Cozinhando Discografias: Mariah Carey

 

Daydream (1995), Butterfly (1997) e The Emancipation of Mimi (2005), esses são apenas alguns dos trabalhos que fazem de Mariah Carey uma das principais representantes do R&B/Pop. Em mais de duas décadas de carreira, a cantora nascida em 1970 na cidade de Huntington, Nova York, fez da voz forte e sentimentos expostos o principal componente para formação de uma discografia repleta de obras icônicas. Uma seleção de clássicos como Always Be My Baby, Touch My Body, Fantasy, Hero, My AllVision of Love que atravessaram a década de 1990 e o início dos anos 2000 de forma bem-sucedida. Fragmentos de uma obra concisa, alimentada pela construção de versos tão românticos quanto dolorosamente confessionais. Trabalhos organizados do pior para o melhor lançamento em mais uma edição da seção Cozinhando Discografias.

 

#14. Glitter
(2001, Columbia)

Existem trilhas sonoras que valem mais do que o próprio filme a que estão atreladas. Já outras, parecem contribuir para o completo fracasso da película. Entregue ao público no fatídico 11 de setembro de 2001, Glitter, oitavo registro de inéditas de Mariah Carey claramente pertence a esse segundo grupo de trabalhos. Inspirado pelo pop/R&B dos anos 1980, onde se passa grande parte da ação do filme, o disco de 12 faixas e produção assinada por nomes como Rick James e Walter Afanasieff cresce de forma essencialmente desequilibrada, como uma estranha tentativa da cantora em dialogar com o passado. Cercada de colaboradores como Eric Benét, Ludacris, Busta Rhymes, Fabolous e Ja Rule, Glitter nasce como um trabalho que lembra tudo, menos Mariah Carey. No repertório, músicas como Loverboy, Never Too Far, Don’t Stop (Funkin’ 4 Jamaica) e Reflections (Care Enough), um perfeito indicativo da sonoridade confusa que orienta a experiência do ouvinte do primeiro ao último instante da obra.

 

#13. Merry Christmas II You
(2010, Island)

Mesmo com o sucesso em torno do primeiro álbum natalino, o elogiado Merry Christmas (1994), Mariah Carey decidiu esperar até produzir um novo registro do gênero. Entregue ao público 16 anos após o bem-sucedido trabalho, Merry Christmas II You segue exatamente de onde a cantora parou no começo dos anos 1990, porém, detalhando uma série de novas composições, parte expressiva delas adaptações de clássicos do gênero e composições assinadas por diferentes artistas. De essência dramática, o álbum de 13 faixas rompe parcialmente com os elementos do R&B/Hip-Hop testados um ano antes em Memoirs of an Imperfect Angel (2009), mergulhando na composição de um som orquestral, por vezes íntimo do mesmo universo das apresentações natalinas da Broadway. Entre os destaques do disco, músicas como When Christmas Comes, uma parceria com James Poyser e uma clara passagem pelo mesmo universo desbravado pela cantora décadas antes.

 

#12. Memoirs of an Imperfect Angel
(2009, Island)

Em um ano repleto de grandes lançamentos para música pop, como a consolidação de Lady Gaga com The Fame Monster, Rihanna e o pegajoso Rated R e até Lily Allen com o irônico It’s Not Me, It’s You, Memoirs of an Imperfect Angel segue como uma obra claramente destinada ao esquecimento. Mesmo acompanhada pelo mesmo time de artistas com quem havia colaborado um ano antes em E=MC² (2008), difícil perceber no 12º registro de inéditas da cantora norte-americana o mesmo cuidado na composição dos arranjos e versos. Com exceção das três canções de trabalho do disco, caso de Obsessed, I Want to Know What Love Is e H.A.T.E.U., parte expressiva do registro se perde em meio a temas redundantes, efeito do confesso interesse da artista em replicar grande parte do material originalmente produzido durante as gravações do clássico Butterfly (1997). O resultado está na construção de uma obra menor, por vezes íntima dos mesmos tropeços e atmosfera que marca o trabalho de Carey em Charmbracelet (2002).

