Cozinhando Discografias: Pato Fu

Por: Cleber Facchi

Pato Fu

A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

Poucos grupos nacionais passaram por tantas modificações estéticas ao longo da carreira quanto os mineiros do Pato Fu. Montado na cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais no começo dos anos 1990, o projeto que aproximou Fernanda Takai (da banda Fernanda & 3 Do Povo) e os parceiros John Ulhoa e Ricardo Koctus (dos grupos Sustados por 1 Gesto e Sexo Explícito), encontrou na perversão do Pop e de outros gêneros musicais a base para um dos catálogos de estúdio mais criativos da música brasileira recente. Herdando elementos que vão da obra d’Os Mutantes ao pós-punk inglês, a banda soube como dosar boas melodias com doses consideráveis de esquizofrenia, princípio para o que trouxe ao público álbuns tão díspares como Rotomusic de Liquidificapum (1993), Isopor (1999) e Toda Cura Para Todo Mal (2005). Com mais de 20 anos de carreira e um catálogo de nove obras de estúdio, a banda teve todos os registros analisados e classificados do pior para o melhor em nosso especial Cozinhando Discografias.

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Pato Fu

#09. Música de Brinquedo
(2010, Rotomusic)

A ideia de gravar um disco inteiro com instrumentos de brinquedo era algo que o Pato Fu demonstrava interesse desde a década de 1990, entretanto, só foi posta em prática em 2010, com o lançamento do colorido Música de Brinquedo. Catálogo de versões, o disco ressuscita 12 clássicos – da música nacional e internacional – de forma naturalmente inédita dentro do jogo de experiências pueris do grupo. Estão lá faixas como Sonífera Ilha (Titãs), Todos Estão Surdos (Roberto Carlos) e Love Me Tender (Elvis Presley), todas músicas ordenadas dentro do enquadramento amigável que a banda propõe no decorrer da obra. Do uso de teclados ao encaixe certeiro de cavaquinhos, flautas e outros ruídos concebidos no uso exato de brinquedos, cada instante da obra traz de volta diversos aspectos deixados para trás pela banda em sua fase mais excêntrica, ao mesmo tempo em que reforça a maturidade pós-Daqui Pro Futuro (2007). Comercialmente bem recebido – o disco vendeu 40 mil cópias e garantiu ao grupo uma extensa turnê -, Música de Brinquedo trouxe ao grupo mineiro seu primeiro Grammy em 2011.

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Pato Fu

#08. Tem Mas Acabou
(1996, BMG)

Esquizofrênica é uma palavra que bem define a atuação do Pato Fu no interior de Tem Mas Acabou. Terceiro álbum de estúdio do grupo e primeiro registro em que a banda surge acompanhada pelo baterista Xande Tamietti, o trabalho produzido por André Abujamra faz de cada composição um objeto isolado. São faixas que dançam pelos gêneros sem que isso necessariamente ecoe de forma irregular. Se em instantes o quarteto materializa uma típica canção de rock da época, algo detalhado nos arranjos de Água, logo nos instantes seguintes a busca por um som de beleza pop-pueril muda completamente os rumos do disco, efeito explícito na faixa Pinga. Entretanto, nenhuma canção representa com tamanha insanidade esse efeito quanto Capetão 66.6 FM. Espécie de rádio fictícia, a música/estação de rádio vai do Hardcore à eletrônica sem necessariamente se distanciar das velhas experiências pop do grupo. Pouco mais de quatro minutos que sintetizam tudo o que a banda desenvolveu – e viria a desenvolver – durante a carreira.

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Pato Fu

#07. Rotomusic de Liquidificapum
(1993, Cogumelo)

Álbum de estreia do Pato Fu – na época apenas com Fernanda Takai, John Ulhoa e Ricardo Koctus -, Rotomusic de Liquidificapum representa com originalidade tudo o que viria a caracterizar a atuação da banda pelos próximos anos. Imenso catálogo de referências trituradas em um liquidificador conceitual, o disco vai do Metal ao pós-Punk sem se desprender dos ritmos nacionais em um estágio coeso de relação. Da estranha versão de Sítio do Pica-Pau Amarelo, de Gilberto Gil, aos versos cômicos de O Processo de Criação Vai de 10 Até 100 Mil (“Porque a Unimed é quem vai pagar”), tudo e nada convergem em uma relação explícita de provocação pelo disco. Orquestrados por uma bateria eletrônica carinhosamente apelidada de 128 Japs – que mais tarde daria nome ao estúdio particular de Ulhoa -, o trio faria dos quase 50 minutos do álbum um estranho resumo de décadas de produção musical, intercalando as doses de nostalgia com um espaço significativo para a criação de novas regras.

