgem remodelados durante toda a construção da obra – um agregado de 24 composições. Verdadeiro quebra-cabeça de hits, o álbum pula do Hip-Hop para a Disco Music sem necessariamente perder o controle, como uma (des)ordenada colisão de ideias e referências, conceito explícito logo na capa do trabalho, uma colorida ilustração que liga o rosto de cada um dos integrantes da banda na época.

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#06. Coming on Strong
(2004, Moshi Moshi)

Quando Coming on Strong foi lançado em 2004, os integrantes do Hot Chip pareciam estar se encontrando. Em meio a sintetizadores tímidos e batidas controladas, a voz de Alexis Taylor aproximava o grupo britânico de um som muito mais voltado ao Neo-Soul do que em relação à música eletrônica reforçada na sequência de obras posteriormente entregues pela banda. De fato, tudo parece girar em torno da voz característica de Taylor. Das batidas ao uso de sintetizadores, dos efeitos eletrônicos ao uso de samples, cada fragmento do disco parece encaixado de forma a ressaltar os temas melancólicos apontados pelo vocalista. Antecipando uma série de elementos que seriam expandidos em Made In The Dark, a cada curva do disco, uma sequência precisa de baladas românticas, existenciais e intimistas. Um contínuo recolhimento que, eventualmente, passeia por pequenas doses de experimentos (Playboy) e adaptações dançantes do soul/funk dos anos 1970 (Down With Prince). Uma obra ainda tímida, como se o Hot Chip estivesse aquecendo a pista.

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#05. Why Make Sense?
(2015, Domino)

Depois de cinco álbuns de estúdio, apresentações agendadas pelos quatro cantos do planeta e um dos acervos mais criativos da música recente, seria natural que o Hot Chip sufocasse pelo peso da própria obra. Entretanto, em um sentido oposto ao de grande parte da nova safra de artistas – músicos e produtores incapazes de manter a coerência depois do segundo ou terceiro disco -, o coletivo britânico não apenas confirma a boa forma, como parece longe de errar o passo dentro ou mesmo fora das pistas de dança. Bastam os cinco minutos de Huarache Lights, faixa de abertura do sexto álbum do grupo para que o ouvinte seja “seduzido”. Em Why Make Sense?, Alexis Taylor, Joe Goddard e demais parceiros de banda ultrapassam os limites da própria maturidade, aproximando o Hot Chip de todo um novo mundo de possibilidades, ritmos e referências musicais. Um pouco mais “lento” em relação ao som eufórico do antecessor In Our Heads, de 2012, o disco incorpora de forma transformada boa parte da sonoridade explorada no álbum de 2010, One Life Stand, encaminhando o ouvinte para o começo dos anos 1990. Ainda que a eletrônica pareça servir de alicerce para a obra, está no diálogo com o R&B, pop e Hip-Hop (do mesmo período) o real sustento das canções. Uma verdadeira coleção de temas adaptados, porém, incapazes de distorcer as habituais melodias e versos sempre limpos do grupo. [+]

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#04. In Our Heads
(2012, Domino)

A colorida imagem escolhida para ilustrar a capa de In Our Heads soa como uma assertiva representação do quinto registro de inéditas do Hot Chip. A cada composição, o desejo do grupo em provar de novas e coloridas referências instrumentais, proposta que mantém o dinamismo e constante ruptura da obra até o último segundo. Nos instante iniciais, o uso de metais e instrumentos de sopro que definem toda a base de Motion Sickness. Com How Do You Do? e Don’t Deny Your Heart, um novo diálogo da banda com a década de 1980, emulando a boa fase em The Warning (2006). Um hit de peso? Night and Day. Já a tradicional flerte do grupo com o R&B/Soul dos anos 1970 ecoa de forma expressiva em Look at Where We Are e Now There Is Nothing. A partir de Flutes, sétima e extensa canção do disco, um caminho livre para o flerte com House Music da década de 1990, sonoridade que ainda abastece a trinca de encerramento do álbum formada por Ends of the Earth, Let Me Be Him e a hipnótica Always Been Your Love.

