Cozinhando Discografias: Kraftwerk

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A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

Fruto de um dos períodos mais criativos da música germânica, o Kraftwerk talvez seja a melhor representação de toda a variedade de tendências que ocuparam a produção musical nos anos 1970. Inicialmente centrado na lisergia do Krautrock, o grupo comandado por Ralf Hütter e Florian Schneider não custou a alcançar o terreno da música eletrônica, revelando em arranjos minimalistas uma série de conceitos pioneiros para o gênero. Dona de um catálogo de clássicos como Autobahn (1974), Trans-Europe Express (1977) e The Man-Machine (1978), a banda é a nova escolhida da seção, tendo cada um dos dez registros de estúdio organizados do pior para o melhor exemplar.

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#10. Kraftwerk
(1970, Phillips)

Se você observar a proposta do Krafwerk com o autointitulado debut, em 1970, e depois voltar os ouvidos para a fase áurea da banda, a partir de 1975, verá duas bandas completamente distintas. Longe da soma de arranjos climáticos, sintetizadores e efeitos robóticos, o debut de quatro extensas faixas não vai além de um mero “experimento”. Íntimo da estética e dos arranjos lançados por Neu! e outros grupo germânicos da época, o registro abre com a extensa Ruckzuck, derramando uma sequência de arranjos psicodélicos e efeitos típicos da música que ocupava o período. Mesmo tímido dentro dos futuros conceitos da banda, o registro está longe de ocultar a inteligência de Ralf Hütter e Florian Schneider. Basta mergulhar nos ruídos de Stratovarius ou no catálogo de ruídos que orienta a robótica Megahertz para perceber como todos os principais elementos do grupo já se revelavam com evidência. Da capa influenciada por Andy Warhol aos arranjos, o debut cresce como uma curiosa colagem de referências e ao mesmo tempo uma direção para o futuro do grupo.

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Kraftwerk 2

#09. Kraftwerk 2
(1972, Phillips)

Em 1972 a Alemanha viu nascer alguns dos maiores exemplares da música que ocupou todo o restante da década. Enquanto o Neu! surgia com a autointitulada obra-prima, os conterrâneos do Can mergulhavam na esquizofrenia ao entregar o lisérgico Ege Bamyasi. Surgem ainda registros importantes de bandas como Cluster (Cluster II), Popol Vuh (In Den Gärten Pharaos) e Ash Ra Tempel (Schwingungen), além, claro, do Kraftwerk com o segundo registro da carreira. Ainda que pouco desafiador em relação ao catálogo de obras que ocupavam a música da época, com o segundo disco Ralf Hütter e Florian Schneider aperfeiçoaram a própria comunicação, lançando uma obra em que se permite provar de novas experiências (como a Bossa Nova e o Jazz), mas sem perder o caráter autoral da banda – ainda em formação. Acompanhados de Conny Plank, produtor responsável por grande parte dos discos relevantes do mesmo ano, o duo atenta para o experimento, promovendo verdadeiros labirintos sonoros em faixas extensas (Wellenlänge), e instantes de puro ruído nas faixas mais curtas (Atem).

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#08. Tour de France Soundtracks
(2003, EMI)

Passados 17 anos desde o lançamento do último trabalho em estúdio, Tour de France Soundtracks marcou o regresso do grupo alemão com um novo registro de inéditas. Primeiro álbum do Kraftwerk desde Electric Café (1986), o álbum é uma homenagem da banda aos 100 anos do Tour de France, tradicional evento ciclístico que atravessa parte da France e outros países europeus. Orientado conceitualmente pelo single homônimo lançado pelo grupo em 1983, o trabalho se concentra na produção de faixas climáticas, ainda que ascendentes, como um estímulo para os competidores. Ainda que orientado do primeiro ao último ato por sintetizadores e vozes robóticas, o álbum não exclui a leveza e o caráter humano do coletivo, acomodado em arranjos que resgatam uma série de elementos deixados para trás em Trans-Europe Express (1977). Mais do que uma extensão da antiga obra do Kraftwerk, a trilha sonora talvez seja a principal responsável por apresentar o trabalho do grupo germânico a toda uma nova geração de ouvintes.