 

#11. Charmbracelet
(2002, Island)

A repercussão negativa em torno de Glitter (2001) — seja o filme ou a trilha sonora —, acabou jogando uma sombra sobre o trabalho de Mariah Carey. Em uma clara tentativa de se reerguer, a cantora entrou em estúdio para a gravação do nono registro de inéditas da carreira: Charmbracelet. Na trilha dos comerciais Butterfly (1997) e Rainbow (1999), o trabalho inaugurado pela força sentimental e voz forte de Through the Rain, uma típica balada pop de Carey, mostra o esforço da artista em ampliar a relação com o R&B/Hip-Hop, base para músicas como Boy (I Need You), encontro com Cam’Ron e You Got Me, parceria com o velho colaborador, o rapper Jay-Z. Surgem ainda músicas como Irresistible (Westside Connection), música que se aproveita de samples de You Know How We Do It, do rapper Ice Cube, e a inusitada Bringin’ On the Heartbreak, composição originalmente lançada em 1981 como parte do álbum High ‘n’ Dry, trabalho produzido pelo grupo de hard rock Def Leppard. Com boas vendas, Charmbracelet ainda abriria passagem para o principal trabalho de Carey nos anos 2000, o elogiado The Emancipation of Mimi (2005).

 

#10. E=MC²
(2008, Island)

Como o título/equação de E=MC² brinca — (E) Emancipação (=) de (MC) Mariah Carey (²) ao quadrado —, o 11º álbum de inéditas da cantora e compositora norte-americana chega até o público como uma precisa continuação do material apresentado três anos antes no elogiado The Emancipation of Mimi (2005). Entregue ao público sob grande expectativa, o registro que estreou como primeiro colocado em diversas paradas de sucesso se divide entre as rimas e o canto doce de Carey, acompanhada ao longo da obra por um time de rappers que inclui Pusha T, Young Jeezy e o cantor Damian Marley. Todavia, o destaque acabou ficando por conta da boa repercussão e execução massiva de Touch My Body, primeiro single do álbum e um estímulo direto para a sequência de canções apresentadas pela cantora durante a divulgação da obra, caso de I’ll Be Lovin’ U Long Time, Bye Bye e I Stay in Love. Uma coleção de faixas marcadas pelo completo romantismo de Carey, segura durante toda a execução do trabalho.

 

#09. Me. I Am Mariah… The Elusive Chanteuse
(2014, Def Jam)

Lançado em setembro de 2009, Memoirs of an Imperfect Angel parecia indicar a estafa criativa de Mariah Carey. Com duas décadas de carreira, não seria uma surpresa se a cantora norte-americana fosse incapaz de igualar a boa forma que marca a sequência de obras lançadas durante toda a década de 1990. Uma evidente sensação de desgaste reforçada durante a produção do fraco Merry Christmas II You (2010). Todavia, contrariando toda e qualquer expectativa, com o lançamento de Me. I Am Mariah… The Elusive Chanteuse, em 2014, Carey não apenas presenteou o próprio público com uma sequência de boas músicas — Beautiful, The Art of Letting Go, You’re Mine (Eternal), Supernatural, You Don’t Know What to Do —, como trouxe de volta a mesma atmosfera de obras calcadas no Hip-Hop/R&B, caso de Daydream (1995), Butterfly (1997) e, principalmente, de Rainbow (1999). Um trabalho dominado pela voz forte, sentimentos da cantora e forte colaboração com um time de representantes do rap norte-americano, vide a parceria com nomes como Miguel, Nas e Wale.

 

#08. Rainbow
(1999, Columbia)

Do momento em que tem início, em Heartbreaker, parceria com Jay-Z, passando pela construção de faixas como a pegajosa How Much, bem-sucedido encontro musical com Usher, fica claro o interesse de Mariah Carey em ampliar conceitualmente o universo desbravado em Butterfly. Sétimo registo de inéditas da cantora e compositora norte-americana, Rainbow mostra o esforço da artista em estreitar (ainda mais) a relação com o R&B/Hip-Hop, preferência reforçada durante a produção do disco anterior. Primeiro trabalho da artista longe do velho colaborador Walter Afanasieff, o registro de 12 faixas se abre para a produção coesa da dupla David Foster e Diane Warren. O resultado está na composição de um som claramente urbano, quente, postura reforçada na montagem de faixas como a parceria com Missy Elliott e Da Brat no remix para Heartbreaker, Crybaby, encontro com o rapper Snoop Dogg ou mesmo Did I Do That?, um indicativo do som que viria a ser incorporado pela artista durante a produção do ótimo The Emancipation of Mimi (2005), anos mais tarde.

