Cozinhando Discografias: Oneohtrix Point Never

 

Formado na segunda metade dos anos 2000, o Oneohtrix Point Never é um projeto comandado pelo produtor norte-americano Daniel Lopatin. Nome de peso do experimentalismo estadunidense, Lopatin passou a última década se aventurando em uma série de obras que exploram diferentes aspectos da música eletrônica/ambient music. Trabalhos como Replica (2011), R Plus 7 (2013) ou mesmo o ainda recente Garden of Delete (2015). Registros que fizeram do Lopatin um dos produtores mais influentes da presente cena nova-iorquina.

Nome de destaque do Red Bull Music Academy São Paulo 2017, evento que ainda conta com a presença de artistas como Racionais MC’s, Mykki Blanco, Arto Lindsey, Egyptian Lover e Prurient, Oneohtrix Point Never é o mais novo artista a integrar a nossa seção Cozinhando Discografias. Do pior para o melhor álbum, organizamos cada um dos trabalhos de estúdio produzidos por Lopatin. 

 

#10. Music For Reliquary House / In 1980 I Was a Blue Square
(2012, NNA Tapes)

Poucos meses após o lançamento de Replica (2011), Oneohtrix Point Never e o produtor californiano Rene Hell decidiram se juntar para a produção de um registro colaborativo. Na primeira metade do álbum, cinco composições em que Daniel Lopatin busca garantir sequência ao material apresentado no disco anterior. São faixas montadas a partir de cortes curtos e vozes sampleadas, caso de Stone of Spiritual Understanding, Free Ride e Midday. A busca declarada de Lopatin por um som propositadamente instável, talvez confuso, tratamento que orienta todo o primeiro bloco do registro. Nas canções assinadas por Rene Hell, uma tentativa de replicar o mesmo conceito experimental, porém, de forma intimista. São ruídos eletrônicos, samples e sobreposições que se espalham em meio a pianos e temas orquestrais, resultando em uma obra contrastada, como uma resposta ao posicionamento eufórico de Lopatin durante a construção das cinco primeiras músicas do disco.

 

#09. Drawn And Quartered
(2013, Software)

Durante a produção do etéreo Russian Mind, em 2009, Daniel Lopatin decidiu manter a homogeneidade da obra. O resultado está na construção de um registro de 30 minutos em que cada composição serve de estímulo para a faixa seguinte. Deixadas de fora do trabalho, músicas como Ships Without Meaning e Terminator Lake acabaram sendo apresentadas como parte da coletânea Rifts, em 2009. Com o relançamento do trabalho em 2012, Lopatin decidiu ir além, isolando essas canções inéditas em dois trabalhos específicos. O primeiro deles, Drawn And Quartered, mostra a capacidade do produtor nova-iorquino em brincar com os sintetizadores, detalhando diferentes fórmulas e texturas no interior de cada composição. Uma colisão de ideias que tem início na eletrônica pulsante de Lovergirls Precinct, passa pelo som futurístico de Terminator Lake, flutua com leveza em A Pact Between Strangers e segue de forma experimental até as últimas canções do disco, When I Get Back From New York e I Know It’s Taking Pictures From Another Plane.

 

#08. The Fall Into Time
(2013, Software)

Originalmente lançado em 2009, Rifts é uma coletânea que concentra grande parte das canções produzidas para os três primeiros discos de Oneohtrix Point Never – Betrayed in the Octagon (2007), Zones Without People (2009) e Russian Mind (2009). Posteriormente relançado ao final de 2012, o trabalho não apenas trouxe uma nova ordem na distribuição das faixas, como revelou ao público uma série de composições inéditas. Parte desse acervo acabou lançado de forma independente em duas obras: Drawn And Quartered e The Fall Into Time. Enquanto o primeiro trabalho reflete o lado experimental de Lopatin, resgatando parte das sessões de Russian Mind (2009), com o segundo registro,Oneohtrix Point Never flutua em meio a arranjos etéreos, sempre delicados. Músicas como a doce Memory Vague, quinta faixa do disco, ou mesmo KGB Nights, composição que reforça a capacidade de Lopatin em produzir um som invasivo, alienígena, sonoridade também replicada na leveza de Blue Drive e The Trouble With Being Born.

