Cozinhando Discografias: Pixies

Por: Bruno Leonel e Cleber Facchi

Pixies

A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

Grupo formado em meados da década de 1980, o Pixies é a base para boa parte dos lançamentos que viriam a ocupar o rock alternativo nos anos seguintes. Com quatro bem recebidos álbuns de estúdio, a banda de Boston, Massachusetts trouxe na estranheza dos sons em proximidade com um esforço melódico a estrutura para uma seleção de clássicos tão influentes hoje, quanto na época do lançamento. Originalmente composta por Black Francis, David Lovering, Joey Santiago e Kim Deal (que deixou o grupo recentemente), a banda é a escolhida para nossa nova seção, tendo cada um dos álbuns classificados do pior para o melhor.

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Pixies

#04. Trompe Le Monde
(1991,4AD)

Quarto e último disco de estúdio da banda, até o momento, o derradeiro trabalho lançado em Setembro de 1991 (mesmo mês de Nevermind do Nirvana) foi visto na época como um retorno a uma sonoridade mais crua e direta em comparação ao som melódico do disco anterior Bossanova. É um dos trabalhos mais coesos já feitos pelo grupo, ao mesmo tempo que um dos menos colaborativos entre os integrantes, possivelmente devido aos conflitos internos pelos quais a banda passava na época. Kim Deal, que no ano anterior havia lançado Pod (elogiado álbum de estreia do Breeders, sua outra banda) teve uma participação bem reduzida no disco não assinando nenhuma das composições gravadas, Black Francis cada vez mais tinha o controle total sobre o grupo o que gerou crises internas que resultariam mais tarde na separação da banda. Musicalmente é um álbum menos experimental com canções que seguem estruturas mais convencionais e que mantém as tradicionais dinâmicas pesado-leve-pesado características do som do Pixies. Há canções contagiantes como as boas Alex Eifel e Lovely Day, além do desabafo balada/rock de Letters to Memphis. O cover acelerado de Head on  do Jesus anda Mary Chain foi um dos quatro singles do trabalho. Há composições mais antigas como U-mess supostamente ainda da fase inicial da banda.

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#03. Bossanova
(1990, 4AD)

O pop e a própria essência do Pixies haviam sido reconstruídos durante o lançamento de Doolittle (1989), segundo registro em estúdio do quarteto de Boston, Massachusett. Conscientes de todas as dimensões da banda e talvez cientes do fim precoce do grupo – fruto dos desentendimentos constantes entre Black Francis e Kim Deal -, dos sete anos em que a banda esteve em atividade, boa parte foi dividida entre os palcos e os estúdios, o que acelerava as intrigas entre os próprios integrantes e consequentemente o peso crescente entre as obras. Gravado no meio da turnê do segundo disco, Bossanova traz em cada uma as 14 composições que o recheiam um exercício intenso, como se a banda estivesse a ponto de explodir a qualquer instante. Enquanto os vocais de Black crescem paralelos às guitarras, os demais instrumentos (e vozes de Deal) se estapeiam, resultando em uma imensa catástrofe controlada. Embora desprovido da mesma acessibilidade do trabalho anterior, o disco traz em Dig for Fire, The Happening e Velouria alguns dos melhores exemplares do Pixies.

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#02. Surfer Rosa
(1988, 4AD)

Lançado em março de 1988, o disco de estreia dos Pixies chamou a atenção pela criatividade e ecletismo que exibia ao longo de suas 13 faixas. O álbum é uma evolução complementar e mais bem resolvida do mini-LP Come on Pilgrim, lançado no ano anterior e que trazia material feito nas sessões da Purple tape, primeira demo da banda. Dessa forma, assim como o registro, Surfer Rosa mostra traços do som inicial do grupo, com experimentações sonoras, letras em espanhol e  referências tomadas pela cultura latina. O álbum foi tido como uma salvação para alguns fãs de rock da época que eventualmente se sentiam deslocados em meio ao sucesso estrondoso do hard rock e de grupos new wave cheios de excessos que dominavam as paradas musicais do período. Com duração inferior a 33 minutos o disco passa por diversas sonoridades como o folk, surf (Tony’s theme) experimentalismos  (Broken Face, River Euphrates) e até estruturas pop com certo apelo radiofônico (vide as clássicas Gigantic e Where is my mind?). As enxurradas de guitarra de Joey Santiago combinadas à produção nada polida de Steve Albini, com som de bateria característico dão todo um clima ao álbum. O disco contou com situações incomuns de gravação como Kim Deal cantando em diversos cômodos do estúdio para atingir um eco natural, além de vocais distorcidos de Black Francis gravados de um amp de guitarra em Something Against You. Surfer Rosa é tido hoje como verdadeiro clássico para o estilo. Várias figuras conhecidas do rock como PJ Harvey e Kurt Cobain, já citaram o disco como importante influência em várias ocasiões.

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#01. Doolittle
(1989,4AD)

Caótico e inevitavelmente pegajoso. Poucos trabalhos são capazes de mediar a agressão incomum entre as guitarras e ainda assim produzir um som de natureza pop e comercial quanto Doolittle. Ápice criativo das invenções esquizofrênicas da banda, o segundo registro em estúdio do Pixies é a plena compreensão de todos os limites (ou quebra deles) propostos durante o lançamento de Surfer Rosa. Da abertura crescente de Debaser – com um dos melhores inícios de discos já feitos -, passando pelos gemidos de Tame, o rock clássico em Here Comes Your Man ou a suavidade densa de Monkey Gone to Heaven e Hey, tudo se converte em uma massa de plena instabilidade e versos acessíveis. Um verdadeiro catálogo de clássicos e faixas memoráveis que se adornam de temáticas impulsionadas pela morte, doses singulares de nonsense, surrealismo e uma incorporação lírica que mais parece um passeio pela mente de seus integrantes – principalmente o instável Black Francis. Agridoce por natureza, o disco media os berros do vocalista com o backing vocal essencialmente delicado de Kim Deal, resultando em um composto que se instala com perfeição em todo o cenário do disco. Frenético, Joey Santiago usa das guitarras como um complemento às batidas secas de David Lovering, resultando em um som que mesmo tocado de forma expressiva pela simplicidade dos arranjos, explode em nuances que preenchem todos os espaços dos ouvidos, isso sem contar nas bem executadas linhas de baixo de Kim Deal.

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