 

#07. Emotions
(1991, Columbia)

A boa repercussão em torno do primeiro álbum de estúdio garantiu à Mariah Carey um maior controle sobre a própria obra. Para a produção do segundo registro de inéditas, a cantora e compositora norte-americana decidiu convidar Walter Afanasieff, com quem havia trabalhado no disco anterior, além dos músicos David Cole e Robert Clivillés. O registro ainda se abre para a rápida passagem de Carole King, parceira da cantora na ótima If It’s Over. Partindo desse universo de colaboradores, Carey deu vida ao seguro Emotions, trabalho que não apenas replica uma série de conceitos originalmente testados no primeiro disco da cantora, vide Make It Happen e a própria faixa-título do álbum, como se entrega ao uso de elementos do soul produzido nos anos 1970 e fragmentos da música gospel. Um bom exemplo disso está em And You Don’t Remember, Can’t Let Go e na atmosférica parceria com King, música em que Carey surge acompanhada por um coro de vozes e melodias enevoadas que servem de complemento aos versos.

 

#06. Merry Christmas
(1994, Columbia)

Desde o primeiro álbum de estúdio, Mariah Carey sempre esboçou um forte interesse pela música gospel, preferência explorada com maior naturalidade durante o lançamento do terceiro registro de inéditas da cantora, o ótimo Music Box (1993). Inspirada pelas referências religiosas que abastecem o trabalho e a ânsia do público por um novo registro de disco de inéditas, em novembro de 1994, Carey e o produtor Walter Afanasieff presentearam o público com o natalino Merry Christmas. Entre interpretações cuidadosamente orquestradas para clássicos como O Holy Night, Santa Claus Is Coming to Town e Silent Night, o destaque acaba ficando por conta da série de faixas produzidas especialmente para o álbum. É o caso da apaixonada All I Want for Christmas Is You, um dos grandes sucessos da cantora nos anos 1990 e, consequentemente, um clássico imediato para o gênero. Recebido de forma positiva pelo público e crítica, o álbum ganharia uma continuação 16 anos depois, com o lançamento do também temático Merry Christmas II You (2010).

 

#05. Music Box
(1993, Columbia)

Passada a divulgação do segundo álbum de inéditas, Emotions (1991), Mariah Carey e o parceiro Walter Afanasieff entraram em estúdio para a gravação de um novo trabalho. Com o foco em um som cada vez mais pop, buscando atingir uma parcela ainda maior do público, Carey acabou se concentrando na formação de músicas menos dançantes, estímulo para a construção de uma sequência de baladas dolorosamente confessionais e intimistas, base para grande parte do material apresentado em Music Box. Salve exceções, caso da pulsante Now That I Know, parte expressiva do trabalho flutua em meio a batidas arrastadas e sintetizadores etéreos, potencializando a voz forte da cantora. Casa de algumas das principais composições produzidas por Carey nos anos 1990, como Anytime You Need a Friend, a versão para Without You, Dreamlover, Without You/Never Forget You e a dolorosa Hero, Emotions seria apenas o princípio de uma sequência de obras bem-sucedidas e lançadas em um curto espaço de apenas três anos, finalizando na madura composição do clássico Daydream, em 1995.

 

#04. The Emancipation of Mimi
(2005, Island)

Enquanto o homônimo álbum de estreia de Mariah Carey resume com naturalidade a música produzida no começo dos anos 1990, The Emancipation of Mimi parece ditar parte das regras do som que movimenta a segunda metade dos anos 2000. Décimo registro de inéditas da cantora, o sucessor dos medianos Glitter (2001) e Charmbracelet (2002) não apenas apaga o passado recente de Carey, como cria um novo (e importante) capítulo na carreira da artista norte-americana. Acompanhada do início ao fim do trabalho por um imenso time de colaboradores que inclui Snoop Dogg, The Neptunes, Nelly Furtado, Kanye West, Twista e o produtor Mark Sudack, Mimi, como aqui se apresenta, intensifica a forte relação com o R&B/Hip-Hop, preferência detalhada de forma explícita logo nos minutos iniciais do trabalho, em It’s Like That, primeiro single do disco. Verdadeira coleção de hits, The Emancipation of Mimi seria a morada de algumas das principais composições de Carey ao longo de toda a década, caso de We Belong Together, Shakew It Off, Get Your Number, Fly Like a Bird e Don’t Forget About Us.

