Cozinhando Discografias: Mogwai

A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado muito mais democrático. No cardápio de hoje: Mogwai

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#08. The Hawk Is Howling
(2008, Wall Of Sound)

Mesmo que a busca por um som cada vez mais introspectivo fosse a base dos trabalhos lançados pelo Mogwai no começo dos anos 2000, poucas vezes o grupo escocês pareceu tão “comportado” e lento quanto em The Hawk Is Howling. Salve a estrutura “entusiasmada” e guitarras sempre dinâmicas de The Sun Smells Too Loud, quinta faixa do disco, da abertura com I’m Jim Morrison, I’m Dead, ao fechamento em The Precipice, toda montagem do sexto álbum de inéditas do coletivo se orienta de forma arrastada, como se tudo não passasse de um único (e penoso) ato instrumental. Não há como escapar da comoção reforçada em peças como Kings Meadow e I Love You, I’m Going To Blow Up Your School, entretanto, uma vez comparado a outros trabalhos de natureza similar – como Happy Songs for Happy People (2003) e Rock Action (2001) -, o cansaçõ é evidente. Atos econômicos, o parcial abandono dos elementos percussivos e uma densa massa de guitarras cobrem toda a formação do álbum, resultando em um disco sombrio, capaz de sufocar o ouvinte até o último segundo. Curiosamente, três anos depois, toda essa estrutura seria derrubada com o lançamento de Hardcore Will Never Die, But You Will.

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#07. Rave Tapes
(2014, Rock Action)

Depois da euforia, silêncio. Em quase duas décadas de andanças pelo Pós-Rock, ao alcançar Rave Tapes, os escoceses do Mogwai encontraram uma evidente zona de conforto. Em uma orientação contrária ao que Hardcore Will Never Die, But You Will (2011), sétimo registro em estúdio do grupo trouxe de forma exageradamente caótica, o trabalho usa da leveza como um estágio de agitação estrutural. Regresso inevitável ao ambiente temático e estética dos primeiros álbuns, a banda consegue amarrar passado e presente em uma obra de puro recolhimento. Sustentado pela mesma massa de experimentos testada desde o registro de estreia, Mogwai Young Team (1997), o álbum encontra na interferência de equipamentos analógicos – principalmente sintetizadores – um mecanismo de transformação para a proposta do coletivo. Um dos registros mais “referenciais” do grupo, Rave Tapes serve como passagem segura para a década de 1970, utilizando de elementos voltados ao Krautrock – de artistas como Manuel Göttsching e Kraftwerk – como o principal componente para o detalhamento instrumental em cada canção.

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#06. Hardcore Will Never Die, But You Will
(2011, Rock Action)

Poucas vezes as guitarras “gritaram” tão alto dentro da discografia do Mogwai quanto em Hardcore Will Never Die, But You Will. Sétimo álbum de inéditas da banda, o disco lançado em 2011 soa como uma fuga da morosidade e redundância exposta no antecessor The Hawk Is Howling (2008). Ainda que a inaugural White Noise aponte para a construção de um trabalho sutil, marcado pela formação de arranjos e temas etéreos, quanto mais passeamos pelo interior da obra, mais os ruídos e o tom agressivo das canções é arremessado para cima do ouvinte. Produzido pelo parceiro de longa data da banda, o também escocês Paul Savage, cada faixa do registro se projeta em cima de uma estrutura rápida, urgente, evitando a formação de atos instrumentais extensos, por vezes exagerados dentro da última sequência de obras do grupo. Salve breves respiros, como em Letters To The Metro, possíveis brechas climáticas são logo derrubadas, autorizando a inserção de vozes (Mexican Grand Prix, George Square Thatcher Death Party) e solos distorcidos, sujos, como um regresso aos primeiros anos do grupo, tão jovial (e intenso) quanto em começo de carreira.

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#05. Come On Die Young
(1999, Chemikal Underground / Matador)

Com o lançamento do primeiro álbum de estúdio, Mogwai Young Team, o grupo de Glasgow pode não ter alcançado o grande público, entretanto, conquistou uma multidão de ouvintes fiéis, criando expectativa para um segundo registro de inéditas. Tamanha euforia e ansiedade por um novo disco logo se transformou em um problema para a banda escocesa. Com a chegada de  Come On Die Young (1999), quem esperava por uma possível continuação do material lançado em 1997 encontrou uma obra de preferências distintas em relação ao trabalho solucionado dois anos antes. Coleção de arranjos e texturas atmosféricas, o segundo álbum do Mogwai carrega na lenta execução dos temas um rumo particular, mudança recebida com frieza por parte da crítica e público. Dividido em duas partes, o disco carrega no ato inicial uma tímida continuação do trabalho anterior, brincando com a essência do grupo logo na inaugural Punk Rock: – faixa que utiliza de trechos de uma entrevista de Iggy Pop à rádio CBC em 1977. Na segunda metade do trabalho, a construção de faixas menos urgentes, climáticas, caminho para a sequência de obras lançadas pela banda durante os anos 2000. Na capa do trabalho, outra referência: a feição assustadora do baixista Dominic Aitchison, imagem inspirada no demônio Captain Howdy do filme O Exorcista (1973).