 

#07. Betrayed in the Octagon
(2007, Deception Island)

De forma lenta e crescente, os sintetizadores da extensa Woe Is the Transgression I se moldam de forma a produzir o estranho ruído de uma sirene. Um precioso indicativo do ambiente instável que Daniel Lopatin apresenta e busca desbravar durante o primeiro álbum de estúdio como Oneohtrix Point Never: Betrayed in the Octagon. Produzido de forma caseira, como tudo aquilo que o produtor norte-americano viria a produzir no início da carreira, o trabalho de apenas sete faixas se espalha sem pressa, fazendo de cada composição um experimento isolado. Melodias abafadas e melancólicas em Behind The Bank, o minimalismo eletrônico de Parallel Minds, 10 minutos de pura experimentação dentro da climática Woe Is the Transgression II, a propositada repetição dos arranjos que alimentam a curiosa faixa-título do trabalho. São pouco mais de 30 minutos em que Lopatin não apenas apresenta ao público o som produzido como OPN, como revela uma série de temas que viriam a ser explorados nos próximos discos de inéditas.

 

#06. Russian Mind
(2009, No Fun)

De todos os trabalhos lançados por Daniel Lopatin ao longo da carreira, Russian Mind talvez seja o que melhor reflete as influência do produtor norte-americano. De essência cósmica, o registro detalha de forma instrumental a história de um cosmonauta russo perdido pelo espaço. Uma particular adaptação das mesmas ambientações testadas pelo grego Vangelis em Albedo 0.39 (1976) – base para grande parte da trilha sonora da série Cosmos, de Carl Sagan. Conceitualmente hermético, cada canção do disco parece servir de incentivo para a música seguinte. Pouco mais de 30 minutos de duração que se espalham em seis atos complementares, passagem para a utilização serena dos sintetizadores e outros componentes eletrônicos do disco. Experimentos conceitualmente ampliados durante a produção de R Plus Seven (2013), Garden of Delete (2015) e demais trabalhos posteriormente apresentados por Lopatin.

 

#05. Zones Without People
(2009, Arbor)

Em 2011, quando lançou o excelente Channel Pleasure, bem-sucedida parceria com o produtor Joel Ford, Daniel Lopatin parecia resgatar grande parte dos exageros, acertos e clichês da música produzida nos anos 1980. Melodias eletrônicas e pinceladas minimalistas que conseguiram tingir o trabalho com nostalgia. Curioso perceber em Zones Without People, trabalho lançado dois anos antes, uma espécie de preparativo para o som produzido sob o título de Ford & Lopatin. Sem ordem aparente, cada composição do disco se espalha em meio a temas ambientais, samples extraídos de sons da natureza e referências ao álbum Digital-Dance (1988), da dupla germânica Software. Entre faixas como Computer Vision e Disconnecting Entirely, Lopatin detalha uma estranha narrativa ficcional. Cores neon, formas metálicas e sintetizadores que acabam transportando o ouvinte para o mesmo cenário distópico de Blade Runner (1982) e outros clássicos da ficção científica.

 

#04. Returnal
(2010, Editions Mego)

A ambientação caótica de Nil Admirari funciona como um indicativo da mudança de direção assumida por Daniel Lopatin em Returnal. Primeiro trabalho do artista nova-iorquino a ser observado com maior atenção pela crítica especializada, o sucessor da coletânea Rifts mostra a capacidade de Oneohtrix Point Never em se reinventar a cada nova composição. Ao mesmo tempo em que preserva a essência atmosférica dos três primeiros álbuns de inéditas – Betrayed in the Octagon (2007), Zones Without People (2009) e Russian Mind (2009) –, Lopatin joga com as possibilidades, transportando o ouvinte para diferentes cenários durante toda a execução do trabalho. Da New Wave desconstruída na faixa-título – música que soa como uma canção abortada do The Knife –, passando pelo toque angustiado de Ouroboros e a eletrônica torta de Preyouandi, difícil encontrar um ponto de apoio ou mínima estabilidade dentro do disco. Fragmentos que indicam a versatilidade do artista, como um indicativo do som que viria a ser produzido no trabalho seguinte, o maduro Replica (2011).

