Cozinhando Discografias: Ira!

Por: Cleber Facchi

Cozinhando Discografias

A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

Por vezes esquecida no catálogo de bandas que marcaram a década de 1980, a paulistana Ira! talvez seja a responsável por um das discografias mais dinâmicas e expressivas do rock nacional. Do começo de carreira pontuado pela aproximação com o Punk e o Pós-Punk inglês, passando pela relação aberta com o Hip-Hop e a eletrônica, poucos coletivos surgidos no mesmo período assumiram tamanha inovação quanto o quarteto. Aos comandos de Edgard Scandurra, Nasi, Ricardo Gaspa e André Jung, o projeto trouxe na bem aproveitada discografia algumas das composições mais icônicas da música brasileira, utilizando da própria versatilidade como uma autorização para passear por diferentes territórios da cena nacional. Separada desde 2007, quando desentendimentos entre os integrantes levaram ao fim da banda, o grupo, ou pelo menos parte dele, fez as pazes recentemente, logo, nada mais justo do que celebrar com uma seleção especial para o Cozinhando Discografias. Do pior para o melhor, analisamos os 11 registros em estúdio da banda, uma ótima alternativa para quem conhece apenas o famigerado Acústico MTV.  

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Clandestino

#11. Clandestino
(1990, WEA)

De um lado as experimentações encontradas no complexo Psicoacústica (1988), do outro, a busca pelas mesmas melodias fáceis e vozes plásticas detalhadas em Vivendo e Não Aprendendo (1986). No meio desse turbilhão de preferências está Clandestino, quarto registro de estúdio do Ira!, e uma obra fragmentada entre erros claros e acertos específicos. Indisposto de grandes composições durante a gravação do disco, o quarteto resolveu vasculhar o próprio repertório em busca de possíveis “novidades”, trazendo de volta faixas como Nasci em 62 e O Dia, A Semana, O Mês, ambas assinadas por Edgard Scandurra durante a fase embrionária da banda. Mesmo que algumas composições, caso das acessíveis Boneca de Cera e Tarde Vazia, consigam igualar o mesmo estágio de maturidade previamente exposto pelo grupo, outras como Cabeças Quentes e Efeito Bumerangue esbarram em rimas excessivamente simples ou mesmo em jogos instrumentais de plena redundância, transformando o disco em um jogo de experiências pontuadas pela incerteza.

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Ira!

#10. Música Calma para Pessoas Nervosas
(1993, WEA)

Poucas bandas nascidas na década de 1980 souberam lidar com a passagem para os anos 1990 de forma assertiva. Titãs, Os Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, todos tropeçaram de maneira visível. Com o Ira! não foi diferente. Apresentado em 1993 Música Calma para Pessoas Nervosas, foi lançado apenas para cumprir o contrato com a WEA Records, o que reflete na inclusão imediata de versões – caso de Pai Nosso da Terra, de Raul Seixas, e She Smiled Sweetly, dos Rolling Stones -, além de faixas que mais parecem sobras de estúdio resgatadas. Instável, resultado de problemas entre os integrantes da banda, o trabalho segue até a última música em um jogo torto de preferências, como se o quarteto buscasse se encontrar a todo o momento, mas nunca fosse capaz de concretizar isso. No meio desse território de incertezas, algumas composições assumem claro destaque, caso da crueza Punk que define Arrastão! (Ladrão que Rouba Ladrão), faixa de abertura do álbum, ou mesmo o Blues Rock de Balada Triste, outra regravação, mas uma faixa que se relaciona de forma exata com a estética da banda.

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Ira!

#09. Isso é Amor
(1999, Abril Music/DeckDisc)

Entre o fim dos anos 1990 e começo dos anos 2000, lançar um disco de versões se transformou em uma espécie de febre no Brasil. Enquanto o Titãs veio com Volume Dois (1998) e As Dez Mais (1999), outros como Capital Inicial e diversas bandas apostaram em uma temática acústica para revisitar a própria carreira e o trabalho de outros artistas. Com o Ira! foi diferente. Ainda que seja um registro inteiro de covers, Isso É Amor apostou no resgate de composições obscuras, vindas de diferentes épocas e cenários, como forma de sustento musical. Da abertura com Bebendo Vinho, do quase desconhecido Wander Wildner, passando por Telefone (Gang 90) e Teorema (Legião Urbana), cada música instalada na obra se distancia do grande público, encontrando na sonoridade versátil do grupo um conforto. Com a presença de Fernanda Takai (Pato Fu) e Samuel Rosa (Skank), este último, grande complemento para os vocais de Um Girassol da Cor de Seu Cabelo, do Clube da Esquina, o trabalho não custou a atrair as atenções do grande público. Com boas vendas, o disco traria o quarteto de volta ao grande público, abrindo espaço para a série de discos que viriam nos anos 2000.

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Ira!