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#07. Electric Café
(1986, EMI)

Enquanto na década de 1970 o Kraftwerk ditou regras e trouxe uma série de conceitos para a música eletrônica, em 1986 com o lançamento de Electric Café, percebemos o oposto. Fruto de uma série de imposições que orquestravam os rumos da produção musical na época, o nono registro de estúdio do grupo alemão é uma obra solucionada por experiências que escapam dos limites de Ralf Hütter e Florian Schneider. Tentativa do grupo em se adaptar aos novos formatos da música pop, o álbum vai do Hip-Hop (Boing Boom Tschak) ao synthpop plastificado (The Telephone Call) sem necessariamente perder a atmosfera climática assumida em Trans-Europe Express (1977). Não por acaso o disco foi inicialmente lançado sob o título de Techno Pop, preferência exaltada nos instantes finais da obra, quando músicas como House Phone e Sex Object antecipam uma série de experiências futuramente ampliadas na cena de Ibiza. Último trabalho lançado sob a formação clássica do grupo – incluindo Wolfgang Flür e Karl Bartos -, Electric Café pode não ser uma oba de fato influente, mas reforça a completa relevância do grupo alemão em um cenário de transição.

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#06. Ralf und Florian
(1973, Phillips)

Se existe uma obra responsável pelo completo amadurecimento do Kraftwerk, esta é Ralf und Florian. Ponto de partida para o lado mais eletrônico e experimental do grupo germânico, o registro de 1973 deixa de lado o teor psicodélico do Krautrock para aproximar a banda de uma sonoridade ainda mais desafiadora e instável. Responsável por esta transição, Elektrisches Roulette, na abertura do disco, lentamente abandona o lado “humano” da banda para se abastecer de uma série de conceitos futurísticos, flertando abertamente com arranjos complexos, típicos da música de Avant-Garde. Essencialmente detalhista, o registro se acomoda em meio a arranjos sintetizados, flautas, violinos e toda uma série de projeções eletrônicas – todas assinadas com pela delicadeza por Ralf Hütter e Florian Schneider. Entre faixas ambientais (Tongebirge) e canções orientadas pela constante mudança de temas (Ananas Symphonie), Ralf und Florian talvez seja a obra mais ampla e corajosa já lançada pelo Kraftwerk.

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#05. Radio-Activity
(1975, Kling Klang)

A natural frieza que acompanha os trabalhos do Kraftwerk, quase sempre consegue ocultar o bom humor que se acomoda nos registros da banda. Recheado por elementos da guerra fria, o medo da bomba nuclear e provocações em relação ao pop tradicional, Radio-Activity talvez seja o melhor exemplar da ironia fina exposta em cada disco da banda. Quinto álbum de estúdio dos alemães, o registro de canções bilingues reflete a interpretação dos integrantes em relação ao cenário econômico, político e cultural da época. Todavia, mesmo a variedade de referências não se distancia da dualidade conceitual do álbum, parte focado na radioatividade, parte voltado aos conceitos radiofônicos. Primeira obra com a formação clássica do grupo – Ralf Hütter, Florian Schneider, Wolfgang Flür e Karl Bartos -, o disco entregue em outubro de 1975 é ao mesmo tempo uma obra complexa e acessível, efeito das melodias mais curtas e letras dinâmicas que movimentam toda a formação do disco. A eletrônica característica do grupo começa aqui.

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#04. Autobahn
(1974, Phillips)

Embora apresentado como um dos responsáveis pela definição estética do Krautrock, o Kraftwerk sempre manteve uma postura isolada em relação aos demais artistas conterrâneos. Centrado na produção de um som menos experimental, e até pop se levarmos em conta a obra de grupos como Faust e Can, a banda germânica de Ralf Hütter trouxe nos sintetizadores um novo objetivo, antecipando marcas e conceitos que seriam aproveitadas em outras esferas da música – principalmente a eletrônica. Entretanto, mesmo dentro de suas especificidades, o grupo de forma alguma pode ser observado separadamente. Tendo nos três primeiros registros de estúdio uma espécie de ensaio, o grupo germânico encontrou em Autobahn, de 1974, sua primeira obra de efeitos temáticos e maturidade assumida. Tratando de temas cotidianos e específicos – no presente caso, as rodovias alemãs -, a banda praticamente transporta o ouvinte para um novo cenário, utilizando do orquestrado de sintetizadores e vozes um efeito de movimento constante. A experiência, bem recebida pelo público e crítica, seria repetida ainda em Radio-Activity (1975), Trans-Europe Express (1977) e The Man-Machine (1978).