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Ruído Rosa

#06. Ruído Rosa
(2001, BMG)

Para ouvidos desatentos, Ruído Rosa talvez seja um simples exemplar da música pop. As melodias fáceis, vozes projetadas para capturar o ouvinte e um jogo de experiências coloridas brincam com o público a cada nova faixa. Entretanto, quem for em busca dos detalhes que preenchem a obra, vai perceber que há uma carga assumida de novidade em cada composição, algo que o Teremim frenético na faixa de abertura, a melancolia de Ninguém ou os versos provocativos de Deus revelam em poucos instantes. Instrumentalmente bem delineado, cada instante do registro força o grupo a ir além do cenário proposto no trabalho passado, Isopor, o que explica a carga imensa de novos instrumentos e experiências musicais a serem observadas isoladamente por todo o álbum. Entre regravações de bandas como Graforréia Xilarmônica (Eu), Ira! (Tolices) e Os Mutantes (Ando meio Desligado, feita sob encomenda para a abertura da novela Um Anjo Caiu do Céu), o destaque permanece nas mãos do grupo, que entre canções aos moldes de E o Vento Levou… e Sorria, Você Está Sendo Filmado mantém firme a essência irônica-fofa testada em começo de carreira.

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Pato Fu

#05. Gol de Quem?
(1995, BMG)

Enquanto Rotomusic de Liquidificapum parecia misturar todas as referências da banda em um espaço de constante colisão, ao apresentar Gol de Quem?, em 1995, o Pato Fu conseguiu estabelecer um estágio declarado de ordem dentro desse mesmo universo. As experimentações, mudanças de rumos e bruscas quebras de arranjos ainda servem como os principal ponto de referência do grupo, a diferença está na forma como todos esses elementos aos poucos vão se assentando de forma coesa pelo trabalho. A busca por melodias cada vez mais íntimas do pop surge como outro ponto essencial para a construção do disco, algo que Mamãe Ama É o Meu Revólver e Vida Imbecil articulam com acerto logo nos instantes iniciais do disco. Entretanto, é na leveza da faixa Sobre o Tempo que o grupo encontra seu melhor exemplar. Espécie de prelúdio do cenário que seria proposto em Televisão de Cachorro (1998), a faixa dança com delicadeza pelas melodias, cruzando versos e sons em um enquadramento que marcaria com acerto todo o futuro da banda.

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Pato Fu

#04. Televisão de Cachorro
(1998, BMG)

Se até o lançamento de Tem Mas Acabou (1996) o grupo mineiro parecia em busca de uma sonoridade particular, como se fizesse de cada álbum um experimento, com a chegada de Televisão de Cachorro a banda finalmente “se encontrou”. Ainda íntimo das estranhas rupturas conceituais de cada disco, o quarto álbum em estúdio do Pato Fu substitui com leveza o excêntrico pela comodidade, resultado visível no emprego assertivo das melodias e instrumentos que se mantém estáveis na maior parte do tempo. Primeiro trabalho da série de três discos produzidos por Dudu Marote, o registro encarna na produção um sentido natural de ordem, estabilizando a relação antes instável das faixas por canções organizadas em pequenas relações. Dessa forma, da abertura, com A Necrofilia da Arte, ao fechamento, em Boa Noite, cada instante da obra reflete organização, efeito que viria a ser melhor compreendido nos lançamentos seguintes do grupo. Obra que apresentou oficialmente a banda ao grande público, efeito de músicas como Canção Pra Você Viver Mais, Antes que Seja Tarde e a versão de Eu Sei, da Legião Urbana, Televisão de Cachorro seria um passo seguro para a consolidação do grupo, explícita no trabalho seguinte, Isopor (1999).

