Cozinhando Discografias: Marisa Monte

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A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em analisar todos os trabalhos de estúdio de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores envolvidos, que vão da recepção crítica do disco, além, claro, da própria trajetória do artista e seus projetos anteriores. Além dos integrantes do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado “democrático”. No cardápio de hoje: Marisa Monte.

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#9. O Que Você Quer Saber de Verdade
(2011, EMI)

Marisa Monte brinca de ser Marisa Monte em O Que Você Quer Saber de Verdade. Em meio a canções partilhadas com Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, músicas adaptadas de outros artistas – como Descalço no Parque, de Jorge Ben Jor – e faixas melancólicas que abraçam o pop – caso de Depois e Ainda Bem -, Monte encontra na explícita repetição de ideias um estímulo para a construção do trabalho. Da produção aos arranjos e versos, todos os elementos que movem o disco parecem encaixados de forma precisa, irretocável, entretanto, falta novidade. Mesmo livre do exagero que marca composições como Amor I Love You, não é difícil perceber em cada faixa do álbum uma espécie de conexão com o também romântico Memórias, Crônicas e Declarações de Amor, de 2000. Entre os raros instantes de novidade, faixas regionais e dançantes como Hoje Eu Não Saio Não – parceria com Arnaldo, Betão Aguiar, Chico Salem e o novato Marcelo Jeneci -, além de O Que se Quer, música dividida entre a cantora e o conterrâneo carioca Rodrigo Amarante.        

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#8. Memórias, Crônicas e Declarações de Amor
(2000, EMI)

Nenhum disco solo de Marisa Monte foi tão executado quanto Memórias, Crônicas e Declarações de Amor (2000). Sucesso do momento em que foi lançado, alcançando mais de 1 milhão de cópias vendidas, até a explosão da música Amor I Love You – tocada exaustivamente como parte da trilha sonora da novela Laços de Família, da Rede Globo -,escapar da voz da cantora carioca não foi uma tarefa fácil. Ao lado de velhos parceiros, como Arto Lindsay, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, Monte repete a mesma fórmula comercial testada no álbum Mais, de 1991. Uma seleção de faixas encorpadas por melodias descomplicadas (Não é Fácil), versos entristecidos (Não Vá Embora, O Que Me Importa) e passagens rápidas pelo samba (Para Ver as Meninas), mas que nunca se distanciam da proposta romântica reforçada no título do trabalho. Também acolhido pelo público estrangeiro, Memórias, Crônicas e Declarações de Amor seria a fagulha criativa para o trabalho que seria desenvolvido posteriormente com os parceiros Antunes e Brown no Tribalistas.

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#7. Tribalistas
(2002, EMI)

Los Hermanos, Rouge, Pitty, Kelly Key ou mesmo toda a soma de artistas “emo”: nenhum projeto nacional fez tanto sucesso no começo dos anos 2000 quanto o Tribalistas. Inspirado pelos trabalhos dos Novos Baianos, Doces Bárbaros e outros coletivos brasileiros da década de 1970, Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown apresentaram em outubro de 2002 o primeiro álbum de estúdio assinado em parceria. De instrumental minimalista – mesmo na percussão de Brown -, o registro prende pela fluidez delicada dos versos, sempre acessíveis, essencialmente românticos e pegajosos. Canções como Velha Infância, Passe em Casa (parceria com Margareth Menezes), É Você e Já Sei Namorar, responsáveis por transformar o álbum em um estrondoso sucesso comercial não apenas no Brasill, onde vendeu mais de 1,5 milhões de cópias, mas em diferentes países da Europa e também nos Estados Unidos. Mesmo dividido entre o amor e o ódio do público e crítica, o trabalho reserva algumas das melhores canções assinadas pelo trio no mesmo período, vide a inaugural Carnavália ou a pueril Mary Cristo, faixas nitidamente inspiradas em canções do clássico Acabou Chorare, de 1972.

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#6. Infinito Particular
(2006, EMI)

De proposta intimista, Infinito Particular (2006) é um trabalho que parece resumido logo no primeiro verso: “Eis o melhor e o pior de mim”. Primeiro registro solo de Marisa Monte depois de um hiato de seis anos, o álbum lançado simultaneamente com Universo ao Meu Redor segue uma trilha distinta em relação ao “irmão”. Trata-se de uma seleção de canções autorais e parcerias resgatadas dos antigos trabalhos da cantora;  faixas compostas anos antes do disco ser montado em estúdio. Distante do samba que marca o álbum paralelo, Monte sustenta no pop a base de todo o repertório da obra. Salve as “experimentais” Pernambucobucolismo e Pelo Tempo Que Durar, íntimas da fase Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão, faixas como Pra Ser Sincero, Até Parece e Levante lentamente replicam a mesma estrutura testada pela cantora dentro dos comerciais Mais (1991) e Memórias, Crônicas e Declarações de Amor (2000). Uma clara repetição de ideias, mas que inevitavelmente acaba fisgando o ouvinte pela produção coesa e preciso encaixe da voz em cada composição.     

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#5. Barulhinho Bom – Uma Viagem Musical
(1996, EMI)

Primeiro álbum duplo de Marisa Monte, Barulhinho Bom – Uma Viagem Musical (1996) se divide em duas metades. Na primeira parte, um registro ao vivo da passagem da cantora pelo Teatro Guararapes, em Recife, Pernambuco, e também pelo Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro. Um eufórico compilado de faixas que resumem parte da turnê de Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão (1994), além de versões para músicas como Panis et Circenses, A Menina Dança e Give Me Love (Give me Peace on Earth) de George Harrison. No segundo ato da trabalho, gravado em estúdio, além da seleção de faixas inéditas compostas por Carlinhos Brown, Monte também investe em versões para músicas de Gilberto Gil (Cérebro Eletrônico) e Lulu Santos (Tempos Modernos), repetindo parte dos conceitos abordados no disco de 1994. Comercialmente bem recebido pelo público, o álbum causou polêmica por conta das imagens que aparecem no encarte do trabalho. Para ilustrar os versos das canções, Monte resgatou uma série de imagens eróticas do artista brasileiro Carlos Zéfiro, proposta que acabou censurada nos Estados Unidos, onde o álbum foi lançado com o título de A Great Noise e teve a capa coberta com uma tarja preta sobre os seios da ilustração.

