Cozinhando Discografias: Kate Bush

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A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

Descoberta no meio da década de 1970 por David Gilmour (Pink Floyd), e pouco depois contratada pela EMI (a fim de manter a jovem artista aos seus “domínios”), Kate Bush não precisou de muito tempo para se transformar em um dos nomes mais importantes da história da música. Dona de um pop místico, a cantora e compositora britânica fez da boa fase nos anos 1980 um período marcado de forma natural pelo experimento. Base para a obra de cantoras como Grimes, Florence Welch, Fiona Apple e outros nomes de peso da cena alternativa, Bush fez da curta discografia um ponto constante de transformação, algo que Hounds Of Love e The Sensual World mantém com explícita novidade até hoje. Com dez obras de estúdio, a artista teve cada um dos trabalhos posicionados do “pior” para o melhor em mais um especial da seção Cozinhando Discografias.

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Lionheart

#10. Lionheart
(1978, EMI)

Talvez seja a grandeza em torno do debut The Kick Inside, apresentado no mesmo ano, ou a inevitável busca por um som de maior apelo comercial, mas o fato é que Lionheart está longe de sustentar a boa forma anunciada por Kate Bush em suas maiores obras. A “instabilidade” em torno do registro, entretanto, de forma alguma distancia a britânica de faixas consumidas de forma visível pelo acerto e a maturidade – tão evidente desde o nascimento das primeiras canções. Estão lá músicas de formação intensa, caso de Hammer Horror, ou mesmo faixas que reforçam a melancolia épica de Bush, ponto que transforma Wow em um dos grandes exemplares do disco. Mais do que um tropeço, o álbum, assim como Aerial (2005), serve como um exercício típico de preparação para a cantora. É como se todos os experimentos testados ao longo da obra servissem como a base para aquilo que Never For Ever traria com maior relevância em poucos anos.

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Kate Bush

#09. The Red Shoes
(1993, EMI/Columbia)

Poucos foram os artistas que se destacaram na década de 1980 e conseguiram se manter de forma estável nos anos 1990. Com Kate Bush não foi diferente. Seja pela grandiosidade explícita em The Sensual World (1989), ou pela incapacidade em se adaptar aos novos rumos da cena musical, o fato é que em The Red Shoes, de 1993, a cantora parecia sem saber exatamente para onde ir. Enquanto parte das faixas trazem de volta todas as experiências conquistadas na fase áurea, outras como Eat The Music e And So Is Love aportam em um jogo de experiências tortas e raras dentro da obra da cantora. Em alguns momentos é explícito o sentimento de emulação da própria artista, como se Bush fosse pressionada a imitar ela mesma. Construído ao longo de três anos, o álbum sofreu muito mais pelo peso da gravadora, do que pela habilidade da artista em si, tanto que ao apresentar Director’s Cut, em 2011, Bush resgatou de forma brilhante sete das faixas instaladas no álbum.

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Kate Bush

#08. Director’s Cut
(2011, EMI/Fish People)

Director’s Cut tem um papel fundamental para o verdadeiro regresso de Kate Bush. Lançado poucos meses antes do delicado 50 Words for Snow (2011), o registro assume no caráter de renovação instrumental um aquecimento para aquilo que o novo álbum de inéditas da cantora viria a apresentar em pouquíssimo tempo. Construído em cima de músicas já conhecidas da artista britânica, o álbum encontra na limpidez dos versos e no cuidado com os instrumentos um fluxo explícito de transformação – tanto lírica como instrumental. Da música celta aos azulejos jazzísticos, cada composições traz de volta toda a base da cantora, que ao se apropriar de faixas pouco conhecidas e lançadas entre o fim dos anos 1980 e começo dos anos 1990, aparece inédita ao grande público. Mais do que reforçar a presença dos instrumentos, o álbum encontra na força das vozes um complemento, algo que Song of Solomon e demais músicas “esquecidas” do catálogo da musicista assumem com um detalhamento típico dos primeiros anos da cantora. Quase um pedido de desculpas pelos excessos de The Red Shoes, o álbum seria “apenas” um preparativo para o que estava por vir.

