Cozinhando Discografias: Hurtmold

A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em analisar todos os trabalhos de estúdio de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores envolvidos, que vão da recepção crítica do disco, além, claro, da própria trajetória do artista e seus projetos anteriores. Além dos integrantes do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado “democrático”.

No cardápio de hoje: Hurtmold. Formado no final da década de 1990, o grupo paulistano – comandado por Maurício Takara, Guilherme Granado, Marcos Gerez, Mário Cappi, Fernando Cappi e Rogério Martins – é um dos principais e mais influentes projetos da cena independente nacional. Com quase duas décadas de atuação, a banda que acaba de relançar em vinil o clássico Mestro, trabalho originalmente apresentado em 2004, é uma das principais atrações do festival Fora da Casinha II, evento que conta com nomes como Cidadão Instigado, Jaloo, Ventre e Maglore.

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#07. 3AM, a fonte secou… / Everyday Recording
(1998/1999, Spicy Gravações Elétricas/Submarine Records)

Se você ouvir qualquer obra recente da Hurtmold e, posteriormente, mergulhar nos primeiros registros da banda paulistana vai encontrar dois projetos completamente diferentes. Lançado em 1999 pela Submarine Records, 3am: a fonte secou… é um trabalho de essência anárquica. Nas primeiras quatro faixas – Paper compulsion, It’s nothing like we expected e duas outras sem título –, uma coleção de ruídos, vozes berradas e batidas tortas, como se a banda buscasse entender a própria sonoridade. No segundo ato do disco, a primeira demo tape da Hurtmold, Everyday Recording. Cinco composições – You still say i’m selfish thinker…, Dois, No one said it was your average sunday ride in the park, Há força nos sons que me ensurdecem e Our tragic drive – em que os integrantes da banda atiram para todas as direções, brincando com o hardcore melódico ao mesmo tempo em que abraçam instantes leves de experimentos, indicando o som que viria a ser explorado de forma muito mais coesa logo no ano seguinte, durante o lançamento de Et Cetera.

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#06. Et Cetera
(2000, Submarine Records)

Raivoso, assim pode ser resumido o som da Hurtmold em Et Cetera. São pouco mais de 40 minutos em que guitarras rápidas, batidas e vozes berradas sintetizam a crueza do trabalho produzido pelo grupo paulistano. De essência jovial, o registro assume o caminho oposto em relação ao conceito que viria a ser explorado em poucos anos com o lançamento do álbum Mestro, de 2004. São poucos respiros instrumentais, fazendo com que cada faixa sirva de estímulo para a canção seguinte. Vão emenda em Inner City Blues, Continental se conecta com Sorriso Antigo, e as estranhas Fora de Esquadro e It´s Nothing Like We Expected se fragmentam em dois atos complementares. O mesmo conceito “caótico” que orienta a base instrumental do disco acaba se refletindo no econômico acervo de versos que escapam do disco. Canções que interpretam de forma turbulenta o cotidiano de diferentes personagens, suas angústias (“As vezes fica difícil / um dia eu explodo / como aquele filme / nós deveriamos conversar”) e inquietações (“Não é a primeira vez que estou errado isso é usual Perdi o ponto tentando achar algo relevante”).

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#05. Hurtmold & The Eternals
(2003, Submarine Records)

Em 2003, meses após o lançamento do álbum Cozido (2002), os integrantes do Hurtmold apareceram com um novo e inusitado projeto. Junto do coletivo The Eternals, grupo original da cidade de Chicago, a banda paulistana deu vida ao colaborativo Hurtmold & The Eternals, de dez faixas. De um lado, cinco composições assumidas pelo coletivo brasileiro – Telê, Xabú, Assopro, Toninho e os Chaka e O verdadeiro cozido –, no outro, o mesmo número de faixas marcadas pela assinatura do grupo norte-americano – Black museum, Chicago beatdown, Evacuation, Evacuate e Fire in apartment 217. Distribuído apenas em vinil, com tiragem limitadíssima de 1000 cópias, o trabalho se revela como uma verdadeira colcha de retalhos instrumentais, costurando faixas e experimentos que incorporam diferentes estilos, décadas e referências. Ato isolado, o trabalho acabaria servindo como um curioso esboço para a série de canções que a Hurtmold viria a produzir logo no ano seguinte, durante o lançamento de Mestro.