 

#03. R Plus Seven
(2013, Warp)

Com a boa repercussão em torno de Replica (2011), Daniel Lopatin decidiu relançar os três primeiros trabalhos de estúdio, revisitar uma série de canções inéditas dentro das coletâneas Drawn and Quartered e The Fall Into Time, lançar o colaborativo Instrumental Tourist (2011), parceria com o canadense Tim Hecker e ainda trabalhar na produção do quarto álbum de estúdio do Ducktails, The Flower Lane (2013). Todo esse processo de inquietação acaba se refletindo na composição do experimental R Plus Seven. Sexto álbum de inéditas de Oneohtrix Point Never, o registro de apenas dez faixas flutua entre diferentes décadas, referências e possibilidades dentro de estúdio. Instantes em que a música de Lopatin mergulha na obra de Brian Eno, Phillip Glass, Aphex Twin e Steve Reich sem necessariamente perder a própria essência. Rupturas, quebras e colagens instrumentais que assumem diferentes orientações em faixas como Zebra, Inside World, Still Life e Boring Angel, uma bem-sucedida parceria entre Lopatin e o diretor John Michael Boling.

 

#02. Garden of Delete
(2015, Warp)

É necessário tempo até absorver o trabalho de Daniel Lopatin em Garden of Delete. Sétimo álbum de estúdio do Oneohtrix Point Never, o registro de temas eletrônicos e referências à cultura digital mostra a busca do produtor nova-iorquino em produzir um material tão caótico e explosivo (Sticky Drama, Mutant Standard), quanto sereno e acolhedor (Animals, Child of Rage). Acompanhado de perto pelo produtor Paul Corley, Lopatin traz a mesma composição instável de Replica (2011) e R Plus 7 (2013), porém, detalhando cada música de forma sempre grandiosa, intensa. Para além do tradicional universo de sintetizadores e batidas eletrônicas, Lopatin se concentra em explorar um imenso catálogo de samples e adaptações empoeiradas. Enquanto a primeira metade do disco visita o rock alternativo dos anos 1980/1990, com a chegada do segundo ato do registro, o produtor vai além. São recortes do trabalho produzido por veteranos da avant-garde, caso do pianista Michael Finnissy em Child of Rage, e até do Acid Folk, como os sample de Am I Supposed to Let It by Again (Above the Covers), lançada pelo canadense Roger Rodier. Um misto de apropriação e reverência que se dobra de forma a atender às exigências do artista.

 

#01. Replica
(2011, Mexican Summer / Software)

Durante o encontro com Joel Ford para a produção de Channel Pleasure (2011), Daniel Lopatin decidiu se aprofundar ainda mais no uso de captações Lo-Fi e sons produzidos para comerciais de TV dos anos 1980 e 1990. Da parceria com Ford, o produtor nova-iorquino começou a montar uma série de experimentos sujos, cortes curtos e ruídos orquestrados de forma melódica, como esboços, material que viria a abastecer o quinto álbum de inéditas do Oneohtrix Point Never, Replica. Dinâmico quando observado em proximidade aos primeiros discos do produtor, o registro de dez faixas e pouco mais de 40 minutos de duração se espalha em meio a pequenos experimentos, samples e atos isolados, fazendo de cada composição uma verdadeira coleção de ideias. Da voz cíclica em Nassau, passando pelo melancolia atmosférica de Sleep Dealer, até alcançar o coro de vozes na etérea Explain, Lopatin muda de direção a cada nova faixa do disco, fazendo do trabalho uma obra propositadamente instável, talvez inédita a cada nova audição. Cercado de colaboradores, como o músico Al Carlson (St. Vincent, Peaking Lights), Replica ainda presta uma homenagem ao trabalho do ilustrador Virgil Finlay (1914 – 1971), responsável pela perturbadora imagem de capa do disco.

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