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Kate Bush

#07. The Dreaming
(1982, EMI/Columbia)

Três décadas se passaram desde que The Dreaming foi apresentado e, mesmo hoje, ele consegue dividir as opiniões do público e da crítica. De um lado, os ouvintes favoráveis ao conjunto instável de sons que decidem os rumos da obra, no outro, aqueles que entendem o álbum apenas como uma representação dos exageros da britânica. Independente das escolhas (e opiniões) que o cercam, o quarto álbum de estúdio de Kate Bush mantém firme a proposta da cantora em brincar com a própria estética. Dos vocais insanos em Leave It Open, ao fluxo quebrado das batidas de Sat in Your Lap, não existe direção que se mantenha segura dentro do desenvolvimento da obra. Cada faixa parece observada de forma independente, o que faz do registro uma mudança brusca ao que fora estabelecido até Never For Ever (1980). Como se recomeçasse a cada música, Bush brinca com o jazz, fragmenta o pop e entende a própria essência de forma irregular, arrastando o ouvinte para um universo em que distintas formas instrumentais surgem e desaparecem sem qualquer ordem aparente.

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Aerial

#06. Aerial
(2005, EMI/Columbia)

A década de 1990 praticamente soterrou a carreira de Kate Bush. A sonoridade instável em The Red Shoes (1993) e a incapacidade em se adaptar aos novos gêneros arremessaram Bush para o ostracismo. Um hiato de 12 anos que só viria a ser rompido (parcialmente) com o lançamento do sutil Aerial, em 2005. Típica obra de reposicionamento, o álbum flutua entre a essência pré-Hounds of Love (1985) e as melodias que guiavam o cenário naquele musical momento. Concorrendo com nomes como Fiona Apple (Extraordinary Machine), Antony & the Johnsons (I Am a Bird Now) e demais artistas que cresceram influenciados pelo trabalho da britânica, Bush apresenta uma obra limitada, mas não menos encantadora. São músicas densas e extensas, mas que soam simples quando próximas do detalhamento explícito em The Sensual World. Hoje encarado como um recomeço para os acertos testados em 2011, o disco traz em obras como King of the Mountain ou mesmo na extensa faixa-título uma comprovação da boa forma de Bush, que mantém o disco em alta até o último segundo.

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Kate Bush

#05. The Kick Inside
(1978, EMI)

Kate Bush tinha apenas 19 anos quando The Kick Inside foi oficialmente apresentado ao público. A pouca idade, entretanto, parece irrelevante quando próxima da beleza autoral e toda a maturidade que conduz o álbum. Do canto das baleias instalado na abertura de Moving, passando por faixas clássicas como The Man with the Child in His Eyes e Wuthering Heights, cada música instalada no disco reforça a identidade ativa da britânica, que passeia pelo pop, pela música barroca e distintos elementos da cena musical da época sem perder a fluidez homogênea que ocupa todo o trabalho. São arranjos minimalistas que explodem em grandeza ao esbarrar na voz presente da cantora, esforço que músicas como Kite revelam em um mosaico de expressões versáteis. Base para aquilo que Joanna Newsom e Julia Holter desenvolveriam anos mais tarde, a estreia de Bush atravessa referências de forma a lidar com o público de forma acessível. Uma divisão exata entre a experimentação e o toque comercial que apenas reforçam o dinamismo que viria a guiar o trabalho da jovem cantora pelos próximos anos.

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Kate Bush

#04. 50 Words for Snow
(2011, EMI/Fish People)

Lançado ao final de 2011, 50 Words for Snow talvez seja a obra mais desafiadora da carreira de Kate Bush. Construído em cima de sete extensas composições e livre da multiplicidade de instrumentos que apresentaram a artista em meados dos anos 1980, o décimo registro em estúdio da musicista encontra na delicadeza das vozes e sons todo o seu sustento. Tendo no teor conceitual do frio e da neve o princípio de movimentação para os versos, o trabalho força com acerto a poesia de Bush, o que torna a construção do disco uma obra naturalmente exaustiva, mas não menos emocionante. Praticamente um livro transformado em música, o álbum transporta o espectador para um universo de personagens sensíveis, histórias pontuadas pelo teor místico da cantora e todo um conjunto de referências capazes de evidenciar a evolução da britânica durante a obra. Não existem possíveis hits ou instantes de maior abertura ao ouvinte médio, o que faz do trabalho o ponto final de uma imensa preparação iniciada em The Kick Inside. Com 53 anos na época em que o álbum foi lançado, Bush se revela tão curiosa quanto aos 19, quando lançou o primeiro disco.

