Cozinhando Discografias: Janet Jackson

 

Primeira mulher negra a conquistar um Grammy como produtora, responsável pela venda de mais de 160 milhões de cópias de discos, dona de uma coleção de clássicos e recordes quebrados – foi a primeira artista a ter sete singles nas cinco primeiras posições das paradas de sucesso –, Janet Jackson permanece como um dos nomes mais importantes da música pop nos últimos 40 anos. Mesmo crescendo à sombra do irmão, o cantor Michael Jackson, a artista original de Gary, Indiana, lentamente conquistou o próprio espaço, se transformando em uma das maiores expoentes do hip-hop/R&B ao lado de nomes como Mariah Carrey e Missy Elliott. Inspiração para artistas como Beyoncé, Aaliyah e FKA Twigs, Jackson teve cada um dos trabalhos de estúdio organizados do pior para o melhor lançamento em mais uma edição do especial Cozinhando Discografias. Nos comentários, monte a sua ordem do discos ou conta pra gente qual é o seu álbum favorito da cantora.

 

#11. Dream Street
(1984, A&M)

Genérico do primeiro ao último instante, Dream Street se revela ao público como um típico exemplar da música pop produzida no início dos anos 1980. Das batidas e programações marcadas, passando pelas vozes plásticas e sintetizadores caricatos, cada elemento do segundo álbum de Janet Jackson não apenas distancia a cantora do som apresentado no primeiro registro de inéditas, como confirma a falta de domínio da jovem dentro de estúdio. Com produção dividida entre Marlon Jackson, irmão da cantora, Jesse Johnson, Giorgio Moroder e Pete Bellotte, o sucessor do homônimo disco lançado dois anos antes é uma clara tentativa da gravadora em adaptar a voz de Jackson aos “novos tempos”, por vezes emulando conceitos e ritmos originalmente testados pelo irmão, Michael, no clássico Thriller (1982) — similaridade escancarada nas batidas, guitarras e até vozes de All My Love to You e Don’t Stand Another Chance. O resultado não poderia ser outro: um baixo número de vendas e a completa frieza na recepção do público e crítica. Um tropeço leve, porém, fundamental para o amadurecimento criativo e maior liberdade artística na produção do álbum seguinte, o hoje clássico Control (1986).

 

#10. Janet Jackson
(1982, A&M)

Imagine que você é a irmã de um dos maiores astros da música pop e, mesmo sem qualquer forma de controle sobre a própria obra, foi convidada a produzir o primeiro álbum de estúdio da carreira. Qual o principal objetivo de qualquer gravadora? Ora, replicar a fórmula (e sucesso) desse personagem correlato. Longe de parecer um completo fracasso ou obra vazia, é exatamente isso que o ouvinte encontra no primeiro registro de inéditas na carreira de Janet Jackson. Autointitulado, o disco de oito faixas organizado por Joseph Jackson, pai da cantora, se projeta como uma clara tentativa da artista em replicar o sucesso do irmão, Michael Jackson, em Off The Wall (1979). Do explícito diálogo com a música disco, em Say You Do e You’ll Never Find (A Love Like Mine), à produção de baladas românticas, caso de Love and My Best Friend, todos os elementos do trabalho se projetam em uma clara tentativa de Janet em emular a obra de Michael, conceito reforçado pela dupla de compositoras Angela Winbush e René Moore, responsáveis por grande parte das faixas. Mesmo fraco, o debute garantiria à cantora um lugar de destaque nas paradas de sucesso, efeito do single Young Love, além de músicas como a dançante Don’t Mess Up This Good Thing.