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#03. Computer World
(1981, EMI)

Até o lançamento de Computer World, o Kraftwerk já havia produzido uma sequência de obras transformadoras e bem recebidas tanto pelo público como pela crítica – principalmente Trans-Europe Express (1977) e The Man-Machine (1978). Todavia, nunca antes o grupo comandado por Ralf Hütter e Florian Schneider pareceu tão acessível, “pop”, quanto no disco de 1981. Brincando com o conceito da dominação das máquinas – temática frequente nos trabalhos do grupo -, o álbum usa da mecânica simples dos versos e arranjos como um princípio de atração/hipnose para fisgar o ouvinte. Como engrenagens em um movimento padronizado, vozes sintéticas e pequenas batidas eletrônicas se encaixam nas bases ambientais do registro, solucionando uma obra que mesmo matemática em sua arquitetura, não exclui a presença “orgânica” dos próprios criadores. Último álbum de fato influente do grupo, Computer World é a chegada definitiva do Kraftwerk nos anos 1980, além de um conjunto de regras para a produção musical das próximas três décadas.

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#02. The Man-Machine
(1978, EMI)

Conceitual da capa – inspirada no trabalho do modernista russo El Lissitzky – aos arranjos e versos, The Man-Machine é a obra responsável por fixar na memória do público o caráter “robótico” do Kraftwerk. Menos climático que o antecessor Trans-Europe Express (1977), o registro de 1978 é uma obra densa e delineada do princípio ao fim por arranjos matemáticos, como se fosse composta em uma linha de montagem ou pré-programada por um grupo de robôs. A frieza proposital das batidas – assinadas em grande parte por Karl Bartos – contrastam com os versos sorumbáticos de Ralf Hütter, entregando ao ouvinte um universo em decadência e atemporal. Ainda que hermético, o álbum não custou a atingir o público, efeito da boa repercussão em torno de faixas como Das Model, Die Roboter e Neonlicht. Base para toda uma geração de artistas da década de 1980 (New Order, Simple Minds) e também dos anos 2000 (Franz Ferdinand, Hot Chip), The Man-Machine foi o primeiro álbum da banda pensado para além dos limites de estúdio. Utilizando de quatro manequins robóticos durante as performances ao vivo, o grupo transportou para fora do registro todo o teor sintético do projeto, replicado na sequência Computer World (1981) e Electric Café (1986).

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#01. Trans-Europe Express
(1977, Kling Klang)

Em 1976, durante a turnê do álbum Radio-Activity, os membros do Kraftwerk entraram em comum acordo e estabeleceram uma série de regras para o melhor funcionamento da banda. Nada de álcool ou qualquer outro tipo de droga durante as performances do grupo; concentração e cuidado na manipulação dos sintetizadores deveriam prevalecer sempre, a cada canção. A postura consciente acabou transportada para dentro de estúdio, resultando em 1977 no detalhismo apurado de Trans-Europe Express, a obra-prima do grupo alemão. Também conceitual, como o trabalho anterior, o registro explora a temática dos comboios de luxo que circulavam na Europa desde a segunda metade do século.

Dividido em duas partes, o álbum entrega na primeira metade a decadência maquiada da elite europeia, sustentada por figuras plásticas (Showroom Dummies) e cenários artificiais (The Hall of Mirrors). Já no segundo ato, a sobriedade invade o registro, dissolvendo canções em arranjos sujos (Metal on Metal) e bases provocativas. Sustentado por versos abrangentes e comerciais, Trans-Europe Express, reflete a relação de Ralf Hütter com Iggy Pop e David Bowie – entusiastas confessos do Krautrock – durante a produção do disco. Não por acaso, os músicos são homenageados na faixa de abertura do álbum. Abrangente, o sexto álbum do Kraftwerk seria explorado para além dos limites do grupo, efeito da transposição de elementos para o trabalho do artistas como Radiohead (Kid A), Brian Eno (Before and After Science) ou mesmo do próprio Bowie, já íntimo da sonoridade do grupo desde o também clássico Low (1977).


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