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Kate Bush

#03. Never For Ever
(1980, EMI)

O “nunca para sempre” assumido no título do terceiro disco de Kate Bush é uma representação exata de toda a mutabilidade da britânica. Longe dos inventos oníricos testados em começo de carreira, a cantora trouxe no álbum de 1980 um sentido de fechamento e transformação ao que os dois primeiros álbuns haviam anunciado com certa dose de descoberta. Os passeios declarados pela música clássica, o tom operístico e todo o cuidado com o planejamento dos versos agora olhavam com atenção para o pop – sem que isso diminuísse o real propósito da cantora e do próprio disco. Com a entrada na nova década há uma maior imposição das guitarras e o uso menos atmosférico dos sintetizadores, efeito que força a voz de Bush a alcançar novo sentido conceitual. São instantes de pura aproximação com o grande público, caso da adorável faixa de abertura, Babooshka, até músicas de pleno amadurecimento épico, algo que The Wedding List e Blow Away bem evidenciam. Um ponto específico de mudança, e ainda assim o princípio para uma obra muito maior.

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Kate Bush

#02. The Sensual World
(1989, EMI/Columbia)

Último grande álbum de Kate Bush na década de 1980, The Sensual World substitui a urgência, explícita em Hounds of Love (1985), para dar vida a um trabalho pontuado de forma nítida pela sensibilidade. Parcialmente livre de toda a parafernalha eletrônica e do toque “synthpop” de outrora, a britânica encontrou em uma aproximação com o Folk o ponto claro de evolução para a obra. Estão lá elementos da música celta (Love and Anger), emanações fragmentadas entre o Soul e Jazz (na faixa-título), além de uma carga de novos experimentos acústicos que se espalham com leveza por todo o disco. Se antes Bush havia se confortado em um território próprio, com o sexto registro em estúdio o teor de descoberta mais uma vez estava no ar. São os arranjos de cordas que descem suavemente pelo registro, as vocalizações limpas que abraçam o ouvinte e todo um catálogo de faixas pontuadas pelo teor subjetivo dos versos. Da interferência constante da guitarra de David Gilmour, ao visível posicionamento do compositor Michael Nyman em toda a obra, poucas vezes uma obra conseguiu soar tão particular e acessível quanto esta.

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Kate Bush

#01. Hounds Of Love
(1985, EMI/Columbia)

De maneira geral, cada ouvinte assume o fascínio por uma obra específica de Kate Bush. Uns preferem a sobriedade em torno de The Sensual World (1989), outros, a instabilidade de The Dreaming (1982), ou mesmo o teor de maturidade exposto em 50 Words for Snow (2011). Entretanto, nenhum registro assinado pela cantora britânica concentra tamanho acerto, coragem e boas melodias quanto o ainda hoje atual Hounds Of Love. Amenizando a estranheza exposta no trabalho anterior, Bush se aventura com cuidado em estúdio, traduzindo na composição final da obra (produzida por ela mesma) um catálogo imenso de hits que jamais perdem o toque de experimentação. Seja no uso assertivo dos sintetizadores, em Running Up That Hill (A Deal With God), ou no arranjo de cordas vívido, que ocupa Cloudbusting, o quinto registro em estúdio da artista é uma obra que se desafia a todo o instante.

Dividido em dois atos complementares, o álbum concentra na primeira metade uma relação direta com os primeiros anos de Bush. São faixas como The Big Sky e Mother Stands For Comfort que se apegam sem grandes dificuldades ao grande público, deixando para o eixo seguinte (e músicas como Waking The Witch) um preparativo para os anos seguintes da britânica. Não existem garantias no decorrer da obra, afinal, tão logo tem início, o álbum assume na transformação um ponto de crescimento inevitável para a musicista. Dessa forma, é possível antecipar desde a instabilidade temática de The Red Shoes (1993), como a homogeneidade em Aerial (2005), proposta que mantém as atenção do ouvinte em alta até o último segundo. Se  você é fã de Grimes, Florence + The Machine ou Bat For Lashes, agradeça a Kate Bush por Hounds Of Love e toda a base referencial que ele trouxe para a presente geração.


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