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#04. Happy Songs for Happy People
(2003, Play It Again Sam / Matador)

Bastam alguns segundos dentro do quarto álbum de inéditas do Mogwai para perceber a ironia fina que rege a obra dos escoceses. Oposto ao conceito “alegre” reforçado no título do trabalho – “músicas felizes para pessoas felizes” -, com o sucessor do experimental Rock Action (2001), todos os esforços da banda se orientam de forma a promover uma obra melancólica, consumida pela tristeza dos temas e solos de guitarras sempre obscuros. São sintetizadores macambúzios, distorções lentas e longos atos instrumentais completos pela inclusão um delicado arranjo de cordas. Com a produção do álbum dividida entre os integrantes da banda e Tony Doogan (Belle & Sebastian, Teenage Fanclub), Happy Songs for Happy People parece crescer em um ambiente minimalista, sóbrio, ainda que sentimental. A julgar pela íntima comunicação das faixas – regidas pela mesma base de guitarras e sintetizadores -, o trabalho se projeta como um bloco único de experiências, amarguradas, conceito reforçado no assertivo uso de vozes ecoadas que recheiam parte das faixas. Do uso de melodias descomplicadas (Moses I Amn’t) ao reforço na aplicação de colagens eletrônicas (I Know You Are But What Am I?), muito do que define a sequência de obras entregues pela banda parece ter nascido neste disco.

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#03. Mr. Beast
(2006, Rock Action)

Em uma das cenas de The Recording of Mr Beast (2006), documentário que mostra todo o processo de gravação do quinto álbum de estúdio do Mogwai, Martin Bulloch, baterista da banda confessa: “este é o melhor álbum que já gravamos desde Mogwai Young Team”. Ainda que a afirmação pareça diminuir a relevância de Rock Action (2001) e Happy Songs for Happy People (2003), ao mergulhar no oceano de guitarras, batidas e até vozes que se espalham pela obra, rebater o depoimento de Bulloch fica cada vez mais difícil. Morada de algumas das composições mais significativas desde a estreia do grupo no final dos anos 1990, Mr. Beast não apenas replica conceitos antes incorporados em outros registros, como transporta o coletivo de Glasgow para um ambiente de formas grandiosas, por vezes épicas. Em uma observação atenta, faixas inauguradas de forma sutil, brandas, porém, capazes de ampliar seus domínios lentamente, aproximando o grupo de um jogo de orquestrações distorcidas que se aproximam com naturalidade do rock alternativo lançado entre o fim dos anos 1980 e começo da década seguinte. Músicas como Folk Death 95, Glasgow Mega-Snake e Acid Food que rompem com o sentimentalismo do álbum anterior para conquistar o ouvinte pela expressividade dos arranjos.

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#02. Rock Action
(2001, Matador)

Passado o lançamento de Come On Die Young (1999), os membros do Mogwai provavelmente devem ter se perguntado: “E agora, que direção seguir?”. A resposta veio nos experimentos e ambientações eletrônicas de Rock Action, terceiro e propositadamente instável álbum de estúdio do grupo escocês. Fuga dos conceitos aplicados pelo coletivo na década de 1990, a obra de estrutura econômica – são apenas oito faixas e quase 40 minutos de duração – reflete não apenas um time de artistas apoiados em novas interpretações, como também inclinados ao reinventar de velhos conceitos, brincando com a própria essência musical. Além do reforço na utilização de vocais em faixas como Take Me Somewhere Nice e Dial: Revenge – esta última, parceria com Gruff Rhys do Super Furry Animals -, da abertura ao fechamento da obra, montagens complexas e melodias simplificadas se encontram de forma concisa; um diálogo constante entre o “experimental” e o “pop”. Curva leve em relação ao material posteriormente lançado pela banda, com Rock Action o Mogwai interpreta cada composição como um ato isolado, encaixando blocos de composições estruturalmente distintas de forma a solucionar uma obra torta, mágica e provocativa até o último acorde.

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#01. Mogwai Young Team
(1997, Chemikal Underground)

Um universo de texturas, arranjos, ruídos e vozes continuamente marcados pelo ineditismo. Mesmo passadas quase duas décadas desde o lançamento de Mogwai Young Team, caminhar por entre os atos instrumentais do primeiro álbum de estúdio do coletivo escocês se revela como uma experiência única, mutável a cada nova audição inaugurado por Yes! I Am A Long Way From Home. Escondido nas brechas de composições que crescem e encolhem a todo o segundo, um universo de referências que começam no Art Rock e Krautrock dos anos 1970, abraçam os ruídos de Sonic Youth e My Bloody Valentine na década seguinte, até desconstruir a essência do Pós-Rock inaugurada pelos veteranos do Slint. Pouco mais de 60 minutos em que vozes extraídas de ligações telefônicas, diálogos, blocos imensos de distorção e verdadeiras “paisagens” instrumentais estabelecem a criação de um mundo próprio da banda.

Passo além em relação aos “ensaios” registrados na coletânea Ten Rapid (1997), Mogwai Young Team é uma obra que se divide entre a urgência das guitarras e o uso curioso de colagens atmosféricas, resultando na construção de um trabalho sujo e urbano. De um lado, faixas climáticas e experimentais de curta duração (Radar Maker, With Portfolio), no outro, a montagem de músicas ascendentes, extensas e maquiadas pela distorção (Mogwai Fear Satan, Like Herod). Um choque contrastado de temas que poderia soar de forma descompassada dentro da obra de outros artistas, porém, a matéria-prima criativa para o som autoral que banda explora com acerto até o último ato.

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