 

#9. 20 Y.O.
(2006, Virgin)

Eu já falei sobre racismo, relacionamentos abusivos, empoderamento de mulheres, crianças. Eu falei sobre muitas coisas. O que eu falo sobre esse tempo?“. A reflexão indagadora que abre o trabalho de Janet Jackson em 20 Y.O. diz muito sobre o material produzido para o nono álbum de inéditas da cantora. Trata-se de uma clara retrospectiva de tudo aquilo que a artista conquistou desde o amadurecer criativo durante o lançamento de Control, em 1986. Do título referencial, “20 Years Old”, à produção das batidas, claramente inspiradas pelo R&B-pop-funk produzido no final dos anos 1980, cada elemento do disco soa como uma viagem renovada em direção ao passado, conceito reforçado em algumas das principais faixas do disco, caso de Call On Me, With U, Get it Out Me, This Body e So Excited. Um misto de passado e presente, como uma tentativa de Jackson em se reerguer passada a polêmica apresentação no Super Bowl de 2004.

 

#8. Discipline
(2008, Island)

Com o fim do contrato com a Virgin – selo em que lançou os ótimos Janet (1993), The Velvet Rope (1997), All for You (2001), Damita Jo (2004) e 20 Y.O. (2006) –, Janet Jackson passou a integrar o catálogo da Island Records, onde decidiu investir na produção de um som transformado, ponto de partida para a formação do 10º registro de inéditas na carreira, Discipline. Menos referencial em relação ao antecessor 20 Y.O., obra em que decidiu dialogar com o clássico Control (1986), cada elemento do disco de 22 faixas mostra a força de Jackson dentro de estúdio. São músicas essencialmente dançantes, como Feedback, o R&B polido de Discipline, além da força nas batidas de Rollercoaster, música que mostra uma cantora tão intensa quanto em início da carreira. Curioso pensar que esse foi o primeiro álbum de Jackson sem a presença da dupla Jimmy Jam e Terry Lewis em mais de duas décadas. Para a produção do trabalho, a cantora contou com a colaboração de um time seleto de produtores, caso de Rodney Jerkins, Jermaine Dupri, Ne-Yo, Shea Taylor, Stargate, Johntá Austin, Tricky Stewart e The-Dream, mudança que garante novo ritmo e identidade ao trabalho.

 

#7. Damita Jo
(2004, Virgin)

Oitavo álbum de estúdio de Janet Jackson, Damita Jo marca o início de uma nova fase na carreira da artista norte-americana. Concebido em um intervalo de 18 meses e cercada de novos colaboradores – como Kanye West, Télépopmusik, Just Blaze, além, claro, da dupla Jimmy Jam e Terry Lewis –, o registro mostra o esforço da cantora em brincar com a própria identidade, conceito reforçado logo no título do álbum, montado a partir do segundo nome de Jackson. Assim como o material apresentado no antecessor, All for You (2001), Damita Jo é uma obra que joga com os sentimentos, postura reforçada em algumas das principais faixas do disco, caso de Just a Little While, My baby, I Want You e All Nite (Don’t Stop). Inspiração para o lançamento de obras centradas na construção de um alter ego, como Britney Jean (2013) de Britney Spears e, principalmente, I Am… Sasha Fierce (2008), de Beyoncé, Damita Jo contou com uma boa repercussão do público, porém, acabou boicotado por diversas rádios e programas de TV. Uma resposta de diferentes grupos de mídia, principalmente a MTV, em virtude da apresentação de Jackson no intervalo do Super Bowl daquele ano, quando, durante a performance, o convidado Justin Timberlake, expôs o peito da cantora.

 

#6. Unbreakable
(2015, Rhythm Nation / BMG)

Em um ano de grandes lançamentos, como To Pimp A Butterfly, de Kendrick Lamar, e E•MO•TION, de Carly Rae Jepsen, Unbreakable mostra a força criativa e identidade de Janet Jackson. Primeiro álbum de inéditas da cantora em um intervalo de sete anos, o sucessor de Discipline mostra a capacidade da artista norte-americana em transformar os próprios sentimentos em música, cuidado que se reflete em cada uma das 19 composições que recheiam o disco. Concebido em colaboração com os parceiros de longa data, a dupla Jimmy Jam e Terry Lewis, Unbreakable traz de volta a essência do R&B dos anos 1990, flutuando em meio a batidas secas, samples e colaborações pontuais – vide o encontro com Missy Elliott na ótima Burnitup!, além, claro, da colaboração dom J. Cole em No Sleep, primeiro single do disco. Repleto de boas composições, o trabalho ainda conta com faixas como Dammn Baby, música que dialoga com a boa fase de Jackson, o R&B melancólico de The Great Forever, canção que lembra o irmão da cantora, Michael Jackson (1958 – 2009), além da pop Shoulda Known Better, composição que transporta o trabalho da artista para um novo território. O resultado não poderia ser outro. Bem-recebido por público e crítica, Unbreakable não apenas figuraria como um dos grandes lançamentos de 2015, como seria responsável por apresentar o trabalho da cantora a uma nova parcela do público.