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#04. Mils Criança
(2012, Submarine Records)

De todos os discos produzidos pela Hurtmold, Mils Criança, de 2012, talvez seja o mais acessível. Entregue ao público mais de meia década após o lançamento do último registro de inéditas da banda – o homônimo álbum de 2007 –, o trabalho de apenas 36 minutos de duração é uma obra que chama a atenção pelo dinamismo e completa ausência de possíveis excessos. Longe das canções extensas que marcam álbuns clássicos como Mestro e Cozido, o sexteto se concentra na produção de nove faixas curtas, essencialmente descomplicadas. Canções de apenas dois ou três minutos, como Naca e Cleptociprose, em que o grupo parece brincar com o movimento das guitarras, batidas e instantes breves de experimento. Composição escolhida para apresentar o trabalho, Chavera, quinta faixa do disco, se fragmenta em pequenos atos, criando brechas para pequenas interferências do vibrafone de Guilherme Granado e outros temas melódicos. Sem dúvidas, o caminho mais fácil para quem nunca ouviu nenhum disco da banda.

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#03. Cozido
(2002, Submarine Records)

Segundo registro em estúdio da Hurtmold, Cozido talvez seja o trabalho em que as influências do grupo paulistano sejam exploradas com maior naturalidade. Slint encontra Fugazi, Mogwai esbarra em temas jazzísticos enquanto cada integrante da banda parece testar os próprios limites. Alavancado pela bateria de Maurício Takara, o trabalho muda de direção a cada nova faixa. Se em instantes as guitarras de Mário e Fernando Cappi mergulham no pós-hardcore que floresceu no final dos anos 1990, estímulo para canções como Fontanka e Kampala, minutos depois, são os experimentos e temas eletrônicos de Filas Longas, Taxas Altas, oitava faixa do disco, que indicam a direção seguida pelo coletivo. Sobram ainda composições em que a voz ganha destaque, caso da raivosa Mais uma vez, desanimou, penúltima música do álbum. Um registro curioso do primeiro ao último acorde, como uma extensão segura dos pequenos ensaios criativos que surgem nas canções apresentadas em Everyday Recording (1998) e 3am: a fonte secou… (1999), os dois primeiros registros do grupo.

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#02. Hurtmold
(2007, Submarine Records)

A ambientação que marca as canções de Mestro (2004) se desfaz por completo logo nos primeiros instantes de Olvécio e bica. Com pouco mais de nove minutos de duração, a música de abertura do homônimo registro de inéditas lançado em 2007 indica a busca do sexteto por um conjunto de novas possibilidades, texturas instrumentais e entalhes minimalistas. “Orgânico” como a banda traduziu em entrevistas, o registro de apenas sete faixas se espalha preguiçoso, detalhando longos atos instrumentais. Ruídos abstratos que acabam desembocando em um oceano de colagens jazzísticas e fragmentos que dialogam com a música brasileira. Um mundo de cores, ruídos e batidas que se espalham no interior de composições como Churumba, Sabo e Halijascar, e acabam dialogando de forma natural com a imagem colorida que estampa a capa do disco – uma cena grafitada de uma partida de futebol. Gravado por Fernando Sanches e Phillippe Fargnoli, no Estúdio El Rocha, em São Paulo, o terceiro álbum de estúdio da Hurtmold acabaria servindo de base para o primeiro registro solo de Marcelo Camelo, Sou (2008), trabalho que conta com os arranjos produzidos pelo coletivo paulistano.

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#01. Mestro
(2004, Submarine Records)

Um mundo de cores, histórias e cenários urbanos se esconde por trás da capa em preto e branco de Mestro. Trabalho mais complexo de toda a discografia da Hurtmold, o registro de apenas sete faixas parece crescer sem pressa. Logo nos instantes iniciais, a homônima faixa-título do disco, um condensado de temas ambientais e temas típicos do pós-rock dos anos 1990, como se diferentes ideias fossem agrupadas no interior de uma única canção. Com pouco mais de seis minutos de duração, a faixa parece indicar o preciosismo minimalista que abastece grande parte da obra, perdida em meio a conceitos jazzísticos, diálogos com a música popular brasileira de diferentes épocas e ruídos urbanos que vão do punk ao hardcore.

Verdadeira coleção de clássicos, o trabalho carrega algumas das peças mais importantes da cena instrumental. Canções como a delicada Amarelo é Vermelho, a curtinha Miniotario, além, claro, de Chuva Negra, única faixa do disco que se entrega ao uso da voz – “A cada cinco vezes recomeça: uma, duas, três… / Nada que signifique algo pra você”. Resultado da série de obras e experimentos inicialmente incorporados pela banda, Mestro acabaria servindo de base para toda a sequência de obras que viriam a ser produzidas pelo sexteto nos próximos anos. Trabalhos como o autointitulado disco de 2007 ou mesmo toda a sequência de obras produzidas em carreira solo por cada integrante da banda.