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Isopor

#03. Isopor
(1999, BMG)

Poucas vezes a palavra “pop” fez tanto sentido ao caracterizar um disco quanto em Isopor. Ponto de ruptura em relação aos experimentações testadas na década de 1990 e as melodias amenas que ocuparam os anos 2000, o quinto registro em estúdio do grupo mineiro é uma obra feita para o ouvinte mergulhar nas harmonias e se deixar conduzir por elas. Ora ensolarado, como exalta a faixa de abertura cantada em japonês, Made In Japan, ora consumido pela melancolia, vide a timidez confessional de Quase, Isopor estabiliza na relação entre os versos e sons um verdadeiro catálogo atento de hits. Entre histórias (como o atropelamento em Um Ponto Oito), típicas canções radiofônicas (em Depois e Perdendo Dentes), até o regresso ao repertório da extinta Sexo Explícito (O Filho Predileto de Rajneesh), cada instante do álbum parece feito para brincar com os gêneros, mantendo na relação homogênea entre os sons um salto criativo. Comercialmente bem recebido – o disco conquistou o certificado de Disco de Ouro -, Isopor viria como um ponto de consolidação para a carreira do grupo, naquele momento, um dos mais significativos de toda a cena nacional.

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Pato Fu

#02. Toda Cura Para Todo Mal
(2005, Rotomusic)

Lançado em 2005, depois do bem recebido MTV Ao Vivo (2002), e do nascimento da filha de John e Fernanda, Toda Cura Para Todo Mal é uma obra de mudanças evidentes dentro dos conceitos e da estrutura que o Pato Fu. Além da inclusão do tecladista Lulu Camargo (Ex-Karnak) como novo integrante, o registro, gravado em totalidade no estúdio 128 Japs, de Ulhoa, trouxe o grupo de volta à “independência”. Apresentado pelo selo Rotomusic, da própria banda, e com distribuição da Sony BMG, o projeto autorizou um maior controle do grupo sobre a própria obra, amenizando experimentações e uma reformulação do pop assumido desde Isopor (1999). Como resultado, a banda faz nascer desde faixas marcadas de forma declarada pelo teor radiofônico (Anormal), até canções movidas em totalidade pelo experimento (Simplicidade, O que é isso). Essencialmente coeso, o disco, pela primeira vez na carreira do grupo, evidencia um jogo de interferências tratadas em proximidade. São faixas como Vida Diet, No Aeroporto e Boa Noite Brasil que mantém na relação entre os instrumentos e versos pontuados por temas cotidianos um ponto de evidente maturação no repertório do grupo. Com referências à série em quadrinhos Peanuts (em Amendoim), além de uma homenagem à Roberto e Erasmo Carlos (Agridoce), TCPTM é um disco pensado para além das faixas, efeito explícito no DVD lançado no ano seguinte com todas as canções do disco apresentadas em clipes.

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Pato Fu

#01. Daqui Pro Futuro
(2007, Rotomusic)

Enquanto Toda Cura Para Todo Mal (2005) posicionou o grupo mineiro em um espaço aberto a novas experiências, mantendo no teor ensolarado um princípio de evolução, Daqui Pro Futuro veio como um resultado oposto. Sombrio e consumido pela melancolia, mas ainda capaz de anunciar um cardápio de Hits, típicos da banda, o oitavo registro em estúdio do Pato Fu é uma obra em que a experimentação dá lugar à sobriedade. Dos versos pontuados pela solidão (Espero) ao uso de temas marcados pela proposta “paternal” (Mamã Papá), até uma amarga dissertação sobre a vida e a morte (A Verdade Sobre o Tempo), cada estágio da obra revela um espaço totalmente original dentro da estética do grupo. Se antes a banda apostava em um jogo radiante de versos e sons, ao dar início ao novo disco uma manifestação introspectiva desse resultado foi anunciada.

Se por um lado a calmaria distancia o grupo de possíveis experimentos, por outro lado ela garante um detalhamento maior aos arranjos. Fundamental para a construção da obra, Lulu Camargo espalha os sintetizadores em um exercício para além de possíveis climatizações, abrindo espaço para que a inclusão de instrumentos acústicos e a própria voz de Fernanda Takai ganhe maior destaque entre as faixas. Basta um passeio por músicas como Vagalume, A Hora da Estrela ou mesmo o single 30.000 Pés para entender do que se trata a estética sombria que define o disco. Até nos momentos mais “felizes”, caso de Nada Original e Woo!, a parcimônia se faz evidente, como se a maturidade fosse encarada de forma branda pelo grupo, mas nem por isso menos convincente.


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