#08. Meninos da Rua Paulo
(1991, WEA)

Há um senso de resgate na composição de Meninos da Rua Paulo. Quinto registro em estúdio do Ira!, o álbum parece fluir como uma resposta imediata ao fracasso e ao teor de inexatidão presentes em Clandestino (1990). Lançado poucos meses após o “estranho” registro, o novo álbum veio como um regresso inevitável aos primeiros anos da banda, transportando no uso de faixas emergenciais e melodias acessíveis um ponto de esforço explícito por parte do quarteto. Ainda que o álbum não consiga replicar o mesmo jogo de experiências assertivas impostas nos ótimos Mudança de Comportamento (1986) e Vivendo e Não Aprendendo (1986), a presença de composições acessíveis instaladas por toda a obra flui como um complemento natural ao trabalho da banda. Dessa forma, Imagens de Você, Amor Impossível e até a suja Cavalos Selvagens ecoam com dinamismo, garantindo um pouco mais de estímulo ao projeto, à essa altura, debilitado por conta de diversos problemas entre os membros do grupo.

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Entre Seus Rins

#07. Entre Seus Rins
(2001, Abril/DeckDisc)

A boa repercussão em torno de Isso É Amor (1999) e do MTV Ao Vivo (2000) pareciam ter forçado o Ira! a se encontrar em estúdio. Dividido entre a plasticidade da nova fase e a crueza dos primeiros registros, o grupo foi de encontro a uma obra pontuada de forma exata entre diferentes essências –  boa parte delas opositivas. Enquanto músicas aos moldes de Naftalina e Pecado reforçam a aceleração e toda a crueza do grupo, típica dos primeiros discos de estúdio, outras como Superficial (Como Um Espinho) trazem de volta a mesma soma de arranjos cuidadosos assumidos na segunda metade da década de 1990. Somam ainda os tradicionais flertes com a música eletrônica – em músicas como Para Ser Humano, Mistério e até na irônica O Bom E Velho Rock N Roll -, exercício que reforça a versatilidade da obra. A grande beleza do álbum, entretanto, está na construção de músicas completamente alheias a esse universo, caso da erótica e bem projetada faixa-título, bem como nas emanações pop de Homem De Neanderthal, original de Frank Jorge.

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Invisível DJ

#06. Invisível DJ
(2007, Arsenal/Universal)

Poucos discos do Ira! foram lançados sob tamanha expectativa quanto Invisível DJ. Primeiro registro de inéditas da banda desde o lançamento de Entre seus Rins, de 2001, e vindo em sequência ao sucesso comercial do Acústico MTV, o álbum trouxe na leveza – das vozes e instrumentos – um ponto de afastamento dentro da estética prévia do grupo. A guitarra de Edgard ainda se mantém firme durante toda a composição da obra, algo explícito na composição dos demais instrumentos e vozes, a diferença está na atmosfera de homogeneidade que se espalha pelo disco e na maneira como o grupo jamais parece se alterar. Dessa forma, tanto o hit Eu vou tentar, como a sujeira de Feito gente e a aceleração que conduz A saga ecoa em um mesmo estágio de proximidade conceitual. A plena aproximação entre os elementos reflete também na composição de Culto de amor, originalmente gravada por Edgard Scandurra no começo da década de 1990, e Feito gente, apresentada em 1975 no álbum Revólver, de Walter Franco. A boa repercussão em torno do registro, entretanto, não impediria o afastamento do grupo ainda no mesmo ano, resultado de uma série de problemas entre os integrantes e um desgaste que vinha se acumulando há tempos.

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Ira!

#05. 7
(1996, Paradoxx)

Havia um misto de ordem e desconstrução na atmosfera suja proposta para 7. Primeiro registro em estúdio da banda pelo selo Paradoxx, o trabalho nasceu em meio a um período turbulento, em que problemas com as drogas e desgaste entre os integrantes parecia distanciar o quarteto de um resultado musical assertivo em estúdio. Entretanto, o posicionamento firme do público e uma bem sucedida turnê – que levou o quarteto ao Japão, inclusive – vira como um complemento natural para a formação do novo disco. Tão intenso e sujo quanto o anterior Música Calma para Pessoas Nervosas (1993), porém, desenvolvido em um sentido de maior atenção, o álbum coleciona faixas de verdadeira relevância para o repertório do grupo. É o caso de Me Perco Nesse Tempo (d’As Mercenárias), Você Não Serve Pra Mim, além, claro, do hit melancólico Girassol e Eu Quero Sempre Mais, que em colaboração com a cantora Pitty viria a se transformar na canção mais conhecida do álbum Acústico MTV, de 2004.

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Ira!

