Cozinhando Discografias: LCD Soundsystem

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A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

Dessa vez voltamos para um passado recente, revivendo toda a discografia do LCD Soundsystem e parte importante do que foi a música eletrônica do começo do século XXI. Mesmo com três registros de estúdio, o projeto comandado por James Murphy   conseguiu resgatar importantes marcas de diferentes épocas da eletrônica, indo do Dance Punk do começo dos anos 1980 até a explosão da House Music no início da década seguinte. Mais do que isso, o produtor nova-iorquino conseguiu traduzir boa parte do sentimento de abandono, os vícios e exageros não apenas da cena a qual fazia parte, mas de toda a produção musical que definiu a década de 2000.

Aviso: Não concordou com a ordem dos discos? Simples, mantenha a calma e use os comentários. Aproveite para indicar qual banda você gostaria que estivesse na próxima seção.

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LCD Soundsystem

#03. LCD Soundsystem
(2005, DFA)

Bastariam os instantes iniciais de Daft Punk Is Playing At My House para que James Murphy pervertesse boa parte da eletrônica que havia construído até meados de 2005. Primeira obra do LCD Soundsystem, o autointitulado disco duplo se sustenta em uma divisão constante de composições inéditas e velhas conhecidas do produtor, faixas como Losing My Edge, surgidas entre uma produção e outra de Murphy dentro do selo DFA Records, casa do artista. Nítido registro de apresentação, o trabalho de mais de 100 minutos e recheado por clássicos recentes da eletrônica serve para apresentar cada uma das pequenas referências que pareciam circular pela mente do produtor naquele momento. Dos vocais acessíveis de David Bowie, aos experimentos funkeados do Talking Heads, das letras obscuras no melhor estilo The Velvet Underground à eletrônica “simplista” do Daft Punk, cada partícula desses elementos se agrupa para a execução dançante do álbum. São composições que parecem brincar com o crescimento e a retomada do Dance Punk (Tribulations), até faixas conduzidas pela eletrônica em moldes convencionais (Yeah). Uma sequência drogada de sintetizadores que vez ou outra esbarravam nas guitarras (Tired), se acomodavam em sons brandos (Yr City’s A Sucker) ou simplesmente servem para dançar como qualquer outro achado pop do mesmo gênero (Disco Infiltrator). Murphy estava apenas dando pistas do que estava por vir.

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LCD Soundsystem

#02. This Is Happening
(2010, DFA/Virgin)

Não basta apenas produzir grandes discos e sequências intermináveis de registros assertivos se o desfecho for ruim. É necessário saber quando parar, e James Murphy sempre soube bem disso. Talvez tenha sido de forma precoce, porém, ao encerrar a carreira do LCD Soundsystem com This Is Happening em 2010, o produtor conseguiu dar fim a uma das obras mais complexas, divertidas e criativas de toda a eletrônica recente. Provável exemplar mais comercial de toda a carreira do projeto nova-iorquino, o terceiro disco se entrega ao pop em uma sequência de sons bem humorados, como se Murphy partisse do mesmo resultado festivo que abastecia North American Scum e outras composições mais animadas do disco passado. Logo de cara Dance Yrself Clean mostra que é preciso calmaria na pista de dança antes que sintetizadores explodam de forma tão invasiva que ficar parado é simplesmente um erro. Épica, a composição abre espaço para a sequência de acertos que o produtor revela em sequência: Drunk Girls, One Touch, Pow Pow, I Can Change até que Home finalize o disco (e a carreira do LCD) de forma tão intensa quanto iniciou. Assim como em Sound Of Silver (2007), com o terceiro álbum Murphy se distancia da proposta essencialmente eletrônica do primeiro álbum para brincar com uma banda em estúdio. Sob forte tensão, o nova-iorquino praticamente obrigava Gavin Russom, Pat Mahoney, Nancy Whang e demais colaboradores presentes na gravação do álbum a só vestirem branco, sendo proibidos a ouvir qualquer tipo de música durante todo o período de produção do disco. A esquizofrenia em torno do álbum pode ter sido grande, mas o resultado alcançado ao final do trabalho é digno de encerrar qualquer discografia.

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Sound Of Silver

#01. Sound Of Silver
(2007, DFA/Capitol)

O ano de 2007 foi um verdadeiro ponto de transformação para a eletrônica. Enquanto Untrue do britânico Burial anunciava o que viria a ser a invasão do 2-step inglês, Justice e o pop (cross) brincavam com as melodias de forma essencialmente radiofônica, uma completa oposição ao minimalismo que abastecia From Here We Go Sublime do The Field. Haviam ainda as transições pelas obras de Radiohead (In Rainbows), M.I.A. (Kala), Battles (Mirrored), Sally Shapiro (Disco Romance), Gui Boratto (Chromophobia) e toda uma variedade de artistas que pareciam interessados em tirar mesmo que fosse uma casquinha dos sintetizadores ou programações eletrônicas. Entretanto, ninguém alcançou uma sonoridade tão rica, intensa e até mesmo nostálgica quanto James Murphy e a obra-prima Sound Of Silver. Segundo registro em estúdio do LCD Soundsystem, o disco acrescenta uma carga extra de referências dançantes ao que fora construído dois anos antes com o primeiro disco do produtor. São explosões de vozes, cores e versos bem encaixados que remetem tanto à boa fase de David Bowie na era Berlim como as colaborações entre Brian Eno e David Byrne ao longo de toda a década de 1980. Um disco reforçado pela nostalgia, porém, capaz de apontar para o futuro.

Recheado por composições gigantes (boa parte das faixas ultrapassam os 6 minutos de duração), Murphy se esforça para trabalhar cada mínimo detalhe sonoro aplicado dentro do álbum como um pequeno convite para a dança. Basta observar All My Friends, o grande hit do disco, para perceber como cada um dos sete minutos e 37 segundos da faixa são trabalhados de forma a hipnotizar o ouvinte em uma sequência bem costurada de versos e sons que simplesmente colam nos ouvidos. Consumido por letras festivas, o disco retrata os abusos do próprio produtor (e de outros personagens reais ou imaginários) com drogas e álcool. Um retrato sincero da vida noturna nova-iorquina (bem expressa na dolorosa New York, I Love You but You’re Bringing Me Down) ou de qualquer outra parte do mundo.

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