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#03. Made In The Dark
(2008, EMI / Astralwerks / DFA)

Mesmo tendo alcançado a maturidade com The Warning (2006), Alexis Taylor e os parceiros do Hot Chip ainda reservavam algumas surpresas ao público. Melhor prova disso está no lançamento de Made In The Dark. Terceiro registro de inéditas do coletivo britânico, o álbum pode até seguir a trilha “pop” assumida no trabalho anterior, entretanto, lentamente revela ao público um catálogo de novos ritmos, temas e possibilidades rítmicas. Partindo de um curioso ziguezaguear de referências, a banda não apenas brinca com o uso de composições íntimas das pistas de dança (Shake a Fist, Bendable Poseable), como força com naturalidade o uso faixas corroídas por versos entristecidos (In the Privacy of Our Love, We’re Looking for a Lot of Love). Uma obra que parece encolher e explodir a cada nova canção. Casa de algumas das faixas mais conhecidas do grupo, caso de One Pure Thought, Shake a Fist e Ready For The Floor, com o lançamento de Made In The Dark o coletivo conseguiu se aproximar ainda mais do grande público, assumindo um lugar privilegiado nos principais festivais de música, além, claro, de uma posição de destaque em algumas das principais paradas de sucesso dos EUA e Reino Unido.

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#02. One Life Stand
(2010, Parlophone / Astralwerks)

Versão ainda mais “frenética” do mesmo material apresentado pelo Hot Chip em The Warning (2006) e Made In The Dark (2008), One Life Stand soa como um novo sopro de inspiração dentro da carreira do grupo britânico. Salve exceções, caso do “mantra” Slush e da nostálgica Brothers, todo o restante da obra parece seguir a direção apontado logo na inaugural Thieves In The Night. Um catálogo de faixas rápidas e pegajosas, composições em essência dominadas pelo uso de sintetizadores e guitarras eletrônicas. De um lado, o brilho de faixas orquestradas pela expressiva utilização instrumentos e temas “orgânicos” – caso de Hand Me Down Your Love e Keep Quiet -, no outro, a explosão de batidas, bases e vozes eletrônicas. Adaptações e passagens rápidas pelas pistas dos anos 1980/1990 que involuntariamente mergulham o disco na obra de gigantes como New Order (Power, Corruption & Lies) e Pet Shop Boys (Introspective). Com a enérgica Take It In como canção de encerramento, o grupo ainda cria uma ponte para o bem-sucedido álbum de remixes, além, claro, do sucessor e também assertivo In Our Heads (2012).

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#01. The Warning
(2006, EMI / Astralwerks / DFA)

Poucos trabalhos sintetizam tão bem a música dos anos 2000 quanto The Warning. Segundo registro de inéditas do Hot Chip, o registro que abre de forma explosiva com Careful não apenas revela um criativo retrato da música pop/eletrônica da época, como ainda dialoga com diferentes décadas e tendências musicais sem necessariamente perder o controle. Em Over and Over, uma espécie de encontro entre os veteranos do Gang Of Four e a ainda recente obra de James Murphy (LCD Soundsystem). Nas batidas e sintetizadores ensolarados de Boy From School, um passeio que começa na parceria entre Brian Eno e Talking Heads, passa pela obra da dupla The Chemical Brothers nos anos 1990 e ainda brinca com o mesmo som comercial do Daft Punk da fase Discovery (2001). Nos instantes de maior leveza da obra, caso da faixa-título e So Glad To See You, uma rápida adaptação da obra de Aphex Twin. Kraftwerk encontra o Hip-Hop em Tchaparian enquanto Prince sobrevive nos versos e arranjos de Look After Me. Sobram ainda referências confessas da banda ao trabalho de Madlib e R. Kelly, artistas homenageados na manipulação versátil das batidas e passagens rápidas pelo R&B. Mais de quatro décadas de música resumidos em uma coleção versátil, repleta de frescor e pronta para as mais variadas pistas de dança.