#04. Você Não Sabe Quem Eu Sou
(1998, Paradoxx)

Edgard Scandurra nunca ocultou seu fascínio pela música eletrônica. Abastecido pelas experiências do Gang Of Four e influenciado por todas as interferências da cena eletrônica que guiava São Paulo naquele instante, o músico e os parceiros de banda transformaram o oitavo álbum da carreira em uma obra entregue em completo ao experimento. Mergulhado em referências sintéticas que vão do Industrial Rock do Nine Inch Nails ao detalhamento eufórico de grupos como Prodigy e Chemical Brothers, o registro se divide abertamente entre o orgânico e o eletrônico, resultado explícito em toda a composição que preenche a obra. Embora tenha mantido o número de vendas em um resultado mediano, o álbum trouxe uma série de acertos para o grupo, caso da crueza de As Vezes de Vez em Quando, o lado pop de Eu Não Sei e o Trip-Hop melódico que marca a faixa-título. Quase uma continuação ao resultado proposto pelo Benzina – projeto paralelo de Scandurra – dois anos antes, o trabalho se perde com acerto entre bips e solos de guitarras, efeito que converte o disco em uma das obras mais complexas da cena nacional naquele instante.

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Ira!

#03. Mudança de Comportamento
(1985, WEA)

Dos membros que apresentaram o Ira! no compacto de 1983, apenas Edgard Scandurra e Nasi se mantiveram ativos. Enquanto Charles Gavin foi convidado para tocar com os Titãs, abrindo espaço para a chegada de André Jung, então demitido do coletivo paulistano, Dino Nascimento saiu, dando lugar para a chegada de Ricardo Gaspa, velho parceiro de Nasi na banda Voluntários da Pátria. Estava anunciada a formação definitiva da banda, que, logo no primeiro disco, mostrou um afastamento em relação ao Punk Rock das primeiras composições e a busca por uma sonoridade melódica, íntima da cena Mod britânica. Alavancado pelas melodias sóbrias de Núcleo Base – uma crítica de Scandurra ao alistamento militar obrigatório -, o trabalho trouxe na sequência de faixas como Tolices, Saída e na própria faixa-título um ponto de imposição autoral, apresentando de forma definitiva o trabalho do quarteto ao grande público. Sustentado pelo manuseio preciso das guitarras e o jogo sombrio dos vocais, típico do Pós-Punk, o registro assumiu um novo encaminhamento dentro da cena nacional, consumida naquele momento pela euforia colorida da New Wave. Era apenas um aquecimento para o que a banda desenvolveria sob maior domínio no registro seguinte.

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Ira!

#02. Vivendo e Não Aprendendo
(1986, WEA)

1986 talvez seja o ano mais fértil de todo o rock nacional da década de 1980. Legião Urbana com o místico Dois, os Titãs com o agressivo Cabeça Dinossauro e Os Paralamas do Sucesso com Selvagem?, cada registro apresentado durante o período assumiu um ponto específico de identidade. Com o Ira! e o bem recebido Vivendo e Não Aprendendo, segundo registro em estúdio, não poderia ser diferente. Verdadeiro catálogo de hits, o disco segue da primeira até a última música em um exercício atento de cada integrante. Contrapondo o senso de descoberta exposto no debut Mudança de Comportamento (1985), o novo álbum trouxe uma maior relação entre os membros, que fizeram de músicas como Tanto Quanto Eu, Envelheço na Cidade e Dias de Luta algumas das faixas mais significativas de todo o período. Até as melancólicas Quinze Anos e Flores em Você garantiram novo significado ao trabalho do quarteto paulistano, apresentado publicamente a grande público com a inclusão da segunda na trilha sonora da novela O Outro. O ponto de consolidação da banda e a abertura para uma sequência de bem resolvidos projetos.

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Psicoacústica

#01. Psicoacústica
(1988, WEA)

Poucos registros lançados na década de 1980 estiveram tão à frente de seu tempo quando Psicoacústica. Terceiro registro em estúdio do Ira!, o álbum não apenas distanciou o quarteto da estética assumida em Vivendo e Não Aprendendo, de 1986, como forçou a banda e encontrar um novo jogo de possibilidades conceituais e sonoras. Do reggae que esculpe Receita Para Se Fazer um Herói, passando pelos flertes com a eletrônica em Farto do Rock ‘n’ Roll, até o Hip-Hop, na essencial Advogado do Diabo, cada música do álbum dança em um sentido de oposição ao que Titãs, Legião Urbana e tantos outros artistas da época pareciam inclinados a desenvolver. Até a capa holográfica parecia garantir novo sentido à plasticidade imposta previamente pelo grupo, aproximando o quarteto de um estágio próprio de lisergia e invento.

Com direito a trechos de áudio extraídos do filme O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla, o trabalho atravessa um jogo de experiências urbanas, dissolvendo discussões que envolvem política, religião e até o isolamento do próprio homem entre os versos. A estrutura versátil assumida para o disco – que ainda inclui samples e outros elementos raros na época -, obviamente, não agradou ao grande público, mas serviria de base para que Nasi e André Jung assumissem de forma definitiva a produção do primeiro álbum de Rap do país, o clássico Hip-Hop Cultura de Rua (1988). Base para o que a banda desenvolveria anos mais tarde de forma continuada em Você Não Sabe Quem Eu Sou (1998), Psicoacústica ainda hoje se revela como a obra mais ampla e ainda assim isolada de toda a produção nacional do período.


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