 

#03. Mariah Carey
(1990, Columbia)

Mariah Carey tinha exatos 20 anos quando entrou em estúdio para as gravações do primeiro álbum de estúdio. Curioso perceber na força de composições como Vision of Love, There’s Got to Be a Way e Love Takes Time a maturidade típica de uma veterana do R&B/Soul. Produzido em um intervalo de mais de um ano e lançado em junho de 1990, o registro de 11 faixas nasce como um típico produto do período em que foi lançado. Em meio a ecos de Michael e Janet Jackson, a jovem cantora não apenas preserva a essência da música negra produzida durante os anos 1980, como aponta a direção que viria a ser explorada na década seguinte. Acompanhada de perto pelo amigo e produtor Ben Margulies, responsável pelo material retrabalhado em estúdio pela gravadora, Carey confessa os próprios sentimentos a cada nova curva do disco, presenteando o público com uma sequência de clássicos como I Don’t Wanna Cry, Someday e All In Your Mind. O resultado não poderia ser outro: além do alto número de vendas, o autointitulado registro teria quatro singles em uma posição de destaque do Hot 100 da Billboard, feito anteriormente conquistado apenas pelo grupo The Jackson 5. Um clássico do primeiro acorde ao último falsete de Carey.

 

#02. Daydream
(1995, Columbia)

Butterfly (1997) pode até ser o grande sucesso comercial de Mariah Carey na década de 1990, contudo, é no interior de Daydream, quinto álbum de estúdio da cantora, que estão guardadas algumas das composições mais significativas da carreira da cantora. Inaugurado pelo toque dançante de Fantasy – música que resgata samples de Genius of Love do Tom Tom Club e foi o principal combustível para a gravação do disco –, o quinto álbum de Carey dosa instantes de evidente comunicação com o pop, caso de Always Be My Baby, e faixas que se acomodam no típico cenário do R&B da época, vide a parceria com o Boyz II Man em One Sweet Day. Grandioso, o delicado registro sobrepõem uma sequência rara de faixas essencialmente comerciais e ainda assim distantes de qualquer aspecto descartável. Da abertura quente, passando por composições mais lentas (Underneath the Stars), faixas orquestrais (When I Saw You) e até criações dominadas por arranjos minimalistas (Melt Away), cada música espalhada pelo registro reforça o perfume dos sentimentos de Carey, pela primeira vez responsável por grande parte dos versos encaixados no disco. Ponto de partida para o ápice comercial da artista, Daydream nasce como o trabalho que anuncia a transformação e explícita maturidade de Carey, pronta para mais uma vez seduzir uma nova parcela do público.

 

#01. Butterfly
(1997, Columbia)

Produzido durante o processo de separação entre Mariah Carey e seu primeiro marido, o empresário e então dono da Sony Music, Tommy Mottola, Butterfly é uma obra marcada pela dor e libertação. “Agora eu compreendo para prender você / Eu devo abrir mão / E ver você subir / Arrume suas asas e prepare-se para voar / Para que você se torne uma borboleta“, canta na metafórica faixa-título do disco, um precioso indicativo da poesia sensível que orienta com naturalidade o trabalho de Carey durante toda a formação da obra. Produto direto do material produzido dois anos antes no maduro Daydream (1995), Butterfly reforça com naturalidade o diálogo entre a cantora e o produtor Walter Afanasieff com elementos do R&B/Hip-Hop. Não por acaso, durante toda a formação da obra, Carey surge acompanhada por um seleto time de representantes da música negra dos Estados Unidos. Nomes como Missy Elliott, Puff Daddy, Q-Tip e Dru Hill, parceiros da artista durante a produção de músicas como Honey, Breakdown, The Roof, My All e todo o doloroso repertório que cresce do primeiro ao último instante da obra. Com mais de 20 milhões de cópias vendidas ao redor do globo, Butterfly não apenas seria encarado como o ápice criativo da cantora, acumulando parte das referências originalmente testadas no antecessor Daydream, como viria a orientar grande parte da discografia da artista pelos próximos anos.

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