 

#5. All For You
(2001, Virgin)

Da melancolia explícita em The Velvet Rope (1997) para o tom otimista de All For You. Sétimo álbum de estúdio na carreira de Janet Jackson, o registro que mais uma vez conta com a produção da dupla Jimmy Jam e Terry Lewis, segue um caminho oposto ao material testado quatro anos antes pela cantora. Do pop sorridente da faixa-título, uma homenagem ao público que sempre acompanhou o trabalho de Jackson, passando pelo cuidado das batidas em Come On Get Up e força dos versos em Son of a Gun (I Betcha Think This Song Is About You), parceria com Carly Simon, cada elemento do disco parece transportar o público para um novo território, reforçando a mesma versatilidade e entrega explícita no álbum Janet, de 1993. Exemplo disso está no R&B minimalista e provocante de Would You Mind, música censurada em diversos países por conta do erotismo presente nos versos – “E eu vou beijar você, te chupar, te provar, montar em você / Sentir você profundamente dentro de mim“. Surgem ainda preciosidades como Trust a Try, um R&B quente e recheado por boas guitarras, além, claro, de Someone to Call My Lover, música que transita por entre diferentes gêneros de forma deliciosamente dançante, como se Jackson, recém-divorciada de René Elizondo, cantasse em busca de um novo amor.

 

#4. Janet
(1993, Virgin)

Poucos trabalhos sintetizam com tamanha naturalidade o R&B/pop produzido no início dos anos 1990 quanto Janet. Quinto álbum de estúdio da cantora norte-americana, o registro de 28 faixas — parte expressiva delas vinhetas, interpolações e monólogos da cantora —, ganha forma aos poucos, sem pressa, como uma fuga da euforia detalhada no antecessor Rhythm Nation (1989). Não por acaso, Jackson escolheu That’s the Way Love Goes como música de abertura do álbum, um indicativo de tudo aquilo que a cantora e os produtores — Jimmy Jam, Terry Lewis e Jellybean Johnson —, reservam até o fechamento do álbum. Claro que a propositada mudança de direção em nada interfere na produção de faixas essencialmente dançantes, conceito aprimorado desde o amadurecimento criativo em Control (1986). Exemplo disso está na colorida sobreposição de ritmos que embala músicas como You Want This, If e Funky Big Band. Ponto de conexão entre esses dois extremos da obra, a poesia de Jackson, sempre provocativa, centrada em temas como sexo, desejo feminino e a busca por prazer. O destaque acaba ficando por conta da extensa Any Time, Any Place, um indicativo da poesia lasciva que recheia o álbum — “Eu posso sentir sua mão / Subindo pelas minhas coxas / Saia em volta da cintura / Meu rosto contra a parede / Eu posso sentir seus lábios“.

 

#3. Control
(1986, A&M)