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#4. Universo ao Meu Redor
(2006, EMI)

Fruto de uma série de entrevistas e extensa pesquisa sobre o antigo repertório do samba carioca, Universo ao Meu Redor é um trabalho em que Marisa Monte reforça ainda mais a relação com a música popular brasileira. Lançado simultaneamente com o pop Infinito Particular (2006), o álbum de 14 faixas se espalha de forma a detalhar um cenário bucólico, dominado pelo canto dos pássaros, árvores e versos entristecidos. Mesmo acompanhada por Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown em diversas composições, nítido é o distanciamento da obra em relação ao som explorado com o Tribalistas. Livre do romantismo jovial de músicas como Já Sei Namorar, Monte incorpora o uso de temas apaixonados com sobriedade, estímulo para a construção de faixas como Quatro Paredes, Cantinho Escondido e Para Mais Ninguém, esta última, originalmente gravada por Paulinho da Viola. Com produção de Mario Caldato Jr. (Beastie Boys, Marcelo D2), Universo ao Meu Redor seria o vencedor do prêmio de Melhor Álbum de Samba no Grammy Latino de 2006.

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#3. Mais
(1991, EMI)

Em 1990, passada a boa repercussão em torno do primeiro disco em carreira solo, Marisa Monte deu início ao processo de gravação do segundo álbum de estúdio: Mais (1991). Com produção assinada pelo músico estadunidense Arto Lindsay (Caetano Veloso, David Byrne), o registro de 12 faixas – sendo oito delas canções inéditas – revela ao público uma sonoridade distinta em relação ao som incorporado no antecessor MM (1989). Em um diálogo estreito com a música pop, a cantora mergulha em uma seleção de faixas pegajosas, caso de Beija Eu, De Noite na Cama, Eu Não Sou da Sua Rua, Volte Para o Seu Lar e Ainda Lembro, esta última, parceira com o cantor Ed Motta. O resultado não poderia ser outro. Além de críticas favoráveis, Mais serviu para aproximar de vez Marisa Monte do grande público, alcançando pela segunda vez uma posição de destaque no topo das listas de discos mais vendidos do Brasil. Início da parceria com o cantor e compositor Arnaldo Antunes, em Mais, Marisa Monte prepara todos os elementos que seriam melhor utilizados na obra-prima Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão (1994).

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#2. MM
(1989, EMI)

Depois de passar uma temporada estudando canto lírico em Roma, na Itália, Marisa Monte, influenciada pelo produtor Nelson Mota, decidiu voltar ao Brasil. Em 1988, em meio a uma série de apresentações ao vivo, parte da turnê Veludo Azul, Monte, que havia negado o contrato de diversas gravadoras por se considerar uma “artista dos palcos” acabou aceitando o convite da EMI para produzir o primeiro álbum da carreira: MM (1989). Gravado durante um especial para a extinta TV Manchete, o trabalho é uma prova da versatilidade da cantora. Do rock dos Titãs (Comida) e Os Mutantes (Ando Meio Desligado), passando pelo samba de Candeia (Preciso Me Encontrar) até alcançar o Jazz na curiosa Negro Gato, Marisa Monte arremessa o ouvinte para incontáveis direções, solucionando na própria voz a linha que conduz o ouvinte até a derradeira Low Speak, única canção do disco gravada em estúdio. Entre interpretações memoráveis e canções inéditas, caso de Bem Que se Quis, o álbum – também lançado em VHS -, logo arremessou a artista carioca para o topo da lista de mais vendidos, abrindo passagem para a sequência de obras que seriam apresentadas ao longo dos anos 1990.

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#1. Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão
(1994, EMI)

Com dois álbuns no topo das listas de mais vendidos – MM (1989) e Mais (1991) -, apresentações lotadas no Brasil e no exterior, além de músicas que dominavam rádios, novelas e programas de TV, Marisa Monte estava longe de parecer uma novata. Prova explícita da maturidade da cantora veio com o lançamento de Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão, em 1994. Terceiro registro em estúdio da artista carioca, o álbum que conta com produção dividida entre Monte e Arto Lindsay, parceiro desde o álbum anterior, vai do samba ao pop em uma colisão de referências que viriam a orientar todos os futuros trabalhos da cantora.

De um lado, a interpretação de clássicos como Balança Pema (Jorge Ben Jor), Pale Blue Eyes (The Velvet Underground) e Dança da Solidão (Paulinho da Viola) – faixa que conta com a presença de Gilberto Gil no violão. No outro oposto, um rico acervo de canções inéditas. Composições como Maria da Verdade, Alta Noite, Na Estrada e Ao Meu Redor, sempre divididas entre os parceiros Arnaldo Antunes, Nando Reis e Carlinhos Brown – responsável pelo forte domínio da percussão ao longo da obra. Sobram ainda participações, caso da veterana Laurie Anderson, em Enquanto Isso, e da Velha Guarda da Portela na crescente Esta Melodia, assertiva canção de encerramento do disco. Sucesso de vendas e crítica, em 1995, Marisa Monte levaria para casa cinco prêmios do Video Music Brasil (VMB) da MTV pelo clipe de Segue o Seco, parceria com Carlinhos Brown e uma espécie de síntese de todo o trabalho.

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