Cozinhando Discografias: Kanye West

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A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

Kanye West passou boa parte da década de 1990 como uma figura atuante nos bastidores do Hip-Hop norte-americano. Produtor e letrista responsável por uma série de faixas construídas para Alicia Keys, Janet Jackson e outros nomes do rap estadunidense, o artista despontou de fato no começo dos anos 2000, quando a convite de Jay-Z deu vida a uma série de importantes composições trabalhadas em parceria com o já veterano rapper. Em 2004, com a chegada de The College Dropout, West daria inicio a um dos catálogos mais inventivos do gênero, substituindo em pouco tempo a figura reflexiva que parecia anunciar nos versos iluminados de Jesus Walks por um personagem, uma versão quase encenada de si próprio e ser naturalmente consumido pelo ego. Dono de uma sequência assertiva de grandes lançamentos – incluem obras como Late Registration, Graduation e o clássico My Beautiful Dark Twisted Fantasy -, West passa agora pela seção Cozinhando Discografias, tendo cada um dos registros em estúdio classificados do pior para o melhor.

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Kanye West

#07. 808 & Heartbreak
(2008, Roc-A-Fella/Def Jam)

As batidas do coração como base, os vocais em canto marcados pelo autotune e o teor melancólico das rimas não escondem: a tristeza aponta os rumos de 808 & Heartbreak. Lançado pouco tempo após a chegada do épico Graduation, o quarto registro em estúdio de Kanye West não apenas funciona como uma quebra ao cenário grandioso proposto lírica e musicalmente em 2007, como reforça o lado mais sombrio de seu criador. Resultado do falecimento de Donda West, mãe do artista, além, claro, da separação de Alexis Phifer, com quem West vivia junto desde 2002, o trabalho carrega em cada faixa uma exposição macambúzia dos temas, aproximando o rapper do R&B e de traços instrumentais ocultos nos primeiros álbuns. Marcado de forma assertiva pela construção de hits românticos, o disco traz na manifestação de músicas como Love Lockdown e RoboCop um ponto de amadurecimento comercial para o artista, princípio para a insanidade que o rapper viria a reforçar com a chegada de My Beautiful Dark Twisted Fantasy em poucos anos.

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Kanye West

#06. Watch the Throne
(2011, Roc-A-Fella/Roc Nation/Def Jam)

Poucos trabalhos recentes causaram tamanha euforia antes do lançamento quanto Watch the Throne. Colaboração entre Kanye West e Jay-Z, o álbum chegou em boa hora, como uma sequência natural ao fenômeno iniciado em My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010), além de uma coroação inevitável dos rappers como os dois maiores nomes do Hip-Hop no novo século. Coerentemente embalado em uma capa dourada, o disco é uma sequência bem aproveitada de faixas épicas, músicas de arquitetura crescente e choques de ego que agitam toda a atmosfera da obra. Mais do que um encontro coeso entre West e Carter, o álbum serve como um ponto de convergência para que uma sequência de vozes que marcaram diferentes fases da música negra possam se encontrar. Estão lá veteranos como Quincy Jones, Pharrell Williams e Beyoncé, além do novato Frank Ocean e da bem aproveitada homenagem ao falecido Otis Redding, na cuidadosa Otis. Além do catálogo de estúdio, ao vivo, com Watch the Throne Tour, a dupla resolveu ressuscitar diversas faixas construídas em parceria desde o fim dos anos 1990.

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Graduation

#05. Graduation
(2007, Roc-A-Fella/Def Jam)

Não há palavra que melhor represente a atuação de Kanye West em Graduation do que “grandioso”. Ponto claro de consolidação para o trabalho do norte-americano, o disco parece a todo o instante fugir da arquitetura orquestral proposta em Late Registration (2005), quando ainda brincava com um rap de contornos “alternativos”. Pop, crivado de faixas comerciais e versos que esbarram a todo o instante no épico, o disco surge como um ponto natural de divisão na carreira de West, agora, uma espécie de personagem ou invenção egocêntrica de si próprio. Com produção atenta, o rapper substitui o delineamento parcialmente tímido dos primeiros registros por um acabamento eletrônico, reforço nítido para a arquitetura das batidas e samples que se espalham confortavelmente – vide Stronger. Acompanhado por nomes como Mos Def (Drunk and Hot Girls), Lil Wayne (Barry Bonds) e até Chris Martin (Homecoming), West firma com autenticidade dos sons e veros um território próprio, utilizando na proposta ascendente a base para todos os álbuns que viriam em sequência.