Janet Jackson não poderia ter pensando em um título melhor para o terceiro álbum de estúdio da carreira. Do momento em que tem início, na poesia declamada da inaugural faixa-título – “Esta é uma história sobre controle / O meu controle / Controle do que eu digo / Controle do que faço / E desta vez eu vou fazer do meu jeito” –, passando pela criativa mistura de ritmos que recheia o trabalho – synthpop, R&B, rap, disco e funk –, cada elemento de Control reflete a alma e a essência criativa da cantora. E não poderia ser diferente. Longe dos domínios do pai, o controlador Joseph Jackson, quem havia demitido meses antes, e recém-divorciada do primeiro marido, o músico James DeBarge, Janet parecia celebrar a própria libertação – pessoal e criativa. Não por acaso, parte expressiva das letras, como em Nasty e What Have You Done for Me Lately, projetam a força do eu lírico feminino em relação a personagens masculinos, como se a artista, pela primeira vez, tivesse controle da própria vida. A mudança de postura, aliada à bem-sucedida colaboração com a dupla Jimmy Jam e Terry Lewis, se reflete na produção de clássicos como When I Think of You, Funny How Time Flies (When You’re Having Fun) e What Have You Done for Me Lately, canções responsáveis por transportar a cantora para uma posição de destaque nas paradas de sucesso e preparar o terreno para o material que seria apresentado nos próximos anos.

 

#2. The Velvet Rope
(1997, Virgin)

A melancolia explícita nas canções de The Velvet Rope nasce como um reflexo da alma atormentada e angústias de Janet Jackson. Depois de um conflito mental e período de forte depressão, a cantora não apenas passou a reviver memórias da infância abusiva, como começou a se sentir pressionada mediante o sucesso de seus últimos trabalhos – vide a boa repercussão de Rhythm Nation (1989) e Janet (1993), além, claro, do sucesso em torno da coletânea Design of a Decade 1986/1996. O resultado dessa forte instabilidade emocional se reflete na composição de cada uma das 22 faixas do sexto álbum de inéditas da cantora. Da base instrumental que vai do R&B ao trip-hop, passando pela composição dos versos calcados em temas como relacionamentos homossexuais (Free Xone), a morte de um amigo em decorrência da Aids (Together Again) e violência doméstica (What About), poucas vezes antes Jackson pareceu tão vulnerável e íntima do ouvinte quanto em The Velvet Rope. Exemplo disso está em Got ‘Til It’s Gone, música em que explora os próprios sentimentos ao mesmo tempo em que joga com as rimas de Q-Tip e samples de Big Yellow Taxi, da cantora Joni Mitchell. São pouco mais de 70 minutos em que Jackson não apenas se revela por completo, como parece dialogar com o ouvinte, convidado a se perder em um universo de tormentos intimistas e confissões pessoais.

 

#1. Janet Jackson’s Rhythm Nation 1814
(1989, A&M)

Pensar em Rhythm Nation simplesmente como um disco seria um erro. Da criativa colisão de ritmos mais uma vez assumida pela dupla Jimmy Jam e Terry Lewis – synthpop, R&B, rap, disco, rock, industrial e funk –, passando pelo cuidado na direção de cada videoclipe, coreografias montadas especialmente para o trabalho e uma turnê disputadíssima que contou com um público de aproximadamente três milhões de pessoas, cada elemento do álbum se projeta de forma grandiosa. É como se Jackson pensasse em todos os aspectos da obra, levando o amadurecimento iniciado em Control (1986) a um novo patamar. A própria decisão da artista em mesclar canções de amor com faixas que discutem problemas sociais, criminalidade e drogas – contrariando a decisão da gravadora –, confirma a visão apurada da artista. O resultado, obviamente, não poderia ser outro. Estima-se que um intervalo de um ano, o registro tenha vendido mais de 20 milhões de cópias, rivalizando com os números do irmão, Michael. De fato, Rhythm Nation foi o primeiro álbum na história da Billboard Hot 100 a ter sete singles nas cinco primeiras posições das paradas, reflexo da boa repercussão de músicas como Miss You Much, Escapade, Love Will Never Do (Without You) e a própria faixa-título. Comparado ao clássico What’s Going On (1971), de Marvin Gaye, efeito da forte poesia política, e declaradamente inspirado pelos trabalhos de Joni Mitchell e Bob Dylan, o quarto álbum de Janet Jackson viria a apontar a direção seguida por variedade de artistas pelos próximos anos – caso de Beyoncé, Mary J. Blige e Mariah Carey –, mantendo a cantora em um posto ainda hoje inigualável.


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