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Kanye West

#04. The College Dropout
(2004, Roc-A-Fella/Def Jam)

The College Dropout, álbum de estreia de Kanye West, precisou de quatro anos até ser finalizado e entregue ao público. Construído entre um intervalo e outro do rapper, até então responsável pela produção de faixas para outros nomes do Hip-Hop, o álbum concentra em cada canção uma manifestação específica das referências que até então ditavam os rumos do artista. O R&B em Spaceship e a música gospel em Jesus Walks, o soul em Never Let Me Down ou o princípio do Rap em Breathe in Breathe Out, cada etapa do registro se manifesta como uma colagem de décadas e essências. Longe do egocentrismo autoral que viria com os futuros lançamentos, o debut traz em temas como religião, família, amor e fé um ponto de afastamento ao que caracterizava o restante rap norte-americano naquele instante. Sem esbarrar no mesmo efeito gratuito que cresceu depois de Graduation (2007), West encontra em cada canção do álbum um cenário de isolamento – físico ou mesmo metafórico -, o que garante à obra uma constante manifestação reflexiva, talvez inexistente para quem passeia pelas rimas atuais do artista.

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#03. Yeezus
(2013, Roc-A-Fella/Def Jam)

Se em 2004, quando lançou oficialmente Jesus Walks, Kanye West cantava sobre Deus em um sentido claro de louvor e adoração, ao apresentar Yeezus, sexto álbum solo, o rapper escolheu assumir a própria deidade. Lançado sob forte expectativa – afinal, qual seria o próximo passo do artista depois do aclamado My Beautiful Dark Twisted Fantasy? -, o registro concentra em cada faixa uma aproximação maior com a eletrônica, trazendo de volta uma série de conceitos firmados em Graduation (2007), porém, em uma medida ainda mais intensa, quase sufocante. Acompanhado das vozes de Frank Ocean e Justin Vernon, além, claro, de Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter (do Daft Punk) em parte da produção, West desfila por uma obra tão grandiosa, quanto a que fez dele um gigante anos antes. Seja na escolha dos samples ou na fabricação cuidadosa das próprias bases – impulsionada por novos nomes da eletrônica/Hip-Hop -, o álbum apresenta no manuseio veloz dos arranjos uma obra que se extingue na mesma velocidade em que é apresentada. Intenso, Yeezus é mais uma prova de que a genialidade (e também a loucura) de Mr. West estão longe de se extinguir.

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Kanye West

#02. Late Registration
(2005, Roc-A-Fella/Def Jam)

Se The College Dropout é a representação de que a carreira de Kanye West foi inaugurada com acerto, então Late Registration é a confirmação de que ele poderia ir ainda mais longe. Desenvolvido em pouco menos de um ano, o álbum encontra na estrutura orquestral um princípio para a construção de uma obra marcada pelo caráter homogêneo dos sons. Desenvolvido em um cenário musical naturalmente próprio, resultado da colaboração entre o rapper e o compositor Jon Brion, o disco vai da primeira até a última faixa em um ambiente instrumental delicado, como se todas as canções fossem na verdade fragmentos de uma obra maior. Passeando livremente pelo R&B, Soul e Jazz em um sentido de coletar samples e referências, West faz de cada música um recorte musical nostálgico, derramando a essência de Ray Charles, Etta James e Otis Redding por toda a obra. A beleza do álbum, entretanto, não reside apenas na relação acertada entre West e Brion, mas também na sequência de convidados que se aconchegam pelo disco. Seja Jamie Foxx em Gold Digger, Adam Levine em Heard ‘Em Say ou Jay-Z em Diamonds From Sierra Leone, cada participação é anunciada em um sentido de irretocabilidade, como se tudo estivesse encaixado com visível acerto e precisão pelo registro.

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Kanye West

#01. My Beautiful Dark Twisted Fantasy
(2010, Roc-A-Fella/Def Jam)

Genialidade e loucura se misturam no interior de My Beautiful Dark Twisted Fantasy. Quinto registro em estúdio de Kanye West, o álbum parece ser o ponto de transformação final para que uma série de elementos acumulados ao longo dos anos pelo rapper – seja dentro do universo pessoal, como na carreira artística. Depois da ascensão em Graduation e da queda (sentimental) em 808 & Heartbreak, da perda da mãe em 2008 ou mesmo da constrangedora invasão no VMA de 2009, o rapper parecia renovado, ou melhor, capaz de andar por cima dos próprios escombros. Emulando a própria divindade, West transforma cada faixa no interior do álbum uma proclamação egocêntrica, algo que Dark Fantasy, canção inaugurada pela narração de Nicki Minaj, além de samples de In High Places de Mike Oldfield, reforça com verdadeira maestria.

Faixa, após faixa, West caminha com firmeza por uma imensa escada dourada, como se o topo ainda fosse pouco para ele. Aproximando novatos e veteranos (como Kid Cudi e Raekwon em Gorgeous), brincando com samples (vide Will You Still Love Me Tomorrow, de Smokey Robinson, em Devil in a New Dress), ou apenas manuseando as líricas em um teor pleno de grandeza, (Runaways), o rapper faz de cada música instalada no interior do álbum uma obra isolada, mas que ainda assim serve como princípio para o resultado final do disco. Entre efeitos conceituais que esbarram na obra dos Beatles, King Crimson ou mesmo em outros gigantes do rock clássico, West cria um reino particular, onde quem pretende se aventurar pelas construções instrumentais do artista precisa, antes de tudo, se ajoelhar perante ele. MBDTF não é apenas o melhor disco de Kanye West, mas, por enquanto, o álbum mais importante da década.


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